sábado, 10 de outubro de 2015

Códigos e Linguagens - Funções da linguagem - lista de exercícios (com gabarito)

Opera10 – Funções da linguagem
Lista de exercícios
Professor Estéfani Martins

1 – Enem-2014-2
Há o hipotrélico. O termo é novo, de impensada origem e ainda sem definição que lhe apanhe em todas as pétalas o significado. Sabe-se, só, que vem do bom português. Para a prática, tome-se hipotrélico querendo dizer: antipodático, sengraçante imprizido; ou talvez, vicedito: indivíduo pedante, importuno agudo, falta de respeito para com a opinião alheia. Sob mais que, tratando-se de palavra inventada, e, como adiante se verá, embirrando o hipotrélico em não tolerar neologismos, começa ele por se negar nominalmente a própria existência.
(ROSA, G. Tutameia: terceiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001)
(fragmento).
Nesse trecho de uma obra de Guimarães Rosa, depreende-se a predominância de uma das funções da

a) metalinguística, pois o trecho tem como propósito essencial usar a língua portuguesa para explicar a própria língua, por isso a utilização de vários sinônimos e definições.
b) referencial, pois o trecho tem como principal objetivo discorrer sobre um fato que não diz respeito ao escritor ou ao leitor, por isso o predomínio da terceira pessoa.
c) fática, pois o trecho apresenta clara tentativa de estabelecimento de conexão com o leitor, por isso o emprego dos termos “sabe-se lá” e “tome-se hipotrélico”.
d)  poética, pois o trecho trata da criação de palavras novas, necessária para textos em prosa, por isso o emprego de “hipotrélico”.
e) expressiva, pois o trecho tem como meta mostrar a subjetividade do autor, por isso o uso do advérbio de dúvida “talvez”.

2 – Opera10
“Abrimos o Brasil a todo o mundo: mas queremos que o Brasil seja Brasil! Queremos conservar a nossa raça, a nossa história, e, principalmente, a nossa língua, que é toda a nossa vida, o nosso sangue, a nossa alma, a nossa religião.”
(BILAC, O. Últimas conferências e discursos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1927.)

Nessa afirmação, Olavo Bilac defende a necessidade de uma mobilização em prol da cultura brasileira. Para além da função emotiva que é fundamental na construção do texto, o tom convocatório faz com que outra função seja importante para a criação de sentido do texto em questão. Qual é ela?
a)    Fática
b)    Conativa
c)    Referencial
d)    Metalinguística
e)    Poética

3 – Enem-2011-2
Uma luz na evolução
Dois fósseis descobertos na África do Sul, dotados de inusitada combinação de características arcaicas e modernas, podem ser ancestrais diretos do homem.

Os últimos quinze dias foram excepcionais para o estudo das origens do homem. No fim de março, uma falange fossilizada encontrada na Sibéria revelou uma espécie inteiramente nova de hominídeo que existia há 50 000 anos. Na semana passada, cientistas da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, anunciaram uma descoberta similar. São duas as ossadas bastante completas ― a de um menino de 12 anos e a de uma mulher de 30 ― encontradas na caverna Malapa, a 40 quilômetros de Johannesburgo. Devido à abundância de fósseis, a região é conhecida como Berço da Humanidade.
(Veja. Abr. 2010) (adaptado).

Sabe-se que as funções da linguagem são reconhecidas por meio de recursos utilizados segundo a produção do autor, que, nesse texto, centra seu objetivo
a)na linguagem utilizada, ao enfatizar a maneira como o texto foi escrito, sua estrutura e organização.
b)em si mesmo, ao enfocar suas emoções e sentimentos diante das descobertas feitas.
c)no leitor do texto, ao tentar convencê-lo a praticar uma ação, após sua leitura.
d)no canal de comunicação utilizado, ao querer certificar-se do entendimento do leitor.
e)no conteúdo da mensagem, ao transmitir uma informação ao leitor.

4 – Enem 2014-3
O telefone tocou.

