segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Redação - Análise do tema da redação do Enem 2016, por Estéfani Martins


Caras e caros,

Bom dia. Como fiz no ano passado e parece ter ajudado algumas pessoas, farei de novo neste ano. Eis a minha análise da prova de Redação do Enem 2016 com o tema: "Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil."

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O tema de redação do Enem 2016 (primeira aplicação) sobre liberdade religiosa foi um dos mais pertinentes e socialmente úteis que já foram escolhidos pelo Inep. Não apenas pela razão óbvia de tratar de assunto muito relevante para a vida civilizada em sociedade e pela valorização de um direito humano fundamental, mas como uma forma de o aluno ser cobrado pela separação entre as suas opiniões pessoais e suas concepções científicas e lógicas que seriam - sobretudo - capazes de compreender esse fenômeno cada vez mais comum, ainda que num tempo no qual ele deveria ser considerado um anacronismo, mas infelizmente ele se mantém bem cotidiano na sociedade brasileira contemporânea.

O candidato poderia ter tratado de inúmeras linhas argumentativas ao escrever sobre o tema numa perspectiva mundial como a perseguição de religiões de matriz africana, o preconceito crescente contra islâmicos nos EUA e Europa principalmente, o massacre de Yazidis pelo Estado Islâmico no Iraque, a perseguição a judeus durante a Idade Média, a perseguição a protestantes na Europa especialmente nas décadas posteriores à Reforma Protestante, o combate a religiões indígenas e animistas por missões religiosas desde a Colonização nas Américas, o preconceito ou a desconfiança em relação a ateus o que já foi num passado não tão remoto razão para prender e torturar alguém; etc. Importante salientar que, apesar de uma abordagem mundial sobre o problema ser interessante e até bem vinda, tratar do tema no Brasil é uma obrigatoriedade, mesmo que em um parágrafo apenas. Nesse contexto, destacam-se o preconceito massivo e histórico contra religiões de matriz africana como o Candomblé e a Umbanda, a perseguição sugerida e até proposta por cristãos fundamentalistas de determinadas correntes religiosas que tem como alvo tudo que não seja a representação de suas próprias crenças, etc.

Sobre as propostas de intervenção, destaco entre outras as seguintes: no caso brasileiro, o Poder Legislativo deve ser pressionado para aprimorar a laicização das instituições políticas e governamentais a fim de garantir a liberdade de crença e uma sociedade brasileira multi-religiosa; o desenvolvimento de espaços de debate sobre liberdade religiosa, estado laico e tolerância em escolas por meio da criação de disciplina específica ou inclusão desse debate no currículo da Sociologia ou da Filosofia.; uma educação focada no debate e na prática dos 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos; a criminalização do ato de desrespeitar a fé alheia tanto na forma de discurso quanto da atitude violenta contra alguém em função do seu credo; a conscientização da população por meio de propagandas sobre o que consta na Constituição a respeito da laicidade do Estado e da liberdade religiosa; etc.
Do ponto de vista técnico, o comando da proposta é claro ao conduzir os candidatos à discussão a respeito de intolerância religiosa no sentido de combatê-la e compreendê-la como algo a ser erradicado ou controlado. Enfim, não há margem ou subterfúgio para haver qualquer contorno acerca do direito inalienável e intransferível à liberdade de credo previsto na Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 e na Constituição de 1988.
Sobre os textos motivadores, foram muito bem escolhidos, inclusive porque já sugeriam propostas de intervenção como desdobramentos das questões colocadas nos textos um e dois. No três, é informado ao candidato o que já é lei em relação ao desrespeito em relação à liberdade religiosa ainda que, muitas vezes, pouco cumprida no Brasil. No quatro, informações preciosas são disponibilizadas para se entender quem são os mais atingidos por esse ataque aos Direitos Humanos, o que também ajuda a entender a quem as propostas de intervenção devem favorecer em primeiro plano. Lembro que colocar dados da coletânea na redação é permitido, ainda que pontualmente, pois o texto deve ter muitas marcas de autoria, as quais envolvem conhecimentos que sejam exteriores às informações colocadas na proposta de redação.
Enfim, foi uma grande prova, porque seletiva, relevante e atual, por isso todos os alunos que se mantiveram minimamente motivados a pensar o tempo em que vivem, a informar-se pelos melhores e mais diversos meios de informação e a praticar o ato de escrever para submetê-lo à rigorosa correção devem ter ficado inclusive felizes e tranquilos com o tema do ano de 2016 do Enem.

Para que possam se informar a respeito, seguem links do que foi publicado no Opera10 a respeito e de outras publicações que considero pertinentes ao assunto.












Meus votos de que todos tenham feito uma prova excepcional neste último fim de semana.

Abraços a todos,

Professor Estéfani Martins