domingo, 4 de dezembro de 2016

Redação - Análise do tema da redação do Enem 2016 - segunda aplicação, por Estéfani Martins


Caras e caros,

Boa tarde. Como fiz no ano passado e e no primeiro Enem deste ano, eis a minha análise da prova de Redação do Enem 2016 - segunda aplicação - com o tema: "Caminhos para combater o racismo no Brasil."

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O tema de redação do Enem 2016 (segunda aplicação) sobre racismo no Brasil foi não só pertinente e relevante socialmente como adequado para minimizar o prejuízo daqueles que tiveram que fazer o concurso depois dos demais, pois é um tema similar ao da primeira aplicação e amplamente noticiado, além de ser normalmente discutido em diversas disciplinas ao longo da formação escolar no Brasil. A forma como o comando da proposta foi construído também é similar ao da primeira aplicação, num claro intuito de tentar nivelar as duas aplicações.
Esse tema é pertinente e muito relevante porque, num contexto em que se almeja a vida civilizada em sociedade e a valorização de um direito humano fundamental como a igualdade, discutir essa questão, que deixou marcas indeléveis e indiscutíveis na sociedade brasileira, não é só uma possibilidade razoável para uma prova como o Enem, mas também uma necessidade de qualquer cidadão. Tal como a questão da intolerância religiosa, também deveria ser um assunto superado, mas não é em função de diversas manifestações recentes de racismo ocorridas no Brasil, embora estejamos num tempo no qual ele deveria ser considerado um anacronismo, mas infelizmente ele se mantém extremamente presente no cotidiano da sociedade brasileira contemporânea de formas sutis e mesmo declaradas, por isso, apesar de ter sido criminalizado, ele ainda resiste.
O candidato poderia ter tratado de inúmeras linhas argumentativas ao escrever sobre o tema numa perspectiva mundial, são exemplos: os conflitos raciais ao longo da história dos EUA que ainda são comuns como se percebe nos protestos contra a morte recorrente de jovens negros em intervenções de policiais norte-americanos; a questão do racismo científico desenvolvido no século XIX como forma de justificar a dominação e a escravidão dos negros; os frequentes casos de assassinatos e espancamentos de negros na Europa por grupos racistas de supremacia branca ou neonazistas; a luta pelos direitos civis dos negros nos EUA durante a década de 1960; a resistência ao racismo representado por grupos como o Black Power e os Black Panthers; as muitas demonstrações de racismo de torcidas de futebol na Europa e no Brasil; o protesto dos dois velocistas negros norte-americanos contra o Racismo nas Olimpíadas do México em 1968; a questão étnica na moda e na publicidade tanto como reforço para o racismo, a pouco presença de modelos negros, quanto como forma de questionamento, campanhas da Benetton e coleções da Lab Fantasma; a apresentação extremamente politizada em prol do combate ao racismo de Beyoncé no Super Bowl e no clipe da música "Formation"; etc. 
Importante salientar que, apesar de uma abordagem mundial sobre o problema ser interessante e até bem vinda, tratar do tema no Brasil é uma obrigatoriedade, mesmo que em um parágrafo apenas. Nesse contexto, destacam-se o preconceito massivo e histórico contra religiões de matriz africana como o Candomblé e a Umbanda; a própria história da escravidão dos negros no Brasil e as consequências dela na sociedade e na cultura brasileiras; a questão do Mito da Democracia Racial; a diferença expressiva da média salarial, escolarização e expectativa de vida entre brancos e negros brasileiros; a questão das cotas raciais em universidades; a dificuldade de fazer valer a lei que pune pessoas por crime de racismo; a tímida presença de negros na publicidade e nas produções televisivas; o preconceito contra ritmos como o samba no início do século XX por sua evidente origem africana; a questão do "embranquecimento social" na sociedade brasileira; a discussão sobre se o preconceito no Brasil é racial ou ligado à cor da pele e à condição econômica do indivíduo; a questão do branqueamento do Brasil defendido por muitos intelectuais e políticos brasileiros no fim do século XIX e início do XX, etc.

Sobre as propostas de intervenção, destaco entre outras as seguintes: no caso brasileiro, o Poder Legislativo deve ser pressionado para aprimorar os instrumentos legais para configurar o crime de racismo na internet de forma precisa e rigorosa; o desenvolvimento de mais e melhores espaços de debate sobre racismo e intolerância em escolas por meio da criação de disciplina específica ou inclusão desse debate no currículo da Sociologia ou da Filosofia; uma educação focada no debate e na prática dos 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos; a criminalização do ato de desrespeitar a etnia alheia tanto na forma de discurso quanto da atitude violenta contra alguém em função da cor da sua pele ou origem, em especial, na internet; a conscientização da população por meio de propagandas sobre o que consta na Constituição a respeito da ilegalidade e da imoralidade do racismo; etc.
Do ponto de vista técnico, o comando da proposta é claro ao conduzir os candidatos à discussão a respeito de racismo no Brasil no sentido de combatê-lo e compreendê-lo como algo a ser erradicado ou controlado. Enfim, não há margem ou subterfúgio para haver qualquer contorno ou desvio acerca do direito de ser respeitado e visto como cidadão de forma independente a cor de pele ou origem étnica previstos na Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 e na Constituição de 1988.
Sobre os textos motivadores, são muito adequados ao contexto da discussão por serem referenciais sociológicos, históricos e legais relevantes para o debate. No primeiro, uma citação do clássico "O povo brasileiro" de Darcy Ribeiro ilustra o momento do fim da escravidão e da marginalização do negro na sociedade brasileira. No segundo, como é comum no Enem, cita-se a Constituição e o artigo primeiro que trata da ilegalidade do preconceito de várias origens no Brasil. No terceiro, uma propaganda oportunamente explica a diferença entre racismo e injúria racial e, no quarto, há uma conceituação sobre ações afirmativas que são vistas como uma das formas mais comuns de combate ao preconceito no Brasil.
Logo, foi uma ótima prova, porque seletiva, relevante e atual, por isso todos os alunos que se mantiveram minimamente motivados a pensar o tempo em que vivem, a informar-se pelos melhores e mais diversos meios de informação e a praticar o ato de escrever para submetê-lo à rigorosa correção devem ter ficado inclusive felizes e tranquilos com o tema do ano de 2016 do Enem - segunda aplicação. Todavia, a presença de questões sobre racismo no dia anterior à prova do segundo dia tenha sido um aspecto diferente em relação à primeira aplicação.

Para que possam se informar a respeito, seguem alguns "links" do que foi publicado no Opera10 a respeito que considero pertinentes ao assunto.

Meus votos de que todos tenham feito uma prova excepcional neste último fim de semana e meu desejo de que possam ter o merecido descanso, porque o ano foi duríssimo para quem realmente se dedicou.

Abraços a todos,

Professor Estéfani Martins