— Alô? Quem fala?
— Como? Com quem deseja falar?
— Quero falar com o sr. Samuel Cardoso.
— É ele mesmo. Quem fala, por obséquio?
— Não se lembra mais da minha voz, seu Samuel?
Faça um esforço.
— Lamento muito, minha senhora, mas não me
lembro. Pode dizer-me de quem se trata?
(ANDRADE, C. D. Contos de aprendiz. Rio de Janeiro: José Olympio, 1958.)

Pela insistência em manter o contato entre o emissor e o receptor, predomina no texto a função
a)    metalinguística.
b)    fática.
c)    referencial.
d)    emotiva.
e)    conativa.

5 – Insper
“A cena cotidiana, que a maioria já vivenciou, sempre serviu como exemplo de conversa superficial. "Está quente hoje", comenta um. "Será que vai chover?", indaga o interlocutor desinteressado.
Para uma fatia dos moradores da região metropolitana de São Paulo, contudo, a pergunta não é mais retórica.
Revela, ao contrário, preocupação genuína com a situação do sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento hídrico de 8,8 milhões de pessoas.
Por causa da estiagem incomum, tornaram-se frequentes, e não só nos elevadores, os diálogos sobre um possível racionamento em parte da capital e em municípios próximos. A Sabesp (companhia paulista de saneamento básico), por ora, descarta essa hipótese e assegura o suprimento até março de 2015.” (Folha de S. Paulo, 24/07/2014)

O fragmento  acima  evidencia  os  propósitos  comunicativos  dos  falantes,  a  partir  de  escolhas  linguísticas  que exploram diferentes funções de linguagem. Dessa forma, de acordo com o texto, a preocupação com a seca fez com que os diálogos dos paulistanos acerca da previsão do tempo deixassem de cumprir unicamente o objetivo da função
a) emotiva
b) apelativa
c) referencial
d) metalinguística
e) fática

6 - Opera10
Sobre o Fim da História

A pólvora já tinha sido inventada, a Bastilha posta abaixo
e o czar fuzilado quando eu nasci. Embora não me res-
tasse mais nada por fazer, cultivei ciosamente a minha
miopia para poder investir contra moinhos de vento.

Eles até que foram simpáticos comigo e os de minha ge-
ração. Fingiam de gigantes, davam berros horríves só
para nos animar a atacá-los.

Faz tempo que os sei meros moinhos. Por isso os derrubei
e construí em seu lugar uma nova bastilha.
Vou ver se escondo agora a fórmula da pólvora e ar-
ranjo um outro czar para o trono.

Quero que meus filhos comecem bem a vida. (José Paulo Paes)

Sobre a teoria das funções e das figuras de linguagem, marque a alternativa correta.
a) A função da linguagem predominante é a conativa e há paradoxos entre as figuras de linguagem presentes no texto.
b) A função da linguagem predominante é a emotiva e há uma prosopopeia entre as figuras de linguagem presentes no texto.
c) A função da linguagem predominante é a emotiva e há antíteses entre as figuras de linguagem presentes no texto.
d) A função da linguagem predominante é a conativa e há prosopopeias entre as figuras de linguagem presentes no texto.
e) A função da linguagem predominante é a emotiva e há anacolutos entre as figuras de linguagem presentes no texto.

