domingo, 18 de junho de 2017

Códigos e Linguagens - 51 gêneros textuais (por Estéfani Martins) (atualização 4)

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As tipologias textuais ou protótipos textuais são mecanismos (ferramentas ou instrumentos) de construção textual e discursiva, os quais são produtos de capacidades e necessidades humanas usadas na interação com o meio, com o próprio íntimo e com o outro. Além disso, são formas de apreender, interferir e apresentar a realidade. Assim, mesmo timidamente, elas podem ser vistas desde tempos primordiais nas simples ações cotidianas de contar uma história; instruir ou ordenar; dialogar; expor um determinado conhecimento; descrever um desejo ou uma nova experiência sensorial; ou ainda defender um posicionamento ou uma visão de mundo; etc.
Quanto a questões técnicas, são sequências linguísticas, lógicas e estruturais com especificidades associadas às estruturas morfológicas mais comuns usadas no texto; a determinadas escolhas sintáticas; ao maior ou menor grau de subjetividade e conotação na linguagem empregada; a como são utilizados os verbos quanto ao modo, tempo e aspecto; ao uso das pessoas do discurso; etc.
Para essas formas elementares de expressão, foram dados os nomes de narração, injunção ou instrução, diálogo, exposição, descrição e argumentação, as quais, de certa forma, tentam exprimir a experiência humana com o texto (discurso). Tais tipos textuais organizam-se também em função da finalidade e das intenções pretendidas pelos seus usuários.
Pode-se também dizer sobre os tipos de texto que, separados ou puros, é muito difícil encontrá-los, pois é mais comum estarem misturados na maioria dos gêneros textuais com os quais é possível tomar contato em nosso cotidiano. Quanto a essa questão, é importante ressaltar que não há pureza na maioria dos textos produzidos pelo homem quanto à tipologia textual, mas, sim, predominância de uma em relação à outra.
Nesse sentido, alguns estudiosos definem essas relações de dominância como uma forma de nomear e hierarquizar a interação entre as tipologias textuais a partir de características substantivas (predominantes) e adjetivas (traços, recursos e ferramentas). Essas inúmeras possibilidades de interação entre as diferentes tipologias podem classificar um texto entre os mais variados gêneros textuais, são exemplos: a fábula, o conto, a dissertação, a carta, o manifesto, a crônica, a notícia, o artigo, o editorial, o sermão, etc.

Teoricamente, gêneros textuais são meios de se comunicar impostos pelas necessidades de interação social, econômica, estética e política do homem;  e produtos de inter-relações perceptíveis e estáveis entre as tipologias textuais. São criados a partir de processos históricos, sociais e coletivos, ainda que possam ser marcados por características e preferências individuais daqueles que os utilizam para se comunicar. São ferramentas de comunicação, portanto, moldáveis pelas escolhas individuais, mas também pelo processo histórico e de transformações culturais pelo qual toda sociedade, especialmente as mais industrializadas e modernas, passam com mais velocidade e intensidade.
Os gêneros textuais abarcam desde a simples correspondência informal enviada a um amigo até o ensaio escrito por um crítico de arte. Enfim, a diversidade de gêneros textuais que permeiam e definem as formas de comunicação humana, particularmente a escrita, multiplicaram-se nos últimos anos com o advento da internet e com as múltiplas fronteiras ultrapassadas ou ignoradas por produtores de textos e artistas menos preocupados com a pureza e a fôrma de um gênero textual e mais com a mensagem a ser comunicada, ou seja, na atualidade, tais modalidades textuais passaram mais frequentemente a ser eventos de fronteira e mais submetidos às necessidades de uma ideia ou conceito do que a uma exigência formal sobre como se comunicar, são exemplos a crônica, o micro conto, o hipertexto, etc.


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1 - Hipertexto - a linguagem é a base das tecnologias de comunicação e informação. Dividida a princípio em linguagens verbais e não verbais, pode-se dizer que, até o advento da internet, geralmente elas apresentaram-se separadas ou timidamente associadas como é o caso da língua e da imagem vistas nos livros há milênios, nos jornais há séculos e no cinema e na televisão há décadas, ou a música e a palavra, vistas juntas em aparatos tecnológicos desde a origem do fonógrafo e do rádio. Entretanto, tais meios de comunicação pouco ou nada acrescentaram às formas clássicas de interação, de produção e de recepção da linguagem. Nesse sentido, a contribuição da internet foi decisiva para justificar a produção textual mista, multimidiática, muitas vezes coletiva, intertextual e interativa propiciada por esse meio de comunicação que ajudou a forjar uma nova era não só para a história da comunicação, mas para a relação do homem com o conhecimento, com a privacidade, com a sociedade e com o outro. O símbolo dessa nova era e do impacto da internet na relação do homem com a produção e a recepção da informação é o hipertexto.
Esse gênero textual contemporâneo é o principal meio de comunicação nascido e dependente do formato digital, o que permite a associação dentro dele de informações, por meio de “links” a partir de palavras-chave, títulos de outros textos, imagens, sons, ícones, vídeos, etc., dispostas de forma não linear, que remetem a informações que podem ou não ser acessadas de acordo com as necessidades do internauta quanto ao desconhecimento a respeito de uma palavra ou mesmo pelo interesse em se aprofundar quanto à pesquisa de termos encontrados ao longo da leitura do hipertexto. A função dos “hyperlinks”, portanto, é tornar mais dinâmico, individual e intertextual o processo de contato com uma determinada informação e com as que podem complementá-la ou mesmo explicá-la.
As principais características desse tipo de texto, mais comumente encontradas em ambientes virtuais, especialmente na internet, são a intertextualidade promovida e facilitada com uma infinidade de outros textos e outras referências graças aos “links” e à facilidade de manipulação e colagem de conteúdo propiciadas por diversas plataformas digitais; a velocidade com que se pode lê-lo ou mesmo modificá-lo; o dinamismo relativo às muitas formas de lê-lo e produzi-lo; a razoável facilidade de produzi-lo; a interatividade responsável por quebrar um paradigma de que o processo de leitura é passivo por parte do leitor em relação às informações contidas em um texto; os muitos caminhos para decodificá-lo em níveis diferentes de profundidade; a forma dedutiva como geralmente a arquitetura da informação nele é disposta; a relação intensa com recursos multimidiáticos; a forma em rede como a informação é disposta nas relações infinitas que os hipertextos têm entre si e até no interior deles próprios; e a transitoriedade e a efemeridade do discurso interior a eles.
O importante pensador Roland Barthes anteviu essa revolução quando em 1980 escreveu sobre o hipertexto: “as redes são múltiplas e jogam entre si sem que nenhuma delas possa encobrir as outras; esse texto é uma galáxia de significantes e não uma estrutura de significados; não há um começo: ele é reversível; acedemos ao texto por várias entradas sem que nenhuma delas seja considerada principal; os códigos que ele mobiliza perfilam-se a perder de vista, são indecidíveis (…); os sistemas de sentido podem apoderar-se desse texto inteiramente plural, mas o seu número nunca é fechado, tendo por medida o infinito da linguagem.”.

2 - “Chats” e “webchats” – conversações em tempo real dedicadas a assuntos específicos definidos por um determinado tema, como o atendimento de clientes. Eles têm como principais características o fato de permitirem conversações simultâneas entre duas ou mais pessoas; de garantirem grande interação entre os interlocutores; de serem ambientes onde são discutidos os mais variados temas com critérios claros de conduta ditados pelo serviço ou pelo moderador; e de depender de uma forma de escrita coletiva, que é uma variação da língua padrão, quase sempre com vários recursos e tendências que a aproximam da língua falada.

3 - Mensageiros ou comunicadores instantâneos - processo de comunicação estabelecido geralmente em duplas, a partir de uma lista prévia de contatos. Além disso, seus usuários fazem severas e profundas adaptações no uso da língua, para aproximar suas “conversas” da oralidade, com todas as suas possibilidades, inclusive de expressar emoções com os “emoticons” e o dinamismo e a rapidez de diálogos orais com as abreviações e sinais gráficos, tais como “D+”, “bjos”, “mt”, “aki”, “qnd”, “tbm”, “tc”, etc.

4 - Resumo - gênero textual que tem como objetivo sintetizar o conteúdo de um determinado texto, com o intuito de comunicar suas ideias mais importantes, sem análise crítica, sem acréscimo de informações ou de qualquer análise personalista. É necessário que seja empregado, na construção do resumo, um discurso derivado da norma padrão, além de, preferencialmente, seguir-se a mesma ordem das informações do texto original, daí a necessidade de que a leitura seja uma competência muito desenvolvida por quem resume as ideias alheias. Um resumo deve ter, portanto, brevidade, clareza e fidelidade temática ao texto original. Precisa, ainda, ser escrito com discurso próprio, ou seja, não devem ser copiados trechos do texto original, pois os que forem pertinentes devem ser reproduzidos com as palavras de quem elabora o resumo.
Uma das formas de se iniciar um resumo é com construções que informem o título, o autor, a data e o veículo da publicação, o tema do texto original, etc. Dessa forma, o leitor será melhor e mais eficientemente esclarecido sobre as informações fundamentais do texto resumido, além de, assim, ser possível uma visão geral e prévia acerca do texto original.
Para se fazer um resumo, há algumas etapas que muito facilitam na confecção dele, a saber: identificar todas as informações fundamentais para a confecção de um resumo como o autor, a data e o local de publicação, o título, a tema principal, etc.; ler o texto original sob a perspectiva de selecionar todas as ideias mais importantes dele; reconhecer o gênero textual do texto original; identificar o modo como as informações contidas no texto a ser resumido foram organizadas; destacar os principais recursos expressivos e linguísticos do texto original para que melhor se possa entendê-lo, ainda que exemplos, analogias, ilustrações, etc. não sejam informações prioritárias na confecção de um resumo; e fazer um esquema do resultado dessa investigação a respeito do texto original.

Características principais do resumo em vestibulares:


  1. Reproduz a estrutura do texto fonte, por isso é organizado normalmente em parágrafos;
  2. Há necessidade de um título para esse gênero;
  3. Citar o nome do texto fonte e autor na introdução é imprescindível;
  4. A norma padrão da Língua Portuguesa deve ser empregada com rigor, mesmo que o texto original esteja em uma linguagem informal;
  5. Não devem ser resumidos exemplos, ilustrações, citações, etc., que estejam no texto original.
Texto 01. (original)
Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade só tem o direito de ver, ouvir e calar. Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar? Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar o olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível: o ar estará livre do veneno que não vier dos medos humanos e das humanas paixões; nas ruas, os automóveis serão esmagados pelos cães; as pessoas não serão dirigidas pelos automóveis, nem programadas pelo computador, nem compradas pelo supermercado e nem olhadas pelo televisor.
(Eduardo Galeano. Fórum Social Mundial 2001.)

Texto 02. (resumo)
O autor Eduardo Galeano aponta a contradição entre a existência de extensas listas de direitos humanos e o fato de a maioria da humanidade não ter nenhum, Diante disso, convida o leitor a sonhar com um mundo possível e elenca algumas das características desse mundo.

Texto 03. (original)
Cultura da paz

A cultura dominante, hoje mundializada, se estrutura ao redor da vontade de poder que se traduz por vontade de dominação da natureza, do outro, dos povos e dos mercados. Essa é a lógica dos dinossauros que criou a cultura do medo e da guerra. Praticamente em todos os países as festas nacionais e seus heróis são ligados a feitos de guerra e de violência. Os meios de comunicação levam ao paroxismo a magnificação de todo tipo de violência, bem simbolizado nos filmes de Schwazenegger como o “Exterminador do Futuro”. Nessa cultura o militar, o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. Nos processos de socialização formal e informal, ela não cria mediações para uma cultura da paz. E sempre de novo faz suscitar a pergunta que, de forma dramática, Einstein colocou a Freud nos idos de 1932: é possível superar ou controlar a violência? Freud, realisticamente, responde: “É impossível aos homens controlar totalmente o instinto de morte… Esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderíamos morrer de fome antes de receber a farinha”.

Sem detalhar a questão, diríamos que por detrás da violência funcionam poderosas estruturas. A primeira delas é o caos sempre presente no processo cosmogênico. Viemos de uma imensa explosão, o big bang. E a evolução comporta violência em todas as suas fases. São conhecidas cerca de 5 grandes dizimações em massa, ocorridas há milhões de anos atrás. Na última, há cerca de 65 milhões de anos, pereceram todos os dinossauros após reinarem, soberanos, 133 milhões de anos. A expansão do universo possui também o significado de ordenar o caos através de ordens cada vez mais complexas e, por isso também, mais harmônicas e menos violentas. Possivelmente a própria inteligência nos foi dada para pormos limites à violência e conferir-lhe um sentido construtivo.
Em segundo lugar, somos herdeiros da cultura patriarcal que instaurou a dominação do homem sobre a mulher e criou as instituições do patriarcado assentadas sobre mecanismos de violência como o Estado, as classes, o projeto da tecno-ciência, os processos de produção como objetivação da natureza e sua sistemática depredação.
Em terceiro lugar, essa cultura patriarcal gestou a guerra como forma de resolução dos conflitos. Sobre esta vasta base se formou a cultura do capital, hoje globalizada; sua lógica é a competição e não a cooperação, por isso, gera guerras econômicas e políticas e com isso desigualdades, injustiças e violências. Todas estas forças se articulam estruturalmente para consolidar a cultura da violência que nos desumaniza a todos.
A essa cultura da violência há que se opor a cultura da paz. Hoje ela é imperativa.
É imperativa, porque as forças de destruição estão ameaçando, por todas as partes, o pacto social mínimo sem o qual regredimos a níveis de barbárie. É imperativa porque o potencial destrutivo já montado pode ameaçar toda a biosfera e impossibilitar a continuidade do projeto humano. Ou limitamos a violência e fazemos prevalecer o projeto da paz ou conheceremos, no limite, o destino dos dinossauros.
Onde buscar as inspirações para a cultura da paz? Mais que imperativos voluntarísticos, é o próprio processo antroprogênico a nos fornecer indicações objetivas e seguras. A singularidade do 1% de carga genética que nos separa dos primatas superiores reside no fato de que nós, à distinção deles, somos seres sociais e cooperativos. Ao lado de estruturas de agressividade, temos capacidades de afetividade, com-paixão, solidariedade e amorização. Hoje é urgente que desentranhemos tais forças para conferir rumo mais benfazejo à história. Toda protelação é insensata.
O ser humano é o único ser que pode intervir nos processos da natureza e co-pilotar a marcha da evolução. Ele foi criado criador. Dispõe de recursos de re-engenharia da violência mediante processos civilizatórios de contenção e uso de racionalidade. A competitividade continua a valer mas no sentido do melhor e não de destruição do outro. Assim todos ganham e não apenas um.
Há muito que filósofos da estatura de Martin Heidegger, resgatando uma antiga tradição que remonta aos tempos de César Augusto, vêem no cuidado a essência do ser humano. Sem cuidado ele não vive nem sobrevive. Tudo precisa de cuidado para continuar a existir. Cuidado representa uma relação amorosa para com a realidade. Onde vige cuidado de uns para com os outros desaparece o medo, origem secreta de toda violência, como analisou Freud. A cultura da paz começa quando se cultiva a memória e o exemplo de figuras que representam o cuidado e a vivência da dimensão de generosidade que nos habita, como Gandhi, Dom Hélder Câmara e Luther King e outros. Importa fazermos as revoluções moleculares (Gatarri), começando por nós mesmos. Cada um estabelece como projeto pessoal e coletivo a paz enquanto método e enquanto meta, paz que resulta dos valores da cooperação, do cuidado, da com-paixão e da amorosidade, vividos cotidianamente. (Leonardo Boff)

Texto 04. (resumo)
Leonardo Boff inicia o artigo “Cultura da paz”, disponível no “site” do autor, apontando o fato de que se vive em uma cultura que se caracteriza fundamentalmente pela violência. Diante disso, o autor levanta a questão da possibilidade de essa violência poder ser superada ou não. Inicialmente, ele apresenta argumentos que sustentam a tese de que isso seria impossível, pois as próprias características psicológicas humanas e um conjunto de forças naturais e sociais reforçariam essa cultura da violência, tornando difícil sua superação. Mas, mesmo reconhecendo o poder dessas forças, Boff considera que, na contemporaneidade, é indispensável estabelecer uma cultura da paz contra a da violência, pois esta estaria levando à extinção da vida humana no planeta. Segundo o autor, seria possível construir essa cultura, pelo fato de que os seres humanos são providos de componentes genéticos que lhes permitem serem sociais, cooperativos, criadores e dotados de recursos para limitar a violência e de que a essência do ser humano seria o cuidado, definido pelo autor como uma relação amorosa com a realidade, que poderia levar à superação da violência. A partir dessas constatações, o teólogo conclui, incitando o leitor a despertar as potencialidades humanas para a paz, construindo a cultura da paz a partir de si mesmo, tomando-a como projeto pessoal e coletivo.
(“Resumo”. Coleção Leitura e Produção de Textos Técnicos e Acadêmicos. São Paulo: Parábola Editorial, 2004. (com modificações)

5 – Resenha – espécie de apresentação de um texto original, que, além de conter um breve resumo das ideias principais dele, deve conter o maior número de informações sobre a autoria, o contexto em que foi feito, as intertextualidades que sugere, etc. Enfim, é uma análise crítica de um romance, de uma peça, de um álbum, de um trabalho científico, etc. Nesses casos, é chamada de resenha crítica. Quando não há interesse explícito de fazer juízos de valor a respeito da obra resenhada com o intuito, em geral, de recomendá-la, pode ser chamada de resenha descritiva ou técnica. Exemplos:

Texto 01.

Texto 02.

6 – Fichamento – registro das informações contidas em uma obra original, geralmente um texto ou livro. O objetivo principal desse gênero textual é facilitar o estudo posterior de uma obra e favorecer a assimilação daquilo que se estudou. Exemplos:

Texto 01.
Modelo de fichamento de citações
Conforme a ABNT (2002a), a transcrição textual é chamada de citação direta, ou seja, é a reprodução fiel das frases que se pretende usar como citação na redação do trabalho.

Educação da mulher: a perpetuação da injustiça (pp. 30 – 132). Segundo capítulo.
TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve história do feminismo no Brasil. São Paulo: brasiliense, 1993.
“uma das primeiras feministas do Brasil, Nísia Floresta Augusta, defendeu a abolição da escravatura, ao lado de propostas como educação e a emancipação da mulher e a instauração da República” (p.30)

“na justiça brasileira, é comum os assassinos de mulheres serem absolvidos sob a defesa de honra” (p. 132)

“a mulher buscou com todas forças sua conquista no mundo totalmente masculino” (p.43)

Texto 02.
Modelo de fichamento de resumo ou conteúdo
É uma síntese das principais idéias contidas na obra. O aluno elabora com suas próprias palavras a interpretação do que foi dito.


Educação da mulher: a perpetuação da injustiça (pp. 30 – 132) segunda capítulo.
TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve história do feminismo no Brasil. São Paulo: brasiliense, 1993.
O trabalho da autora baseia-se em análise de textos e na própria vivência nos movimentos feministas, como relato de uma prática.
A autora divide seu texto em fases históricas compreendidas entre Brasil Colônia (1500 – 1822), até os anos de 1975 em que foi considerado o Ano Internacional da Mulher.
A autora trabalha ainda assuntos como mulheres da periferia de São Paulo, a luta por creches, violência, participação em greves, saúde e sexualidade.

Texto 03.
Modelo de fichamento bibliográfico
É a descrição, com comentários dos tópicos abordados em uma obra inteira ou parte dela.

TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve história do feminismo no Brasil. São Paulo: brasiliense, 1993.
A obra insere-se no campo da história e da antropologia social. A autora utiliza-se de fontes secundárias colhidas por meio de livros, revistas e depoimentos. A abordagem é descritiva e analítica. Aborda os aspectos históricos da condição feminina no Brasil a partir do ano de 1500. A autora descreve em linhas gerais todo s processo de lutas e conquistas da mulher.

