quinta-feira, 14 de maio de 2015

Redação - Módulo 8 - Tipologias textuais (protótipos textuais)

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“Os textos também podem ser classificados levando-se em consideração o caráter da interação entre autor e leitor, pois o autor se propõe a fazer algo, e quando essa intenção está materialmente presente no texto, através das marcas formais, o leitor se dispõe a escutar, momentaneamente, o autor, para depois aceitar, julgar, rejeitar. Sob esse ponto de vista da interação podemos também distinguir os discursos narrativos, descritivos, argumentativos.”
(Kleiman)

“Gerar um texto significa executar uma estratégia de que fazem parte as previsões dos movimentos dos outros.” (Umberto Eco)

        As tipologias textuais ou protótipos textuais são mecanismos de construção textual/discursiva, os quais são produtos de capacidades e necessidades humanas usadas na interação com o meio, com o próprio íntimo e com o outro. Além disso, são formas de apreender, interferir e apresentar a realidade. Assim, mesmo timidamente, elas podem ser vistas desde tempos primordiais nas simples ações cotidianas de contar uma história; instruir ou ordenar; dialogar; expor um determinado conhecimento; descrever um desejo ou uma nova experiência sensorial; ou ainda defender um posicionamento ou uma visão de mundo; etc.
       Quanto a questões técnicas, são sequências linguísticas com especificidades associadas às estruturas morfológicas mais comuns usadas no texto; a determinadas escolhas sintáticas; ao maior ou menor grau de subjetividade e conotação na linguagem empregada; a como são utilizados os verbos quanto ao modo, tempo e aspecto; ao uso das pessoas do discurso; etc.
     Para essas formas elementares de expressão, foram dados os nomes de narração, injunção ou instrução, diálogo, exposição, descrição e argumentação, as quais, de certa forma, tentam exprimir a experiência humana com o texto/discurso. Tais tipos textuais organizam-se também em função da finalidade e das intenções pretendidas pelos seus usuários.
       Pode-se também dizer sobre os tipos de texto que, separados ou puros, é muito difícil encontrá-los, pois é mais comum estarem misturados na maioria dos gêneros textuais com os quais tomamos contato em nosso cotidiano. Quanto a essa questão, é importante ressaltar que não há pureza na maioria dos textos produzidos pelo homem quanto à tipologia textual, mas, sim, predominância de uma em relação à outra.
      Nesse sentido, alguns estudiosos definem essas relações de dominância como uma forma de nomear e hierarquizar a interação entre as tipologias textuais a partir de características substantivas (predominantes) e adjetivas (traços, recursos, ferramentas). Essas inúmeras possibilidades de interação entre as diferentes tipologias podem classificar um texto entre os mais variados gêneros textuais, são exemplos: a fábula, o conto, a dissertação, a carta, o manifesto, a crônica, a notícia, o artigo, o editorial, o sermão, etc. A seguir, seguem discussões detalhadas sobre as tipologias ou os protótipos textuais:


Tipologia textual descritiva

Descrever é perceber algo como se dele fizéssemos parte.”
(Vitório Sá)

“Entendo que para contar é necessário primeiramente construir um mundo, o mais mobiliado possível, até os últimos pormenores. Constrói-se um rio, duas margens, e na margem esquerda coloca-se um pescador, e esse pescador possui um temperamento agressivo e uma folha penal pouco limpa, pronto: pode-se começar a escrever, traduzindo em palavras o que não pode deixar de acontecer.”
(Umberto Eco)

  1. Transforma em linguagem aquilo que os cinco sentidos captam.
  2. Há a caracterização de pessoas, ambientes, objetos, sensações, etc., com a utilização dos cinco sentidos ou da imaginação criadora.
  3. Adjetivos, classificações, atributos e impressões são recursos descritivos obrigatórios.
  4. Constrói “imagensfísicas ou psicológicas de um determinado objeto, sensação, paisagem, pessoa, etc.
  5. O tempo verbal predominante é o presente.
  6. Recorte da realidade a partir de um ponto de vista físico ou ideológico.
  7. Amplo uso de verbos de ligação [ser, estar, permanecer, parecer, ficar, continuar, virar (tornar-se), etc.].
  8. Amplo uso de orações nominais.
  9. Preferência por períodos curtos e orações coordenadas.
  10. Amplo emprego de metáforas, comparações e outras figuras de linguagem.
  11. O texto descritivo prescinde de estrutura textual, a não ser pelo fato de, normalmente, ser estruturado de forma dedutiva, ou seja, parte de observações mais gerais para as mais particulares.
  12. A descrição pode ser objetiva ou subjetiva, o que independe do assunto do texto.
  13. Normalmente, transforma-se em ferramenta discursiva em textos jornalísticos, literários, científicos e didáticos.

s.f. ato ou efeito de descrever; reprodução, traçado, delimitação. 1 representação fiel; imitação, cópia, retrato. 2 representação oral ou escrita de; exposição. 3 estl lit desenvolvimento literário por meio do qual se representa o aspecto exterior de seres e coisas. 4 jur num processo, a enumeração circunstanciada, detalhada dos caracteres de algo (...). (Dicionário Houaiss Digital)

Exemplo 01.