7 - UFS
Disparidades raciais
Fator decisivo para a superação do sistema colonial, o fim do trabalho escravo foi seguido pela criação do mito da democracia racial no Brasil. Nutriu-se, desde então, a falsa ideia de que haveria no país um convívio cordial entre as diversas etnias.
Aos poucos, porém, pôde-se ver que a coexistência pouco hostil entre brancos e negros, por exemplo, mascarava a manutenção de uma descomunal desigualdade socioeconômica entre os dois grupos e não advinha de uma suposta divisão igualitária de oportunidades.
O cruzamento de alguns dados do último censo do IBGE relativos ao Rio de Janeiro permite dimensionar algumas dessas inequívocas diferenças. Em 91, o analfabetismo no Estado era 2,5 vezes maior entre negros do que entre brancos, e quase 60% da população negra com mais de 10 anos não havia conseguido ultrapassar a 4ª. série do 1º. grau, contra 39% dos brancos. Os números relativos ao ensino superior confirmam a cruel seletividade imposta pelo fator socioeconômico: até aquele ano, 12% dos brancos haviam concluído o 3º. Grau, contra só 2,5% dos negros.
É inegável que a discrepância racial vem diminuindo ao longo do século: o analfabetismo no Rio de Janeiro era muito maior entre negros com mais de 70 anos do que entre os de menos de 40 anos. Essa queda, porém, ainda não se traduziu numa proporcional equalização de oportunidades.
Considerando que o Rio de Janeiro é uma das unidades mais desenvolvidas do país e com acentuada tradição urbana, parece inevitável extrapolar para outras regiões a inquietação resultante desses dados. (Folha de São Paulo, 9. de jun. de 1996. Adaptado).

Considerando as funções que a linguagem pode desempenhar, reconhecemos que, no texto acima, predomina a função:
a) apelativa: alguém pretende convencer o interlocutor acerca da superioridade de um produto.
b)  expressiva: o autor tenciona apenas transparecer seus sentimentos e emoções pessoais.
c)   fática: o propósito comunicativo em jogo é o de entrar em contato com o parceiro da interação.
d)  estética: o autor tem a pretensão de despertar no leitor o prazer e a emoção da arte pela palavra.
e) referencial: o autor discorre acerca de um tema e expõe sobre ele considerações pertinentes.

8 – Opera10

Quais as funções da linguagem preponderantes na propaganda acima:
a)    Emotiva e referencial.
b)    Emotiva e poética.
c)    Emotiva e conativa.
d)    Conativa e metalinguística.
e)    Fática e referencial.

9 – Opera10
Aplique as teorias das funções e das figuras de linguagem e marque a alternativa correta.

a) No trecho de autoria do escritor angolano José Eduardo Agualusa, pode se notar a predominância da função poética da linguagem e a presença do antítese na construção da sentença.
"Um alfarrabista organizado, metódico, sugere-me algo vagamente monstruoso, capaz de ofender a ordem natural das coisas, um pouco como um lagarto com duas cabeças, um advogado ingênuo, um general pacifista." ("Discurso Sobre o Fulgor da Língua", no livro Manual Prático de Levitação. Rio de Janeiro: Gryphus, 2005, pág. 96).
b) No trecho de autoria de Luiz Vilela presente no conto “O suicida”, pode-se notar algumas figuras de linguagem como a metonímia e a gradação ascendente, além da função poética.
"A decepção era geral, todo mundo se sentia logrado. O único que vi contente com a coisa foi um dos estudantes: tinham apostado uma Brahma, e o que apostara que ninguém ia suicidar ria e gozava o outro, dando soquinhos. Mas o outro ainda não se dera por vencido; ainda não estava escuro, o sujeito ainda podia pular. Mas ninguém pulou mesmo." ("O Suicida", no livro Os Melhores Contos de Luiz Vilela. São Paulo: Global, 1988, pág. 129).

c) Abaixo o trecho de “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar é construído com o uso de anáfora, anacoluto e prosopopeia.
"O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente [...]." (Lavoura Arcaica. São Paulo: Cia. das Letras, 1989, pág. 95).

d)    No fragmento abaixo, João Ubaldo Ribeiro utiliza-se de um eufemismo e da função fática da linguagem para construir o texto.
"Vítima contumaz do terrorismo médico que nos assola em jornais, revistas e reuniões sociais, todo dia me convencem de que serei ceifado ou, no mínimo, entortado definitivamente pelas doenças que nos pegarão, quer deixemos de fazer, quer persistamos em fazer alguma coisa." ("Mantendo a Forma", em O Conselheiro Come. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, pág. 86).

e)    No trecho de “O fiel e a pedra” de Osman Lins, há uma hipálage, metáforas e epístrofes.
"Olhou a esposa. Ela cruzara os pés e estava de sapatos, aqueles sapatos negros e já velhos, resguardados pelo seu zelo diligente contra o uso e o tempo." (O Fiel e a Pedra. São Paulo: Summus, 1979, pág. 204).