7 - Oração - texto que contém uma súplica dirigida a algum tipo de divindade. Também pode ser chamada de reza ou prece, ainda que para algumas religiões haja diferença entre essas denominações, nos vestibulares elas em geral são vistas como sinônimos. Exemplo:

Texto 01.
Oração de São Patrício
(...)
Pela hóstia de Deus que me salva das armadilhas do demônio,
Pela hóstia de Deus que me salva das tentações do vício,
Pela hóstia de Deus que me salva de todos que me desejam mal,
Longe ou perto de mim, agindo só ou em grupo,
Conclamo hoje as forças de Deus a me protegerem contra o mal,
Conclamo hoje as forças de Deus a me protegerem
Contra qualquer força cruel que ameace meu corpo e minha alma,
Conclamo hoje as forças de Deus a me protegerem
Contra a encantação de falsos profetas,
Conclamo hoje as forças de Deus a me protegerem
Contra as leis negras do paganismo,
Conclamo hoje as forças de Deus a me protegerem
Contra as leis falsas dos hereges,
Conclamo hoje as forças de Deus a me protegerem
Contra a arte da idolatria,
Conclamo hoje as forças de Deus a me protegerem
Contra feitiços de bruxas e magos,
Conclamo hoje as forças de Deus a me protegerem
Contra saberes que corrompem o corpo e a alma,
Cristo guarde-me hoje contra veneno e fogo,
Contra afogamento, contra ferimento,
Para que eu possa receber e desfrutar a recompensa.
Cristo comigo, Cristo à minha frente,
Cristo atrás de mim, Cristo em mim,
Cristo embaixo de mim, Cristo acima de mim,
Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda,
Cristo ao me deitar, Cristo ao me sentar, Cristo ao me levantar,
Cristo no coração de todos os que pensarem em mim,
Cristo na boca de todos os que falarem em mim,
Cristo em todos os olhos que me virem,
Cristo em todos os ouvidos que me ouvirem,
Levanto-me neste dia que amanhece, por uma grande força,
Pela invocação na Trindade, pela fé na Tríade,
Pela firmação da Unidade, pelo Criador da Criação.

8 - Sermão - discurso religioso opinativo com intuito de impor uma determinada conduta ou moral por meio da contundência das ideias e da eloquência daquele que o profere. Exemplo:

Texto 01.
“Dir-me-eis o que a mim me dizem, e o que já tenho experimentado, que, se pregamos assim, zombam de nós os ouvintes, e não gostam de ouvir. Oh, boa razão para um servo de Jesus Cristo! Zombem e não gostem embora, e façamos nós nosso ofício! A doutrina de que eles zombam, a doutrina que eles desestimam, essa é a que lhes devemos pregar, e por isso mesmo, porque é mais proveitosa e a que mais hão mister. O trigo que caiu no caminho comeram-no as aves. Estas aves, como explicou o mesmo Cristo, são os demónios, que tiram a palavra de Deus dos corações dos homens: Venit Diabolus, et tollit verbum de corde ipsorum! Pois por que não comeu o Diabo o trigo que caiu entre os espinhos, ou o trigo que caiu nas pedras, senão o trigo que caiu no caminho? Porque o trigo que caiu no caminho: Conculcatum est ab hominibus: Pisaram-no os homens; e a doutrina que os homens pisam, a doutrina que os homens desprezam, essa é a de que o Diabo se teme. Dessoutros conceitos, dessoutros pensamentos, dessoutras sutilezas que os homens estimam e prezam, dessas não se teme nem se acautela o Diabo, porque sabe que não são essas as pregações que lhe hão-de tirar as almas das unhas. Mas daquela doutrina que cai: Secus viam: daquela doutrina que parece comum: Secus viam; daquela doutrina que parece trivial: Secus viam; daquela doutrina que parece trilhada: Secus viam; daquela doutrina que nos põe em caminho e em via da nossa salvação (que é a que os homens pisam e a que os homens desprezam), essa é a de que o Demónio se receia e se acautela, essa é a que procura comer e tirar do Mundo; e por isso mesmo essa é a que deviam pregar os pregadores, e a que deviam buscar os ouvintes. Mas se eles não o fizerem assim e zombarem de nós, zombemos nós tanto de suas zombarias como dos seus aplausos. Per infamiam et bonam famam, diz S. Paulo: O pregador há-de saber pregar com fama e sem fama. Mais diz o Apóstolo: Há-de pregar com fama e com infâmia. Pregar o pregador para ser afamado, isso é mundo: mas infamado, e pregar o que convém, ainda que seja com descrédito de sua fama?, isso é ser pregador de Jesus Cristo. Pois o gostarem ou não gostarem os ouvintes! Oh, que advertência tão digna! Que médico há que repare no gosto do enfermo, quando trata de lhe dar saúde? Sarem e não gostem; salvem-se e amargue-lhes, que para isso somos médicos das almas. Quais vos parece que são as pedras sobre que caiu parte do trigo do Evangelho? Explicando Cristo a parábola, diz que as pedras são aqueles que ouvem a pregação com gosto: Hi sunt, qui cum gaudio suscipiunt verbum.
Pois será bem que os ouvintes gostem e que no cabo fiquem pedras?! Não gostem e abrandem-se; não gostem e quebrem-se; não gostem e frutifiquem. Este é o modo com que frutificou o trigo que caiu na boa terra: Et fructum afferunt in patientia, conclui Cristo. De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar, senão com o padecer; frutifiquemos nós, e tenham eles paciência. A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme; quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte; quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atónito, sem saber parte de si, então é a preparação qual convém, então se pode esperar que faça fruto: Et fructum afferunt in patientia.
Enfim, para que os pregadores saibam como hão-de pregar e os ouvintes a quem hão-de ouvir, acabo com um exemplo do nosso Reino, e quase dos nossos tempos. Pregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus escritos; não os nomeio, porque os hei-de desigualar. Altercou-se entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador; e como não há juízo sem inclinação, uns diziam este, outros, aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: «Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio muito descontente de mim.” (Trecho do Sermão do Sexagésima - 1655 - de Padre António Vieira)

9 - Receita - texto que pode ser visto como uma indicação sobre como se prepara uma iguaria qualquer. É um texto injuntivo composto de duas partes distintas: a descrição dos ingredientes a serem usados seguida do modo de preparo. Esse gênero textual é repleto de verbos no imperativo e de ordens dispostas de forma cronológica sobre como confeccionar determinado prato, objeto, etc. Exemplo:

Texto 01.
Batatas assadas com cebola-pérola e alecrim
Rendimento: 4 porções
Menu: prato principal

Ingredientes:

600 g de batata-bolinha ou batatas pequenas cortadas ao meio
12 cebolas-pérola
1/ 4 de xícara de azeite
1/ 2 xícara de vinho branco seco
2 galhos de alecrim fresco ou a gosto
Sal grosso e pimenta-do-reino preta moída na hora a gosto

Modo de fazer:

1 Em uma panela com água fervente com sal cozinhe as batatas por 5 minutos. Escorra e corte-as ao meio. Unte um refratário com um pouco do azeite e distribua as batatas e a cebola. Regue com vinho e o azeite restante, tempere e coloque os ramos de alecrim entre os vegetais.
2 Leve ao forno quente (200ºC), preaquecido, por 30 a 40 minutos até os vegetais ficarem dourados e al dente. Mexa com uma espátula de vez em quando, tomando cuidado para não desmanchar as batatas.
3 Sirva quente ou em temperatura ambiente. Acompanha bem lombo, carnes (lagarto, maminha) ou frango assado.

10 - Convite - gênero textual em que se faz a solicitação da presença ou da participação de alguém em um tipo de evento que pode ser uma festa de aniversário de uma criança ou mesmo uma recepção em espaço formal, ou seja, é uma espécie de convocação. Exemplo:

Texto 01.

Texto 02.

11 - Anúncio - tipo de texto verbal e não verbal marcado geralmente pela concisão com que se divulga ou se vende algo ao público. De forma mais corriqueira, é entendido como propaganda criada com objetivos comerciais, institucionais, políticos, culturais, religiosos, ideológicos, etc. Centrado na função conativa da linguagem, é comum que tenha referências ao interlocutor (espectador ou leitor), para transmitir a ele mensagem elaborada com o intuito de convencê-lo sobre as qualidades e eventuais benefícios de uma determinada marca, pessoa ou procedimento. Exemplos:

Texto 01.

Texto 02.
cbn-3-anos_03_1000                                                                                                                                                                                 Mais:

12 - Manifesto - gênero textual em que predomina a tipologia textual argumentativa que consiste em uma declaração pública de princípios, valores e intenções a fim de propor uma mudança, fazer uma análise crítica de um evento ou processo, expor um problema ou convocar um dado grupo a se unir para realizar determinado feito, etc. Conceitualmente, os manifestos em geral tendem a ter um tom crítico em relação à sociedade ou a setores dela em uma espécie de declaração de intenções, em que argumentos são arrolados como justificativa para as ideias propostas. Do ponto de vista linguístico, trata-se de um texto de estrutura relativamente flexível, ainda que tenda a se assemelhar a uma dissertação ou a um texto opinativo, além disso há presença de vocativos; de referenciais como data, local e informação sobre autores do manifesto e sobre aqueles que se filiaram a ele; de título; de verbos no presente do indicativo ou no modo imperativo; de uma linguagem intimamente associada ao público alvo desse gênero textual; etc. Enfim, é um discurso político em que se discute e questiona determinada visão sobre aspectos sociais e econômicos ou mesmo estéticos e artísticos. São exemplos os manifestos futurista, comunista, surrealista, antropófago, da poesia Pau Brasil, etc. Exemplos:

Texto 01.
Manifesto do Futurismo

1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.
2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.
3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.
4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.
5. Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.
6. É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificiência, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.
7. Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostar-se diante do homem.
8. Nós estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.
9. Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas idéias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.
10. Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academia de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.
11. Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta.
É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o "Futurismo", porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários.
Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores. Nós queremos libertá-la dos inúmeros museus que a cobrem toda de inúmeros cemitérios.
Museus: cemitérios!... Idênticos, na verdade, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos em que se descansa para sempre junto a seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos matadouros de pintores e escultores, que se vão trucidando ferozmente a golpes de cores e linhas, ao longo das paredes disputadas!
Que se vá lá em peregrinação, uma vez por ano, como se vai ao Cemitério no dia de finados... Passe. Que uma vez por ano se deponha uma homenagem de flores diante da Gioconda, concedo...
Mas não admito que se levem passear, diariamente pelos museus, nossas tristezas, nossa frágil coragem, nossa inquietude doentia, mórbida. Para que se envenenar? Para que apodrecer?
E o que mais se pode ver, num velho quadro, senão a fatigante contorção do artista que se esforçou para infrigir as insuperáveis barreiras opostas ao desejo de exprimir inteiramente seu sonho?... Admirar um quadro antigo equivale a despejar nossa sensibilidade numa urna funerária, no lugar de projetá-la longe, em violentos jatos de criação e de ação.
Vocês querem, pois, desperdiçar todas as suas melhores forças nesta eterna e inútil admiração do passado, da qual vocês só podem sair fatalmente exaustos, diminuídos e pisados?
Em verdade eu lhes declaro que a frequência diária aos museus, às bibliotecas e às academias (cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registro de arremessos truncados!...) é para os artistas tão prejudicial, quanto a tutela prolongada dos pais para certos jovens ébrios de engenho e de vontade ambiciosa. Para os moribundos, para os enfermos, para os prisioneiros, vá lá:- o admirável passado é, quiçá, um bálsamo para seus males, visto que para eles o porvir está trancado... Mas nós não queremos nada com o passado, nós, jovens e fortes futuristas!
E venham, pois, os alegres incendiários de dedos carbonizados! Ei-los! Ei-los!... Vamos! Ateiem fogo às estantes das bibliotecas!... Desviem o curso dos canais, para inundar os museus!... Oh! a alegria de ver booiar à deriva, laceradas e desbotadas sobre aquelas águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas! (Filippo Tommaso Marinetti, publicado no jornal francês Le Figaro em 20 de fevereiro de 1909)

Texto 02.
Manifesto da poesia pau-brasil

A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.
O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.
Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil.
O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho.
A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária.
Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram.
A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, crítica, donas de casa tratando de cozinha.
A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem.
Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo: o teatro de base e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris.
Ágil o teatro, filho do saltimbanco. Ágil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia.
A poesia Pau-Brasil, ágil e cândida. Como uma criança.
Uma sugestão de Blaise Cendrars: - Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino.
Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das idéias.
A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.
Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros.
Uma única luta - a luta pelo caminho. Dividamos: poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação.
Houve um fenômeno de democratização estética nas cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo. Copiar. Quadro de carneiros que não fosse lã mesmo, não prestava. A interpretação no dicionário oral das Escolas de Belas Artes queria dizer reproduzir igualzinho...Veio a pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina fotográfica. E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da misteriosa genialidade de olho virado - o artista fotográfico.
Na música, o piano invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram pianistas. Surgiu o piano de manivela, o piano de patas. A pleyela. E a ironia eslava compôs para a pleyela. Straviski.
A estatuária andou atrás. As procissões saíram novinhas das fábricas.
Só não se inventou uma máquina de fazer versos - a havia o poeta parnasiano.
Ora, a revolução indicou apenas que a arte voltava para as elites. E as elites começaram desmanchando. Duas fases: 1a) a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne e Malarrmé, Rodin e Debussy até agora. 2a) o lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a inocência construtiva.
O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil.
Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos.
A síntese
O equilíbrio
O acabamento de carrosserie
A invenção
A surpresa
Uma nova perspectiva
Uma nova escala
Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil.
O trabalho contra o detalhe naturalista - pela síntese; contra a morbidez romântica - pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa.
Uma nova perspectiva.
A nova, a de Paolo Ucello criou o naturalismo de apogeu. Era uma ilusão de ótica. Os objetos distantes não diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o momento é de reação à aparência. Reação à cópia. Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua.
Uma nova escala:
A outra, a de um mundo proporcionado e catalogado com letras nos livros, crianças nos colos. O reclame produzindo letras maiores que torres. E as novas formas da indústria, da viação, da aviação. Postes. Gasômetros Rails.
Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e tics de fios e ondas e fulgurações. Estrelas familiarizadas com negativos fotográficos. O correspondente da surpresa física em arte.
A reação contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo monstruoso. O romance de idéias, uma mistura. O quadro histórico, uma aberração. A escultura eloqüente, um pavor sem sentido.
Nossa época anuncia a volta ao sentido puro.
Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz.
A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.
Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres.
Temos a base dupla e presente - a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria, a álgebra e a química logo depois da mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de "dorme nenê que o bicho vem pegá" e de equações.
Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas, nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional. Pau-Brasil.
Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil.
O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da literatura nacional.
Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época.
O estado de inocência substituindo o estado de graça que pode ser uma atitude do espírito.
O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica.
A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.
Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.
Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil.

Oswald de Andrade
(Correio da Manhã, 18 de março de 1924)

Texto 03.
Manifesto antropófago

Só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com os sustos da psicologia impressa.
O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.
Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande1.
Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil2.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.
Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.
Queremos a Revolução Caraíba3. Maior que a revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.
A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.
Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rosseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos.
 Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Contra o Padre Vieira4. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.
Só podemos atender ao mundo orecular.
Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.
Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.
Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.
O instinto Caraíba.
Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.
Contra as elites vegetais5. Em comunicação com o solo.
Nunca fomos catequizados. Fizemos foi o Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses6.
Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.
Catiti Catiti7
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipeju8
A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.
Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chama-se Galli Mathias. Comi-o.
Só não há determinismo onde há o mistério. Mas que temos nós com isso? Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra9. O mundo não datado. Não rubricado.
Sem Napoleão. Sem César.
A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.
Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.
Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu10: - É mentira muitas vezes repetida.
Mas não foram cruzados11 que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti12.
Se Deus é a consciência do universo Incriado, guaraci13 é a mãe dos viventes. Jaci13 é a mãe dos vegetais.
Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.
As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.
De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.
O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha14: Ignorância real das coisas + fala (sic.) de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.
É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.
O objetivo criado reage como os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga.
Que temos nós com isso?
Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.
Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria15, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.
A alegria é a prova dos nove16.
No matriarcado de Pindorama17.
Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.
Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.
Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI18.
A alegria é a prova dos nove.
A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura - ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista.
Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo - a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.
Contra Anchieta19 cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema20, - o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D. João VI: - Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça21! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte22.
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud - a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado23 de Pindorama.

Oswald de Andrade
Em Piratininga24
Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha25
(Revista de Antropofagia, Ano I, No. I, maio de 1928.)

1
Selva amazônica; na mitologia indígena da amazônia, "cobra grande" é o espírito das águas. Esta entidade foi motivo de um longo poema antropófago, Cobra Norato (1931), de Raul Bopp (1898/1984), que, ao lado de Macunaíma (1928), de Mário de Andrade (1893/1945), compõe exemplos da antropofagia oswaldiana.
2
Referência à extensão continental do país e à necessidade de resolver os problemas lingüísticos no Brasil, se pautava pela tradição lusitana, ignorando as especificidades do país. Retomada, sob outro ângulo, da grande polêmica por José de Alencar (1829 / 1877), na vigência do Romantismo brasileiro no século XIX.
3
Oswald idealiza a união dos indígenas através do vocábulo caraíba, que designa tanto uma das comunidades indígenas com as quais os primeiros portugueses tomaram contato à época do Descobrimento do país, que viviam mais ao norte, quanto uma grande família lingüística a que pertenciam várias tribos brasileiras mais ao sul.
4
Antônio Vieira (1608/1697), lisboeta de nascimento, fez seus estudos com os jesuítas na Bahia, ordenando-se aos 26 anos. Tinha idéias avançadas para sua época e devido a elas foi inúmeras vezes criticado. Oswald de Andrade refere-se, aqui, à investida políticoeconômica na exploração do açúcar maranhense, à época do período colonial, o que beneficiou apenas a metrópole portuguesa, deixando em franca miséria a então colônia.
5
Referência à elite intelectual que busca copiar os modelos europeus, em exclusão do sentimento de "brasilidade". Neste sentido, os vegetais são entendidos como seres vivos sem mobilidade, o que equivale a dizer sem a capacidade crítica que fomenta as mudanças.
6
Junção, numa única referência, da produção romanesca indianista de José Martiniano de Alencar (1829/1877), escritor romântico brasileiro de reconhecido valor, com a ópera O guarani, do músico também romântico Antônio Carlos Gomes (1836/1896), cujo libreto foi escrito a partir do romance homônimo de Alencar. Em ambos textos o herói indígena, Peri, tem atitudes cavalheirescas em consonância aos grandes senhores portugueses.
7 Catiti catiti/ Imara Notiá / Notiá Imara / Ipeju: pequeno "poema" em língua indígena, a qual, pelo apelo sonoro e lúdico, é aproximada da estética surrealista. Couto Magalhães traduziu por: Lua nova, ó Lua Nova! Assoprai em lembranças de mim; eis-me aqui, estou em vossa presença; fazei com que eu tão somente ocupe seu coração.
8
"Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim", in O Selvagem, de Couto Magalhães.
9
Referência ao ciclo das grandes descobertas ultramarinas portuguesas iniciadas em 1421, sob o comando do infante Dom Henrique, filho de Dom João I, que, para o Reino de Portugal, culminou com a Descoberta do Brasil em 1500; o acidente geográfico mencionado por Oswald é a conhecida Ponta de Sagres, ou seja, um cabo formado por rochas elevadas, lugar ermo e de beleza trágica de onde teriam partido as primeiras expedições oceânicas portuguesas, ou seja, a expansão do homem europeu; na realidade, estas expedições sob o comando do infante Dom Henrique partiram da Vila de Lagos, localizada a cerca de 30 km a leste da Ponta de Sagres, na região do Algarve.
10 José da Silva Lisboa, economista do início do século XIX que, tendo adotado a política liberal do Marquês de Pombal, posicionou-se contrário à permanência jesuíta no Brasil.
11
Moeda portuguesa feita de ouro ou prata.
12
Réptil da ordem dos quelônios e da família das tartarugas; habitante das matas brasileiras, nas religiões indígenas representa a perseverança e a força.
13
Guaraci e Jaci: entidades divinas indígenas que representam o sol e a lua, respectivamente. São os dois princípios que governam o mundo.
14 Oswald refere-se à repressão sexual das crianças, as quais eram doutrinadas no sentido da inexistência de vida sexual na procriação; à cegonha era atribuída a função de entregar os bebês aos seus pais.
15
Índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz: por alusão a personagens extraídos de obras indianistas, Oswald propõe o repúdio ao aculturamento dos índios pela civilização branca cristã e ocidental.
16
Elaboração matemática para comprovar o resultado de operações aritméticas elementares.
17
Em tupi, terra de palmeiras; designa, por extensão, o Brasil, cuja costa litorânea era coberta pela planta; a palmeira, desde o poema canção do exílio, do poeta romântico Gonçalves Dias (1823/1864), transformou-se em um dos ícones do país.
18
Rei de Portugal, que veio para o Brasil-colônia em 1808 com todo seu séquito, fugindo do avanço napoleônico na Europa. Oswald faz referência à usura desmedida dos cortesãos.
19
José de Anchieta (1534/1597), padre jesuíta que veio para o Brasil no início da colonização portuguesa e que, a pretexto de catequizar os índios, criou um sistema de desculturação pela arte teatral.
20
Anagrama de América, é também o nome da índia protagonista do romance homônimo de José de Alencar (1829/1877) que, junto com O guarani, se transformou em emblema de brasilidade durante a vigência do romantismo no país.
21
Oswald menciona, de forma irônica e jocosa, o ato da Independência do Brasil, ocorrida em 7 de setembro de 1822, protagonizada pelo primogênito do então rei de Portugal. O príncipe português governou até 1831 e ficou conhecido como Dom Pedro I, o primeiro Imperador do Brasil.
22
Camponesa portuguesa que liderou uma rebelião, em 1846, contra as opressões político-econômicas de D. Maria da Glória, então rainha de Portugal. Pleiteava, entre outras coisas, a colocação de produtos agrícolas portugueses no mercado interno que estava, na época, dominado por produtos ingleses.
23
Oswald fala no matriarcado numa referência à libertação do sujeito, em oposição ao patriarcado, este sim, governado por instituições de poder amplamente castradoras e cheias de interditos.
24
Em língua indígena, nome da região onde surgiu a futura cidade de São Paulo.
25
Oswald busca uma marcação temporal para a existência brasileira, que no Manifesto começa com o primeiro ato antropófago conhecido oficialmente; o Bispo Sardinha, isto é, Pero Fernandes (?/1556), naufragou no litoral do nordeste brasileiro e morreu como vítima sacrificial dos índios caetés. Oswald equivocou-se nas datas, acrescentando 2 anos ao tempo decorrido entre a morte do Bispo Sardinha e o ano de publicação do Manifesto Antropófago. Entretanto, Oswald parece desconhecer as cartas de Américo Vespúcio, em uma das quais o aventureiro florentino afirma ter assistido um ritual antropofágico em 1501, na Praia dos Marcos, no Rio Grande do Norte, em que a vítima era um europeu.

