domingo, 21 de maio de 2017

Redação - UFU - Novo material sobre gêneros textuais (dissertação, artigo de opinião, carta argumentativa e relato.)

Redação
Gêneros textuais - UFU 2017 - prova de redação

1. Dissertação - é um gênero textual produto das interações entre certas tipologias textuais, em especial, a argumentação e a exposição, ainda que descrição e narração possam ser usadas como recursos para construção particularmente de argumentos. Este gênero textual é empregado de forma regular para comunicar e documentar debates de cunho científico, acadêmico, estético, etc., com o intuito de comunicar a posição de alguém sobre determinado tema de forma organizada, laica, contundente e respeitosa em relação a princípios do pensamento lógico, científico e formal. Em função disso, o meio mais tradicional de abordar a teoria de gêneros textuais em vestibulares é a dissertação argumentativa.

Objetivo – defender uma tese por meio de argumentação científica e baseada em premissas lógicas e comprováveis.
Estrutura – tem três partes com objetivos bastante específicos: introdução, desenvolvimento e conclusão. -      Deve ser escrita sempre com o mínimo de quatro parágrafos.
Argumentação – baseada em diversos princípios retóricos como analogias, estatísticas, argumentos de autoridade, referências históricas, etc.
Pessoa do discurso - Linguagem impessoal (3ª pessoa do singular e plural).
Linguagem - objetiva, denotativa, adaptada ao Novo Acordo Ortográfico, compatível com a norma padrão prevista nas gramáticas normativas e com vocabulário ajustado ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp).
Máscara – proibida em função da impessoalidade do texto.
Título - Enem (facultativo). Demais vestibulares (depende de orientações específicas). UFU (obrigatório).
Observação final - as considerações deste material são aplicáveis integralmente a textos de cerca de 30 linhas. Para os expressivamente menores ou maiores, é importante salientar que essas orientações devem ser flexibilizadas.

Texto 01.
Questão indígena: entre injustiças e negligências

As injustiças históricas relativas às questões indígenas são uma das discussões mais relevantes e ao mesmo tempo mais negligenciadas no Brasil contemporâneo, apesar dos inúmeros desafios urgentes relativos a esse assunto. Por isso, é fundamental para a existência futura das culturas indígenas que haja debates e ações públicas humanistas, tolerantes e respeitosas a fim de perpetuar essas importantíssimas matrizes da sociedade brasileira.
Para tanto, é imprescindível o reconhecimento da riqueza cultural multifacetada dos indígenas, com o objetivo de que, por meio de intervenções midiáticas permanentes, por exemplo, possa haver uma mudança significativa na visão que a maioria dos cidadãos brasileiros tem desses povos ainda muito submetida a ideias associadas ao preconceito e à desinformação. Tal fato é evidente por causa das muitas menções em livros, piadas, etc., a um “índio” visto como preguiçoso, sujo ou imoral. Isso ainda ocorre por causa da força das concepções surgidas muitas vezes na pseudociência cientificista do século XIX, que produziu um evidente paradoxo chamado Racismo Científico.
Outro aspecto relevante para a compreensão dessa complexa questão é a falta quase absoluta de representação política dos povos autóctones no Brasil, o que explica e mesmo fomenta o preconceito e a exclusão social dos quais esses grupos são vítimas. Isso se amplia quando até na Fundação Nacional do Índio (Funai), eles têm pouca ou nenhuma interferência direta nas decisões tomadas pelo órgão em relação a diversas causas muito importantes para eles, como no caso da demarcação de terras e dos conflitos que têm ocorrido no País por causa de disputas territoriais, que, aliás, acontecem ao menos desde o tempo das Capitanias Hereditárias.

Conclusão por meio de propostas de intervenção

Logo, para que possa ser revertida a situação desumana a que muitos desses povos estão submetidos, é fundamental que a Funai democratize suas instâncias decisórias a fim de ampliar a participação de índios no seu cotidiano institucional. Também é importante a criação de cotas para indígenas em Câmaras Legislativas de forma proporcional à presença deles na população brasileira, o que ficaria a cargo de medida provisória apresentada pelo governo federal à Câmara dos deputados.

Conclusão por meio de resumo e ratificação

Dessa forma, é evidente que há uma origem histórica para a discriminação sistemática sofrida pelos índios no Brasil, o que produziu uma visão estreita e anacrônica sobre esses povos por parte da ampla maioria dos brasileiros. Esse processo, enfim, desencadeou a quase total anulação das culturas dos povos autóctones brasileiros, por isso o respeito e a preservação do que restou delas devem ser prioridades absolutas dos órgãos responsáveis e da sociedade civil organizada.

Clique abaixo para ter acesso à publicação completa.

Texto 02.
O ir e vir como direito contitucional

A mobilidade urbana tem sido no Brasil um dos principais desafios para a transformação imprescindível das grandes cidades brasileiras em espaços urbanos realmente democráticos e produtivos. Diante disso, mudanças contundentes dos paradigmas anacrônicos a respeito desse direito constitucional da população devem ser discutidas amplamente por toda a sociedade, a fim de se conceber modelos de transporte urbano multimodais eficientes e acessíveis para todos.
Nesse sentido, planejar o desenvolvimento da cidade em função da maioria dos cidadãos que nela habitam, e não em benefício de minorias ou mesmo da cultura do carro é condição para que muitas das situações críticas mostradas em filmes tão diferentes como “Taxi driver”, “Um dia de fúria”, “Cidade de Deus”, etc., associadas à marginalização das pessoas, ao favorecimento da ocorrência de episódios estressantes em função do péssimo trânsito, às complicações para o fluxo de pessoas e mercadorias em função da falta de planejamento urbano, etc., não mais sejam tão frequentes em cidades brasileiras como são atualmente.
Além disso, repensar os sistemas de transporte público das cidades com o intuito de torná-los mais eficientes, pontuais e sustentáveis é dever da sociedade por meio dos seus representantes eleitos com sistemas multimodais que combinem diferentes modais de transporte como ônibus, metrô, bicicleta, etc. Isso é urgente, porque as cidades, em função da ocupação desordenada desses espaços, do crescimento descontrolado e da poluição ambiental, têm se tornado no Brasil espaços cada vez mais hostis, situação para a qual a mobilidade urbana precária presta evitáveis, mas relevantes contribuições.