10 – Enem-2006
A linguagem
na ponta da língua
tão fácil de falar
e de entender.
A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele e quem sabe,
e vai desmatando 10
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquemáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a priminha.
O português são dois; o outro, mistério.
(Carlos Drummond de Andrade. Esquecer para lembrar. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.)

Explorando a função emotiva da linguagem, o poeta expressa o contraste entre marcas de variação de usos da linguagem em
a) situações formais e informais.
b) diferentes regiões dos pais.
c) escolas literárias distintas.
d) textos técnicos e poéticos.
e) diferentes épocas

11 – Enem-2007
O canto do guerreiro

Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não geram escravos,
Que estimem a vida
Sem guerra e lidar.
— Ouvi-me, Guerreiros,
— Ouvi meu cantar.
Valente na guerra,
Quem há, como eu sou?
Quem vibra o tacape
Com mais valentia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
— Guerreiros, ouvi-me;
— Quem há, como eu sou?
(Gonçalves Dias)

Macunaíma
(Epílogo)
Acabou-se a história e morreu a vitória.
Não havia mais ninguém lá. Dera tangolomângolo na tribo Tapanhumas e os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia mais ninguém lá. Aqueles lugares, aqueles campos, furos puxadouros arrastadouros meios-barrancos, aqueles matos misteriosos, tudo era solidão do deserto... Um silêncio imenso dormia à beira do rio Uraricoera. Nenhum conhecido sobre a terra não sabia nem falar da tribo nem contar aqueles casos tão pançudos. Quem podia saber do Herói?
(Mário de Andrade)

Considerando-se a linguagem desses dois textos, verifica-se que
a) a função da linguagem centrada no receptor está ausente tanto no primeiro quanto no segundo texto.
b) a linguagem utilizada no primeiro texto é coloquial, enquanto, no segundo, predomina a linguagem formal.
c) há, em cada um dos textos, a utilização de pelo menos uma palavra de origem indígena.
d) a função da linguagem, no primeiro texto, centra-se na forma de organização da linguagem e, no segundo, no relato de informações reais.
e) a função da linguagem centrada na primeira pessoa, predominante no segundo texto, está ausente no primeiro.

12 - Enem Cancelado-2009
Sentimental
1 Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas 4 e debruçados na
mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra, 7 uma letra somente para
acabar teu nome!
— Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
10 Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências este cartaz amarelo: "Neste
país é proibido sonhar."
(ANDRADE, C. D. Seleta em Prosa e Verso. Rio de Janeiro: Record, 1995.)

Com base na leitura do poema, a respeito do uso e da predominância das funções da linguagem no texto de Drummond, pode-se afirmar que
a) por meio dos versos "Ponho-me a escrever teu nome" (v.1) e "esse romântico trabalho" (v.5), o poeta faz referências ao seu próprio ofício: o gesto de escrever poemas líricos.
b) a linguagem essencialmente poética que constitui os versos "No prato, a sopa esfria, cheia de escamas e debruçados na mesa todos contemplam" (v.3 e 4) confere ao poema uma atmosfera irreal e impede o leitor de reconhecer no texto dados constitutivos de uma cena realista.
c) na primeira estrofe, o poeta constrói uma linguagem centrada na amada, receptora da mensagem, mas, na segunda, ele deixa de se dirigir a ela e passa a exprimir o que sente.
d) em "Eu estava sonhando..." (v. 10), o poeta demonstra que está mais preocupado em responder à pergunta feita anteriormente e, assim, dar continuidade ao diálogo com seus interlocutores do que em expressar algo sobre si mesmo.
e) no verso "Neste país é proibido sonhar." (v. 12), o poeta abandona a linguagem poética para fazer uso da função referencial, informando sobre o conteúdo do "cartaz amarelo" (v.11) presente no local.