       “Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, - únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.” (Trecho de “O Alienista” de Machado de Assis)

Exemplo 02.
            “A Wikipédia é uma enciclopédia livre que está sendo construída por milhares de colaboradores de todo o mundo. Este é um site baseado no conceito de wiki, o que significa que qualquer internauta, inclusive você, pode editar o conteúdo de quase TODOS artigos acionando o link "Editar" (Nas abas de conteúdo) que é mostrado em quase todas as páginas do site.
O projeto Wikipédia foi iniciado em 15 de Janeiro de 2001, na versão em língua inglesa. Em apenas um ano de existência, esta versão já possuía quase 10.000 artigos. Até hoje já foram criados mais de 5 milhões de artigos em dezenas de línguas (246 932 artigos na versão em português). Todos os dias, centenas de colaboradores de todas as partes do mundo editam milhares de artigos e criam muitos artigos inteiramente novos.” (www.wikipedia.org.br)

Exemplo 03.
            “Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechada e cinza, aqui contra a sacada, com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um através do outro. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu e se esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que se prende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.” (Júlio Cortázar)

Exemplo 04.
A casa materna

Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas plantas, tinhorões a samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.
É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta de almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar.
A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para quartos cheios de sombras. Na estante, junto à escada, há um tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema de beleza: o verso.
Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoito de araruta – pois não há lugar mais propício do que a casa materna para uma boa ceia noturna . E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficaram guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna, sabe por que queima, às vezes, uma vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia.
A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como se marca ainda na velha poltrona da sala e como se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se faziam mais lentas e mãos filiais mais unidas em torno da grande mesa, onde já vibram também vozes infantis. (Vinícius de Morais)

Tipologia textual narrativa

                "Minha força vem da lembrança da infância na fazenda, de correr e subir em árvores. E das histórias fantásticas que as empregadas negras contavam."
(Tarsila do Amaral)

“Lembrava mais do passado que do presente. Morreu empoeirado.”
(Roberto Prado)

                “Contar histórias para crianças é a arte que melhor se adapta a nossa forma de pensar: tocam o ser humano há 4000 anos e o farão no ano 6000.”
(Margaret Read Mac Donald)

“Toda história de amor só presta se tiver, como ponto final, um beijo de mulher!”
(Menotti Del Picchia)

  1. Respeita uma determinada sequência no relato de fatos e acontecimentos reais ou imaginários (texto sequencial);
  2. Texto marcado convencionalmente por uma determinada cronologia de eventos e acontecimentos (temporalidade);
  3. Narrador, personagens, espaço, tempo e enredo são tradicionalmente elementos importantes para a caracterização do texto narrativo;
  4. Geralmente, respeita a seguinte estrutura textual: apresentação, desenvolvimento (complicação), clímax e desfecho ou, simplesmente, começo, meio e fim. Contudo, não é obrigatório que as partes da narrativa estejam dispostas exatamente dessa forma, além de, muitas vezes, ser comum encontrar narrativas sem apresentação ou desfecho;
  5. É comum a presença de personagens que, classicamente, enquadram-se na seguinte disposição: protagonista (herói), antagonista (vilão) e coadjuvante (personagem secundário).
  6. Presença de um conflito na narrativa que tende ao equilíbrio ou à solução, normalmente encontrada no clímax do texto.
  7. Verbos de ação ou processuais são fundamentais para existência desse tipo de texto.
  8. Presença intensa de advérbios e locuções adverbiais.
  9. Discurso direto, indireto e indireto livre são amplamente empregados.
  10. O tempo verbal predominante é o pretérito.
  11. É representada por textos de vários tamanhos, temáticas e estruturas, tais como o romance, a novela, o micro conto, o conto, a fábula, a narrativa oral, o cordel, etc., os quais podem ser escritos admitindo-se eixos temáticos que permitem classificar as narrativas como humorísticas, de aventura, de amor, de terror, de horror, de ficção científica, etc.

s.f. ação, processo ou efeito de narrar; narrativa 1 exposição escrita ou oral de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos sequenciados 2 cine tv fala que acompanha, comenta ou explica uma sequência de imagens que expõem um acontecimento ou uma série deles 3 o texto dessa fala 4 sequência de imagens que expõem ou mostram um acontecimento ou uma série deles. (Dicionário Houaiss Digital)