13 – Verbete - texto escrito para consulta baseado na função referencial da linguagem. Tem intuito claramente informativo e expositivo, por isso não se admite juízos de valor nesse gênero textual. Normalmente, trata-se da explicação de um conceito segundo padrões textuais sistemáticos e baseado em paradigmas conceituais baseados em princípios científicos estabelecidos e sobre os quais não hajam intensas polêmicas. Comumente encontrado em enciclopédias. Exemplos:

Texto 01.

Texto 02.

Texto 03.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Anarquismo


14 - Artigo de opinião ou texto de opinião - é um texto opinativo normalmente assinado e muito assemelhado estruturalmente à dissertação, ainda que permita algumas liberdades linguísticas impossíveis em um texto dissertativo científico. Por ser atribuído a uma pessoa, comunica um ponto de vista particular acerca de um assunto em primeira pessoa do singular.

Objetivo – comunicar a opinião particular de um articulista contratado por veículo de comunicação pela relevância dessa pessoa para um determinado grupo, instituição, etc.
Estrutura – dissertativa-argumentativa.
Argumentação – pode ser construída de diversas maneiras, desde abordagens mais científicas e fundadas em estatísticas e discursos de autoridade até formas mais personalistas em que experiências pessoais, viagens, vivência profissional, etc., possam ser usadas para defender uma tese a respeito de um assunto atual e normalmente de alta relevância midiática.
Pessoa do discurso – 1ª pessoa do singular é obrigatória para explicitar o aspecto personalista do discurso e da argumentação do texto. É importante que ela ocorra uma vez em cada parágrafo ao menos.
Linguagem – clara, objetiva e adequada às normas gramaticais por padrão, ainda que se aceite pontualmente o uso de expressões como gírias, coloquialidades e oralidades como forma de personalizar o discurso do articulista. Verbos predominantemente no presente do indicativo são esperados.
Máscara – desejável e qualificadora (Exemplo: “como médico”, "na condição de antropólogo", etc.).
Título - UFU (obrigatório).
Assinatura – exigida (UFU) e sem ponto final.

Observação importante: lembro que alguns exemplos abaixo são oriundos da produção dos alunos, ainda que tenham sido adaptados para que possam atender melhor aos parâmetros da banca de redação da UFU a partir de 2017. Os outros são de veículos tradicionais de informação que não necessariamente repseitam todas as regras exigidas em concursos.

Exemplos:

Texto 01.
Estado laico: uma necessidade

O Estado laico tem sido nos últimos anos uma discussão frequente em alguns setores sociais em função de decisões do Superior Tribunal Federal (STF) em favor do direito ao aborto de anencefálicos e da união civil entre homossexuais. Como antropólogo, entendo que ainda deve ser considerada a atuação nada laica de políticos de bancadas religiosas na Câmara Federal contra os interesses da maioria da população e muitos princípios constitucionais. Por isso, defendo a necessidade da reafirmação de um pacto civil em defesa da laicidade do Governo no Brasil.
Essa defesa sustenta-se não só no fato de muitos países tornados teocracias terem tido perdas significativas de garantias presentes na Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas também no fato de haver perda considerável na diversidade de ideias artísticas, políticas e, evidentemente, religiosas, quando um Estado deixa de ser laico. Afirmo isso porque a laicidade de instituições é uma defesa vigorosa da liberdade religiosa, pois, via de regra, todo estado laico de fato é multirreligioso como ainda é o caso do Brasil.
Defender essa condição política e ideológica estatal é, dessa forma, um meio eficiente de prezar pela liberdade religiosa, que, apesar de não ser uma pessoa crente, entendo ser uma conquista das sociedades democráticas que deve ser defendida por todos. Vejo essa questão assim, pois reconheço o quanto que crenças diversas foram e são influentes no campo das artes, dos costumes, da gastronomia, etc., ou seja, suprimi-las seria o mesmo que suprimir um dos principais geradores de manifestações culturais que se tem notícia. Por isso, seria indiscutivelmente um golpe duro contra várias etnias e culturas, contra milhões de pessoas e contra a cultura brasileira.
Logo, defendo o Estado laico não por ser contra quaisquer religiões, mas, ao contrário, por defendê-las como um direito de escolha de todas as pessoas, para que possamos continuar a ter um país definido e marcado por tradições democráticas, diversidade cultural e liberdade de pensamento e expressão.

José

Texto 02.
A importância d’água para a espécie humana

A água tem vital importância para os seres humanos, além de nos nutrir, precisamos dela para várias ocasiões, como no transporte de pessoas e cargas e na obtenção da caça e da pesca. Porém, a sociedade moderna vem poluindo os rios, destruindo recursos hídricos que causam um desequilíbrio no meio ambiente e preocupam grande parcela da comunidade científica da qual faço parte.
Sobre essa questão, muitos indivíduos urbanos como eu têm geralmente pouco conhecimento acerca da preservação da água, por pensarem que esta é uma riqueza inesgotável. Contudo,  essa substância é finita e distribuída de forma irregular no mundo, o que causa conflitos há milênios de anos entre grupos e sociedades humanas e mesmo de outros animais. Como é ilustrado na refilmagem de 2016 do clássico do cinema "Mad Max", em que esse recurso é tão importante quanto o combustível e é fonte do poder do vilão do filme.
Além disso, a falta de saneamento básico e de tratamento de esgoto tão comuns em muitas cidades brasileiras contribui também para a escassez de água em função da poluição dos rios. Outra forma de poluição é a mineração, que utiliza produtos químicos poluentes d’água e nocivos a seres vivos, como é o caso do mercúrio, o que faz com que esse líquido deixe de ser fonte de vida para sê-lo de doenças.
Embora o Brasil e a América do Sul estejam entre as locais do mundo com maior disponibilidade de água, sua distribuição é muito desigual, com a maior parte, no caso brasileiro, concentrada na região amazônica, onde está a menor fatia da população, evidentemente se forem desconsiderados aquíferos como o Guarani. Sobre isso, importante ressaltar que essa abundância pode não ser o bastante para garantir o abastecimento contínuo de água de boa qualidade para todos, mesmo no Sudeste, como a séria crise de falta de água pela qual passou o estado mais rico do Brasil recentemente, em função da péssima gestão da água de muitas cidades e do governo estadual de São Paulo, do uso indiscriminado e irresponsável de água na agricultura que responde por mais de 70 por cento do consumo de água no mundo e no Brasil, etc.
Logo, observo que esse recurso fundamental para a vida deveria ser pensado de uma forma mais coletiva e democrática para que um dia seja efetivamente pensado como um direito de todos, e não uma questão de política, de poder ou mesmo de dinheiro. Por isso, a formação de uma contracultura baseada na utilização consciente da natureza é imprescindível e urgente a fim de evitar um colapso nos sistemas de beneficiamento e distribuição de água em muitos lugares do mundo.

Josefa

(Redação adaptada de aluno.) 

15 - Editorial - também chamado artigo de fundo, é um texto tipicamente jornalístico que exprime a opinião de um veículo de informação. Em geral, é escrito pelo redator-chefe e publicado nas primeiras páginas de revistas ou jornais, e ele nunca é assinado por exprimir uma espécie de opinião institucional de um determinado jornal, por exemplo.

Objetivo – comunicar a opinião institucional de um veículo de comunicação e buscar a adesão do leitor à posição defendida ao longo do editorial.
Estrutura – dissertativa-argumentativa (ainda que seja interessante justificar a razão do assunto abordado no editorial pelo destaque dado no veículo de comunicação.).
Argumentação – normalmente, mais branda do que num artigo de opinião, por causa das implicações institucionais e jurídicas de um editorial que culpe ou julgue alguém sem provas ou fundamento.
Pessoa do discurso – ainda que historicamente seja comum encontrar editoriais em 1ª pessoa do plural, no caso da UFU, exige-se o uso de uma linguagem impessoal, portanto em 3ª pessoa.
Linguagem – clara, objetiva e adequada à norma padrão. Verbos predominantemente no presente do indicativo. É desaconselhável o uso de gírias, coloquialidades e oralidades mesmo entre aspas.
Máscara – obrigatória e institucional (“este jornal”).
Assinatura – proibida, tal como é praxe nos jornais diários.


Observação importante: lembro que os exemplos abaixo são oriundos da produção dos alunos ou de veículos midiáticos, assim tem virtudes e defeitos que serão apontados em sala de aula, já que respondem a situações de produção diferentes das de concurso ou mostram dificuldades linguísticas, estruturais e temáticas.

Exemplos:

Texto 01.
Editorial:
De quem é a culpa?

O nosso tempo é o da diluição, é o da vida em rede, é o da mobilização social espontânea e instantânea, é o tempo das reivindicações inocentemente apartidárias. Neste contexto, este jornal entende e assume a obrigação de se posicionar diante de tais fatos pelo risco que eles representam para a democracia, a liberdade de expressão, o direito à manifestação e a liberdade de imprensa.
Sobre as razões para tudo que os brasileiros têm vivido de bom ou ruim nos últimos meses ligados a manifestações, é importante entender que Black Blocs, mortes violentas, destruição repetida de patrimônio público e particular, etc., são na verdade antes de tudo produto do imobilismo político; da incapacidade dos Governos darem respostas às muitas críticas da maioria da população à qualidade precária dos serviços públicos, dos gastos faraônicos com a Copa, etc.; da crise de representatividade; e da corrupção generalizada. Todavia, nada disso justifica os mortos e os feridos que se somam entre alvejados por rojões; atropelados em fuga da repressão policial; acometidos pelo gás lacrimogênio, pelas balas de borracha ou pelas bombas de efeito moral; feridos em cumprimento de ordens e do trabalho de policial.
São todos vítimas de uma elite econômica e política que não tem mais lugar no Brasil, não por conta da ascensão de uma esquerda revolucionária que jamais esteve no poder no Brasil e jamais estará, mas por ser uma classe que parece incapaz de responder aos anseios mínimos da população e tampouco calá-la por meio da repressão ideológica, institucional, velada ou mesmo policial. A elite que comanda o Brasil é um anacronismo, uma oligarquia saudosa de tempos mais “fáceis” quando as cidades eram bem divididas entre os ricos e os pobres que moravam bem distantes uns dos outros, que locais públicos como shoppings não eram tomados por “rolezinhos”, que aviões eram um meio de transporte de luxo, etc.
Portanto, este jornal, não desresponsabiliza o cidadão que escolheu acender um rojão que matou um cinegrafista trabalhando, não defende Black Blocs como se fossem uma expressão legítima da revolta do povo e não defende a PM em ações nas quais atua de forma indiscriminada e violenta de acordo com a herança repressora de outros tempos. Por outro lado, não se deve simplificar a complexa situação social de nosso país com juízos maniqueístas, pouco informados e fundamentalistas que nada contribuem para que o Brasil seja de fato um país democrático, laico e justo socialmente.

Texto 02.
Editorial – Rede Globo

Não é só a imprensa que está de luto com a morte do nosso colega da TV Bandeirantes Santiago Andrade. É a sociedade.

Jornalistas não são pessoas especiais, não são melhores nem piores do que os outros profissionais. Mas é essencial, numa democracia, um jornalismo profissional, que busque sempre a isenção e a correção para informar o cidadão sobre o que está acontecendo. E o cidadão, informado de maneira ampla e plural, escolha o caminho que quer seguir. Sem cidadãos informados não existe democracia.
Desde as primeiras grandes manifestações de junho, que reuniram milhões de cidadãos pacificamente no Brasil todo, grupos minoritários acrescentaram a elas o ingrediente desastroso da violência. E a cada nova manifestação, passaram a hostilizar jornalistas profissionais.
Foi uma atitude autoritária, porque atacou a liberdade de expressão; e foi uma atitude suicida, porque sem os jornalistas profissionais, a nação não tem como tomar conhecimento amplo das manifestações que promove.
Também a polícia errou - e muitas vezes. Em algumas, se excedeu de uma forma inaceitável contra os manifestantes; em outras, simplesmente decidiu se omitir. E, em todos esses casos, a imprensa denunciou. Ou o excesso ou a omissão.
A violência é condenável sempre, venha de onde vier. Ela pode atingir um manifestante, um policial, um cidadão que está na rua e que não tem nada tem a ver com a manifestação. E pode atingir os jornalistas, que são os olhos e os ouvidos da sociedade. Toda vez que isso acontece, a sociedade perde, porque a violência resulta num cerceamento à liberdade de imprensa.
Como um jornalista pode colher e divulgar as informações quando se vê entre paus e pedras e rojões de um lado, e bombas de efeito moral e bala de borracha de outro?
Os brasileiros têm o direito de se manifestar, sem violência, quando quiserem, contra isso ou a favor daquilo. E o jornalismo profissional vai estar lá - sem tomar posição a favor de lado nenhum.
Exatamente como o nosso colega Santiago Andrade estava fazendo na quinta-feira passada. Ele não estava ali protestando, nem combatendo o protesto. Ele estava trabalhando, para que os brasileiros fossem informados da manifestação contra o aumento das passagens de ônibus e pudessem formar, com suas próprias cabeças, uma opinião sobre o assunto.
Mas a violência o feriu de morte aos 49 anos, no auge da experiência, cumprindo o dever profissional.
O que se espera, agora, é que essa morte absurda leve racionalidade aos que contaminam as manifestações com a violência. A violência tira a vida de pessoas, machuca pessoas inocentes e impede o trabalho jornalístico, que é essencial - nós repetimos - essencial numa democracia.
A Rede Globo se solidariza com a família de Santiago, lamenta a sua morte, e se junta a todos que exigem que os culpados sejam identificados, exemplarmente punidos. E que a polícia investigue se, por trás da violência, existe algo mais do que a pura irracionalidade.

Texto 03.
16 - Notícia ou reportagem - o texto jornalístico é por excelência fundado na função referencial da linguagem, porque, via de regra, deve ser objetivo, imparcial e denotativo. A linguagem jornalística utiliza a variante padrão da língua, ainda que sem uso de termos eruditos ou requintados, ao contrário, busca-se o texto acessível e fácil de ser lido. Neles, são construídos geralmente períodos e parágrafos curtos, particularmente na confecção de notícias, que são textos em que predominam as tipologias narrativa e expositiva. De caráter informativo e pretensamente neutro - desenvolvido sobre quaisquer assuntos de forma imparcial em função do interesse que podem potencialmente provocar nos leitores de um jornal. É publicada nos mais variados veículos de informação, tais como jornais, revistas, zines, “sites”, etc. A linguagem da reportagem é direta, clara e objetiva, com o intuito de permitir fácil leitura e assimilação da informação. Geralmente, contém citação de falas dos envolvidos, as quais se integram ao texto do próprio jornalista.

Características gerais da notícia em vestibulares:
1. Esse gênero é axiomático, ou seja, afirma-se como verdadeiro;
2. O jornalista não argumenta, somente expõe os fatos;
3. Predomínio da 3ª pessoa;
4. Verbos no passado;
5. Título no presente;
6. Texto sintético com orações e períodos escritos preferencialmente curtos e na ordem direta;
7. Pode ter a presença de um discurso citado, que é a reprodução da fala da pessoa envolvida (discurso direto), ou de um discurso reportado, que significa o relato da fala feito pelo jornalista (discurso indireto).
8. A paráfrase exigida pela UFU nos gêneros textuais do vestibular deve ter ao menos 2 linhas ou algo entre 20 e 30 palavras.

Estrutura textual
Manchete ou título - título principal do assunto;
“Olho da notícia” - é uma espécie de pequeno texto, que pode funcionar como subtítulo. Essa estrutura não é obrigatória neste gênero;
“Lead” (Lide) - é o primeiro parágrafo da notícia e deve conter uma síntese do que há de maior importância no acontecimento, desenvolvendo também as informações da manchete. Nele são respondidas invariavelmente questões como: quem? O quê? Quando? Onde? Como? Por quê?;
Sublide - é o parágrafo seguinte ao lide. Ele continua a dar as informações mais importantes para a compreensão do fato que virou notícia;
Corpo - é necessário mostrar os efeitos e consequências do fato narrado, no entanto isso deve ser feito de forma breve e objetiva. Além disso, nesse momento é fundamental a citação das partes envolvidas no evento noticiado com igual espaço e abordagem para garantir a imparcialidade da notícia. A presença das falas de testemunhas na notícia pode ser também importante;
Assinatura - esse gênero textual pode ser assinado - caso venha orientações na prova para isso - ainda que seja muito pouco observado esse comportamento nos veículos regulares e de maior visibilidade da imprensa brasileira.

Exemplos:

Texto 01.
Macaco invade casa próxima a zoológico em Guarulhos
Animal ficou sobre cortina da sala e depois subiu escada.
Ele fugiu pela janela do banheiro e desapareceu.

Uma família que mora em Guarulhos, na Grande São Paulo, levou um susto neste domingo (9) depois do almoço: um pequeno macaco entrou no imóvel, que fica próximo ao zoológico da cidade.
Quando os bombeiros chegaram, o animal estava na sala, sobre a cortina. Foram várias tentativas de captura, mas nada deu certo. Até que o macaquinho pulou e assustou o cinegrafista amador que fazia as imagens.
O animal subiu pela escada, foi parar no andar de cima da casa e conseguiu sair pela janela do banheiro. Depois, andou pelo telhado e pelo muro das casas vizinhas até desaparecer.
(G1 SP - 10/01/2011 06h57 - Atualizado em 10/01/2011 08h00)

Texto 02.
Menina morre asfixiada dentro de carro no litoral de SP
Criança de 3 anos foi encontrada desacordada neste domingo. Segundo a família, ela tinha o costume de brincar dentro do carro.

Uma menina de 3 anos morreu asfixiada dentro de um carro em Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, neste domingo (9). O acidente aconteceu no bairro Indaiá.
De acordo com a polícia, a família percebeu que a menina havia sumido na hora do almoço. A criança foi encontrada já desacordada dentro do carro. Um bombeiro que estava de folga tentou reanimá-la, mas não foi possível.
Um inquérito foi aberto para apurar o caso. Parentes da menina prestaram depoimento. A família disse que a criança tinha o hábito de brincar dentro do carro.
(www.g1.com.br - 10/01/2011 07h45 - Atualizado em 10/01/2011 08h07)

Texto 03.
Indústria da música alega que 95% dos downloads são ilegais enquanto cai venda de CDs
Financial Times
Salamander Davoudi

Um quarto de toda a receita da indústria fonográfica vem dos canais digitais, mas compartilhamento de arquivos online continua a minar a indústria fonográfica global, com as vendas de música física ou digital caindo no ano passado.

A Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), uma entidade setorial, estima que 95% dos downloads de música em todo o mundo são ilegais.
A IFPI disse que as vendas de música física, como CDs, caíram 16%, para US$ 11,6 bilhões. O crescimento das vendas digitais desacelerou para 12%, chegando a US$ 4,2 bilhões.
As gravadoras têm lutado para compensar o declínio acentuado na venda de CDs ao longo dos últimos 10 anos. O crescimento digital está desacelerando, apesar dos novos serviços online legais como o Spotify e do número crescente de países adotando legislação para proteção do direito autoral.
A taxa de crescimento digital caiu de 25% em 2008 para 12% no ano passado, deixando as vendas de música em geral em queda pelo 10º ano consecutivo.
John Kennedy, presidente executivo da IFPI, disse: "Seria ótimo poder relatar que essas inovações foram recompensadas com crescimento do mercado, mais investimento em artistas, mais empregos. Infelizmente, este não é o caso".
"A pirataria digital continua sendo uma enorme barreira para o crescimento do mercado."
As vendas globais da indústria fonográfica -tanto física quanto digital- caíram 30% ao longo dos últimos cinco anos apesar do crescimento de 940% nas vendas digitais, segundo a IFPI.
A IFPI disse que países como a Suécia, Taiwan e Coreia do Sul conseguiram certo sucesso após introduzir uma legislação de direitos autorais, com aumento nas vendas de CDs.
A Espanha foi apontada e descrita como correndo o risco de se transformar em um "deserto cultural", em parte pela "apatia tolerada pelo Estado" em relação ao compartilhamento de arquivos.
"A Espanha tem o pior problema de pirataria dentre todos os grandes mercados da Europa. Em 2009, nenhum novo artista espanhol figurava nos 50 álbuns mais vendidos, em comparação a 10 em 2003", disse Kennedy.

(Tradução: George El Khouri Andolfato)

17 - Gêneros narrativos (geral) - o ato de narrar remonta a momentos iniciais de nosso processo de formação como espécie, o que é confirmado por pinturas rupestres que claramente apontam para sequências de acontecimentos que respeitam a temporalidade e a sucessão de fatos típicas do texto narrativo. Nesse tempo, em que pinturas de diferentes estágios de caçadas ou rituais foram feitas em paredes de cavernas como narrativas visuais ou mesmo pode-se especular sobre o começo do processo de comunicação oral, para além de grunhidos e sons sem associação clara, provavelmente está a aurora dos textos narrativos como gênero textual. Além disso, para todas as comunidades ágrafas, essas formas de narrar têm papel central na construção dessas sociedades ainda na atualidade, até porque eram e são uma forma razoavelmente confiável de preservar o conhecimento produzido por essas comunidades.
Há muitas formas de narrar: da ancestralidade do folclore e das narrativas orais até o dinamismo e a velocidade dos textos produzidos em função do advento da internet. Há ainda histórias narradas a partir de fatos e acontecimentos verídicos ou associados a experiências reais ou aquelas que são produto da imaginação criativa e da invenção despreocupadas muitas vezes com qualquer paradigma da chamada realidade, ou podem ainda ser fruto da união dessas duas formas.
Por meio dessas características formais, estilísticas e de conteúdo, foram sendo fixadas formas de narrar que, a seguir, serão discutidas separadamente, embora sejam notórias as dificuldades teóricas para a realização plena desse objetivo, em função das fronteiras por vezes pouco perceptíveis ou mesmo diluídas entre os diferentes textos compreendidos como narrativos.

Elementos da narrativa - como principio fundador das narrativas, além da temporalidade, devem ser destacados os elementos que as compõe e a estrutura a qual esse gênero textual deve minimamente respeitar. Entretanto, embora esses “parâmetros” tenham sido revistos ou subvertidos por muitos autores especialmente no século XX, ainda serve como um importante referencial para produtores, leitores e analistas do discurso narrativo.
São elementos da narrativa o enredo, os personagens, o narrador, o espaço e o tempo. Eles são em alguma medida fundamentais para se tecer o sequenciamento de eventos, o desenvolvimento de ações e a participação dos personagens, que são imprescindíveis para se constituir um texto narrativo.
enredo é o encadeamento de episódios que constrói a narrativa, ou mesmo a forma de fazê-lo, com o objetivo de possibilitar geralmente o desenvolvimento de um conflito que será a razão de existência de uma narrativa. O conflito pode ocorrer entre pessoas, como no caso do romance “Poderoso Chefão”, de Mario Puzzo; entre os rigores da natureza e o homem, que é muito bem ilustrado em “Vidas secas” de Graciliano Ramos; entre o Estado e o cidadão, como no caso da obra “O processo” de Franz Kafka; entre a pessoa e seu íntimo, como em muitas narrativas de Clarice Lispector; etc. O enredo pode ser linear quando se respeita a ideia de passagem mais cronológica ou mesmo física do tempo, como são os casos de grande parte dos filmes, em especial anteriores a década de 1970, e da Literatura anterior ao século XIX; ou pode ser não-linear como são os casos de narrativas de filmes como “Efeito borboleta”, “Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças”, “Pulp Fiction”, entre tantos outros exemplos em que digressões temporais, arranjos não cronológicos dos eventos da narrativa, inversão da estrutura narrativa, etc., são responsáveis por emprestar uma sensação não natural ou cronológica no tempo interior à narrativa.
espaço ou ambiente é o local ou os locais onde se passa a narrativa, por isso pode ser descrito de forma detalhada ou displicente de acordo com as intenções do autor. Em algumas situações, pode ser mesmo um personagem em função da forma como interage e define comportamentos e escolhas dos outros personagens, como são os casos do planeta Duna, no romance homônimo de Frank Herbert; do cortiço, de Aluísio de Azevedo; do Ateneu, de Raul Pompéia; do sul dos Estados Unidos da série "True detective", etc. O espaço pode ser físico quando ele é real e concebível de acordo com a experiência humana partilhada desde que temos informações que permitam reconstruções fidedignas desses ambientes como local em que se passará uma narrativa, ou pode ser psicológico, quando é produto da criatividade parcial ou totalmente desconectada do que é entendido como realidade pela maioria das pessoas, é, portanto, um espaço de fantasia, de absoluta ficção e não reconhecível pela experiência sensorial das pessoas.
tempo é outro elemento crucial em narrativas, até mesmo pelo tipo de temporalidade imprescindível para esse tipo de texto. Pode ser usado como forma de denunciar transformações no espaço da narrativa ou nos personagens, o que é perceptível nos filmes “Era uma vez na América” e “O curioso caso de Benjamim Button” respectivamente; como mecanismo de controle ou mesmo facilitador do entendimento a respeito da ordem em que os episódios ocorrem na narrativa, o que é muito perceptível na série “24h” ou no filme “Matrix”. Pode ser grosseiramente, quanto a sua abordagem, dividido em dois tipos: tempo cronológico, que é aquele que pode ser medido, mensurado e percebido em acordo com a percepção média das pessoas a respeito de sua passagem; ou psicológico, quando admite-se a interferência de ponto de vista particular na construção ou mesmo na percepção da passagem do tempo, o que faz com que uma narrativa longa possa compreender um recorte temporal de um dia ou menos; ou ainda de não ser possível precisar ou quantificar o tempo passado ao longo da história.
Os personagens são os responsáveis pela existência do enredo pelo fato de ser nas relações entre eles que o conflito, o drama ou a trama é desenvolvido num espaço e num tempo em que se enredam histórias contadas por um narrador, que é o responsável por trazer à “vida” novamente aqueles personagens históricos já mortos, como é o caso de Sarah Bernhardt e Dom Pedro II no livro “O xangô de Baker Street”, ou mesmo dar “vida” a personagens produtos da ficção como o Bento de “Dom Casmurro”. Personagens podem ser descritos de forma detalhada e criteriosa já no início da narrativa ou podem ser descobertos ao longo do texto muito mais pelas suas ações e pela forma como são vistos por outros personagens do que por uma descrição objetivo do autor. Ainda sobre esse elemento da narrativa, personagens podem, quanto à relevância e a função ocupada em uma história, ser protagonistas, antagonistas ou coadjuvantes. Essa classificação tradicionalmente constrói-se sob dois aspectos: o maniqueísmo e a importância. Assim o protagonista ou o herói seria a representação do bem na narrativa, e o mal seria representado pelo antagonista ou vilão, ambos tratados como os personagens mais importantes dela. Por meio disso, são definidos os coadjuvantes ou personagens secundários como aqueles de importância variada numa narrativa, mas de relevância sempre menor do que os que a protagonizam. Nos últimos séculos e mais intensamente do século XIX em diante, a ideia de herói e vilão foi sendo, em muitas obras, subvertida em favor da construção de personagens mais humanos. Tais novos ares foram decisivos em particular para a figura do protagonista, que de herói passou muitas vezes a anti-herói, não porque vilão, mas porque humano, como os leitores, portanto há um palco onde mal e bem digladiam, onde virtudes e defeitos revezam-se ou mesclam-se, isto é, essa outra configuração do protagonismo narrativo rompe com o cânone clássico que associa o protagonista ou herói à beleza, à força física e espiritual, à perfeição, à grande capacidade de solução de conflitos, à liderança social e às virtudes éticas unicamente. Como decorrência disso, foi constituído esse tipo de personagem baseado numa conjunção de elementos que muito o aproximam das pessoas comuns ou mesmo incomuns, mas, sobretudo, reais, que se fazem anti-heróis não pela maldade, mas pela fraqueza diante das tentações, dos desejos, dos medos, etc. Logo, anti-heróis são construídos por força da humanidade e da insignificância de um Gregor Samsa no livro “A metamorfose” de Franz Kafka; da loucura sábia e lúdica de um Geraldo Viramundo, personagem principal de “O Grande Mentecapto” de Fernando Sabino; da crueza e da honestidade moral dos ex-defuntos de “Incidente em Antares” de Érico Veríssimo; da insensibilidade e frieza de Michael Corleone no clássico “O poderoso chefão” de Mário Puzzo; do desregramento e do revisionismo de Rémy Girard, o já clássico protagonista do filme “Invasões bárbaras”; etc. Personagens podem ainda ser vistos como planos quando nada ou pouco mudam ao longo de uma narrativa ou redondas quando sofrem alterações significativas na sua forma de proceder, ser ou pensar ao longo da história.
O foco narrativo pode ser compreendido de forma simples e didática como uma perspectiva assumida pelo narrador para apreciar, acompanhar, descrever, enfim, narrar. Uma história pode ser contada em primeira pessoa do discurso, o que confere ao narrador o papel também de personagem do relato que conta. Dessa forma, como protagonista ou coadjuvante da história na qual ele está envolvido, narra sob uma perspectiva algo privilegiada, que é a de contar uma história da qual fez parte. Por outro lado, uma narração pode ser feita em terceira pessoa do discurso, quando o narrador assume uma perspectiva de quem não participa da história. O narrador em terceira pessoa pode ser observador ou onipresente, quando narra uma história de acordo com as limitações humanas, ou seja, sem aparentar conhecimento sobre o futuro ou mesmo sobre o passado dos personagens, sem narrar eventos simultaneamente e sem conhecimento sobre as sensações, sentimentos e pensamentos íntimos dos personagens. Este foco narrativo é mais comum em narrativas centradas na ação e no suspense, assim é um tipo de narrador muito frequente em histórias policiais, de guerra e de terror. Além dessa perspectiva, o narrador pode também ser onisciente quando ele aborda uma história também sob a premissa da onipresença, pois tem um controle sobre o que narra digno de ser muito superior às capacidades humanas, visto que as supera em função de que não tem as - já descritas - limitações dela, por isso narra o que acontece em locais diferentes de forma simultânea, o que se passa no íntimo dos personagens e sobre o passado e o futuro deles.

Estrutura da narrativa - quanto à estrutura de textos narrativos, pode-se dizer que a maioria das narrações organiza-se em torno de uma apresentação, em que um equilíbrio de forças é sugerido ou mostrado, personagens são apresentados e referências espaço-temporais são marcadas. O desenvolvimento é a parte em que o conflito narrativo é estabelecido e desenvolve-se com o objetivo de ser solucionado - em tese - da forma mais interessante e imprevista possível. O clímax é o momento mais intenso e crítico da narrativa, dele deriva a solução para o conflito desenvolvido, embora não se possa esperar apenas resultados positivos desse processo, porque o equilíbrio alcançado posteriormente pode ser muito diferente daquele informado ou sugerido na introdução. A última parte convencionalmente de uma narrativa é a conclusão ou desfecho, em que se apresenta a solução para o conflito criado pelas ações dos personagens, o que restabelece, portanto, o equilíbrio na narrativa. Importante informar que partes de uma narrativa podem ser suprimidas como a conclusão ou a introdução ou a ordem delas pode ser modificada, como ocorre em muitas produções da atualidade no cinema e na literatura, são exemplos os filmes “Adaptação”, “Transpotting”, etc.

18 - Conto - ainda que se possa afirmar despretensiosamente que é uma narrativa mais breve do que o romance e a novela, para muitos teóricos é uma forma narrativa de ficção literária melhor definida pela captação de um instante, de um momento da trajetória de um núcleo dramático (um protagonista, uma família, etc.). Isso porque contém geralmente um único drama ou conflito desenvolvido num espaço restrito, num tempo curto e por um número reduzido de personagens. São exemplos: “O primo”, Paulo Henriques Britto; “Amor”, Clarice Lispector; etc.
Este gênero remonta à Antiguidade na forma escrita e a tempos imemoriais na oralidade. As histórias contadas no livro egípcio intitulado “O livro do mágico” são precursoras desse tipo de gênero narrativo, mais tarde a história bíblica de Caim e Abel poderia muito bem ser enquadrada como um conto. Mais tarde, os irmão Grimm fariam uma importante contribuição para a história do conto com o seu “Contos para crianças e famílias”, em que diversas narrativas que povoam o imaginário da sociedade até hoje foram escritas no seu formato e enredo mais conhecido. No século XIX, o conto se estabeleceria como um gênero narrativo de muita popularidade, o que ainda perdura na atualidade, contribuiriam para a consolidação do conto uma importante expressão literária Maupassant, Edgar Allan Poe, Mary Shelley, Leon Tolstoy, Flaubert, Machado de Assis, Gogol, Arthur Conan Doyle e Eça de Queiroz, entre muitos outros.

Exemplos:

Texto 01.
A igreja do diabo
Machado de Assis

CAPÍTULO I

DE UMA IDÉIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
- Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: - Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

II
ENTRE DEUS E O DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
- Que me queres tu? perguntou este.
- Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
- Explica-te.
- Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
- Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
- Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?
- Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor,
- Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
- Vai
- Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
- Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
- Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
- Velho retórico! murmurou o Senhor.
- Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, - a indiferença, ao menos, - com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, - ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.
- Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
- Já vos disse que não.
- Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
- Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
- Negas esta morte?
- Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
- Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

III
A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
- Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: - Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

IV
FRANJAS E FRANJAS

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outra descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:
- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Prestigio - Ediouro - s/d.

Texto 02.
Um saco de risadas

Eu sou feliz. Sou muito feliz. Sou feliz demais. Eu sou tão feliz, mas tão feliz, que cada degrau da minha vida é um sorriso onde eu piso. Ah essa brancura da dentadura que se espalha! Essa cara de palhaço estampada no espelho! Já nem tenho tempo de parar pra rir: rio dormindo, rio acordado; rio correndo, rio parado. Rio um riso arrepiado, rio o riso arrependido. Rio o riso dos amantes, rio o riso dos maridos. Riso esganiçado. Riso empedernido. Rio quando cago. Rio quando mijo. Rio quando o sol aparece, rio quando fica escondido. Ninguém pode me proibir. Um desgraçado também pode rir! Rio pra seduzir, rio pra disfarçar, rio pra distrair, rio pra suportar. O eterno exercício do maxilar! Rio no almoço, rio no jantar. O riso da garganta em carne viva, riso que se morde na gengiva. Rio de tudo, rio de nádegas, riso absurdo, riso de cócegas. O riso feito um soluço. Riso rido como um susto! O riso de terror petrificado. Rir de um corpo estatelado. Risos calculados. O riso embasbacado dos casais apaixonados. E eu rio com o que tenho de dentes! Alegria enxurrada de enchentes! Riso histérico dos dementes! Rio porque é duro. Rio porque é de graça. Gás hilariante espalhado pelas praças! Rir com segurança, rir das ameaças! Rio quando cheiro. Rio sem vergonha. Rio quando fumo. Rio com maconha o riso dos malucos. Rio quando encontro, rio quando esbarro. Rio porque é sério, rio tirando sarro - a língua mergulhada na saliva e no catarro! Rio tomando água, rio bebendo pinga. Rio porque são frescas. Rio porque são lindas. O riso como um pote de pimenta gargalhando num sorriso que aumenta. Rio o riso dos primeiros, rio o riso dos cansados. Rio o riso dos coveiros, rio o riso dos defuntos. Rio pra me lembrar. Rio pra me esquecer. Risos pra resfriar, risos pra aquecer. Rir o riso dos parentes, rir o riso dos amigos, rir o riso dos contentes, rir o riso dos falidos. Rio o riso do pecado. Rir um riso preocupado. O riso do cachorro se pendura pelo rabo. O riso das hienas quando encontram a carniça. O riso dos ateus que precisam ir à missa. O riso imaculado, o vagabundo e o invocado. O riso dos maduros, o riso dos meninos. Sorrisos em apuros: o destino dos forçados, a sina dos verdugos. O riso amarelo da educação. O riso budista da meditação. Rir como aviso. A pura tentação do riso. As risadas meladas das tortas arremessadas. Rir o riso pastelão, riso engarrafado de televisão. As mesmas piadas repassadas e caímos na cilada! Rio em congestionamento, rio em casamento. Rio com farinha, rio com cimento. Rio direto. Do bom, do melhor, do desprezível. Rir que o riso é infalível. Uma risada grudando na outra, fazendo uma música rachada no céu da minha boca. Rio da minha cara, rio da minha fome. A vingança que se cospe no prato frio. Rir à puta que pariu! Rio por dentro de pesadelos esquisitos; nas marquises dos edifícios espremidos, rir o riso dos pobres, rir o riso dos ricos (é bom que fique claro: o riso dos bacanas é o mesmo dos coitados). Com a cara, a coragem, a covardia. Rio todo dia. Rio porque sim, rio porque não. Rio de janeiro, fevereiro ou março. Rio de mim, rio do fim, rio de você. Ontem ainda "estava" feliz, mas hoje "eu sou". Nada abala minha felicidade. Eu sou feliz. Feliz até à carne. Feliz demais. Risos. Só risos. Nada mais. Exalo felicidade por todos os poros. Uma felicidade contagiante mesmo. Uma hora dessas, puxa! Eu nem sei... (Fernando Bonassi)

Texto 03.
“Os crimes da Rua Morgue”, Edgar Allan Poe.

Texto 04.
Amor*

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.
Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível… O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo… E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite – tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.
Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.
De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.
Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.
Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.
Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.
Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.
 Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.
 As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada… Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado… O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.
 Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.
 Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.
 Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha… Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles… Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.
 Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?
 Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.
 Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.
 Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.
 Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água – havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d’água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.
 Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.
 Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.
 Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.
 Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.
 — O que foi?! gritou vibrando toda.
 Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
 — Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.
 Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
 — Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.
 — Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.
 Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
 Acabara-se a vertigem de bondade.
 E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

Clarice Lispector
Extraído no livro Laços de Família, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998
*Considerado por Ítalo Mariconi um dos 100 melhores contos brasileiros do séc. XX.

19 - Micro conto e nano conto – gênero textual caracterizado pela intensa e por vezes radical opção pela concisão da história narrada. Na maioria das vezes, as histórias são contadas com não mais do que algumas ou no máximo dezenas de palavras. As limitações de palavras ou caracteres usados pelos seus autores, muitas vezes, remetem a recursos de comunicação como as mensagens enviadas por SMS (150 caracteres) ou mesmo as enviadas pela Twitter (140 caracteres). Por isso, forma de narrar muito cultuada por escritores que têm como principal suporte de divulgação para seus trabalhos a internet, porque dialoga com a velocidade e o dinamismo de um tempo muito determinado por esse meio de comunicação, daí talvez o gosto pela síntese que define essa modalidade narrativa. São exemplos as produções do “site” www.nemonox.com/1000portas.

Texto 01.