Conclusão por meio de propostas de intervenção

Logo, para que haja meios de transportar pessoas e mercadorias de forma mais eficiente e produtiva, é fundamental que as Câmaras das cidades médias e grandes criem ou revisem seus Planos Diretores com o objetivo de condicionar o desenvolvimento do espaço urbano a interesses sustentáveis, coletivos e democráticos. Sistemas multimodais também são condição para essa mudança, o que ficaria sob a responsabilidade dos governos municiais de implantar modelos de transporte multimodais adaptados a topografia e as condições cultuais e urbanísticas da cidade, a fim de tornar mais racional e eficiente a locomoção de pessoas.

Conclusão por meio de resumo e ratificação

         Assim, discutir e exigir das autoridades a resolução não apenas dos problemas produzidos pela falta de mobilidade urbana, como também a remodelação de todo o sistema de transporte urbano nas grandes e médias cidades brasileiras, é crucial para se pensar o respeito verdadeiro a direitos previstos na Constituição brasileira e ao bem comum. Por isso, ser mais exigente em relação ao trabalho dos gestores desse processo não é o exercício apenas da cidadania, mas também o de lutar por uma cidade mais humana e democrática.

2. Artigo de opinião ou texto de opinião - é um texto opinativo normalmente assinado e muito assemelhado estruturalmente à dissertação, ainda que permita algumas liberdades linguísticas impossíveis em um texto dissertativo científico. Por ser atribuído a uma pessoa, comunica um ponto de vista particular acerca de um assunto em primeira pessoa do singular.

Objetivo – comunicar a opinião particular de um articulista contratado por veículo de comunicação pela relevância dessa pessoa para um determinado grupo, instituição, etc.
Estrutura – dissertativa-argumentativa.
Argumentação – pode ser construída de diversas maneiras, desde abordagens mais científicas e fundadas em estatísticas e discursos de autoridade até formas mais personalistas em que experiências pessoais, viagens, vivência profissional, etc., possam ser usadas para defender uma tese a respeito de um assunto atual e normalmente de alta relevância midiática.
Pessoa do discurso – 1ª pessoa do singular é obrigatória para explicitar o aspecto personalista do discurso e da argumentação do texto. É importante que ela ocorra uma vez em cada parágrafo ao menos.
Linguagem – clara, objetiva e adequada às normas gramaticais por padrão, ainda que se aceite pontualmente o uso de expressões como gírias, coloquialidades e oralidades como forma de personalizar o discurso do articulista. Verbos predominantemente no presente do indicativo são esperados.
Máscara – desejável e qualificadora (Exemplo: “como médico”, "na condição de antropólogo", etc.).
Título - UFU (obrigatório).
Assinatura – exigida (UFU) e sem ponto final.

Observação importante: lembro que alguns exemplos abaixo são oriundos da produção dos alunos, ainda que tenham sido adaptados para que possam atender melhor aos parâmetros da banca de redação da UFU a partir de 2017. Os outros são de veículos tradicionais de informação que não necessariamente repseitam todas as regras exigidas em concursos.

Exemplos:

Texto 01.
Estado laico: uma necessidade

O Estado laico tem sido nos últimos anos uma discussão frequente em alguns setores sociais em função de decisões do Superior Tribunal Federal (STF) em favor do direito ao aborto de anencefálicos e da união civil entre homossexuais. Como antropólogo, entendo que ainda deve ser considerada a atuação nada laica de políticos de bancadas religiosas na Câmara Federal contra os interesses da maioria da população e muitos princípios constitucionais. Por isso, defendo a necessidade da reafirmação de um pacto civil em defesa da laicidade do Governo no Brasil.
Essa defesa sustenta-se não só no fato de muitos países tornados teocracias terem tido perdas significativas de garantias presentes na Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas também no fato de haver perda considerável na diversidade de ideias artísticas, políticas e, evidentemente, religiosas, quando um Estado deixa de ser laico. Afirmo isso porque a laicidade de instituições é uma defesa vigorosa da liberdade religiosa, pois, via de regra, todo estado laico de fato é multirreligioso como ainda é o caso do Brasil.
Defender essa condição política e ideológica estatal é, dessa forma, um meio eficiente de prezar pela liberdade religiosa, que, apesar de não ser uma pessoa crente, entendo ser uma conquista das sociedades democráticas que deve ser defendida por todos. Vejo essa questão assim, pois reconheço o quanto que crenças diversas foram e são influentes no campo das artes, dos costumes, da gastronomia, etc., ou seja, suprimi-las seria o mesmo que suprimir um dos principais geradores de manifestações culturais que se tem notícia. Por isso, seria indiscutivelmente um golpe duro contra várias etnias e culturas, contra milhões de pessoas e contra a cultura brasileira.
Logo, defendo o Estado laico não por ser contra quaisquer religiões, mas, ao contrário, por defendê-las como um direito de escolha de todas as pessoas, para que possamos continuar a ter um país definido e marcado por tradições democráticas, diversidade cultural e liberdade de pensamento e expressão.