Exemplo 05.
Prólogo
Enfim, um indivíduo de idéias abertas

A coceira no ouvido atormentava. Pegou o molho de chaves, enfiou a mais fininha na cavidade. Coçou de leve o pavilhão, depois afundou no orifício encerado. E rodou, virou a pontinha da chave em beatitude, à procura daquele ponto exato em que cessaria a coceira.
Até que, traque, ouviu o leve estalo e, a chave enfim no seu encaixe, percebeu que a cabeça lentamente se abria. (Marina Colasanti, Contos de amor rasgados)

Exemplo 06.
            70, 70, 70, 71, 95, zero. O coração parou. (Ricardo Barioni)

Exemplo 07.
            Pensou em vender a alma. Buscou por dentro, não a encontrou. (Rosa Meire)

Exemplo 08.
Dia dos namorados
Ontem. Dia dos namorados. Um casal beijava-se entregue numa praça, quando ocorreu um assalto. Horas depois, o namorado registrava a queixa em que anunciava o roubo de uma namorada. (Vitório Sá)

Exemplo 09.
Fábula Curta
"Ai de mim!", disse o rato, – "o mundo vai ficando dia a dia mais estreito". "Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão rapidamente um ao encontro do outro que eis-me já no fim do percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair". "– Mas o que tens a fazer é mudar de direção", disse o gato, devorando-o. (Franz Kafka)

Exemplo 10.
Era uma vez
            Olhei para o espelho. Queria que me dissesse a verdade da minha beleza e virtudes. Mas, disse-me: – Você é um nada, nunca irá existir!– joguei o espelho fora. Comprei outro.
Que se dane a verdade. Fui feliz.  (Dudu Oliva)

Tipologia textual injuntiva ou instrucional

  1. Uso de linguagem geralmente objetiva, precisa e clara para orientar e indicar procedimentos capazes de cumprir determinadas ações.
  2. Tem como objetivo que o interlocutor pratique uma determinada ação requerida, desejada; cumpra meticulosamente diferentes etapas - cronologicamente ordenadas - de execução de uma ação; seja orientado sobre o que ou como fazer determinada tarefa ou ação; seja incitado à realização de uma dada ação ou um procedimento; etc.
  3. Muitas vezes, um texto injuntivo tem a seguinte estruturação: 1ª parte: descrição dos materiais e circunstâncias necessárias para a realização da uma ação; 2ª parte: enumeração de procedimentos, os quais podem ser limitados quanto ao tempo, ao espaço, à quantidade, á qualidade e a circunstâncias a ater-se para o adequado desenvolvimento de algum projeto, ação ou procedimento.
  4. As formas verbais mais utilizadas na injunção são a 3ª pessoa do modo imperativo: "Depois de quentes, mexa todos os ingredientes."; o presente do indicativo com sujeito indeterminado: "Depois de quentes, mexe-se todos os ingredientes."; o infinitivo: "Depois de quentes, mexer todos os ingredientes.".
  5. Uso frequente de advérbios de modo e de negação.
  6. O enunciado é feito na perspectiva do fazer posterior ao tempo da enunciação.
  7. São exemplos dessa tipologia textual os manuais de instrução, as receitas culinárias, as constituições, os regimentos, etc.
s.f. 1.ato de injungir, de ordenar expressamente uma coisa; ordem precisa e formal. 2.influência coercitiva de leis, regras, costumes ou circunstâncias; imposição, exigência, pressão. (Dicionário Houaiss)

Exemplo 11.
Pennette di casa mia

Ingredientes:
200 g de tomates secos
1 dente de alho
2 filés de anchovas
500 g de tomates maduros sem pele
50 g de alcaparras
50 g de azeitonas pretas médias
1 berinjela
100 g de ricota de búfala
500 g de penne
1 colher de sopa de manteiga
2 colheres de sopa de azeite de oliva extravirgem
sal
pimenta moída
folhinhas de basílico
100 ml de vinho branco seco

Acompanhamento
Polpettine di Pesce

300 gr de peixe branco cortado fino
1 colher pequena de salsinha picada
1 ovo
1 pitada de alho picado
1 pitada de gengibre ralado fino, sal, pimenta

Preparo:
1 Fatie a berinjela pelo comprimento, bem fininha e coloque para grelhar no com azeite. 2 Em uma frigideira coloque o azeite, a manteiga e o alho bem batido. 3 Amasse os filés de anchova com um garfo. 4 Junte-os às alcaparras, as azeitonas sem caroço e adicione o vinho até evaporar. 5 Acrescente os tomates secos cortados em pedaços graúdos. 6 Após alguns minutos, junte os tomates frescos cortados em pedaços graúdos sem a semente. 7 Adicione o sal, a pimenta, a ricota. 8 Não deixe ferver e sim apenas incorporar o molho. 9 Cubra com as folhas de basílico. 10 Em outra panela, coloque a água para ferver, com uma colher média de sal. 11 Deixe cozinhar a massa de 6 a 8 minutos. 12 Escoe e junte a massa ao molho.