O maior trauma do vampiro narcisista era não poder se admirar ao espelho. (@microcontos)

Texto 02.
Vende-se: sapatos de bebê, sem uso. (Ernest Hemingway)

Texto 03.
“Olha, Pai, eu tentei, mas acho que não deu muito certo não...” (Antônio Prata)

Texto 04.
“Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida.” (Anton Tchekhov)

Texto 05.
“A velha insônia tossiu três da manhã.” (Dalton Trevisan)

Texto 06.
“Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.” (Franz Kafka)

Texto 07.
“Uma vida inteira pela frente. O tiro veio por trás.” (Cíntia Moscovich)

Texto 08.
“Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada.” (Lygia Fagundes Telles)

Texto 09.
“Alzheimer: conhecer novas pessoas todos os dias.” (Phil Skversky)

Texto 10.
“Eu perguntei. Eles responderam. Eu escrevi.” (Sebastian Junger)

Texto 11.
“Eu ainda faço café para dois.” (Zak Nelson)

20 - Romance –  texto narrativo em prosa tal como o conto e a novela. Forma de explorar mais que um conflito na trajetória de um núcleo dramático, de maneira geralmente pormenorizada e profunda, em virtude de os personagens, os espaços e o enredo serem desenvolvidos mais profunda e detalhadamente que em outros gêneros narrativos literários. Além disso, os episódios e histórias paralelas a principal têm forte dependência em relação ao eixo temático principal. São exemplos: “O vermelho e o negro”, de Stendhal; “Crime e castigo”, de Dostoiévski; “1984”, de George Orwell; “Lolita”, de Vladimir Nabokov; "Dom Casmurro", de Machado de Assis, etc.

21 - Novela – apesar da muita difícil conceituação em função dos muitos debates teóricos a respeito, pode-se considerar um tipo de narrativa caracterizado pela presença de um núcleo dramático principal, com poucos ou nenhum episódio que possa desviar a atenção do leitor da história do personagem ou grupo protagonista da história. Comparada ao romance, a novela apresenta menos recursos narrativos; já em comparação ao conto, um enredo mais desenvolvido e personagens descritos com mais detalhamento e mesmo um tempo narrativo potencialmente mais extenso. São exemplos: “Um copo de cólera”, Raduan Nassar; “Noites brancas", Fiódor Dostoiévski; "A hora da estrela", Clarice Lispector; "A Morte de Ivan Ilitch", Liev Tolstói, etc.

22 - Narrativa oral – forma oral de se contar uma história ou relatar um fato que pode ser esquecida em meio ao cotidiano de indivíduos e comunidades ou pode ser incorporada às vivências de uma pessoa ou mesmo à cultura de uma comunidade, o que permite que essa história atravesse, mesmo não documentada pela escrita, séculos com suas informações principais preservadas razoavelmente. Essa modalidade textual narrativa é fundamental na criação, no estabelecimento e na manutenção de aspectos importantes do folclore, da religião, da medicina popular, etc.

23 - Fábula - narrativa curta protagonizada geralmente por animais que foram humanizados, já que interagem e comunicam-se de forma assemelhada aos seres humanos. Geralmente, contém uma "moral" implícita ou explícita, que tem caráter pedagógico, no sentido de que ambiciona incutir, em particular nas crianças, determinados ensinamentos e regras. Além disso, os animais humanizados assumem com frequência algum arquétipo associado a uma característica, personalidade ou estereótipo humano. Dentre os escritores que se notabilizaram estão Ésopo, La Fontaine, Monteiro Lobato, etc. George Orwell também fez-se famoso por causa de obras como “Revolução dos bichos”, em que animais assumem papeis típicos de um regime autocrático em uma fazenda, contudo é uma narrativa voltada a adultos por causa da temática violenta e opressiva, mas ainda assim uma fábula.


Texto 01.
A cigarra e as formigas

Num belo dia de inverno as formigas estavam tendo o maior trabalho para secar suas reservas de trigo. Depois de uma chuvarada, os grãos tinham ficado completamente molhados. De repente aparece uma cigarra:
“Por favor, formiguinhas, me deem um pouco de trigo! Estou com uma fome danada, acho que vou morrer.”
As formigas pararam de trabalhar, coisa que era contra os princípios delas, e perguntaram:
“Mas por quê? O que você fez durante o verão? Por acaso não se lembrou de guardar comida para o inverno?”
“Para falar a verdade, não tive tempo”, respondeu a cigarra. “Passei o verão cantando!”
“Bom... Se você passou o verão cantando, que tal passar o inverno dançando”, disseram as formigas, e voltaram para o trabalho dando risada.

Moral: Os preguiçosos colhem o que merecem. (Esopo)

Texto 02.
A cigarra e a formiga má

Já houve entretanto, uma formiga má que não soube compreender a cigarra e com dureza a repeliu de sua porta. Foi isso na Europa, em pleno inverno, quando a neve recobria o mundo com o seu cruel manto de gelo. A cigarra, como de costume, havia cantado sem parar o estio inteiro, e o inverno veio encontrá-la desprovida de tudo, sem casa onde abrigar-se, nem folhinhas que comesse. Desesperada, bateu à porta da formiga e implorou - emprestado, notem! - uns miseráveis restos de comida. Pagaria com juros altos aquela comida de empréstimo, logo que o tempo o permitisse. Mas a formiga era uma usuária sem entranhas. Além disso, invejosa. Como não soubesse cantar, tinha ódio à cigarra por vê-la querida de todos os seres.
- Que fazia você durante o bom tempo?
- Eu... eu cantava!...
- Cantava? Pois dance agora... - e fechou-lhe a porta no nariz.

Resultado: a cigarra ali morreu estanguidinha; e quando voltou a primavera o mundo apresentava um aspecto mais triste. Ë que faltava na música do mundo o som estridente daquela cigarra morta por causa da avareza da formiga. Mas se a usurária morresse, quem daria pela falta dela?


Os artistas - poetas, pintores e músicos - são as cigarras da humanidade. (Monteiro Lobato)

Texto 03.
O Rei dos Animais

Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar. Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses. Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou: "Hei, você aí, macaco - quem é o rei dos animais?" O Macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: "Claro que é você, Leão, claro que é você!".
Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: "Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?" E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: "Currupaco... não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?".
Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade. Encontrou a coruja e perguntou: "Coruja, não sou eu o maioral da mata?" "Sim, és tu", disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. "Tigre, - disse em voz de estentor - eu sou o rei da floresta. Certo?" O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: "Sim". E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o leão se afastou.
Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: "Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?" O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensanguentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou: "Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado".

Moral: cada um tira dos acontecimentos a conclusão que bem entende. (Millôr Fernandes)

24 - Apólogo - narrativa em prosa e alegórica geralmente curta e protagonizada por objetos humanizados, por isso falam, sofrem, alegram-se, etc. Assemelha-se à fábula, visto que contém uma "moral" implícita ou explícita também pelas mesmas razões. São os autores mais renomados Esopo e La Fontaine.

Texto 01.
Um Apólogo

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária! (Machado de Assis. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br)

25 - Parábola - narrativa alegórica, moralizante e curta protagonizada por seres humanos. Tipo de narrativa muito comum em vários povos, especialmente entre os hebreus, daí o fato de haver muitas delas no Novo Testamento, inclusive, segundo tradições cristãs, contadas por Jesus. Exemplos:

Texto 01.
"Continuou: Um homem tinha dois filhos. Disse o mais moço a seu pai: Meu pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Ele repartiu os seus haveres entre ambos. Poucos dias depois o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para um país longínquo, e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidades.Foi encostar-se a um dos cidadãos daquele país, e este o mandou para os seus campos guardar porcos. Ali desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Caindo, porém, em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui estou morrendo de fome! Levantar-me-ei, irei a meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti: já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros. Levantando-se, foi para seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai viu-o e teve compaixão dele e, correndo, o abraçou e beijou. Disse-lhe o filho: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei-me depressa a melhor roupa e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também o novilho cevado, matai-o, comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho era morto e reviveu, estava perdido e se achou. E começaram a regozijar-se. Seu filho mais velho estava no campo; quando voltou e foi chegando à casa, ouviu a música e a dança: e chamando um dos criados, perguntou-lhe que era aquilo. Este lhe respondeu: chegou teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde. Ele se indignou, e não queria entrar; e saindo seu pai, procurava conciliá-lo. Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com os meus amigos; mas quando veio este teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado. Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu; entretanto cumpria regozijarmo-nos e alegrarmo-nos, porque este teu irmão era morto e reviveu, estava perdido e se achou." (Lucas 15:11-32)

Texto 02.
"Naquele dia saindo Jesus de casa, sentou-se junto ao mar; chegaram-se a ele grandes multidões, de modo que entrou numa barca e se assentou; e todo o povo ficou em pé na praia. Muitas coisas lhes falou em parábolas, dizendo: O semeador saiu a semear. Quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e comeram-na. Outra parte caiu nos lugares pedregosos, onde não havia muita terra; logo nasceu, porque a terra não era profunda e tendo saído o sol, queimou-se; e porque não tinha raiz, secou-se. Outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram. Outra caiu na boa terra e dava fruto, havendo grãos que rendiam cem, outros sessenta, outros trinta por um. Quem tem ouvidos, ouça." (Mateus 13:1-9)

Texto 03.

Buda e a Flor de Lotus

Buda reuniu seus discípulos, e mostrou uma flor de lótus - símbolo da pureza, porque cresce imaculada em águas pantanosas.
- Quero que me digam algo sobre isto que tenho nas mãos - perguntou Buda.
O primeiro fez um verdadeiro tratado sobre a importância das flores.
O segundo compôs uma linda poesia sobre suas pétalas.
O terceiro inventou uma parábola usando a flor como exemplo.
Chegou a vez de Mahakashyao. Este aproximou-se de Buda, cheirou a flor, e acariciou seu rosto com uma das pétalas.
- É uma flor de lótus - disse Mahakashyao. Simples e bela.


- Você foi o único que viu o que eu tinha nas mãos - disse Buda. (Parábola budista)

Texto 04.
Parábolas

Um Mestre Sufi contava sempre uma parábola no final de cada aula, mas os alunos nem sempre entendiam o seu significado.
- Mestre, - perguntou um deles, certo dia - tu contas-nos contos mas nunca nos explicas o que significam.
- As minhas desculpas. - disse o Mestre - Como compensação, deixa-me que te ofereça um belo pêssego.
- Obrigado, Mestre - disse o discípulo, comovido.
- Mais ainda: como prova do meu afecto, queria descascar-te o pêssego. Permites que o faça?
- Sim, muito obrigado. - disse o discípulo.
- E, já que tenho a faca na mão, não gostarias que eu cortasse o pêssego em pedaços, para que te seja mais fácil comê-lo?
- Sim, mas não quero abusar da tua generosidade, Mestre...
- Não é um abuso; sou eu que me estou a oferecer. Quero apenas agradar-te. Permite-me também que mastigue o pêssego antes de to oferecer...
- Não, Mestre! Não gostaria que fizesses isso! - queixou-se o discípulo, surpreendido.
O Mestre fez uma pausa e disse:
- Se vos explicasse o sentido de cada conto, seria como dar-vos de comer fruta mastigada. (Parábola sufi)

26 - Conto de fadas - versão curta, fantasiosa e híbrida de outras narrativas populares, já que podem conter animais e objetos humanizados. É na sua forma clássica profundamente maniqueísta, já que um herói, depois de uma longa série de obstáculos, geralmente triunfa sobre o mal, o que empresta a esse gênero narrativo grande previsibilidade. Os temas são normalmente associados a questões familiares, existenciais, de autodescoberta e morais. Neles, são comuns elementos associados à magia, à metamorfose e a eventos que desafiam as leis naturais. Quanto à estrutura, como as demais narrativas populares, são muito tradicionais. Entre os autores, destacam-se os irmãos Grimm, Hans Cristhian Andersen, Lewis Carroll, Carlo Collodi, Gabrielle-Suzanne Barbot, Charles Perrault e Monteiro Lobato.

Texto 01.

Texto 02.

Texto 03. (sobre as histórias originais dos contos de fadas.)
http://www.lendo.org/7-horrendos-contos-de-fadas-que-lhe-contam-desde-crianca/


27 - Arte sequencial - História em Quadrinhos (HQ), Mangá e “Graphic Novel” – as HQs surgiram no século XIX da união entre a linguagem verbal presente nos “balões”, em que constam as falas ou pensamentos dos personagens, e desenhos que os representam em todo tipo possível de ação, portanto é uma forma de contar histórias mista, porque verbal e não verbal ao mesmo tempo. A reprodução das ações nesse tipo de narrativa, daí arte sequencial, inspira-se em alguma medida no cinema, são exemplos as séries históricas das décadas de 1960 e 1970 de heróis como Capitão América, Super homem, Batman, Homem-aranha, X-Men, etc. Contudo essa escolha é denunciada de forma mais explícita nos mangás, criados no Japão, que se diferem das HQs, porque o enquadramento é realmente muito assemelhado ao movimento de câmera do cinema, já que a história submete o enquadrinhamento e não o contrário como é comum nas HQs, e pela pouca importância dada à linguagem verbal, daí a grande expressividade dos desenhos. São exemplos os títulos “Vagabond”, “Cowboy Bebop”, “Neon Genesis Evangelion”, “Akira”, etc. Quanto à Graphic Novel ou Romance gráfico, criada nos EUA, trata-se de uma HQ destinada ao público adulto em função do argumento com honestas pretensões literárias, sociológicas ou filosóficas; das discussões refinadas sobre vários aspectos da experiência humana e da qualidade artística requintada e inovadora dos desenhos, além do enquadramento muito inspirado no Mangá. São exemplos “Watchmen”, “Constantine”, “Sin City”, “Ronin”, “Livros da Magia”, “Sandman”, “Maus”, "Piada mortal", etc.

Texto 01. HQ
Texto 02. Mangá

Texto 03. "Graphic novel"

28 - Cartum/charge - tipo de arte sequencial narrativa e humorística, composta de apenas um quadro, acompanhada ou não de texto verbal com forte apelo crítico normalmente voltado ao universo da política, da sociedade e dos costumes e centrado em um humor caricatural na representação dos personagens inspirados em estereótipos, arquétipos e pessoas reais. É muito comum na imprensa impressa desde o século XIX. São exemplos:

Texto 01.

Texto 02.


29 - Tira - tipo de narrativa verbal e não verbal em que se sucedem quadros, no mínimo dois, com clara intenção crítica em relação a algum aspecto da sociedade. Frequentemente são uma sequência de imagens sobre personagens fictícios  e regulares que, com suas trajetórias, permitem de forma comum e pretensamente cômica tratar de assunto de interesse público. São os casos das tiras de personagens como Mafalda, Calvin e Haroldo, Garfield, Recruta Zero, Wood e Stock, Rebordosa, etc. São exemplos:

Texto 01.

Texto 02.

Texto 03.

30 - "Storyboard" - ilustrações dispostas em sequência com a pretensão de apresentar uma prévia sobre o que ainda será filmando para ser apresentado em vídeo ao público. É, em linhas gerais, uma versão em arte sequencial de um filme, série, etc., com o intuito de acelerar, auxiliar ou antever a produção de uma narrativa  audiovisual antes de se usar câmeras ou profissionais em loco para fazer as gravações. Exemplos:

Texto 01.


31 - Fotonovelas - novelas em quadrinhos utilizam, no lugar dos desenhos comuns a outras formas de Arte Sequencial, fotografias sequencialmente organizadas com o intuito de contar uma história com ajuda de balões utilizados para informar as falas ou mesmo os pensamentos dos personagens. No Brasil, as fotonovelas fizeram muito sucesso entre as décadas de 1950 e 1970, quando não sofriam de forma severa a concorrência da versão televisiva desse gênero narrativo.


Texto 01.

Texto 02.



32 - Anedota - é uma espécie de piada com forte apelo narrativo. É uma narrativa curta em que a graça é construída ao longo do desenvolvimento a fim de, em geral, ter seu ápice no clímax, quando o efeito de humor pretendido é desencadeado no ouvinte ou leitor.

Texto 01.
Mineiro não mente: só que é muito criativo...

Um mineiro, lá de Curvelo, tinha 11 filhos, precisava sair da casa onde morava e alugar outra, mas não conseguia por causa do monte de crianças.
Quando ele dizia que tinha 11 filhos, ninguém queria alugar porque sabiam que a criançada iria destruir a casa e ele não podia dizer que não tinha filhos, não podia mentir, afinal, os mineiros não podem mentir.
Ele estava ficando desesperado, o prazo para se mudar estava se esgotando.
Daí teve uma ideia: mandou a mulher ir passear no cemitério com 10 dos filhos.
Pegou o filho que sobrou e foi ver casas junto com o agente da imobiliária. Gostou de uma e o agente perguntou quantos filhos ele tinha.
Ele respondeu que tinha 11.
Daí, o agente perguntou:
- Mas onde estão os outros?
E ele respondeu, com um ar muito triste:
- Estão no cemitério, junto com a mamãe deles.
E foi assim que ele conseguiu alugar uma casa sem mentir... (Domínio público)

33 - Diário - tipo de texto geralmente de caráter íntimo em que seu autor narra cronologicamente fatos ou acontecimentos do cotidiano, opiniões sobre os mais variados assuntos, impressões acerca de si mesmo ou do outro, confissões, meditações, etc. Pode ainda ser uma espécie de registro de bordo de embarcações e aeronaves em que se anotam todos os acontecimentos e fatos que concernem ao veículo ou mesmo à sua tripulação. Outros usos desse gênero discursivo fazem os cientistas e pesquisadores que vão a campo ou ao laboratório e, em um diário, anotam tudo importante e relevante para as pesquisas nas quais estão envolvidos ou que ambicionam estar. Normalmente, contém todas as características fundamentais do gênero narrativo e as entradas de informação são organizadas por data. Seguem exemplos de trechos de diários famosos como o de Anne Frank e de Charles Darwin:

Texto 01.
“12 de junho de 1942
Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda.
Comentário acrescentado por Anne em 28 de setembro de 1942
Até agora você tem sido um grande apoio para mim, como também tem sido Kitty, para quem tenho escrito com regularidade. Esse modo de manter um diário é bem melhor, e agora mal posso esperar os momentos de escrever em você. Ah, estou tão feliz por ter você comigo!

Domingo, 14 de junho de 1942
Vou começar a partir do momento em que ganhei você, quando o vi na mesa, no meio dos meus outros presentes de aniversário. (Eu estava junto quando você foi comprado, e com isso eu não contava.)
Na sexta-feira, 12 de junho, acordei às seis horas, o que não é de espantar; afinal, era meu aniversário. Mas não me deixam levantar a essa hora; por isso, tive de controlar minha curiosidade até quinze para as sete. Quando não dava mais para esperar, fui até a sala de jantar, onde Moortje (a gata) me deu as boas-vindas, esfregando-se em minhas pernas.
Pouco depois das sete horas, fui ver papai e mamãe e, depois, fui à sala abrir meus presentes, e você foi o primeiro que vi, talvez um dos meus melhores presentes. Depois, em cima da mesa, havia um buquê de rosas, algumas peônias e um vaso de planta. De papai e mamãe ganhei uma blusa azul, um jogo, uma garrafa de suco de uva, que, na minha cabeça, deve ter gosto parecido com o do vinho (afinal de contas, o vinho é feito de uvas), um quebra-cabeça, um pote de creme para o corpo, 2,50 florins e um vale para dois livros. Também ganhei outro livro, Camera obscura (mas Margot já tem, por isso troquei o meu por outro), um prato de biscoitos caseiros (feitos por mim, claro, já que me tornei especialista em biscoitos), montes de doces e uma torta de morangos, de mamãe. E uma carta da vó, que chegou na hora certa, mas, claro, isso foi só uma coincidência.
Depois, Hanneli veio me pegar, e fomos para a escola. Na hora do recreio, distribuí biscoitos para os meus colegas e professores e, logo depois, estava na hora de voltar aos estudos. Só cheguei em casa às cinco horas, pois fui à ginástica com o resto da turma. (Não me deixam participar, porque meus ombros e meus quadris tendem a se deslocar.) Como era meu aniversário, pude decidir o que meus colegas jogariam, e escolhi vôlei. Depois, todos fizeram uma roda em volta de mim, dançaram e cantaram "Parabéns pra você". Quando cheguei em casa, Sanne Ledermann já estava lá. Ilse Wagner, Hanneli Goslar e Jacqueline van Maarsen vieram comigo depois da ginástica, pois somos da mesma turma. Hanneli e Sanne eram minhas melhores amigas. As pessoas que nos viam juntas costumavam dizer: "Lá vão Anne, Hanne e Sanne." Só fui conhecer Jacqueline van Maarsen quando comecei a estudar no Liceu Israelita, e agora ela é minha melhor amiga. Ilse é a melhor amiga de Hanneli, e Sanne é de outra escola e tem amigos lá.
Elas me deram um livro lindo, Nederlandse Sagen en Legenden [Dutch Sagas and Legends], mas por engano deram o volume II, por isso troquei dois outros livros pelo volume I. Tia Helene me trouxe um quebra-cabeça, tia Stephanie, um broche encantador, e tia Leny, um livro fantástico: Daisy’s bergvakantie [Daisy Goes to the Mountain].
Hoje de manhã, fiquei na banheira pensando em como seria maravilhoso se eu tivesse um cachorro como Rin Tin Tin. Eu também iria chamá-lo de Rin Tin Tin e o levaria para a escola; lá, ele poderia ficar na sala do zelador ou perto dos bicicletários, quando o tempo estivesse bom.