José

Texto 02.
A importância d’água para a espécie humana

A água tem vital importância para os seres humanos, além de nos nutrir, precisamos dela para várias ocasiões, como no transporte de pessoas e cargas e na obtenção da caça e da pesca. Porém, a sociedade moderna vem poluindo os rios, destruindo recursos hídricos que causam um desequilíbrio no meio ambiente e preocupam grande parcela da comunidade científica da qual faço parte.
Sobre essa questão, muitos indivíduos urbanos como eu têm geralmente pouco conhecimento acerca da preservação da água, por pensarem que esta é uma riqueza inesgotável. Contudo,  essa substância é finita e distribuída de forma irregular no mundo, o que causa conflitos há milênios de anos entre grupos e sociedades humanas e mesmo de outros animais. Como é ilustrado na refilmagem de 2016 do clássico do cinema "Mad Max", em que esse recurso é tão importante quanto o combustível e é fonte do poder do vilão do filme.
Além disso, a falta de saneamento básico e de tratamento de esgoto tão comuns em muitas cidades brasileiras contribui também para a escassez de água em função da poluição dos rios. Outra forma de poluição é a mineração, que utiliza produtos químicos poluentes d’água e nocivos a seres vivos, como é o caso do mercúrio, o que faz com que esse líquido deixe de ser fonte de vida para sê-lo de doenças.
Embora o Brasil e a América do Sul estejam entre as locais do mundo com maior disponibilidade de água, sua distribuição é muito desigual, com a maior parte, no caso brasileiro, concentrada na região amazônica, onde está a menor fatia da população, evidentemente se forem desconsiderados aquíferos como o Guarani. Sobre isso, importante ressaltar que essa abundância pode não ser o bastante para garantir o abastecimento contínuo de água de boa qualidade para todos, mesmo no Sudeste, como a séria crise de falta de água pela qual passou o estado mais rico do Brasil recentemente, em função da péssima gestão da água de muitas cidades e do governo estadual de São Paulo, do uso indiscriminado e irresponsável de água na agricultura que responde por mais de 70 por cento do consumo de água no mundo e no Brasil, etc.
Logo, observo que esse recurso fundamental para a vida deveria ser pensado de uma forma mais coletiva e democrática para que um dia seja efetivamente pensado como um direito de todos, e não uma questão de política, de poder ou mesmo de dinheiro. Por isso, a formação de uma contracultura baseada na utilização consciente da natureza é imprescindível e urgente a fim de evitar um colapso nos sistemas de beneficiamento e distribuição de água em muitos lugares do mundo.

Josefa

(Redação adaptada de aluno.)

Texto 03.
Ele não sabe o que faz
Ruth de Aquino

Mais um assassino covarde tira proveito da lei paternalista no Brasil, que considera os menores de 18 anos incapazes de responder criminalmente por seus atos. Como não sentir vergonha diante dos pais do universitário Victor Hugo Deppman, assaltado e morto na calçada de casa em São Paulo? Como convencê-los a se conformar com o Estatuto da Criança e do Adolescente, que protege o homicida de 17 anos que deu um tiro na cabeça de seu filho após roubar seu celular? Como conviver com a perda brutal de um filho e saber que seu algoz será internado por no máximo três anos porque “não sabia o que estava fazendo”?
Não consigo enxergar jovens de 16 anos como “adolescentes” ou “menores”. Eles votam, fazem sexo, chegam em casa de madrugada ou de manhã. Por que considerá-los incapazes de discernir o certo do errado? Ao tornar jovens de 16 anos responsáveis por seus atos diante da Justiça, o objetivo não é encarcerar todos os delinquentes dessa idade, mas, quem sabe, reduzir os crimes hediondos juvenis. A mudança na lei reforçaria o status que eles próprios já reivindicam em casa diante dos pais: “Eu não sou mais criança”. E não é mesmo.
Para quem argumenta que de nada adiantará reduzir a maioridade penal para 16 anos, respondo com uma pergunta: longas penas para assassinos adultos acabam com o crime bárbaro? Não, claro. Então, vamos acabar com as cadeias porque elas são custosas e inócuas? Não, claro. Longas penas servem para reduzir a impunidade e dar às famílias de vítimas a sensação de que foi feita justiça. Não se trata de “vingança”. É um ritual civilizatório. Matou? E ainda por cima por motivo torpe? Tem de pagar.
Um argumento popular contra a redução da maioridade penal para 16 anos é: e se um adolescente de 14 ou 15 anos matar alguém, mudaremos de novo a legislação? Sempre que escuto isso, lembro um caso na Inglaterra, em 1993. Dois garotos ingleses de 10 anos foram condenados à prisão perpétua por ter mutilado e matado um menino de 2 anos. A repercussão foi tremenda. Os assassinos foram soltos após oito anos de prisão. Mas não foram tratados com benevolência no julgamento. O recado para a sociedade era claro: não se passa a mão na cabeça de quem comete um crime monstruoso. Mesmo aos 10 anos de idade.
Outro argumento comum no Brasil contra a redução da maioridade penal afirma que só com boa educação e menos desigualdade social poderemos reduzir a criminalidade juvenil. Essa é uma verdade parcial. Há muitos países pobres em que jovens assaltam, mas não matam por um celular ou uma bicicleta. Eles têm medo da punição, medo da Justiça. Também acho injusto atribuir aos pobres uma maior tendência ao crime bárbaro. Tantos ricos são bandidos de primeira grandeza... Melhorar a educação e reduzir a pobreza são obrigações. Isso não exclui outra obrigação nossa: uma sociedade que valoriza a vida e a honestidade precisa acabar com a sensação de que o crime compensa. Para menores e maiores de 18 anos.
Os filósofos de plantão que nunca perderam o filho num assalto apelam à razão. Dizem que não se pode legislar sob impacto emocional. Ah, sim. Quero ver falar isso diante de Marisa e José Valdir Deppman, pais enlutados de Victor Hugo, que ouviram o tiro de seu apartamento, no 9o andar. Uma família de classe média que livrou o filho da asma com plano de saúde privado e investiu com esforço em seus estudos. A mãe falava com Victor Hugo todos os dias pelo celular. “Eu sempre falava para ele não reagir, porque a vida não vale um celular ou um carro. Ele não reagiu, mas foi morto. Estou estraçalhada por dentro.”
Victor Hugo, o Vitão, era santista fanático, um dos artilheiros do “Inferno vermelho”, apelido do time da Faculdade Cásper Líbero, onde estudava rádio e TV. Sonhava em virar locutor esportivo e estava apaixonado. A câmera do prédio mostra o momento em que sua vida acabou. Mostra a covardia do rapaz, cujo nome nem pôde ser divulgado por ser “inimputável”. Na sexta-feira passada, o assassino de Vitão, infrator conhecido na Febem, completou 18 anos.
Seu futuro pode ser o mesmo do menor E., que, aos 16 anos, ajudou a matar no Rio de Janeiro, em 2007, o menino João Hélio. Ele pertencia ao bando que arrastou João Hélio pelas ruas, pendurado na porta de um carro que havia sido roubado de sua mãe. Após três anos numa instituição para jovens infratores, foi libertado. A Justiça o incluiu temporariamente num programa de proteção a adolescentes ameaçados de morte, o PPCAAM. Ridículo. Ezequiel Toledo de Lima foi preso em março de 2012, aos 21 anos, por posse ilegal de arma, tráfico e corrupção ativa. Ezequiel não tinha antecedentes criminais como adulto – apesar de ter matado com requintes de crueldade um menino de 6 anos. É ou não é uma inversão total de valores?