Montagem:
1 Distribua as fatias de berinjela ao redor de um prato. 2 Coloque a massa, o molho e feche com as respectivas fatias de berinjela que haviam ficado abertas. 3 O queijo parmesão é opcional

Acompanhamento:
Faça pequenas bolinhas. Passe na farinha e frite-as em óleo quente. Elas complementam o prato de penne, que deve estar previamente misturado ao molho. Calculamos três unidades por pessoa.

Rendimento: 3 porções
Menu: prato principal
Cozinha: italiana

Exemplo 12.
Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio

Pensa nisto: quando te oferecem um relógio, oferecem-te um pequeno inferno florido, uma prisão de rosas, um calabouço de ar. Não te dão somente o relógio, muitos parabéns, que te dure muitos e bons, é uma ótima marca, suíço com não sei quantos rubis, não te oferecem somente esse pequeno pedreiro que prenderás ao pulso e passeará contigo. Oferecem-te -- ignoram-no, é terrível ignorá-lo -- um novo bocado frágil e precário de ti mesmo, algo que é teu mas não é o teu corpo, que tens de prender ao teu corpo com uma correia, como um bracito desesperado pendente do pulso. Oferecem-te a necessidade de lhe dar corda todos os dias, a obrigação de dar corda para que continue a ser um relógio; oferecem-te a obsessão de ver as horas certas nas montras das joalharias, o sinal horário na rádio, o serviço telefônico. Oferecem-te o medo de o perder, de seres roubado, de que caia ao chão e se parta. Oferecem-te uma marca, a convicção de que é uma marca superior às outras, oferecem-te a tentação de comparares o teu com os outros relógios. Não te oferecem um relógio, és tu o oferecido, a ti oferecem para o nascimento do relógio.

Instruções para dar corda ao relógio

Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as velas do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte, se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada. (Julio Cortázar)

Tipologia textual expositiva

“O escritor curto em idéias e fatos será, naturalmente, um autor de idéias curtas, assim como de um sujeito de escasso miolo na cachola, de uma cabeça de coco velado, não se poderá esperar senão breves análises e chochas tolices.” (Rui Barbosa)

  1. Uso da linguagem com o intuito de explanar, de fazer entender ou conhecer determinado assunto, de enumerar, de definir, ou seja, de explicar determinado tema com a pretensão de ser imparcial para que o leitor, o ouvinte ou o interlocutor possa informar-se sobre o assunto exposto;
  2. Há certo distanciamento do autor do texto em relação ao assunto por ele abordado, o que pode produzir um caráter razoavelmente imparcial ao texto;
  3. Presença intensa de orações coordenadas explicativas e subordinadas adjetivas explicativas;
  4. Verbos predominantemente no presente e no futuro do presente do indicativo com o intuito de reforçar a certeza e a confiabilidade do que se expõe;
  5. Linguagem predominantemente denotativa e impessoal;
  6. Predomínio da ordem direta na construção das orações e frases;
  7. Na maioria das vezes, a exposição das ideias e fatos respeita uma temporalidade lógica;
  8. A norma padrão é normalmente exigida na confecção desse tipo de texto, em especial, nos escritos;
  9. Uso de conectivos de esclarecimento, reiteração ou reformulação com o intuito de facilitar, esclarecer e explicar mais detalhadamente o conteúdo do texto (isto é, ou seja, em outras palavras, etc.);
  10. Emprego de indicadores de esclarecimento e exemplificação (por exemplo, a saber, etc.);
  11. Pode-se fazer uso de comparações e analogias para facilitar a compreensão das ideias expostas no texto;
  12. É possível encontrar textos expositivos construídos com mais de uma explicação sobre um mesmo assunto, com o intuito de que, pela enumeração de diversos pontos de vista sobre tal tema, um determinado interlocutor se informe para melhor produzir suas próprias conclusões sobre o assunto em questão;
  13. É um texto com preocupações informativas;
  14. São exemplos dessa tipologia textual a notícia, muitas dissertações, o livro didático, alguns documentos científicos, etc.

s.f. 1. apresentação organizada de um assunto, oralmente ou por escrito; palestra, explanação. 1.1 ação de declarar, de manifestar. (Dicionário Houaiss)

Exemplos:

Exemplo 13.
Superdotados - Como identificar um superdotado e as dificuldades que eles enfrentam