Segunda-feira, 15 de junho de 1942
Minha festa de aniversário foi no domingo à tarde. O filme de Rin Tin Tin fez o maior sucesso entre minhas colegas de escola. Ganhei dois broches, um marcador de livros e dois livros.
Vou começar dizendo algumas coisas sobre minha escola e minha turma, a começar pelos alunos.
Betty Bloemendaal parece meio pobre, e acho que talvez ela seja. Ela mora numa rua que não é muito conhecida, no lado oeste de Amsterdã, e nenhuma de nós sabe onde fica. Ela se dá muito bem na escola, mas é porque estuda muito, e não porque seja inteligente. É muito quieta.
Jacqueline van Maarsen é, talvez, minha melhor amiga, mas nunca tive uma amiga de verdade. No começo, achei que Jacque seria uma, mas estava redondamente enganada.
D.Q.* é uma garota muito nervosa que sempre esquece as coisas, de modo que os professores vivem passando dever de casa extra para ela, como castigo. É muito gentil, especialmente com G.Z.
E.S. fala muito e não é engraçada. Vive mexendo no cabelo da gente ou tocando em nossos botões quando pergunta alguma coisa. Dizem que ela não me suporta, mas não ligo, porque também não gosto muito dela.
Henny Mets é uma garota legal, tem um jeito alegre, só que fala em voz alta e parece mesmo uma criança quando estamos brincando no pátio. Infelizmente, Henny tem uma amiga que se chama Beppy que é má influência para ela, porque é suja e vulgar.
J.R. – eu poderia escrever um livro inteiro sobre ela. J. é uma fofoqueira insuportável, sonsa, presunçosa e de duas caras, que se acha muito adulta. Ela realmente enfeitiçou Jacque, e isso é uma vergonha. J. se ofende à toa, chora pela menor coisa e, além disso tudo, é metida demais. A Srta. J. é a dona da verdade. Ela é muito rica e tem um armário repleto de vestidos maravilhosos, que são adultos demais para a sua idade. Ela se acha linda, mas não é. J. e eu não nos suportamos.
Ilse Wagner é uma garota legal, tem um jeito alegre, mas é afetada demais e consegue passar horas gemendo e reclamando de alguma coisa. A Ilse gosta um bocado de mim. É muito inteligente, mas preguiçosa.
Hanneli Goslar, ou Lies, como todos a chamam na escola, é meio estranha. Costuma ser tímida – expansiva em casa, mas reservada quando está perto de outras pessoas. Conta para a mãe tudo que a gente diz a ela. Mas ela diz o que pensa, e ultimamente passei a admirá-la bastante.
Nannie van Praag-Sigaar é pequena, engraçada e sensível. Acho que ela é ótima. É muito inteligente. Não há muito o que dizer sobre Nannie.
Eefje de Jong é, em minha opinião, fantástica. Apesar de só ter 12 anos, é a própria lady. Age como se eu fosse um bebê. Além disso, é muito atenciosa, e eu gosto dela.
G.Z. é a garota mais bonita da turma. Tem um rosto bonito, mas é meio burra. Acho que vão fazer ela repetir o ano, mas claro que eu não lhe dei a notícia.

Comentário acrescentado por Anne mais tarde
No fim das contas, para minha grande surpresa, G.Z. não repetiu o ano.
E, sentada perto de G.Z., fica a última das 12 meninas: eu.
Há muito o que dizer sobre os garotos, ou talvez não muito, pensando melhor.
Maurice Coster é um de meus muitos admiradores, mas é uma tremenda peste.
Sallie Springer tem uma mente imunda, e todo mundo fala que ele já fez de tudo. Mesmo assim, acho ele fantástico, porque é muito engraçado.
Emiel Bonewit é admirador de G.Z., mas ela nem liga. Ele é bem chato.
Rob Cohen também andou apaixonado por mim, mas não aguento mais ele. É um patetinha antipático, falso, mentiroso e manhoso que se acha simplesmente o máximo.
Max van de Velde é um camponês de Medemblik, mas um cara legal, como diria Margot.
Herman Koopman também tem a mente suja, como Jopie de Beer, que adora paquerar e é completamente louco pelas garotas.
Leo Blom é o melhor amigo de Jopie de Beer, mas foi prejudicado por sua mente suja.
Albert de Mesquita veio da Escola Montessori e pulou de ano. É inteligente de verdade.
Leo Slager veio da mesma escola, mas não é tão inteligente. Ru Stoppelmon é um garoto baixinho e bobo, de Almelo, que foi transferido para esta escola no meio do ano. C.N. faz tudo o que não deve.
Jacques Kocernoot senta atrás de nós, perto de C., e nós (G. e eu) morremos de rir.
Harry Schaap é o garoto mais decente de nossa turma. Ele é legal.
Werner Joseph também é legal, mas as mudanças que vêm acontecendo ultimamente fizeram ele ficar quieto demais, por isso parece chato.
Sam Salomon é um daqueles caras valentões e destrambelhados, um verdadeiro palhaço. (Admirador!)
Appie Riem é bem ortodoxo, mas também é um pestinha.” (Trecho de “O Diário de Anne Frank”, de Anne Frank)

Texto 02.
“A floresta é abundante em belezas; entre elas, samambaias que, embora não muito grandes, eram pela verde e brilhante folhagem e elegante curvatura de suas folhas, muito dignas de admiração.”
“É fácil especificar os objetos de admiração nesses cenários grandiosos, mas não é possível oferecer uma ideia adequada das emoções que sentimos, entre maravilhados, surpresos e com sublime devoção, capazes de elevar a mente.”
“Os brasileiros, até onde vai minha capacidade de julgamento, possuem somente uma pequena quantia daquelas qualidades que dão dignidade à humanidade. Ignorantes, covardes e indolentes ao extremo; hospitaleiros e bem-humorados enquanto isso não lhes causar problemas.”
“O senhor Earl viu um pedaço de um membro, que se arrancou com um aparelho de tortura, e que não sem freqüência eles guardam em casa.”
“O capitão Paget nos fez inúmeras visitas e é sempre muito divertido; ele mencionou em presença de pessoas que teriam, caso pudessem, contradito suas informações, alguns fatos sobre a escravidão tão revoltantes que, houvesse eu lido a respeito delas na Inglaterra, teria atribuído ao zelo crédulo de gente bem-intencionada. A extensão do comércio realizado; a ferocidade com que é defendido; as respeitáveis (!) pessoas que estão envolvidas nele passam longe de ser exageradas no que lemos.” (Charles Darwin, trechos do “Diário do Beagle”)

34 - Crônica - é um texto, originalmente do universo dos relatos históricos, que foi ao longo do século XX no Brasil mais afinado com o ambiente jornalístico. Apesar de se confundir com a linguagem jornalística hoje em dia, por vezes, aproxima-se da Literatura, mais em alguns autores, menos em outros, já que as liberdades linguísticas permitidas aos cronistas: o flerte com o humor, as analogias imprevisíveis e inusitadas, a tendência a conter fortes influências narrativas, a reinvenção na linguagem e a estrutura muito flexível tornam essa modalidade textual uma forma literária e jornalística em muitos casos difícil de classificar e delimitar, mas ainda uma ponte muito oportuna entre os jornais e a arte.
Isso se explica também por causa da opção de não se resumir o universo da crônica a relatos de cunho exclusivamente jornalístico e temporal, ou seja, focados no quem, quando, onde e por quê; ao contrário, o cronista prefere os debates acerca das artes; da vida aparentemente requintada dos ricos; da peleja da vida simples dos pobres; dos triunfos e dos fracassos do esporte, em especial do futebol; do deboche e do descaramento da vida política; dos acidentes e desgraças naturais ou não; e, obviamente, dos crimes e das boas ações que fazem do homem um ser tão paradoxal e fascinante; além disso, não escapam os pequenos eventos rotineiros e, para muitos, imperceptíveis. Enfim, tudo é assunto para esse gênero textual.

Texto 01.
Complexo de vira-latas
Por Nelson Rodrigues

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: - "O Brasil não vai nem se classificar!". E, aqui, eu pergunto: - não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?
Eis a verdade, amigos: - desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse "arrancou" como poderia dizer: - "extraiu" de nós o título como se fosse um dente.
E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: - é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: - o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: - se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.
Mas vejamos: - o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, "não". Mas eis a verdade: - eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: - sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado Flamengo. Pois bem: - não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.
A pura, a santa verdade é a seguinte: - qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: - temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de "complexo de vira-latas". Estou a imaginar o espanto do leitor: - "O que vem a ser isso?". Eu explico.
Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos "os maiores" é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: - e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: - porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.
Eu vos digo: - o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: - para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.
Texto 03.
Recado ao senhor 903
Rubem Braga

Vizinho,
Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento.
Recebi depois sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite – e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito, a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 – que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos: apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão; ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8:15 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas – e prometo silêncio.
Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: “Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou.” E o outro respondesse: “Entra, vizinho, e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela.”
E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz.

Texto 04.
O exercício da crônica
Vinicius de Moraes

O cronista trabalha com um instrumento de grande divulgação, influência e prestígio, que é a palavra impressa. Um jornal, por menos que seja, é um veículo de idéias que são lidas, meditadas e observadas por uma determinada corrente de pensamento formada à sua volta.
Um jornal é um pouco como um organismo humano. Se o editorial é o cérebro; os tópicos e notícias, as artérias e veias; as reportagens, os pulmões; o artigo de fundo, o fígado; e as seções, o aparelho digestivo - a crônica é o seu coração. A crônica é matéria tácita de leitura, que desafoga o leitor da tensão do jornal e lhe estimula um pouco a função do sonho e uma certa disponibilidade dentro de um cotidiano quase sempre “muito tido, muito visto, muito conhecido”, como diria o poeta Rimbaud.
Daí a seriedade do ofício do cronista e a freqüência com que ele, sob a pressão de sua tirania diária, aplica-lhe balões de oxigênio. Os melhores cronistas do mundo, que foram os do século XVIII, na Inglaterra - os chamados essayists - praticaram o essay, isto de onde viria a sair a crônica moderna, com um zelo artesanal tão proficiente quanto o de um bom carpinteiro ou relojoeiro. Libertados da noção exclusivamente moral do primitivo essay, os oitocentistas ingleses deram à crônica suas primeiras lições de liberdade, casualidade e lirismo, sem perda do valor formal e da objetividade. Addison, Steele, Goldsmith e sobretudo Hazlitt e Lamb - estes os dois maiores, - fizeram da crônica, como um bom mestre carpinteiro o faria com uma cadeira, um objeto leve mas sólido, sentável por pessoas gordas ou magras. (...)
Num mundo doente a lutar pela saúde, o cronista não se pode comprazer em ser também ele um doente; em cair na vaguidão dos neurastenizados pelo sofrimento físico; na falta de segurança e objetividade dos enfraquecidos por excessos de cama e carência de exercícios. Sua obrigação é ser leve, nunca vago; íntimo, nunca intimista; claro e preciso, nunca pessimista. Sua crônica é um copo d’água em que todos bebem, e a água há de ser fresca, limpa, luminosa, para satisfação real dos que nela matam a sede.

Texto 05.
A última crônica
Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.


35 - Autobiografia - gênero textual narrativo em que o escritor conta a sua própria vida ou parte dela em primeira pessoa do singular geralmente. Para escrever esse gênero textual, que pode conter quaisquer eventos capazes de compor uma história - das futilidades das celebridades instantâneas ou juvenis à relevância de pessoas com carreiras longas e profícuas ou mesmo autoras de obras e feitos extraordinários – além disso, pode ser escrita em prosa ou em verso, ainda que o primeiro caso seja muito mais comum. A linguagem empregada pode ir da mais absoluta e rigorosa aplicação da norma padrão à espontaneidade e descompromisso da linguagem popular. Essa modalidade textual pode conter ainda confissões, traços memorialísticos e cartas que revelam ou relembram as experiências e vivências da pessoa biografada. Tal gênero pode ser escrito em forma de memórias, diários, coleção de cartas, etc. São exemplos "Confesso que vivi", de Pablo Neruda; "50 anos a mil", de Lobão; "Saindo da sarjeta", de Charles Mingus; "As palavras", de Jean Paul Sartre; etc.

36 – Biografia - texto fundamentalmente narrativo que tem como foco e razão narrar as vivências, os feitos, as experiências, os fracassos, as conquistas, etc., de uma pessoa ao longo de toda a sua vida ou parte dela.  Nesse gênero textual, é fundamental o estabelecimento de uma ordem cronológica e organizada dos fatos narrados, com a ajuda de marcadores temporais como datas, aniversários, eventos históricos, etc. Além disso, a utilização de verbos na terceira pessoa do singular e de tempos verbais como o pretérito perfeito e o presente do indicativo são aspectos marcantes para a composição do texto biográfico. São exemplos "Vale tudo", sobre Tim Maia, escrita por Nelson Motta; "Anjo Pornográfico", sobre Nelson Rodrigues, escrita por Ruy Castro; etc.


37 - Relato - segundo o dicionário Houaiss, o termo “relatar” refere-se à exposição oral ou escrita de um fato ou mesmo narrar, expor, referir. Assim, percebe-se que a tipologia textual narrativa que é o principal mecanismo construtor do gênero textual relato, no qual se informa o leitor sobre alguma experiência de vida do escritor ou sobre algum acontecimento que ele tenha presenciado ou sabido. Diante disso, o relatar deve ser situado no tempo e no espaço. 
O relato é um gênero textual em que se conta um fato que ocorreu com o narrador ou com outra pessoa circunscrito a um intervalo específico e determinado de tempo, ainda que possa haver, embora incomuns, relatos construídos a partir de motes ficcionais. Também é comumente escrito com reflexões acerca das experiências vividas ou vivenciadas. Em outras palavras, geralmente, tais relatos devem nos servir para refletir sobre acontecimentos da vida e sobre o que aprendemos ao vivê-los. Um relato tem como características principais:

  1. Contextualização inicial do relato, identificando tema, espaço e período;
  2. Identificação do relator como sujeito das ações relatadas e experiências vivenciadas, ou seja, o narrador deve ser personagem, o que deve ser confirmado pela proposição geral da proposta de redação;
  3. O discurso indireto é a única possibilidade de comunicação das falas dos personagens do relato. O discurso direto será penalizado.
  4. É importante reforçar o uso de tempos verbais predominantemente no passado e com expressões temporais, como “Naquela manhã”, “Depois”, “Em seguida”, etc.;
  5. Linguagem informal é mais comum, ainda que isso dependa das orientações da banca sobre como proceder na confecção do texto.
Exemplos:

Texto 01.
João Carlos Martins herdou a paixão pela música de seu pai José, que teve seus estudos de piano interrompidos ainda na infância, quando perdeu um dos dedos da mão direita em uma máquina de corte, na gráfica onde trabalhava.
A paixão pela música, no entanto, seria passada para a próxima geração e o acidente ocorrido com sua mão foi o primeiro de uma série que iria marcar a história da família.
Em 1940 nasceu João Carlos Martins, 4º filho de José,  que logo se tornou amante da música, assim como seu irmão, José Eduardo. Desde as primeiras aulas de piano João já demonstrava grande talento, e aos 8 anos venceu seu primeiro concurso tocando obras de Bach.
João se tornou o maior intérprete mundial de Bach, mas teve vários incidentes ao longo da vida envolvendo suas mãos, que hoje estão atrofiadas.
Aos 63 anos João iniciou uma nova carreira, como regente e mais uma vez surpreendeu a todos com sua dedicação. Hoje com 69 anos, ele se sente agradecido por ser brasileiro e poder continuar levando a música às todas as camadas sociais, provando que ‘A música venceu’.”

Texto 02.
A reta final
Quando chegou meu primeiro dia de ir para escola estava muito ansiosa pensando o que iria encontrar pela frente. Crianças, iguais a mim, meus futuros amigos, professores, obstáculos e uma grande insegurança, pois estava deixando o aconchego da minha casa para compartilhar parte do meu dia com pessoas estranhas e diferentes.
Desde que iniciei na escola até hoje sempre gostei de estudar, aprender, trocar ideias acho que sempre temos algo á aprender e á ensinar. Pensava em dar continuidade aos estudos, em cursar nível superior, mas sem muitas condições financeiras, acabei adiando este sonho como tantas outras pessoas que lutam pra ingressar em uma faculdade, mas se limita a isso, apesar de minha família sempre me incentivar a estudar.
No ensino fundamental estudei em três escolas e no ensino médio em duas, apesar dos obstáculos que encontrei, como a mudança de uma escola para outra, a conquista de novas amizades e novos professores, nunca desisti, procurava me esforçar e conseguir terminar no mínimo o segundo grau. Foi o que fiz.
Passados alguns anos, depois de fazer alguns cursos, fui incentivada pelo meu namorado a prestar o vestibular, me inscrevi já com orgulho de mim mesma, pela coragem de encarar mais este obstáculo. Não imaginava que iria passar devido aos vários anos longe da escola. Além disso, surgia à dúvida entre qual curso eu escolheria. Fiz minha inscrição e decidi fazer Pedagogia, para minha surpresa passei em 1ª chamada, fiz minha matrícula e ingressei no curso.
Durante a minha caminhada tive algumas dúvidas se era realmente este caminho que gostaria de seguir, pensava: Vou ser professora, será que é isso que realmente quero... Ficava um pouco confusa, pois além da dúvida, havia as pessoas que criticavam as minhas escolhas, dizendo: Tu vai ser professora para ganhar uma miséria? Tranquei minha matrícula por dois anos, pensei, repensei e pensei de novo. Quando surgiram algumas especializações na área, decidi voltar, pois haveria mais opções de escolha dentro da área de Pedagogia e não somente dar aula. Se não me saísse bem na sala de aula, teria outras opções.
Hoje estou a um passo de concluir meu curso e sinto muito orgulho quando as pessoas perguntam quando vou me formar e posso responder: “Me formo ano que vem...”. Achava que este dia não iria chegar tão cedo. Imagino o dia da minha formatura, que as pessoas que eu amo estarão lá me assistindo, penso nos amigos torcendo por mim, pela minha conquista. Imagino a música tocando no momento que chamarem meu nome. Quero que este dia seja inesquecível, pois tenho certeza que naquele momento as pessoas próximas vão lembrar do quanto custou minha caminhada até realizar este sonho, as desilusões, as perdas e ganhos, as decepções até conseguir chegar aonde cheguei.
Relembro o início da minha vida como estudante e da satisfação em estar conquistando mais um sonho na minha vida, que quase estava sendo deixado de lado.
Mas não deixo de citar uma pessoa muito importante na realização desta conquista. Uma pessoa que sempre me ajuda muito que preciso, meu namorado Wagner, hoje meu marido. Graças ao incentivo dele, da sua insistência, da sua compreensão durante todos estes anos, estou na reta final da realização de mais um dos nossos sonhos, e espero que este seja apenas um alicerce que sustente os próximos sonhos que pretendemos realizar juntos. (Keli Cristina Till)

Texto 03.
[...] Em Santos, onde morávamos, minha mãe me lia histórias, meu pai gostava de declamar poesias. Foi em um momento da escola - 6ª série hoje – que li do começo ao fim um romance: Inocência, de Taunay. Essa é minha mais remota lembrança de leitura de um romance brasileiro. Lia o livro aberto nos joelhos, afundada numa poltrona velha e gorda, num quartinho com máquina de costura, estante cheia de livros e quinquilharias e vez ou outra atrapalhada por uma gata branca chamada Minnie.
Até então leitura era coisa doméstica. Tinha a ver apenas comigo mesma, com os livros que havia na estante de meu pai e com os volumes que avós, tias e madrinhas me davam de presente. No cardápio destas leituras, Monteiro Lobato com seu sítio do pica-pau amarelo, as aventuras de Tarzan, gibis e mais gibis.
Mas um dia a escola entrou na história.
Dona Célia, nossa professora de português, mandou a gente ler um livro chamado Inocência. Disse que era um romance. Na classe tinha uma menina chamada Maria Inocência. Loira desbotada, rica e chata. Muito chata. Alguma coisa em minha cabeça dizia que um livro com nome de colega chata não podia ser coisa boa.
Foi por isso que com a maior má vontade do mundo é que comecei a leitura do romance. O livro começou bem chatinho, mas depois acabei me interessando por ele. Não o incluo entre os melhores livros que li, mas foi ele quem me ensinou a ler romances e a gostar deles, desconfiando primeiro, abrindo trilhas depois e, finalmente, me entregando à história.
Depois vieram outros, em casa e na escola. Com o tempo virei uma profissional da leitura, dando aula de literatura em colégios, cursinhos e faculdades.
Assim, livros e leituras foram ocupando espaços cada vez maiores. Na minha casa e na minha vida. A estante do quartinho dos fundos ampliou-se. Falar de livros virou profissão e muitos outros romances brasileiros continuaram a construção da leitora que sou hoje. (Marisa Lajolo)

