quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

6 - Redação - Gêneros textuais narrativos (relato)

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Gêneros narrativos (Relato)

“A narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades.”
(Roland Barthes)

“No combate entre um texto apaixonante e seu leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute.”
(Julio Cortázar)

O ato de narrar remonta a momentos iniciais de nosso processo de formação como espécie, o que é confirmado por pinturas rupestres que claramente apontam para sequências de acontecimentos que respeitam a temporalidade e a sucessão de fatos típicas do texto narrativo. Nesse tempo, em que pinturas de diferentes estágios de caçadas ou rituais foram feitas em paredes de cavernas como narrativas visuais ou mesmo pode-se especular sobre o começo do processo de comunicação oral, para além de grunhidos e sons sem associação clara, provavelmente está a aurora dos textos narrativos como gênero textual. Além disso, para todas as comunidades ágrafas, essas formas de narrar têm papel central na construção dessas sociedades ainda na atualidade, até porque eram e são uma forma razoavelmente confiável de preservar o conhecimento produzido por essas comunidades.
Há muitas formas de narrar: da ancestralidade do folclore e das narrativas orais até o dinamismo e a velocidade dos textos produzidos em função do advento da internet. Há ainda histórias narradas a partir de fatos e acontecimentos verídicos ou associados a experiências reais ou aquelas que são produto da imaginação criativa e da invenção despreocupadas muitas vezes com qualquer paradigma da chamada realidade, ou podem ainda ser fruto da união dessas duas formas.
Por meio dessas características formais, estilísticas e de conteúdo, foram sendo fixadas formas de narrar que, a seguir, serão discutidas separadamente, embora sejam notórias as dificuldades teóricas para a realização plena desse objetivo, em função das fronteiras por vezes pouco perceptíveis ou mesmo diluídas entre os diferentes textos compreendidos como narrativos.