Os superdotados causam admiração e inveja, mas não têm uma vida tão fácil quanto parece. Afinal, é bacana ser chamado de gênio, mas ninguém quer ser o C.D.F, o nerd do colégio, e ganhar a antipatia da turma. Outro problema é a burocracia e a falta de oportunidades. Nem sempre eles têm permissão do colégio para pular séries ou entrar numa faculdade muito novos.
Quem não pode entrar numa instituição especializada, acaba fingindo saber menos para se igualar aos colegas da mesma idade. Por isso, é comum que crianças extremamente inteligentes tenham desempenho ruim na escola. Já imaginou estudar tabuada sabendo resolver problemas complexos de matemática? Ou ser obrigado a ler o alfabeto já sabendo duas línguas? É um convite ao tédio... “É preciso estimular essas crianças, dar a oportunidade para que elas desenvolvam seu potencial”, diz Clara Sodré, doutora em superdotação pela Universidade de Columbia, em Nova York.
Aliás, o termo “superdotado”, não agrada aos especialistas da área. Zenita Guenther, fundadora do Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento (Cedet), diz que o termo “superdotado” é uma tradução mal feita do inglês. Os especialistas preferem usar a expressão “crianças e jovens com dotação e talento”.
Veja no quadro abaixo algumas características que ajudam a identificar crianças e jovens com esse potencial:

- curiosidade aguçada
- memória acentuada
- persistência nos objetivos
- gosto por desafios
- rapidez para aprender
- vocabulário inusitado para a idade
- senso de humor apurado.

Fonte: www.mundoestranho.com.br

Exemplo 14.
De onde vem a expressão rock and roll?

A expressão, que literalmente significa "balançar e rolar", fazia parte da gíria dos negros americanos desde as primeiras décadas do século XX, para referir-se ao ato sexual. Assim, ela já aparecia em várias letras de blues e rhythm’n’blues como "Good Rockin’ Tonight" (1947), de Roy Brown - antes de ser adotada como nome do novo estilo musical, que surgiu nos anos 50, com Bill Halley e Elvis Presley, e consistia basicamente na fusão desses ritmos negros com a branquela música country. Esse batismo costuma ser atribuído ao disc-jóquei americano Alan Freed (1922-1965), cujo programa de rádio foi um dos principais responsáveis pela popularização da nova onda, altamente dançante, que logo contagiou toda a juventude do país e do mundo.
Na década de 60, o rótulo foi abreviado para rock, para abranger as mudanças provocadas por artistas como Bob Dylan e Beatles, abrindo um leque de infinitas variações: rock psicodélico, rock progressivo, folk rock, hard rock, heavy metal etc etc. A partir daí, o termo rock’n’roll passou a significar exclusivamente o estilo original, característico da década de 50.

Tipologia textual argumentativa

“Na dissertação podemos expor, sem combater, idéias de que discordamos ou que nos são indiferentes. Um professor de filosofia pode fazer uma explanação sobre o existencialismo ou o marxismo com absoluta isenção, dando dessas doutrinas uma idéia exata, fiel, sem tentar convencer seus alunos das verdades ou falsidades numa ou noutra contidas, sem tentar formar lhes a opinião, deixando os, ao contrário, em inteira liberdade de se decidirem por qualquer delas. Mas, se, por ser positivista, fizer a respeito da doutrina de Comte uma exposição com o propósito de influenciar seus ouvintes, de Ihes formar a opinião, de convertê-los em adeptos do positivismo, com o propósito, enfim, de mostrar ou provar as vantagens, a conveniência, a verdade, em suma, da filosofia comtista — se assim proceder, esse professor estará argumentando. Argumentar é, em última análise, convencer ou tentar convencer mediante a apresentação de razões, em face da evidência das provas e à luz de um raciocínio coerente e consistente.”
(Othon M. Garcia)

"Nada é mais perigoso do que uma idéia quando se tem apenas uma."
(Émile-Auguste Chartier)

"Não é triste mudar de idéias, triste é não ter idéias para mudar."
(Barão de Itararé)