3 - Carta argumentativa (UFU), impessoal ou formal - é um tipo de correspondência enviada em caráter formal para pessoas que não são conhecidas ou não são íntimas do autor dela. Sob alguns aspectos, muito parecida com a dissertação argumentativa, em especial em função do intuito persuasivo de ambos os textos.
Para efeito de esclarecimento, o que diferencia a carta argumentativa da dissertação é o tipo de argumentação que caracteriza cada um desses tipos de texto e algumas especificidades formais, estruturais e linguísticas que as definem. O texto dissertativo é dirigido a um interlocutor genérico, universal. Por outro lado, a carta argumentativa pressupõe um interlocutor específico para quem a argumentação estará orientada. Essa diferença de interlocutores deve necessariamente levar a uma organização textual, a escolhas linguísticas e a preocupações retóricas também diferentes. Até porque, na carta argumentativa, a intenção é frequentemente a de persuadir um interlocutor específico, a fim de convencê-lo do ponto de vista defendido por quem escreve a carta ou demovê-lo do ponto de vista por ele defendido.
Do ponto de vista técnico, é um tipo de correspondência com linguagem formal, ou seja, exige-se o uso de pronomes de tratamento adequados à posição ocupada pelo destinatário; o emprego da norma padrão; um processo de interlocução respeitoso; etc.
É importante justificar por que se solicita que a argumentação seja feita em forma de carta em situações de avaliação. Isso se dá em função do pressuposto de que, se é definido previamente quem é o interlocutor sobre um determinado assunto, há melhores condições de fundamentar uma argumentação e avaliar a capacidade do candidato de moldar sua linguagem, seus argumentos e a informação de acordo com seu interlocutor.
Embora o foco da carta seja um determinado tipo de argumentação, ela implica também algumas expectativas quanto à forma do texto. Por exemplo, é necessário estabelecer e manter a interlocução, usar uma linguagem compatível com o interlocutor, empregar referenciais espaciais e temporais, usar marcas de autoria ao longo de toda a carta, assinar quando for solicitado, etc.
Para o cumprimento da proposta em que é exigida uma carta argumentativa, não basta dar ao texto a organização de uma carta, mesmo que a interlocução seja natural e coerentemente mantida; é necessário, acima de tudo, argumentar por demanda, que é, em princípio, o entendimento sobre as motivações, as fraquezas e as preferências do destinatário da correspondência.

Características principais da carta argumentativa (impessoal) em vestibulares, especialmente, na UFU:
1.     Data, vocativos (saudações inicial e final) e assinatura são obrigatórios;
2.     No corpo do texto, nas saudações e na assinatura, deve-se respeitar o recuo nos parágrafos, portanto apenas a data deve estar junto à margem esquerda;
3.     O uso da primeira pessoa do singular deve ser recorrente, ao menos uma vez em cada parágrafo;
4.     A interlocução com o uso da segunda pessoa do discurso ou de pronomes de tratamento também deve ser recorrente, por isso deve haver referências ao interlocutor ao menos uma vez em cada parágrafo;
5.     Formas verbais no presente do indicativo devem predominar;
6.     Linguagem impessoal e de acordo com a norma padrão é obrigatória;
7.     É desejável que haja dados de personificação, ou seja, é importante que seja criado um locutor que mostre competência para discutir o assunto da carta (máscara);
8.     O uso adequado de pronomes de tratamento será avaliado; 
9.     Neste gênero textual, as informalidades, os coloquialismos e os regionalismos são penalizados;
10. Devem-se evitar abreviações de pronomes de tratamento em cartas;
11. A paráfrase é possível, mas não mais é exigida em qualquer um dos gêneros textuais da UFU a partir do vestibular de 2017.

Objetivo – comunicar a opinião particular de uma pessoa a respeito de assunto variado por meio de uma correspondência destinada ao um interlocutor com o qual o autor da carta não tem intimidade. 
Estrutura – rígida e com presença de datação, saudação inicial, corpo do texto, saudação final e assinatura (quando solicitado).
Argumentação – é construída por demanda, já que o destinatário dela é conhecido, mas via de regra exige-se as mesmas condutas de outros textos argumentativos com a possibilidade de usar relações de causa e consequência, argumentos de autoridade, etc .
Pessoa do discurso – 1ª pessoa do singular é obrigatória para indicar a autoria da carta, tanto quando a 2ª pessoa ou pronome de tratamento devem ser usadas com a frequência de ao menos uma vez por parágrafo.
Linguagem – clara, objetiva e adequada às normas gramaticais por padrão, inclusive com o uso adequado de pronomes de tratamento. 
Máscara – desejável, porque é capaz de mostrar a qualificação do autor da carta para tratar do assunto abordado nela.
Assinatura – exigida (UFU) e sem ponto final.

Observação importante: lembro que os exemplos abaixo são oriundos da produção dos alunos, embora tenha recebido adaptações para adequarem-se mais amplamente às novas exigências da UFU a partir de 2017. 

Exemplos:

Texto 01. (padrão de recuos UFU atualizado em 2017)

Uberlândia, 11 de setembro de 2017.