13 – Mack-2005
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto
expediente
[protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
(...)
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico.
(Manuel Bandeira)

Assinale a afirmativa correta.
a) O lirismo caracterizado no terceiro verso é o oposto do lirismo comedido (primeiro verso).
b) No quarto verso, o eu lírico repudia o envolvimento amoroso.
c) Raquítico e Sifilítico, nesse contexto, são palavras antônimas.
d) No terceiro verso, as expressões que caracterizam o lirismo pertencem a campos semânticos diferentes.
e) A palavra lirismo, no poema, é índice de função metalinguística, isto é, revela que o assunto do poema é o próprio fazer poético.

14 - Unifesp-2004

fora de si
eu fico louco
eu fico fora de si
eu fica assim
eu fica fora de mim
eu fico um pouco
depois eu saio daqui
eu vai embora
eu fico fora de si
eu fico oco
eu fica bem assim
eu fico sem ninguém em mim.

A leitura do poema permite afirmar corretamente que o poeta explora a ideia de
a) buscar a completude no Outro, conforme atesta a função apelativa, reforçando que o Eu, quando fora de si, necessariamente se funde com o Outro.
b) sair de sua criação artística, retratando, pela função poética, a contradição do fazer literário, que não atinge o poeta.
c) perder a noção de si mesmo, e também perder a noção das outras pessoas, o que se mostra num poema metalinguístico.
d) extravasar o seu sentimento, como denuncia a função emotiva, reafirmando a situação de desencanto e desengano do poeta.
e) criar literariamente como brincar com as palavras, o que se pode comprovar pela função fática da linguagem.

15 - PUC-SP
A questão é começar

Coçar e comer é só começar. Conversar e escrever também. Na fala, antes de iniciar, mesmo numa livre conversação, é necessário quebrar o gelo. Em nossa civilização apressada, o “bom dia”, o “boa tarde, como vai?” já não funcionam para engatar conversa. Qualquer assunto servindo, fala-se do tempo ou de futebol. No escrever também poderia ser assim, e deveria haver para a escrita algo como conversa vadia, com que se divaga até encontrar assunto para um discurso encadeado. Mas, à diferença da conversa falada, nos ensinaram a escrever e na lamentável forma mecânica que supunha texto prévio, mensagem já elaborada. Escrevia-se o que antes se pensara. Agora entendo o contrário: escrever para pensar, uma outra forma de conversar.
Assim fomos “alfabetizados”, em obediência a certos rituais. Fomos induzidos a, desde o início, escrever bonito e certo. Era preciso ter um começo, um desenvolvimento e um fim predeterminados. Isso estragava, porque bitolava, o começo e todo o resto. Tentaremos agora (quem? eu e você, leitor) conversando entender como necessitamos nos reeducar para fazer do escrever um ato inaugural; não apenas transcrição do que tínhamos em mente, do que já foi pensado ou dito, mas inauguração do próprio pensar. “Pare aí”, me diz você. “O escrevente escreve antes, o leitor lê depois.” “Não!”, lhe respondo, “Não consigo escrever sem pensar em você por perto, espiando o que escrevo. Não me deixe falando sozinho.”
Pois é; escrever é isso aí: iniciar uma conversa com interlocutores invisíveis, imprevisíveis, virtuais apenas, sequer imaginados de carne e ossos, mas sempre ativamente presentes. Depois é espichar conversas e novos interlocutores surgem, entram na roda, puxam assuntos. Termina-se sabe Deus onde.
(Marques, M.O. Escrever é Preciso, Ijuí, Ed. UNIJUÍ, 1997, p. 13).

Observe a seguinte afirmação feita pelo autor: “Em nossa civilização apressada, o “bom dia”, o “boa tarde” já não funcionam para engatar conversa. Qualquer assunto servindo, fala-se do tempo ou de futebol.” Ela faz referência à função da linguagem cuja meta é “quebrar o gelo”. Indique a alternativa que explicita essa função.
a) Função emotiva
b) Função referencial
c) Função fática
d) Função conativa
e) Função poética