  1. Defesa de um ponto de vista acerca de algum assunto, ideia ou conceito;
  2. Utilização da linguagem com o objetivo de, por meio de exposição de fatos, ideias e conceitos, chegar a conclusões lógicas e verossímeis que possam convencer alguém sobre um determinado posicionamento ou opinião;
  3. Predominância de períodos compostos por subordinação;
  4. Uso frequente de verbos no presente, no pretérito perfeito e futuro do presente que indicam certeza sobre fato ocorrido, que ocorre ou ainda ocorrerá;
  5. Muito frequente uso da norma padrão da língua, o que pode conferir mais legitimidade aos argumentos;
  6. Uso de recursos lógicos com a intenção de fazer convencer o leitor ou o ouvinte de um determinado ponto de vista;
  7. Emprego de recursos retóricos para cumprir os objetivos argumentativos do texto;
  8. Pode empregar até mesmo recursos emotivos com o intuito de convencer alguém;
  9. Podem ser empregados recursos denotativos ou conotativos na construção de argumentos, ainda que aqueles sejam mais frequentemente utilizados;
  10. A presença de mais de um ponto de vista em um texto argumentativo pode ser explicada pelo recurso retórico em que, para reforçar determinada posição sobre um tema, refutam-se outras, ou seja, constrói-se um contra-argumento;
  11. São exemplos dessa tipologia textual o sermão, muitas dissertações científicas, as defesas orais de advogados em julgamentos, o artigo de opinião, a crítica, a resenha crítica, etc.

s.f. 1.arte, ato ou efeito de argumentar. 2. Derivação: por extensão de sentido. troca de palavras em controvérsia, disputa; discussão. 3. Rubrica: termo jurídico. conjunto de idéias, fatos que constituem os argumentos que levam ao convencimento ou conclusão de (algo ou alguém). 4. Rubrica: literatura, estilística. no desenvolvimento do discurso, corresponde aos recursos lógicos, como silogismos, paradoxos etc. ger. acompanhados de exemplos, que induzem à aceitação de uma tese e à conclusão geral e final. (Dicionário Houaiss)

Exemplos:

Exemplo 15.
            “Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso enconfuso, depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o Mundo fora santo. Este argumento de fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as histórias eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do Mundo; os reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? -- Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta, tão grande e tão importante dúvida, será a matéria do sermão. Quero começar pregando-me a mim. A mim será, e também a vós; a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais a ouvir.
Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus? (...)” (Padre Antônio Vieira)

Exemplo 16.
“Odeio os indiferentes. Como Friedrich Habel, acredito que viver significa tomar partido. Não podem existir apenas homens, estranhos a cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é viver sem vontade, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, e a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes os leva a desistir da gesta heróica. (...)” (Antônio Gramsci)

Exemplo 17.
            "A poesia deixa algo em cada leitor: uma sílaba, uma metáfora, um conceito, uma visão do universo. Cada verso é de natural ambíguo, tem duas caras, como certas pessoas que eu conheço, ou cem, ou mil. As palavras não dispõem apenas de uma carteira de identidade;usam várias, como os ladrões ou os contrabandistas. Costumam sair disfarçadas, ou incógnitas, ou fantasiadas como no Carnaval. O demónio da polissemia que habita nelas como uma segunda natureza, torna-as verdadeiros camaleões, que tomam a cor da paisagem ou do instante." (Ledo Ivo)

Exemplo 18.
            "Creio na verdade fundamental de todas as grandes religiões do mundo. Creio que são todas concedidas por Deus e creio que eram necessárias para os povos a quem essas religiões foram reveladas. E creio que se pudéssemos todos ler as escrituras das diferentes fés, sob o ponto de vista de seus respectivos seguidores, haveríamos de descobrir que, no fundo, foram todas a mesma coisa e sempre úteis umas às outras."  (Mahatma Gandhi)

Exemplo 19.
            "Uma estranha loucura apossa-se das classes operárias das nações onde impera a civilização capitalista. Esta loucura tem como conseqüência as misérias individuais e sociais que [...] torturam a triste humanidade. Esta loucura é o amor pelo trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do indivíduo e sua prole. Em vez de reagir contra essa aberração mental, os padres, economistas, moralistas sacrossantificaram o trabalho. Pessoas cegas e limitadas quiseram ser mais sábias que seu próprio deus; pessoas fracas e desprezíveis quiseram reabilitar aquilo que seu próprio deus havia amaldiçoado. Eu, que não sou cristão, ecônomo ou moralista, no lugar do juízo que proferiram, invoco o juízo do deus delas; no lugar das pregações de sua moral religiosa, econômica, livre-pensadora, invoco as terríveis conseqüências do trabalho na sociedade capitalista.
(...)
Essas misérias individuais e sociais, por maiores e mais numerosas que sejam, por mais eternas que possam parecer, desaparecerão como as hienas e os chacais quando o leão aparecer no dia em que o proletariado disser: ‘quero que assim seja’. Mas para que tenha consciência de sua força, é preciso que o proletariado pisoteie os preconceitos da moral cristã, econômica e livre-pensadora; é preciso que volte a seus instintos naturais, que proclame os Direitos à Preguiça, mil vezes mais nobres e mais sagrados que os tísicos Direitos do Homem, arquitetados pelos adversários metafísicos da revolução burguesa. É preciso que ele se obrigue a não trabalhar mais que três horas por dia, não fazendo mais nada, festejando, pelo resto do dia e da noite.” (Paul Lafargue.)