Excelentíssimo Senhor Ministro da Educação,

Ao analisar os diversos problemas enfrentados pelos brasileiros, como pedagoga, percebi que a educação apresenta-se como um dos mais graves. Apesar da queda do analfabetismo na última década, tão propagandeada pelo Ministério do qual Vossa Excelência é o líder, ainda assumimos uma posição vergonhosa no “ranking” de desempenho educacional na América Latina.
Essa questão torna-se complexa, pois está relacionada a diversos problemas nacionais como a desigualdade na distribuição de renda, a exploração do trabalho infantil, dificuldades no acesso às escolas, exploração sexual de crianças e adolescentes,, etc. o que, penso eu, perfaz um conjunto de severas e preocupantes realidades, que separam cada vez mais as famílias em situação de vulnerabilidade social do sistema regular de ensino, como o Excelentíssimo Ministro deve saber.
As deficiências no processo de ensino-aprendizagem também merecem atenção, Vossa Excelência, principalmente nos primeiros anos escolares, tais como: metodologias de ensino inadequadas, carências de recursos humanos e materiais, péssimo sistema de transporte escolar, além de baixos salários dos profissionais da educação. Para mim, esses são os elementos mais importantes que contribuem para a evasão escolar e para a má qualidade do serviço prestado à população.
Diante de tal situação, precisamos, ainda, percorrer um árduo caminho para que possamos ter um país que trate a educação com a seriedade merecida. Sendo assim, a valorização do magistério, a informatização ampla e democrática das escolas, a capacitação profissional contínua e de qualidade, além de um melhor planejamento para a destinação dos recursos aparecem como estratégias importantes, para transformar o sistema educacional em um serviço eficiente e eficaz. Ressalto que esta carta dirigida ao Excelentíssimo Ministro é apenas uma contribuição sobre o que é de amplo conhecimento, mas, de toda forma, meu dever como cidadã e eleitora é reforçar o que entendo que o povo tem como prioridade para os gastos públicos.

Respeitosamente,

Josefa

(Redação adaptada de aluno.)

Texto 02. (padrão de recuos UFU atualizado em 2017)

Uberlândia, 12 de fevereiro de 2017.

Senhor Edward Snowden,

Tendo em vista o ocorrido com o acervo de informações da Agência Nacional de Segurança (NSA, em inglês) recentemente, impus-me a tentativa de compreender quais motivos – justificáveis ou não – levaram o Senhor a denunciar o ataque ao direito de privacidade articulado pelos Estados Unidos da América por meio dessa instituição governamental. Minha nacionalidade brasileira e meu diploma de advogado, obrigou-me a considerar ilegal e antiética a invasão da segurança de nossa presidente Dilma Roussef, e não menos alarmante o fato de ter ocorrido o mesmo à chanceler alemã, Angela Merkel.
Agradou-me, pois, coragem do Senhor de mostrar ao mundo a situação de falta de privacidade na qual a maioria de nós encontra-se. Foi, portanto, altruísta e elevada a sua atitude. Vale-se dizer que a espionagem norte-americana atinge a liberdade de expressão e de privacidade de milhões de indivíduos. Nesse contexto, sendo o controle total dos sistemas de tráfego de dados o principal objetivo do sistema da agência NSA, há de se rever a fiscalização constante das “ações-unidas” ratificada por Navy Pillay, chefe da Organização das Nações Unidas (ONU) para direitos humanos - como segurança e privacidade.
No âmbito de tal assunto, Senhor Snowden, aconselho-o a continuar o movimento – o qual talvez não saiba que iniciou – a favor da segurança e da privacidade, ainda mais, na era digital. Soma-se a isso o fato de os programas norte-americanos acessarem dados quaisquer com a alegação de necessidade protecionista no que se diz respeito ao terrorismo, embora tal interesse (de origem no século passado, no período da Guerra Fria) seja útil apenas a interesses estadunidenses - na minha opinião.
Desse modo, estimado Senhor Edward Snowden, aprovo seu ato de defender o direito da população mundial de manter sua privacidade, portanto ter tornado públicos documentos tidos como provas de espionagem norte-americana é justo e ético quando se pensa no bem comum e na Declaração Universal dos Direito Humanos.

Respeitosamente,

Josefa

(Redação adaptada de aluno.)

4 – Relato - Gêneros narrativos (geral) - o ato de narrar remonta a momentos iniciais de nosso processo de formação como espécie, o que é confirmado por pinturas rupestres que claramente apontam para sequências de acontecimentos que respeitam a temporalidade e a sucessão de fatos típicas do texto narrativo. Nesse tempo, em que pinturas de diferentes estágios de caçadas ou rituais foram feitas em paredes de cavernas como narrativas visuais ou mesmo pode-se especular sobre o começo do processo de comunicação oral, para além de grunhidos e sons sem associação clara, provavelmente está a aurora dos textos narrativos como gênero textual. Além disso, para todas as comunidades ágrafas, essas formas de narrar têm papel central na construção dessas sociedades ainda na atualidade, até porque eram e são uma forma razoavelmente confiável de preservar o conhecimento produzido por essas comunidades.
Há muitas formas de narrar: da ancestralidade do folclore e das narrativas orais até o dinamismo e a velocidade dos textos produzidos em função do advento da internet. Há ainda histórias narradas a partir de fatos e acontecimentos verídicos ou associados a experiências reais ou aquelas que são produto da imaginação criativa e da invenção despreocupadas muitas vezes com qualquer paradigma da chamada realidade, ou podem ainda ser fruto da união dessas duas formas.
Por meio dessas características formais, estilísticas e de conteúdo, foram sendo fixadas formas de narrar que, a seguir, serão discutidas separadamente, embora sejam notórias as dificuldades teóricas para a realização plena desse objetivo, em função das fronteiras por vezes pouco perceptíveis ou mesmo diluídas entre os diferentes textos compreendidos como narrativos.