Elementos da narrativa

Como principio fundador das narrativas, além da temporalidade, devem ser destacados os elementos que as compõe e a estrutura a qual esse gênero textual deve minimamente respeitar. Entretanto, embora esses “parâmetros” tenham sido revistos ou subvertidos por muitos autores especialmente no século XX, ainda serve como um importante referencial para produtores, leitores e analistas do discurso narrativo.
São elementos da narrativa o enredo, os personagens, o narrador, o espaço e o tempo. Eles são em alguma medida fundamentais para se tecer o sequenciamento de eventos, o desenvolvimento de ações e a participação dos personagens, que são imprescindíveis para se constituir um texto narrativo.
O enredo é o encadeamento de episódios que constrói a narrativa, ou mesmo a forma de fazê-lo, com o objetivo de possibilitar geralmente o desenvolvimento de um conflito que será a razão de existência de uma narrativa. O conflito pode ocorrer entre pessoas, como no caso do romance “Poderoso Chefão”, de Mario Puzzo; entre os rigores da natureza e o homem, que é muito bem ilustrado em “Vidas secas” de Graciliano Ramos; entre o Estado e o cidadão, como no caso da obra “O processo” de Franz Kafka; entre a pessoa e seu íntimo, como em muitas narrativas de Clarice Lispector; etc. O enredo pode ser linear quando se respeita a ideia de passagem mais cronológica ou mesmo física do tempo, como são os casos de grande parte dos filmes, em especial anteriores a década de 1970, e da Literatura anterior ao século XIX; ou pode ser não-linear como são os casos de narrativas de filmes como “Efeito borboleta”, “Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças”, “Pulp Fiction”, entre tantos outros exemplos em que digressões temporais, arranjos não cronológicos dos eventos da narrativa, inversão da estrutura narrativa, etc., são responsáveis por emprestar uma sensação não natural ou cronológica no tempo interior à narrativa.
O espaço ou ambiente é o local ou os locais onde se passa a narrativa, por isso pode ser descrito de forma detalhada ou displicente de acordo com as intenções do autor. Em algumas situações, pode ser mesmo um personagem em função da forma como interage e define comportamentos e escolhas dos outros personagens, como são os casos do planeta Duna, no romance homônimo de Frank Herbert; do cortiço, de Aluísio de Azevedo; do Ateneu, de Raul Pompéia; do sul dos Estados Unidos da série "True detective", etc. O espaço pode ser físico quando ele é real e concebível de acordo com a experiência humana partilhada desde que temos informações que permitam reconstruções fidedignas desses ambientes como local em que se passará uma narrativa, ou pode ser psicológico, quando é produto da criatividade parcial ou totalmente desconectada do que é entendido como realidade pela maioria das pessoas, é, portanto, um espaço de fantasia, de absoluta ficção e não reconhecível pela experiência sensorial das pessoas.
O tempo é outro elemento crucial em narrativas, até mesmo pelo tipo de temporalidade imprescindível para esse tipo de texto. Pode ser usado como forma de denunciar transformações no espaço da narrativa ou nos personagens, o que é perceptível nos filmes “Era uma vez na América” e “O curioso caso de Benjamim Button” respectivamente; como mecanismo de controle ou mesmo facilitador do entendimento a respeito da ordem em que os episódios ocorrem na narrativa, o que é muito perceptível na série “24h” ou no filme “Matrix”. Pode ser grosseiramente, quanto a sua abordagem, dividido em dois tipos: tempo cronológico, que é aquele que pode ser medido, mensurado e percebido em acordo com a percepção média das pessoas a respeito de sua passagem; ou psicológico, quando admite-se a interferência de ponto de vista particular na construção ou mesmo na percepção da passagem do tempo, o que faz com que uma narrativa longa possa compreender um recorte temporal de um dia ou menos; ou ainda de não ser possível precisar ou quantificar o tempo passado ao longo da história.
Os personagens são os responsáveis pela existência do enredo pelo fato de ser nas relações entre eles que o conflito, o drama ou a trama é desenvolvido num espaço e num tempo em que se enredam histórias contadas por um narrador, que é o responsável por trazer à “vida” novamente aqueles personagens históricos já mortos, como é o caso de Sarah Bernhardt e Dom Pedro II no livro “O xangô de Baker Street”, ou mesmo dar “vida” a personagens produtos da ficção como o Bento de “Dom Casmurro”. Personagens podem ser descritos de forma detalhada e criteriosa já no início da narrativa ou podem ser descobertos ao longo do texto muito mais pelas suas ações e pela forma como são vistos por outros personagens do que por uma descrição objetivo do autor. Ainda sobre esse elemento da narrativa, personagens podem, quanto à relevância e a função ocupada em uma história, ser protagonistas, antagonistas ou coadjuvantes. Essa classificação tradicionalmente constrói-se sob dois aspectos: o maniqueísmo e a importância. Assim o protagonista ou o herói seria a representação do bem na narrativa, e o mal seria representado pelo antagonista ou vilão, ambos tratados como os personagens mais importantes dela. Por meio disso, são definidos os coadjuvantes ou personagens secundários como aqueles de importância variada numa narrativa, mas de relevância sempre menor do que os que a protagonizam. Nos últimos séculos e mais intensamente do século XIX em diante, a ideia de herói e vilão foi sendo, em muitas obras, subvertida em favor da construção de personagens mais humanos. Tais novos ares foram decisivos em particular para a figura do protagonista, que de herói passou muitas vezes a anti-herói, não porque vilão, mas porque humano, como os leitores, portanto há um palco onde mal e bem digladiam, onde virtudes e defeitos revezam-se ou mesclam-se, isto é, essa outra configuração do protagonismo narrativo rompe com o cânone clássico que associa o protagonista ou herói à beleza, à força física e espiritual, à perfeição, à grande capacidade de solução de conflitos, à liderança social e às virtudes éticas unicamente. Como decorrência disso, foi constituído esse tipo de personagem baseado numa conjunção de elementos que muito o aproximam das pessoas comuns ou mesmo incomuns, mas, sobretudo, reais, que se fazem anti-heróis não pela maldade, mas pela fraqueza diante das tentações, dos desejos, dos medos, etc. Logo, anti-heróis são construídos por força da humanidade e da insignificância de um Gregor Samsa no livro “A metamorfose” de Franz Kafka; da loucura sábia e lúdica de um Geraldo Viramundo, personagem principal de “O Grande Mentecapto” de Fernando Sabino; da crueza e da honestidade moral dos ex-defuntos de “Incidente em Antares” de Érico Veríssimo; da insensibilidade e frieza de Michael Corleone no clássico “O poderoso chefão” de Mário Puzzo; do desregramento e do revisionismo de Rémy Girard, o já clássico protagonista do filme “Invasões bárbaras”; etc. Personagens podem ainda ser vistos como planos quando nada ou pouco mudam ao longo de uma narrativa ou redondas quando sofrem alterações significativas na sua forma de proceder, ser ou pensar ao longo da história.
O foco narrativo pode ser compreendido de forma simples e didática como uma perspectiva assumida pelo narrador para apreciar, acompanhar, descrever, enfim, narrar. Uma história pode ser contada em primeira pessoa do discurso, o que confere ao narrador o papel também de personagem do relato que conta. Dessa forma, como protagonista ou coadjuvante da história na qual ele está envolvido, narra sob uma perspectiva algo privilegiada, que é a de contar uma história da qual fez parte. Por outro lado, uma narração pode ser feita em terceira pessoa do discurso, quando o narrador assume uma perspectiva de quem não participa da história. O narrador em terceira pessoa pode ser observador ou onipresente, quando narra uma história de acordo com as limitações humanas, ou seja, sem aparentar conhecimento sobre o futuro ou mesmo sobre o passado dos personagens, sem narrar eventos simultaneamente e sem conhecimento sobre as sensações, sentimentos e pensamentos íntimos dos personagens. Este foco narrativo é mais comum em narrativas centradas na ação e no suspense, assim é um tipo de narrador muito frequente em histórias policiais, de guerra e de terror. Além dessa perspectiva, o narrador pode também ser onisciente quando ele aborda uma história também sob a premissa da onipresença, pois tem um controle sobre o que narra digno de ser muito superior às capacidades humanas, visto que as supera em função de que não tem as - já descritas - limitações dela, por isso narra o que acontece em locais diferentes de forma simultânea, o que se passa no íntimo dos personagens e sobre o passado e o futuro deles.