Texto 04.
“Noite escura, sem céu nem estrelas. Uma noite de ardentia. Estava tremendo. O que seria desta vez? A resposta veio do fundo. Uma enorme baleia, com o corpo todo iluminado, passava exatamente sob o barco, quase tocando-lhe o fundo. Podia ser sua descomunal cauda, de envergadura talvez igual ao comprimento do meu barco, passando por baixo, de um lado, enquanto do outro, seguiam o corpo e a cabeça. Com o seu movimento verde fosforescente iluminando a noite, nem me tocou, e iluminada seguiu em frente. Com as mãos agarradas na borda, estava completamente paralisado por tão impressionante espetáculo— belo e assustador ao mesmo tempo. Acompanhava com os olhos e a respiração seu caminho sob a superfície. Manobrou e voltou-se de novo, e, mesmo maravilhado com o que via, não tive a menor dúvida: voei para dentro, fechei a porta e todos os respiros, e fiquei aguardando, deitado, com as mãos no teto, pronto para o golpe. Suavemente tocou o leme e passou a empurrar o barco, que ficou atravessado a sua frente. Eu procurava imaginar o que ela queria.” (Amir Klink)  

38 - Carta argumentativa (UFU), impessoal ou formal - é um tipo de correspondência enviada em caráter formal para pessoas que não são conhecidas ou não são íntimas do autor dela. Sob alguns aspectos, muito parecida com a dissertação argumentativa, em especial em função do intuito persuasivo de ambos os textos.
Para efeito de esclarecimento, o que diferencia a carta argumentativa da dissertação é o tipo de argumentação que caracteriza cada um desses tipos de texto e algumas especificidades formais, estruturais e linguísticas que as definem. O texto dissertativo é dirigido a um interlocutor genérico, universal. Por outro lado, a carta argumentativa pressupõe um interlocutor específico para quem a argumentação estará orientada. Essa diferença de interlocutores deve necessariamente levar a uma organização textual, a escolhas linguísticas e a preocupações retóricas também diferentes. Até porque, na carta argumentativa, a intenção é frequentemente a de persuadir um interlocutor específico, a fim de convencê-lo do ponto de vista defendido por quem escreve a carta ou demovê-lo do ponto de vista por ele defendido.
Do ponto de vista técnico, é um tipo de correspondência com linguagem formal, ou seja, exige-se o uso de pronomes de tratamento adequados à posição ocupada pelo destinatário; o emprego da norma padrão; um processo de interlocução respeitoso; etc.
É importante justificar por que se solicita que a argumentação seja feita em forma de carta em situações de avaliação. Isso se dá em função do pressuposto de que, se é definido previamente quem é o interlocutor sobre um determinado assunto, há melhores condições de fundamentar uma argumentação e avaliar a capacidade do candidato de moldar sua linguagem, seus argumentos e a informação de acordo com seu interlocutor.
Embora o foco da carta seja um determinado tipo de argumentação, ela implica também algumas expectativas quanto à forma do texto. Por exemplo, é necessário estabelecer e manter a interlocução, usar uma linguagem compatível com o interlocutor, empregar referenciais espaciais e temporais, usar marcas de autoria ao longo de toda a carta, assinar quando for solicitado, etc.
Para o cumprimento da proposta em que é exigida uma carta argumentativa, não basta dar ao texto a organização de uma carta, mesmo que a interlocução seja natural e coerentemente mantida; é necessário, acima de tudo, argumentar por demanda, que é, em princípio, o entendimento sobre as motivações, as fraquezas e as preferências do destinatário da correspondência.

Características principais da carta argumentativa (impessoal) em vestibulares, especialmente, na UFU:
  1. Data, vocativos (saudações inicial e final) e assinatura são obrigatórios;
  2. No corpo do texto, nas saudações e na assinatura, deve-se respeitar o recuo nos parágrafos, portanto apenas a data deve estar junto à margem esquerda;
  3. O uso da primeira pessoa do singular deve ser recorrente, ao menos uma vez em cada parágrafo;
  4. A interlocução com o uso da segunda pessoa do discurso ou de pronomes de tratamento também deve ser recorrente, por isso deve haver referências ao interlocutor ao menos uma vez em cada parágrafo;
  5. Formas verbais no presente do indicativo devem predominar;
  6. Linguagem impessoal e de acordo com a norma padrão é obrigatória;
  7. É desejável que haja dados de personificação, ou seja, é importante que seja criado um locutor que mostre competência para discutir o assunto da carta (máscara);
  8. O uso adequado de pronomes de tratamento será avaliado; 
  9. Neste gênero textual, as informalidades, os coloquialismos e os regionalismos são penalizados;
  10. Devem-se evitar abreviações de pronomes de tratamento em cartas;
  11. A paráfrase é possível, mas não mais é exigida em qualquer um dos gêneros textuais da UFU a partir do vestibular de 2017
Objetivo – comunicar a opinião particular de uma pessoa a respeito de assunto variado por meio de uma correspondência destinada ao um interlocutor com o qual o autor da carta não tem intimidade. 
Estrutura – rígida e com presença de datação, saudação inicial, corpo do texto, saudação final e assinatura (quando solicitado).
Argumentação – é construída por demanda, já que o destinatário dela é conhecido, mas via de regra exige-se as mesmas condutas de outros textos argumentativos com a possibilidade de usar relações de causa e consequência, argumentos de autoridade, etc .
Pessoa do discurso – 1ª pessoa do singular é obrigatória para indicar a autoria da carta, tanto quando a 2ª pessoa ou pronome de tratamento devem ser usadas com a frequência de ao menos uma vez por parágrafo.
Linguagem – clara, objetiva e adequada às normas gramaticais por padrão, inclusive com o uso adequado de pronomes de tratamento. 
Máscara – desejável, porque é capaz de mostrar a qualificação do autor da carta para tratar do assunto abordado nela.
Assinatura – exigida (UFU) e sem ponto final.

Observação importante: lembro que os exemplos abaixo são oriundos da produção dos alunos, embora tenha recebido adaptações para adequarem-se mais amplamente às novas exigências da UFU a partir de 2017. 

Exemplos:

Texto 01. (padrão de recuos UFU atualizado em 2017)

Uberlândia, 11 de setembro de 2017.

Excelentíssimo Senhor Ministro da Educação,

Ao analisar os diversos problemas enfrentados pelos brasileiros, como pedagoga, percebi que a educação apresenta-se como um dos mais graves. Apesar da queda do analfabetismo na última década, tão propagandeada pelo Ministério do qual Vossa Excelência é o líder, ainda assumimos uma posição vergonhosa no “ranking” de desempenho educacional na América Latina.
Essa questão torna-se complexa, pois está relacionada a diversos problemas nacionais como a desigualdade na distribuição de renda, a exploração do trabalho infantil, dificuldades no acesso às escolas, exploração sexual de crianças e adolescentes,, etc. o que, penso eu, perfaz um conjunto de severas e preocupantes realidades, que separam cada vez mais as famílias em situação de vulnerabilidade social do sistema regular de ensino, como o Excelentíssimo Ministro deve saber.
As deficiências no processo de ensino-aprendizagem também merecem atenção, Vossa Excelência, principalmente nos primeiros anos escolares, tais como: metodologias de ensino inadequadas, carências de recursos humanos e materiais, péssimo sistema de transporte escolar, além de baixos salários dos profissionais da educação. Para mim, esses são os elementos mais importantes que contribuem para a evasão escolar e para a má qualidade do serviço prestado à população.
Diante de tal situação, precisamos, ainda, percorrer um árduo caminho para que possamos ter um país que trate a educação com a seriedade merecida. Sendo assim, a valorização do magistério, a informatização ampla e democrática das escolas, a capacitação profissional contínua e de qualidade, além de um melhor planejamento para a destinação dos recursos aparecem como estratégias importantes, para transformar o sistema educacional em um serviço eficiente e eficaz. Ressalto que esta carta dirigida ao Excelentíssimo Ministro é apenas uma contribuição sobre o que é de amplo conhecimento, mas, de toda forma, meu dever como cidadã e eleitora é reforçar o que entendo que o povo tem como prioridade para os gastos públicos.

Respeitosamente,

Josefa

(Redação adaptada de aluno.)

Texto 02. (padrão de recuos UFU atualizado em 2017)

Uberlândia, 12 de fevereiro de 2017.

Senhor Edward Snowden,

Tendo em vista o ocorrido com o acervo de informações da Agência Nacional de Segurança (NSA, em inglês) recentemente, impus-me a tentativa de compreender quais motivos – justificáveis ou não – levaram o Senhor a denunciar o ataque ao direito de privacidade articulado pelos Estados Unidos da América por meio dessa instituição governamental. Minha nacionalidade brasileira e meu diploma de advogado, obrigou-me a considerar ilegal e antiética a invasão da segurança de nossa presidente Dilma Roussef, e não menos alarmante o fato de ter ocorrido o mesmo à chanceler alemã, Angela Merkel.
Agradou-me, pois, coragem do Senhor de mostrar ao mundo a situação de falta de privacidade na qual a maioria de nós encontra-se. Foi, portanto, altruísta e elevada a sua atitude. Vale-se dizer que a espionagem norte-americana atinge a liberdade de expressão e de privacidade de milhões de indivíduos. Nesse contexto, sendo o controle total dos sistemas de tráfego de dados o principal objetivo do sistema da agência NSA, há de se rever a fiscalização constante das “ações-unidas” ratificada por Navy Pillay, chefe da Organização das Nações Unidas (ONU) para direitos humanos - como segurança e privacidade.
No âmbito de tal assunto, Senhor Snowden, aconselho-o a continuar o movimento – o qual talvez não saiba que iniciou – a favor da segurança e da privacidade, ainda mais, na era digital. Soma-se a isso o fato de os programas norte-americanos acessarem dados quaisquer com a alegação de necessidade protecionista no que se diz respeito ao terrorismo, embora tal interesse (de origem no século passado, no período da Guerra Fria) seja útil apenas a interesses estadunidenses - na minha opinião.
Desse modo, estimado Senhor Edward Snowden, aprovo seu ato de defender o direito da população mundial de manter sua privacidade, portanto ter tornado públicos documentos tidos como provas de espionagem norte-americana é justo e ético quando se pensa no bem comum e na Declaração Universal dos Direito Humanos.

Respeitosamente,

Josefa

(Redação adaptada de aluno.) 

39 - Carta pessoal ou informal - É outra forma de correspondência caracterizada pelo tom informal, pelo envio de correspondência geralmente para uma pessoa conhecida ou íntima e pelo descompromisso com algumas convenções formais típicas de cartas remetidas a desconhecidos ou produzidas em um ambiente profissional ou acadêmico.
Esse subtipo de gênero textual é de difícil definição porque oscila em termos técnicos de acordo com o interlocutor, pois se o destinatário for irmão do remetente a proximidade entre os dois será expressa por meio da linguagem de forma distinta de uma carta endereçada a um pai ou avô, ou seja, exige-se a modulação do discurso em função do interlocutor em uma específica situação comunicativa.
Quanto a questões estruturais como datação, saudações, etc., é importante que, em concursos, sejam respeitadas essas necessidades, visto que as mudanças na carta pessoal comparada à impessoal ou argumentativa são apenas de cunho linguístico.

Características principais da carta pessoal em vestibulares:

  1. Data, vocativos (saudações inicial e final) e assinatura são obrigatórios;
  2. No corpo do texto, nas saudações e na assinatura, deve-se respeitar o recuo nos parágrafos, portanto apenas a data deve estar junto à margem esquerda.
  3. O uso da primeira pessoa do singular deve ser recorrente, ao menos uma vez em cada parágrafo;
  4. A interlocução com o uso da segunda pessoa também deve ser recorrente, por isso deve haver referências ao interlocutor ao menos uma vez em cada parágrafo;
  5. Formas verbais no presente do indicativo devem predominar;
  6. Uso de uma linguagem pessoal é aconselhável para mostrar algum nível de intimidade com o interlocutor (destinatário) da carta;
  7.  O texto deve também respeitar a norma padrão, ainda que gírias e oralidades possam ser aceitas pontualmente se a relação entre os interlocutores permitir;
  8. Há a necessidade dos dados de personificação, ou seja, é importante que seja criado um locutor que mostre qual a relação que existe entre os interlocutores, no caso da carta pessoal, preferencialmente, com algum nível de intimidade;
  9. O uso adequado de pronomes de tratamento será avaliado, ainda que senhor e você sejam os mais esperados;
  10. Nesse gênero, as informalidades, os coloquialismos e os regionalismos são possíveis, embora seja aconselhável cuidado para não exagerar em seu uso;
  11. Devem-se evitar abreviações de pronomes de tratamento em cartas;
  12. A paráfrase exigida pela UFU nos gêneros textuais do vestibular deve ter ao menos 2 linhas.
Objetivo – comunicar a opinião particular de uma pessoa a respeito de assunto variado por meio de uma correspondência destinada ao um interlocutor conhecido com o qual se tem algum nível de intimidade. 
Estrutura – rígida e com presença de datação, saudação inicial, corpo do texto, saudação final e assinatura (quando solicitado).
Argumentação – é construída por demanda, já que o destinatário dela é conhecido, mas via de regra responde bem às mesmas condutas de outros textos argumentativos com a possibilidade de usar relações de causa e consequência, argumentos de autoridade, etc .
Pessoa do discurso – 1ª pessoa do singular é obrigatória para indicar a autoria da carta, tanto quando a 2ª pessoa ou pronome de tratamento devem ser usadas com a frequência de ao menos uma vez por parágrafo .
Linguagem – clara, objetiva e adequada às normas gramaticais por padrão, ainda que se aceite pontualmente o uso de expressões como gírias, coloquialidades e oralidades como forma de personalizar o discurso do autor da carta e a relação dele com o destinatário. 
Máscara – obrigatória e capaz de mostrar mudanças relevantes na vida do autor da carta que podem credenciá-lo a escrever sobre o assunto.
Assinatura – exigida e sem ponto final.

Observação importante: lembro que os exemplos abaixo são oriundos da produção dos alunos ou de veículos midiáticos, assim tem virtudes e defeitos que serão apontados em sala de aula, já que respondem a situações de produção diferentes das de concurso ou mostram dificuldades linguísticas, estruturais e temáticas.

Exemplos:

Texto 01.
Londres, 3 de janeiro de 1945.

Meu caro Mário,

Coincidência: sua carta me chega na manhã mesma em que lhe estou mandando seus três Mirós. Portanto, a pergunta última que você me fez está respondida. Botei dedicatória no seu e deixei os outros em branco. Como você os oferece, você é que deve dedicá-los.
Vejo que você continua o mesmo lírico de antigamente. Como já o conhecia, sei que o atual lirismo não é questão de cerveja. Aliás: há cerveja aí?
Vejo também que você continua adiando o nosso encontro. O Geraldo, com quem estive há dois dias em Paris, também prometeu vir e não veio. Veja se se decide, hombre!

Grande abraço. (...)

Do seu

João Cabral de Melo Neto

Texto 02.
Meu Bebé pequeno e rabino,

Cá estou em casa, sozinho, salvo o intelectual que está pondo o papel nas paredes (pudera! havia de ser no tecto ou no chão!); e esse não conta. E, conforme prometi, vou escrever ao meu Bebezinho para lhe dizer, pelo menos, que ela é muito má, excepto numa coisa, que é na arte de fingir, em que vejo que é mestra.
Sabes? Estou-te escrevendo mas não estou pensando em ti . Estou pensando nas saudades que tenho do meu tempo da caça aos pombos ; e isto é uma coisa, como tu sabes, com que tu não tens nada...
Foi agradável hoje o nosso passeio — não foi? Tu estavas bem disposta, e eu estava bem disposto, e o dia estava bem disposto também (O meu amigo, não. A. A. Crosse: está de saúde — uma libra de saúde por enquanto, o bastante para não estar constipado).
Não te admires de a minha letra ser um pouco esquisita. Há para isso duas razões. A primeira é a de este papel (o único acessível agora) ser muito corredio, e a pena passar por ele muito depressa; a segunda é a de eu ter descoberto aqui em casa um vinho do Porto esplêndido, de que abri uma garrafa, de que já bebi metade. A terceira razão é haver só duas razões, e portanto não haver terceira razão nenhuma. (Álvaro de Campos, engenheiro).
Quando nos poderemos nós encontrar a sós em qualquer parte, meu amor? Sinto a boca estranha, sabes, por não ter beijinhos há tanto tempo... Meu Bebé para sentar ao colo! Meu Bebé para dar dentadas! Meu Bebé para... (e depois o Bebé é mau e bate-me...) «Corpinho de tentação» te chamei eu; e assim continuarás sendo, mas longe de mim.
Bebé, vem cá; vem para o pé do Nininho; vem para os braços do Nininho; põe a tua boquinha contra a boca do Nininho... Vem... Estou tão só, tão só de beijinhos ...
Quem me dera ter a certeza de tu teres saudades de mim a valer . Ao menos isso era uma consolação... Mas tu, se calhar, pensas menos em mim que no rapaz do gargarejo, e no D. A. F. e no guarda-livros da C. D. & C.! Má, má, má, má, má...!!!!!
Açoites é que tu precisas.
Adeus; vou-me deitar dentro de um balde de cabeça para baixo para descansar o espírito. Assim fazem todos os grandes homens — pelo menos quando têm — 1º espírito, 2º cabeça, 3º balde onde meter a cabeça.

Um beijo só durando todo o tempo que ainda o mundo tem que durar, do teu, sempre e muito teu,

Fernando (Nininho).
5.4.1920

Texto 03. (padrão de recuos UFU a partir de 2015)
Uberlândia, 30 de abril de 2013.

         Querido amigo,

        Só eu sei como você é desatento e despreocupado com as regras de boas maneiras. Conforme nossa amizade foi solidificando-se, acostumei-me com o seu jeito e aprendi que quando você esquece das datas de aniversário de seus amigos ou não responde alguns “emails” não tem a intenção de magoar ninguém, pois por trás desses descuidos não há desavenças pessoais. No entanto, agora você está com um “smartphone” posso tentar lhe ajudar a romper com essa falta de gentileza mais facilmente.
     Sei que a sociedade moderna capitalista, na qual vivemos, contribui  sobremaneira para acentuar em nós sentimentos individualistas. Logo, as pessoas estão quase sempre apressadas para cumprirem seus muitos afazeres. Nesse sentido, a preça favorece que sejamos, por vezes, deseducados e grosseiros, por exemplo, no trânsito. Porém, eu quero lhe mostrar que todo esse estresse só tende a lhe fazer mal, tornando-o um cara agressivo e desequilibrado.
       Para sua própria saúde física e mental é importante que você mantenha com as pessoas próximas relações harmoniosas portanto, responda, mesmo na internet, os convites de seus amigos até quando não houver meios de vir aos encontros propostos por eles. Além disso, pare com essa sua mania de atender o celular durante o almoço ou no meio de conversas. Entenda que a pessoa ao seu lado quer a sua companhia e atenção. Garanto lhe que o mundo não acabará se seu telefone ficar desligado por poucos minutos.
Espero, querido, que você compreenda minha iniciativa, pois não pretendo-lhe dar lições de moral, mas somente demonstrar a você que a convivência com aqueles que gostamos pode ser bem mais agradável. Olha só! Você não precisa e nem deve ser falso na tentativa de ser mais gentil. Só seja mais gentil com aquelas pessoas, pelos quais tem apreço. Até porque, creio que a gentileza só faz sentido quando parte de intenções genuínas e sinceras. Não se esqueça! Estou aguardando notícias suas, mas se quiser pode responder via SMS.

        Com muitas saudades.

        Josefa

40 - Carta de reclamação - tipo de correspondência com o objetivo de informar a respeito de um problema ocorrido com o autor dela ou com alguém que ele represente, a fim de que ele seja resolvido de alguma forma. Quanto à estrutura assemelha-se muito com a carta formal.
É considerado um texto persuasivo e argumentativo, ainda que muito dependa da capacidade de expor de forma clara e precisa o problema para que o interlocutor entenda a razão da reclamação. Apenas depois disso, a argumentação justifica-se com o intuito de convencer o destinatário a, por algum meio, contribuir para a solução do problema relatado na carta.