Elementos da narrativa - 
como principio fundador das narrativas, além da temporalidade, devem ser destacados os elementos que as compõe e a estrutura a qual esse gênero textual deve minimamente respeitar. Entretanto, embora esses “parâmetros” tenham sido revistos ou subvertidos por muitos autores especialmente no século XX, ainda serve como um importante referencial para produtores, leitores e analistas do discurso narrativo.
São elementos da narrativa o enredo, os personagens, o narrador, o espaço e o tempo. Eles são em alguma medida fundamentais para se tecer o sequenciamento de eventos, o desenvolvimento de ações e a participação dos personagens, que são imprescindíveis para se constituir um texto narrativo.
enredo é o encadeamento de episódios que constrói a narrativa, ou mesmo a forma de fazê-lo, com o objetivo de possibilitar geralmente o desenvolvimento de um conflito que será a razão de existência de uma narrativa. O conflito pode ocorrer entre pessoas, como no caso do romance “Poderoso Chefão”, de Mario Puzzo; entre os rigores da natureza e o homem, que é muito bem ilustrado em “Vidas secas” de Graciliano Ramos; entre o Estado e o cidadão, como no caso da obra “O processo” de Franz Kafka; entre a pessoa e seu íntimo, como em muitas narrativas de Clarice Lispector; etc. O enredo pode ser linear quando se respeita a ideia de passagem mais cronológica ou mesmo física do tempo, como são os casos de grande parte dos filmes, em especial anteriores a década de 1970, e da Literatura anterior ao século XIX; ou pode ser não-linear como são os casos de narrativas de filmes como “Efeito borboleta”, “Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças”, “Pulp Fiction”, entre tantos outros exemplos em que digressões temporais, arranjos não cronológicos dos eventos da narrativa, inversão da estrutura narrativa, etc., são responsáveis por emprestar uma sensação não natural ou cronológica no tempo interior à narrativa.
espaço ou ambiente é o local ou os locais onde se passa a narrativa, por isso pode ser descrito de forma detalhada ou displicente de acordo com as intenções do autor. Em algumas situações, pode ser mesmo um personagem em função da forma como interage e define comportamentos e escolhas dos outros personagens, como são os casos do planeta Duna, no romance homônimo de Frank Herbert; do cortiço, de Aluísio de Azevedo; do Ateneu, de Raul Pompéia; do sul dos Estados Unidos da série "True detective", etc. O espaço pode ser físico quando ele é real e concebível de acordo com a experiência humana partilhada desde que temos informações que permitam reconstruções fidedignas desses ambientes como local em que se passará uma narrativa, ou pode ser psicológico, quando é produto da criatividade parcial ou totalmente desconectada do que é entendido como realidade pela maioria das pessoas, é, portanto, um espaço de fantasia, de absoluta ficção e não reconhecível pela experiência sensorial das pessoas.
tempo é outro elemento crucial em narrativas, até mesmo pelo tipo de temporalidade imprescindível para esse tipo de texto. Pode ser usado como forma de denunciar transformações no espaço da narrativa ou nos personagens, o que é perceptível nos filmes “Era uma vez na América” e “O curioso caso de Benjamim Button” respectivamente; como mecanismo de controle ou mesmo facilitador do entendimento a respeito da ordem em que os episódios ocorrem na narrativa, o que é muito perceptível na série “24h” ou no filme “Matrix”. Pode ser grosseiramente, quanto a sua abordagem, dividido em dois tipos: tempo cronológico, que é aquele que pode ser medido, mensurado e percebido em acordo com a percepção média das pessoas a respeito de sua passagem; ou psicológico, quando admite-se a interferência de ponto de vista particular na construção ou mesmo na percepção da passagem do tempo, o que faz com que uma narrativa longa possa compreender um recorte temporal de um dia ou menos; ou ainda de não ser possível precisar ou quantificar o tempo passado ao longo da história.
Os personagens são os responsáveis pela existência do enredo pelo fato de ser nas relações entre eles que o conflito, o drama ou a trama é desenvolvido num espaço e num tempo em que se enredam histórias contadas por um narrador, que é o responsável por trazer à “vida” novamente aqueles personagens históricos já mortos, como é o caso de Sarah Bernhardt e Dom Pedro II no livro “O xangô de Baker Street”, ou mesmo dar “vida” a personagens produtos da ficção como o Bento de “Dom Casmurro”. Personagens podem ser descritos de forma detalhada e criteriosa já no início da narrativa ou podem ser descobertos ao longo do texto muito mais pelas suas ações e pela forma como são vistos por outros personagens do que por uma descrição objetivo do autor. Ainda sobre esse elemento da narrativa, personagens podem, quanto à relevância e a função ocupada em uma história, ser protagonistas, antagonistas ou coadjuvantes. Essa classificação tradicionalmente constrói-se sob dois aspectos: o maniqueísmo e a importância. Assim o protagonista ou o herói seria a representação do bem na narrativa, e o mal seria representado pelo antagonista ou vilão, ambos tratados como os personagens mais importantes dela. Por meio disso, são definidos os coadjuvantes ou personagens secundários como aqueles de importância variada numa narrativa, mas de relevância sempre menor do que os que a protagonizam. Nos últimos séculos e mais intensamente do século XIX em diante, a ideia de herói e vilão foi sendo, em muitas obras, subvertida em favor da construção de personagens mais humanos. Tais novos ares foram decisivos em particular para a figura do protagonista, que de herói passou muitas vezes a anti-herói, não porque vilão, mas porque humano, como os leitores, portanto há um palco onde mal e bem digladiam, onde virtudes e defeitos revezam-se ou mesclam-se, isto é, essa outra configuração do protagonismo narrativo rompe com o cânone clássico que associa o protagonista ou herói à beleza, à força física e espiritual, à perfeição, à grande capacidade de solução de conflitos, à liderança social e às virtudes éticas unicamente. Como decorrência disso, foi constituído esse tipo de personagem baseado numa conjunção de elementos que muito o aproximam das pessoas comuns ou mesmo incomuns, mas, sobretudo, reais, que se fazem anti-heróis não pela maldade, mas pela fraqueza diante das tentações, dos desejos, dos medos, etc. Logo, anti-heróis são construídos por força da humanidade e da insignificância de um Gregor Samsa no livro “A metamorfose” de Franz Kafka; da loucura sábia e lúdica de um Geraldo Viramundo, personagem principal de “O Grande Mentecapto” de Fernando Sabino; da crueza e da honestidade moral dos ex-defuntos de “Incidente em Antares” de Érico Veríssimo; da insensibilidade e frieza de Michael Corleone no clássico “O poderoso chefão” de Mário Puzzo; do desregramento e do revisionismo de Rémy Girard, o já clássico protagonista do filme “Invasões bárbaras”; etc. Personagens podem ainda ser vistos como planos quando nada ou pouco mudam ao longo de uma narrativa ou redondas quando sofrem alterações significativas na sua forma de proceder, ser ou pensar ao longo da história.
O foco narrativo pode ser compreendido de forma simples e didática como uma perspectiva assumida pelo narrador para apreciar, acompanhar, descrever, enfim, narrar. Uma história pode ser contada em primeira pessoa do discurso, o que confere ao narrador o papel também de personagem do relato que conta. Dessa forma, como protagonista ou coadjuvante da história na qual ele está envolvido, narra sob uma perspectiva algo privilegiada, que é a de contar uma história da qual fez parte. Por outro lado, uma narração pode ser feita em terceira pessoa do discurso, quando o narrador assume uma perspectiva de quem não participa da história. O narrador em terceira pessoa pode ser observador ou onipresente, quando narra uma história de acordo com as limitações humanas, ou seja, sem aparentar conhecimento sobre o futuro ou mesmo sobre o passado dos personagens, sem narrar eventos simultaneamente e sem conhecimento sobre as sensações, sentimentos e pensamentos íntimos dos personagens. Este foco narrativo é mais comum em narrativas centradas na ação e no suspense, assim é um tipo de narrador muito frequente em histórias policiais, de guerra e de terror. Além dessa perspectiva, o narrador pode também ser onisciente quando ele aborda uma história também sob a premissa da onipresença, pois tem um controle sobre o que narra digno de ser muito superior às capacidades humanas, visto que as supera em função de que não tem as - já descritas - limitações dela, por isso narra o que acontece em locais diferentes de forma simultânea, o que se passa no íntimo dos personagens e sobre o passado e o futuro deles.