Tipologia textual dialogal ou conversacional

  1. Texto produzido por, ao menos, dois interlocutores que falam preferencialmente sob a lógica dos turnos, ou seja, um por vez.
  2. Quanto ao tamanho, não se pode prevê-lo, visto que um diálogo pode se dar num rápido encontro ou mesmo num debate em um programa como “Café filosófico” ou “Diálogos impertinentes”.
  3. Uso recorrente de elementos fáticos.
  4. Recepção imediata do ato comunicativo.
  5. Muitos turnos de conversação organizados sob a lógica da pergunta e da resposta.
  6. Presença constante de sinais gráficos que almejam reproduzir alguns recursos inerentes à oralidade, tais como as reticências, os sinais de pontuação de entoação, onomatopeias, etc.
  7. Situação comunicativa construída na perspectiva de uma interação entre os interlocutores.
  8. São exemplos a conversa telefônica, o debate, a entrevista, etc.

s.m. 1   fala em que há a interação entre dois ou mais indivíduos; colóquio, conversa. 2 contato e discussão entre duas partes em busca de um acordo 3 conjunto das palavras trocadas pelas personagens de um romance, filme etc.; fala que um autor atribui a cada personagem 4 obra em forma de conversação com fins expositivos, explanatórios ou didáticos. (Dicionário Houaiss)

Exemplos:

Exemplo 20.
Casal é tudo igual

Ele: – Alô?
Ela: – Pronto.
Ele: – Voz estranha… Gripada?
Ela: – Faringite.
Ele: – Deve ser o sereno. No mínimo tá saindo todas as noites pra badalar.
Ela: – E se estivesse? Algum problema?
Ele: – Não, imagina! Agora, você é uma mulher livre.
Ela: – E você? Sua voz também está diferente. Faringite?
Ele: – Constipado.
Ela: – Constipado? Você nunca usou esta palavra na vida.
Ele: – A gente aprende.
Ela: – Tá vendo? A separação serviu para alguma coisa.
Ele: – Viver sozinho é bom. A gente cresce.
Ela: – Você sempre viveu sozinho. Até quando casado só fez o que quis.
Ele: – Maldade sua, pois deixei de lado várias coisas quando a gente se casou.
Ela: – Evidente! Só faltava você continuar rebolando nas discotecas com as amigas.
Ele: – Já você não abriu mão de nada. Não deixou de ver novela, passear no shopping, comprar jóias, conversar ao telefone com as amigas durante horas…
… Silêncio ….
Ela: – Comprar jóias? De onde você tirou essa idéia? A única coisa que comprei em quinze anos de casamento foi um par de brincos.
Ele: – Quinze anos? Pensei que fosse bem menos.
Ela: – A memória dos homens é um caso de polícia!
Ele: – Mas conversar com as amigas no telefone…
Ela: – Solidão, meu caro, cansaço… Trabalhar fora, cuidar das crianças e ainda preparar o jantar para o HERÓI que chega à noite…Convenhamos, não chega a ser uma roda-gigante de emoções…
Ele: – Você nunca reclamou disso.
Ela: – E você me perguntou alguma vez?
Ele: – Lá vem você de novo… As poucas coisas que eu achava que estavam certas… Isso também era errado!?
Ela – Evidente, a gente não conversava nunca…
Ele: – Faltou diálogo, é isso? Na hora, ninguém fala nada. Aparece um impasse e as mulheres não reclamam. Depois, dizem que faltou diálogo. As mulheres são de Marte.
Ela: – E vocês são de Saturno!
…Silêncio…
Ele: – E aí, como vai a vida?
Ela: – Nunca estive tão bem. Livre para pensar, ninguém pra me dizer o que devo fazer…
Ele: – E isso é bom?
Ela: – Pense o que quiser, mas quinze anos de jornada são de enlouquecer qualquer uma.
Ele: – Eu nunca fui autoritário!
Ela: – Também nunca foi compreensivo!
Ele: – Jamais dei a entender que era perfeito. Tenho minhas limitações como qualquer mortal..
Ela: – Limitado e omisso como qualquer mortal.
Ele: – Você nunca foi irônica.
Ela: – Isso a gente aprende também.
Ele: – Eu sempre te apoiei.
Ela: – Lógico. Se não me engano foi no segundo mês de casamento que você lavou a única louça da tua vida. Um apoio inestimável…Sinceramente, eu não sei o que faria sem você. Ou você acha que fazer vinte caipirinhas numa tarde para um bando de marmanjos que assistem ao jogo da Copa do Mundo era realmente o meu grande objetivo na vida?
Ele: – Do que você está falando?
Ela: – Ah, não lembra?
Ele: – Ana, eu detesto futebol.
Ela: – Ana!? Esqueceu meu nome também? Alexandre, você ficou louco?
Ele: – Alexandre? Meu nome é Ronaldo!
…Silêncio…
Ele: – De onde está falando?
Ela: – 578 9922
Ele: – Não é o 579 9222?
Ela: – Não.
Ele: – Ah, desculpe, foi engano.
Depois de um tempo ambos caem na gargalhada.
Ele: Quer dizer que você faz uma ótima caipirinha, hein?
Ela: – Modéstia à parte… Mas não gosto, prefiro vinho tinto.
Ele: – Mesmo? Vinho é a minha bebida preferida!
Ela: – E detesta futebol?
Ele: – Deus me livre… 22 caras correndo atrás de uma bola… Acho ridículo!
Ela: – Bem, você me dá licença, mas eu vou preparar o jantar.
Ele: – Que pena… O meu já está pronto. Risoto, minha especialidade!
Ela: – Mentira! É o meu prato predileto…
Ele: – Mesmo! Bem, a porção dá pra dois, e estou abrindo um Chianti também. Você não gostaria de…
Ela: – Adoraria!
Ele dá o endereço.
Ela: – Nossa, tão pertinho! São dois quarteirões daqui.
Ele: – Então? É pegar ou largar.
Ela: – Tô passando aí, Ronaldo.
Ele: – Combinado, vizinha. (Luís Fernando Veríssimo)