Texto 01.
Belo Horizonte, 29 de Fevereiro de 2009.

Assunto: computador entregue com estragos aparentes.

Aos Senhor (es) diretores da Empresa Y,

No último dia 05 de Fevereiro, dirigi-me ao seu estabelecimento, situado na Rua do equívoco, nº 2, como endereçado, a fim de comprar um computador. Após escolher o modelo que me interessou, solicitei que a mercadoria fosse entregue na minha casa. Para tanto, assinei a nota de encomenda e paguei a taxa para que fosse realizado o serviço.
No dia 10 do mesmo mês, foi-me entregue o computador encomendado, no entanto, após ligar o aparelho na tomada constatei que o mesmo emitia mais de 8 apitos e não funcionava. Diante deste fato, recusei o computador e solicitei que me fosse enviado outro exemplar em excelente estado, o que faria jus ao valor já pago. Entretanto, até a presente data continuo à espera.
O atraso na resolução do problema vem ocasionado vários transtornos ao meu cotidiano. Por este motivo, demando que outro computador de mesma marca e modelo seja entregue, sem falta, dentro de 3 dias úteis. Caso contrário, anularei a compra e exijo o dinheiro do pagamento de volta.

Cordialmente,

João da Silva

(Se necessário o envio de anexos, é interesse informar na carta como exemplificado abaixo.)

Anexos: fotocópias da nota fiscal de compra e do recibo da taxa de entrega.

41 - Carta de leitor - tipo de correspondência com o objetivo de demonstrar apoio, discordar, corrigir, em suma, comentar de alguma forma uma matéria, reportagem, artigo, etc., que foi publicado no veículo de informação. Normalmente, tem uma estrutura muito parecida com a carta formal, ainda que a parte publicada seja sempre pouco maior que um parágrafo em virtude do espaço limitado. 
Esse tipo de correspondência é normalmente direcionada aos editores ou redatores-chefes do veículo de comunicação em questão. Ela deve citar a reportagem, crônica, linha editorial, etc., sobre a qual trata a carta e deve muito clara e educadamente argumentar em favor de sua tese, pois, do contrário, nem mesmo um trecho da carta será publicado. Quando cartas de leitores são postadas na íntegra, o são em função da relevância institucional, da fama ou da competência profissional do autor dela ou mesmo da qualidade da discussão feita pelo leitor, o que é mais raro.
É considerado um texto persuasivo e argumentativo, ainda que muito dependa da capacidade de expor de forma clara e precisa o problema para que o interlocutor entenda a razão da reclamação. Apenas depois disso, a argumentação justifica-se com o intuito de convencer o destinatário a, por algum meio, contribuir para a solução do problema relatado na carta.
Segue o link de exemplos de trechos de cartas provavelmente muito maiores enviadas ao jornal Folha de São Paulo:

Texto 01.

Texto 02.

Texto 03.
Prezados Senhores,

Desde maio de 2000, o filósofo Olavo de Carvalho tem escrito semanalmente artigos para o jornal O Globo e para a revistaÉpoca, nos quais tem abordado, de forma cristalina e muitas vezes contundente, sempre com impressionantes inteligência e erudição, temas fundamentais para o homem moderno, e principalmente pontos cruciais da história e da política nacional e internacional. Olavo tem sido um dos poucos se não o único intelectual brasileiro a analisar os problemas e a história do pensamento nacional por um ângulo que não seja o esquerdista, normalmente unilateral e engessado pelos dogmas marxistas. Se seu texto só tivesse essa única qualidade, já mereceria nosso louvor, ou no mínimo nossa atenção. Mas Olavo tem sido uma "vox clamantis in deserto". Em vez de encetar diálogos honestos e dignos, como convêm a todo intelectual digno do nome, seus artigos tem sido solenemente ignorados pela intelligentsia esquerdista, por motivos que podemos detectar mas que não vêm ao caso agora. E, para nossa surpresa, justamente a revista Época, que vinha possibilitando a um número expressivo de leitores a oportunidade de ler os excelentes textos de O. de Carvalho, parece ter decidido impor-lhe o mesmo silêncio com que nossaintelligentsia tem "reagido" aos seus textos, vetando-lhe o artigo que seria publicado na edição de 03/11. Não podemos aceitar que uma revista prestigiosa como a Época, que vinha demonstrando ser imparcial e aberta às diversas tendências e enfoques de análise jornalística e intelectual, venha perpetrar tal censura (essa é a palavra) a um de seus mais importantes articulistas. Ressalte-se o fato de que na Época (e também em O Globo) os textos de Olavo saem (ou saíam?) sempre na sessão "Opinião", o que exime a revista de qualquer responsabilidade ou compromisso com as idéias do articulista. Ainda assim seu último texto foi proibido. O que (ou quem) levou Época a tal decisão? Reconhecemos que os editores (e os donos) de um veículo de imprensa devem ter autonomia para decidir o que publicar, mas nos causa espécie o fato de um articulista acima da média ser sumariamente censurado, sobretudo nesse país em que a palavra "censura" se tornou um verdadeiro anátema, principalmente nos meios esquerdistas. Manifesto aqui o meu repúdio à censura imposta por Época ao filósofo Olavo de Carvalho, na esperança de que não percamos o privilégio e a oportunidade de ler, nessa conceituada revista, os textos de um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve. Pois não será outro o requisito que diferencia um veículo de imprensa dos demais se não a imparcialidade.

Cordialmente,

Fulano de tal, RJ.



42 - Carta de solicitação - tipo de correspondência com o objetivo de solicitar algo a alguém ou a uma instituição. É mais comum no âmbito comercial. Quanto à estrutura assemelha-se muito com a carta formal, por isso é considerada um texto persuasivo e argumentativo, ainda que muito dependa da capacidade de expor de forma clara e precisa o que está sendo solicitado pelo autor da carta. Normalmente, são solicitados por meio desse tipo de carta: pareceres profissionais, documentos, explicações, etc. É fundamental que a solicitação seja feita com polidez e clareza, porque, sem essa preocupação, mesmo que haja razão e bom senso no que é solicitado, não será atendida pelo destinatário da correspondência.

Texto 01.

Texto 02.

43 - Carta aberta - tipo de correspondência que trata de assuntos de interesse coletivo de forma pública. Quanto à linguagem e à estrutura, assemelha-se à carta formal, mas o conteúdo é restrito a assuntos que ou são de interesse público ou deveriam ser. É frequentemente usada como forma de protesto, como alerta, por isso são utilizados na construção dela recursos fortemente argumentativos.


Texto 01.

Carta aberta de artistas brasileiros sobre a devastação da Amazônia,

Acabamos de comemorar o menor desmatamento da Floresta Amazônica dos últimos três anos: 17 mil quilômetros quadrados. É quase a metade da Holanda. Da área total já desmatamos 16%, o equivalente a duas vezes a Alemanha e três estados de São Paulo. Não há motivo para comemorações. A Amazônia não é o pulmão do mundo, mas presta serviços ambientais importantíssimos ao Brasil e ao Planeta. Essa vastidão verde que se estende por mais de cinco milhões de quilômetros quadrados é um lençol térmico engendrado pela natureza para que os raios solares não atinjam o solo, propiciando a vida da mais exuberante floresta da terra e auxiliando na regulação da temperatura do Planeta.

Depois de tombada na sua pujança, estuprada por madeireiros sem escrúpulos, ateiam fogo às suas vestes de esmeralda abrindo passagem aos forasteiros que a humilham ao semear capim e soja nas cinzas de castanheiras centenárias. Apesar do extraordinário esforço de implantarmos unidades de conservação como alternativas de desenvolvimento sustentável, a devastação continua. Mesmo depois do sangue de Chico Mendes ter selado o pacto de harmonia homem/natureza, entre seringueiros e indígenas, mesmo depois da aliança dos povos da floresta “pelo direito de manter nossas florestas em pé, porque delas dependemos para viver”, mesmo depois de inúmeras sagas cheias de heroísmo, morte e paixão pela Amazônia, a devastação continua.
Como no passado, enxergamos a Floresta como um obstáculo ao progresso, como área a ser vencida e conquistada. Um imenso estoque de terras a se tornarem pastos pouco produtivos, campos de soja e espécies vegetais para combustíveis alternativos ou então uma fonte inesgotável de madeira, peixe, ouro, minerais e energia elétrica. Continuamos um povo irresponsável. O desmatamento e o incêndio são o símbolo da nossa incapacidade de compreender a delicadeza e a instabilidade do ecossistema amazônico e como tratá-lo.
Um país que tem 165.000 km2 de área desflorestada, abandonada ou semiabandonada, pode dobrar a sua produção de grãos sem a necessidade de derrubar uma única árvore. É urgente que nos tornemos responsáveis pelo gerenciamento do que resta dos nossos valiosos recursos naturais.
Portanto, a nosso ver, como único procedimento cabível para desacelerar os efeitos quase irreversíveis da devastação, segundo o que determina o § 4º, do Artigo 225 da Constituição Federal, onde se lê:
"A Floresta Amazônica é patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais"
Assim, deve-se implementar em níveis Federal, Estadual e Municipal:  a interrupção imediata do desmatamento da floresta amazônica. Já!
É hora de enxergarmos nossas árvores como monumentos de nossa cultura e história.

Somos um povo da floresta!

Texto 02.

44 - "E-mail" ou correio eletrônico - tipo de correspondência que permite compor, enviar e receber mensagens com ou sem anexos por meio de redes de comunicação com a internet e “intranets”. Ainda que seja um meio de se comunicar dependente da internet atualmente, é mais antigo, pois remonta ao tempo da Arpanet, que era uma rede de uso fundamentalmente militar e científico. Quando a internet surge em meados de 1970, são desenvolvidas as bases do serviço do qual centenas de milhões de pessoas fazem uso na atualidade. Usualmente a estrutura é composta de destinatário, assunto, saudação inicial, corpo do texto, saudação final e assinatura. 

Texto 01.

45. Discurso - exposição oral de improviso ou escrita previamente pelo próprio autor ou por outra pessoa para ser proferida em público. Caso não seja improvisado, o discurso pode ser lido no momento de sua exposição ou exposto sem auxílio de papel ou recurso eletrônico, porque memorizado. 

Texto 01.
Nota: discurso para os EUA sobre a morte de Osama Bin Laden.

Texto 02.
Nota: discurso histórico do pastor Martin Luther King Jr. no contexto do movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA.

46. Roteirotexto criado a partir de uma ideia com o intuito de se contar uma história que será transformada em um filme ou novela. Nele, serão indicadas além das falas dos atores com as respectivas rubricas, assim como serão informadas as sequências, os cenários, a sonoplastia, etc. Similar a esse gênero textual, a peça teatral é criada com intenção semelhante, mas para que seja encenada em um palco.

Texto 01.
Nota: roteiro do clássico "O bandido da luz vermelha".

Aprofundamento: 

47. Obituário - texto comumente encontrado em jornais e revistas, que tem o intuito de comunicar o falecimento de alguém. Pode conter elogios e informações biográficas e tem tamanho variado.

Texto 01.
Nota: obituário para Muhammad Ali.

48. Aforismo - texto célebre que é a todo de uma expressão de uma pessoa normalemente famosa por alguma aptidão que passa ser citado com frequência como forma de ilustração ou discurso de autoridade. Também pode ser um verso, um trecho de uma obra literária ou não, etc., enfim é um texto curto que consegue ser impactante e ao mesmo tempo ter significado para uma grande número de pessoas.

Texto 01.
“O ato de entender é vida.” (Aristóteles)

Texto 02.
“O conhecimento também é poder.” (F. Bacon)

Texto 03.
“A igualdade não gera guerras.” (Sólon, político inglês)

Texto 04.
“A humanidade é a imortalidade dos mortais.” (L. Börne, escritor alemão) diferença

Texto 05.
“O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.” (Padre Antônio Vieira)

Texto 06.
“O pensamento é algo que dá vertigem.” (D. Hammett, escritor norte-americano)

Texto 07.
"O primeiro rascunho de qualquer coisa é uma merda." (Ernest Hemingway)

49. Comentário de intenet - é um texto opinativo, normalemte conciso, em que se comunica uma opinião sobre um fato de relevância social ou pessoal. O autor é sempre identificado - sem uso de assinaturas - por recursos típicos de redes sociais e afins. Comentários dessa natureza podem ser vistos em "sites", blogues, redes sociais, etc. Não há uma estrutura fixa, mas é possível perceber alguns padrões, tais como: introdução em que se faz referência ao que será comentado tanto de forma detalhada quanto com referências mais genéricas; a argumentação pode osclilar entre a científica e a baseada em impressões não necessariamente confirmadas pela ciência; além disso, não há necessidade de concluir, mesmo porque o comentário pode ser o início de um diálogo entre o comentarista e o autor do texto que se comenta.

50. Poema - um texto em versos dividido normalmente em estrofes, em que é comum haver musicalidade entre as palavras utilizadas por meio do uso de rima, ritmo e, por vezes, métrica. Há vários tipos de composição poemática de forma fixa, são algumas delas: haicai, soneto, balada, rondó (rondel), trova, sextina, etc.

Texto 01.
Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho! (Mário Quintana)

Texto 02.
A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. (Carlos Drummond de Andrade)

Texto 03.
Não há Vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira. (Ferreira Gullar)

Texto 04.

M. de memória



Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda. (Paulo Leminski)

Texto 05.

Todas as Vidas



Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera
das obscuras! (Cora Coralina)


51. Dissertação - é um gênero textual produto das interações entre certas tipologias textuais, em especial, a argumentação e a exposição, ainda que descrição e narração possam ser usadas como recursos para construção particularmente de argumentos. Este gênero textual é empregado de forma regular para comunicar e documentar debates de cunho científico, acadêmico, estético, etc., com o intuito de comunicar a posição de alguém sobre determinado tema de forma organizada, laica, contundente e respeitosa em relação a princípios do pensamento lógico, científico e formal. Em função disso, o meio mais tradicional de abordar a teoria de gêneros textuais em vestibulares é a dissertação argumentativa.

Objetivo – defender uma tese por meio de argumentação científica e baseada em premissas lógicas e comprováveis.
Estrutura – tem três partes com objetivos bastante específicos: introdução, desenvolvimento e conclusão. -      Deve ser escrita sempre com o mínimo de quatro parágrafos.
Argumentação – baseada em diversos princípios retóricos como analogias, estatísticas, argumentos de autoridade, referências históricas, etc.
Pessoa do discurso - Linguagem impessoal (3ª pessoa do singular e plural).
Linguagem - objetiva, denotativa, adaptada ao Novo Acordo Ortográfico, compatível com a norma padrão prevista nas gramáticas normativas e com vocabulário ajustado ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp).
Máscara – proibida em função da impessoalidade do texto.
Título - Enem (facultativo). Demais vestibulares (depende de orientações específicas). UFU (obrigatório).
Observação final - as considerações deste material são aplicáveis integralmente a textos de cerca de 30 linhas. Para os expressivamente menores ou maiores, é importante salientar que essas orientações devem ser flexibilizadas.

Texto 01.
Questão indígena: entre injustiças e negligências

As injustiças históricas relativas às questões indígenas são uma das discussões mais relevantes e ao mesmo tempo mais negligenciadas no Brasil contemporâneo, apesar dos inúmeros desafios urgentes relativos a esse assunto. Por isso, é fundamental para a existência futura das culturas indígenas que haja debates e ações públicas humanistas, tolerantes e respeitosas a fim de perpetuar essas importantíssimas matrizes da sociedade brasileira.
Para tanto, é imprescindível o reconhecimento da riqueza cultural multifacetada dos indígenas, com o objetivo de que, por meio de intervenções midiáticas permanentes, por exemplo, possa haver uma mudança significativa na visão que a maioria dos cidadãos brasileiros tem desses povos ainda muito submetida a ideias associadas ao preconceito e à desinformação. Tal fato é evidente por causa das muitas menções em livros, piadas, etc., a um “índio” visto como preguiçoso, sujo ou imoral. Isso ainda ocorre por causa da força das concepções surgidas muitas vezes na pseudociência cientificista do século XIX, que produziu um evidente paradoxo chamado Racismo Científico.
Outro aspecto relevante para a compreensão dessa complexa questão é a falta quase absoluta de representação política dos povos autóctones no Brasil, o que explica e mesmo fomenta o preconceito e a exclusão social dos quais esses grupos são vítimas. Isso se amplia quando até na Fundação Nacional do Índio (Funai), eles têm pouca ou nenhuma interferência direta nas decisões tomadas pelo órgão em relação a diversas causas muito importantes para eles, como no caso da demarcação de terras e dos conflitos que têm ocorrido no País por causa de disputas territoriais, que, aliás, acontecem ao menos desde o tempo das Capitanias Hereditárias.


Conclusão por meio de propostas de intervenção

Logo, para que possa ser revertida a situação desumana a que muitos desses povos estão submetidos, é fundamental que a Funai democratize suas instâncias decisórias a fim de ampliar a participação de índios no seu cotidiano institucional. Também é importante a criação de cotas para indígenas em Câmaras Legislativas de forma proporcional à presença deles na população brasileira, o que ficaria a cargo de medida provisória apresentada pelo governo federal à Câmara dos deputados.

Conclusão por meio de resumo e ratificação

Dessa forma, é evidente que há uma origem histórica para a discriminação sistemática sofrida pelos índios no Brasil, o que produziu uma visão estreita e anacrônica sobre esses povos por parte da ampla maioria dos brasileiros. Esse processo, enfim, desencadeou a quase total anulação das culturas dos povos autóctones brasileiros, por isso o respeito e a preservação do que restou delas devem ser prioridades absolutas dos órgãos responsáveis e da sociedade civil organizada.

Texto 02.
O ir e vir como direito contitucional

A mobilidade urbana tem sido no Brasil um dos principais desafios para a transformação imprescindível das grandes cidades brasileiras em espaços urbanos realmente democráticos e produtivos. Diante disso, mudanças contundentes dos paradigmas anacrônicos a respeito desse direito constitucional da população devem ser discutidas amplamente por toda a sociedade, a fim de se conceber modelos de transporte urbano multimodais eficientes e acessíveis para todos.
Nesse sentido, planejar o desenvolvimento da cidade em função da maioria dos cidadãos que nela habitam, e não em benefício de minorias ou mesmo da cultura do carro é condição para que muitas das situações críticas mostradas em filmes tão diferentes como “Taxi driver”, “Um dia de fúria”, “Cidade de Deus”, etc., associadas à marginalização das pessoas, ao favorecimento da ocorrência de episódios estressantes em função do péssimo trânsito, às complicações para o fluxo de pessoas e mercadorias em função da falta de planejamento urbano, etc., não mais sejam tão frequentes em cidades brasileiras como são atualmente.
Além disso, repensar os sistemas de transporte público das cidades com o intuito de torná-los mais eficientes, pontuais e sustentáveis é dever da sociedade por meio dos seus representantes eleitos com sistemas multimodais que combinem diferentes modais de transporte como ônibus, metrô, bicicleta, etc. Isso é urgente, porque as cidades, em função da ocupação desordenada desses espaços, do crescimento descontrolado e da poluição ambiental, têm se tornado no Brasil espaços cada vez mais hostis, situação para a qual a mobilidade urbana precária presta evitáveis, mas relevantes contribuições.


Conclusão por meio de propostas de intervenção

Logo, para que haja meios de transportar pessoas e mercadorias de forma mais eficiente e produtiva, é fundamental que as Câmaras das cidades médias e grandes criem ou revisem seus Planos Diretores com o objetivo de condicionar o desenvolvimento do espaço urbano a interesses sustentáveis, coletivos e democráticos. Sistemas multimodais também são condição para essa mudança, o que ficaria sob a responsabilidade dos governos municiais de implantar modelos de transporte multimodais adaptados a topografia e as condições cultuais e urbanísticas da cidade, a fim de tornar mais racional e eficiente a locomoção de pessoas.

Conclusão por meio de resumo e ratificação

Assim, discutir e exigir das autoridades a resolução não apenas dos problemas produzidos pela falta de mobilidade urbana, como também a remodelação de todo o sistema de transporte urbano nas grandes e médias cidades brasileiras, é crucial para se pensar o respeito verdadeiro a direitos previstos na Constituição brasileira e ao bem comum. Por isso, ser mais exigente em relação ao trabalho dos gestores desse processo não é o exercício apenas da cidadania, mas também o de lutar por uma cidade mais humana e democrática.