Estrutura da narrativa - quanto à estrutura de textos narrativos, pode-se dizer que a maioria das narrações organiza-se em torno de uma apresentação, em que um equilíbrio de forças é sugerido ou mostrado, personagens são apresentados e referências espaço-temporais são marcadas. O desenvolvimento é a parte em que o conflito narrativo é estabelecido e desenvolve-se com o objetivo de ser solucionado - em tese - da forma mais interessante e imprevista possível. O clímax é o momento mais intenso e crítico da narrativa, dele deriva a solução para o conflito desenvolvido, embora não se possa esperar apenas resultados positivos desse processo, porque o equilíbrio alcançado posteriormente pode ser muito diferente daquele informado ou sugerido na introdução. A última parte convencionalmente de uma narrativa é a conclusão ou desfecho, em que se apresenta a solução para o conflito criado pelas ações dos personagens, o que restabelece, portanto, o equilíbrio na narrativa. Importante informar que partes de uma narrativa podem ser suprimidas como a conclusão ou a introdução ou a ordem delas pode ser modificada, como ocorre em muitas produções da atualidade no cinema e na literatura, são exemplos os filmes “Adaptação”, “Transpotting”, etc.

Relato - segundo o dicionário Houaiss, o termo “relatar” refere-se à exposição oral ou escrita de um fato ou mesmo narrar, expor, referir. Assim, percebe-se que a tipologia textual narrativa que é o principal mecanismo construtor do gênero textual relato, no qual se informa o leitor sobre alguma experiência de vida do escritor ou sobre algum acontecimento que ele tenha presenciado ou sabido. Diante disso, o relatar deve ser situado no tempo e no espaço. 
O relato é um gênero textual em que se conta um fato que ocorreu com o narrador ou com outra pessoa circunscrito a um intervalo específico e determinado de tempo, ainda que possa haver, embora incomuns, relatos construídos a partir de motes ficcionais. Também é comumente escrito com reflexões acerca das experiências vividas ou vivenciadas. Em outras palavras, geralmente, tais relatos devem nos servir para refletir sobre acontecimentos da vida e sobre o que aprendemos ao vivê-los. Um relato tem como características principais:

  1. Contextualização inicial do relato, identificando tema, espaço e período;
  2. Identificação do relator como sujeito das ações relatadas e experiências vivenciadas, ou seja, o narrador deve ser personagem, o que deve ser confirmado pela proposição geral da proposta de redação;
  3. O discurso indireto é a única possibilidade de comunicação das falas dos personagens do relato. O discurso direto será penalizado.
  4. É importante reforçar o uso de tempos verbais predominantemente no passado e com expressões temporais, como “Naquela manhã”, “Depois”, “Em seguida”, etc.;
  5. Linguagem informal é mais comum, ainda que isso dependa das orientações da banca sobre como proceder na confecção do texto.
Exemplos:

Texto 01.
João Carlos Martins herdou a paixão pela música de seu pai José, que teve seus estudos de piano interrompidos ainda na infância, quando perdeu um dos dedos da mão direita em uma máquina de corte, na gráfica onde trabalhava.
A paixão pela música, no entanto, seria passada para a próxima geração e o acidente ocorrido com sua mão foi o primeiro de uma série que iria marcar a história da família.
Em 1940 nasceu João Carlos Martins, 4º filho de José,  que logo se tornou amante da música, assim como seu irmão, José Eduardo. Desde as primeiras aulas de piano João já demonstrava grande talento, e aos 8 anos venceu seu primeiro concurso tocando obras de Bach.
João se tornou o maior intérprete mundial de Bach, mas teve vários incidentes ao longo da vida envolvendo suas mãos, que hoje estão atrofiadas.
Aos 63 anos João iniciou uma nova carreira, como regente e mais uma vez surpreendeu a todos com sua dedicação. Hoje com 69 anos, ele se sente agradecido por ser brasileiro e poder continuar levando a música às todas as camadas sociais, provando que ‘A música venceu’.”