Exemplo 21
            Primeira marionete anuncia o espetáculo:
            - "Senhoras e senhores, temos a honra de apresentar um grande drama social. O espetáculo provará que o erro é sempre punido".
            Segunda marionete interrompe:
            - "Senhoras e senhores, temos a honra e apresentar uma comédia moral".
            - "O que faz aqui?", surpreende-se a primeira marionete.
            - "Apresento a comédia", responde a segunda.
            - "De jeito nenhum. É comigo", retruca a primeira.
            Então, surge a terceira marionete, pondo fim à discussão das outras duas:
            - "Senhoras e senhores, não lhes dêem ouvidos. A peça não é nem um drama nem uma comédia. Ela não tem intenção moral e não provará nada. Os personagens não são heróis nem tratantes, são pobres homens como eu e vocês. ele é bom, tímido, não muito jovem e muito ingênuo. Tem uma cultura intelectual e sentimental inferior, de modo que, em seu meio, parece um imbecil. Ela ... é uma moça de charme próprio e a vulgaridade em pessoa. É sempre sincera: mente o tempo todo. O outro ... é o jovem Dédé, e nada mais. E agora, senhoras e senhores, o espetáculo vai começar. (Introdução de A cadela, de Jean Renoir. O primeiro grande filme do mestre francês, de 1931)

Exemplo 22.
            – no caixão...
            – Sim, paizinho.
            – ...não deixe essa me beijar. (Dalton Trevisan)

Exemplo 23.
            Respostas a uma entrevista:
            - Qual o maior poeta brasileiro atual?
            - Deixa disso. Nenhum poeta é cavalo de corrida para ser obrigado a chegar em primeiro lugar. (Mario Quintana)

Introdução para a teoria de gêneros textuais

"A comunicação verbal só é possível por algum gênero textual."
(Marcuschi)

Gêneros textuais são meios de se comunicar produzidos pelas necessidades de interação social, econômica, cultural, estética e política do homem, produto de inter-relações perceptíveis e estáveis entre algumas ou mesmo todas tipologias textuais. São criados a partir de processos históricos, sociais e coletivos, ainda que possam ser marcados por características e preferências individuais daqueles que os utilizam para se comunicar. São ferramentas de comunicação, portanto, moldáveis pelas escolhas individuais, mas também pelo processo histórico e de transformações culturais pelas quais toda sociedade, especialmente as mais industrializadas e modernas, passam com mais velocidade e intensidade.
Os gêneros textuais abarcam desde a simples correspondência informal enviada a um amigo até o ensaio escrito por um crítico de arte. Enfim, a diversidade de gêneros textuais que permeiam e definem as formas de comunicação humana, particularmente a escrita, multiplicaram-se nos últimos anos com o advento da internet e com as múltiplas fronteiras ultrapassadas ou ignoradas por produtores de textos e artistas menos preocupados com a pureza e a forma de um gênero textual e mais com a mensagem a ser comunicada, ou seja, na atualidade, tais modalidades textuais passaram mais frequentemente a ser eventos de fronteira e submetidos às necessidades de uma ideia ou conceito do que uma exigência formal sobre como se comunicar, são exemplos a crônica, o micro conto, a "graphic novel", etc.

Professor Estéfani Martins