Texto 02.
A reta final
Quando chegou meu primeiro dia de ir para escola estava muito ansiosa pensando o que iria encontrar pela frente. Crianças, iguais a mim, meus futuros amigos, professores, obstáculos e uma grande insegurança, pois estava deixando o aconchego da minha casa para compartilhar parte do meu dia com pessoas estranhas e diferentes.
Desde que iniciei na escola até hoje sempre gostei de estudar, aprender, trocar ideias acho que sempre temos algo á aprender e á ensinar. Pensava em dar continuidade aos estudos, em cursar nível superior, mas sem muitas condições financeiras, acabei adiando este sonho como tantas outras pessoas que lutam pra ingressar em uma faculdade, mas se limita a isso, apesar de minha família sempre me incentivar a estudar.
No ensino fundamental estudei em três escolas e no ensino médio em duas, apesar dos obstáculos que encontrei, como a mudança de uma escola para outra, a conquista de novas amizades e novos professores, nunca desisti, procurava me esforçar e conseguir terminar no mínimo o segundo grau. Foi o que fiz.
Passados alguns anos, depois de fazer alguns cursos, fui incentivada pelo meu namorado a prestar o vestibular, me inscrevi já com orgulho de mim mesma, pela coragem de encarar mais este obstáculo. Não imaginava que iria passar devido aos vários anos longe da escola. Além disso, surgia à dúvida entre qual curso eu escolheria. Fiz minha inscrição e decidi fazer Pedagogia, para minha surpresa passei em 1ª chamada, fiz minha matrícula e ingressei no curso.
Durante a minha caminhada tive algumas dúvidas se era realmente este caminho que gostaria de seguir, pensava: Vou ser professora, será que é isso que realmente quero... Ficava um pouco confusa, pois além da dúvida, havia as pessoas que criticavam as minhas escolhas, dizendo: Tu vai ser professora para ganhar uma miséria? Tranquei minha matrícula por dois anos, pensei, repensei e pensei de novo. Quando surgiram algumas especializações na área, decidi voltar, pois haveria mais opções de escolha dentro da área de Pedagogia e não somente dar aula. Se não me saísse bem na sala de aula, teria outras opções.
Hoje estou a um passo de concluir meu curso e sinto muito orgulho quando as pessoas perguntam quando vou me formar e posso responder: “Me formo ano que vem...”. Achava que este dia não iria chegar tão cedo. Imagino o dia da minha formatura, que as pessoas que eu amo estarão lá me assistindo, penso nos amigos torcendo por mim, pela minha conquista. Imagino a música tocando no momento que chamarem meu nome. Quero que este dia seja inesquecível, pois tenho certeza que naquele momento as pessoas próximas vão lembrar do quanto custou minha caminhada até realizar este sonho, as desilusões, as perdas e ganhos, as decepções até conseguir chegar aonde cheguei.
Relembro o início da minha vida como estudante e da satisfação em estar conquistando mais um sonho na minha vida, que quase estava sendo deixado de lado.
Mas não deixo de citar uma pessoa muito importante na realização desta conquista. Uma pessoa que sempre me ajuda muito que preciso, meu namorado Wagner, hoje meu marido. Graças ao incentivo dele, da sua insistência, da sua compreensão durante todos estes anos, estou na reta final da realização de mais um dos nossos sonhos, e espero que este seja apenas um alicerce que sustente os próximos sonhos que pretendemos realizar juntos. (Keli Cristina Till)

Texto 03.
[...] Em Santos, onde morávamos, minha mãe me lia histórias, meu pai gostava de declamar poesias. Foi em um momento da escola - 6ª série hoje – que li do começo ao fim um romance: Inocência, de Taunay. Essa é minha mais remota lembrança de leitura de um romance brasileiro. Lia o livro aberto nos joelhos, afundada numa poltrona velha e gorda, num quartinho com máquina de costura, estante cheia de livros e quinquilharias e vez ou outra atrapalhada por uma gata branca chamada Minnie.
Até então leitura era coisa doméstica. Tinha a ver apenas comigo mesma, com os livros que havia na estante de meu pai e com os volumes que avós, tias e madrinhas me davam de presente. No cardápio destas leituras, Monteiro Lobato com seu sítio do pica-pau amarelo, as aventuras de Tarzan, gibis e mais gibis.
Mas um dia a escola entrou na história.
Dona Célia, nossa professora de português, mandou a gente ler um livro chamado Inocência. Disse que era um romance. Na classe tinha uma menina chamada Maria Inocência. Loira desbotada, rica e chata. Muito chata. Alguma coisa em minha cabeça dizia que um livro com nome de colega chata não podia ser coisa boa.
Foi por isso que com a maior má vontade do mundo é que comecei a leitura do romance. O livro começou bem chatinho, mas depois acabei me interessando por ele. Não o incluo entre os melhores livros que li, mas foi ele quem me ensinou a ler romances e a gostar deles, desconfiando primeiro, abrindo trilhas depois e, finalmente, me entregando à história.
Depois vieram outros, em casa e na escola. Com o tempo virei uma profissional da leitura, dando aula de literatura em colégios, cursinhos e faculdades.
Assim, livros e leituras foram ocupando espaços cada vez maiores. Na minha casa e na minha vida. A estante do quartinho dos fundos ampliou-se. Falar de livros virou profissão e muitos outros romances brasileiros continuaram a construção da leitora que sou hoje. (Marisa Lajolo)

Texto 04.
“Noite escura, sem céu nem estrelas. Uma noite de ardentia. Estava tremendo. O que seria desta vez? A resposta veio do fundo. Uma enorme baleia, com o corpo todo iluminado, passava exatamente sob o barco, quase tocando-lhe o fundo. Podia ser sua descomunal cauda, de envergadura talvez igual ao comprimento do meu barco, passando por baixo, de um lado, enquanto do outro, seguiam o corpo e a cabeça. Com o seu movimento verde fosforescente iluminando a noite, nem me tocou, e iluminada seguiu em frente. Com as mãos agarradas na borda, estava completamente paralisado por tão impressionante espetáculo— belo e assustador ao mesmo tempo. Acompanhava com os olhos e a respiração seu caminho sob a superfície. Manobrou e voltou-se de novo, e, mesmo maravilhado com o que via, não tive a menor dúvida: voei para dentro, fechei a porta e todos os respiros, e fiquei aguardando, deitado, com as mãos no teto, pronto para o golpe. Suavemente tocou o leme e passou a empurrar o barco, que ficou atravessado a sua frente. Eu procurava imaginar o que ela queria.” (Amir Klink)