Estrutura da narrativa

Quanto à estrutura de textos narrativos, pode-se dizer que a maioria das narrações organiza-se em torno de uma apresentação, em que um equilíbrio de forças é sugerido ou mostrado, personagens são apresentados e referências espaço-temporais são marcadas. O desenvolvimento é a parte em que o conflito narrativo é estabelecido e desenvolve-se com o objetivo de ser solucionado - em tese - da forma mais interessante e imprevista possível. O clímax é o momento mais intenso e crítico da narrativa, dele deriva a solução para o conflito desenvolvido, embora não se possa esperar apenas resultados positivos desse processo, porque o equilíbrio alcançado posteriormente pode ser muito diferente daquele informado ou sugerido na introdução. A última parte convencionalmente de uma narrativa é a conclusão ou desfecho, em que se apresenta a solução para o conflito criado pelas ações dos personagens, o que restabelece, portanto, o equilíbrio na narrativa. Importante informar que partes de uma narrativa podem ser suprimidas como a conclusão ou a introdução ou a ordem delas pode ser modificada, como ocorre em muitas produções da atualidade no cinema e na literatura, são exemplos os filmes “Adaptação”, “Transpotting”, etc.

Gêneros narrativos

1. Relato - segundo o dicionário Houaiss, o termo “relatar” refere-se à exposição oral ou escrita de um fato ou mesmo narrar, expor, referir. Assim, percebe-se que a tipologia textual narrativa que é o principal mecanismo construtor do gênero textual relato, no qual se informa o leitor sobre alguma experiência de vida do escritor ou sobre algum acontecimento que ele tenha presenciado ou sabido. Diante disso, o relatar deve ser situado no tempo e no espaço. 
O relato é um gênero textual em que se conta um fato que ocorreu com o narrador ou com outra pessoa circunscrito a um intervalo específico e determinado de tempo. Também é comumente escrito com reflexões acerca das experiências vividas ou vivenciadas. Em outras palavras, geralmente, tais relatos devem nos servir para refletir sobre acontecimentos da vida e sobre o que aprendemos ao vivê-los. Um relato tem como características principais:

  1. Contextualização inicial do relato, identificando tema, espaço e período;
  2. Identificação do relator como sujeito das ações relatadas e experiências vivenciadas, ou seja, o narrador deve ser personagem, o que deve ser confirmado pela proposição geral da proposta de redação;
  3. O discurso indireto é a única possibilidade de comunicação das falas dos personagens do relato. O discurso direto será penalizado.
  4. É importante reforçar o uso de tempos verbais predominantemente no passado e com expressões temporais, como “Naquela manhã”, “Depois”, “Em seguida”, etc.;
  5. Linguagem informal é mais comum, ainda que isso dependa das orientações da banca sobre como proceder na confecção do texto.
Exemplos:

Texto 01.
“          João Carlos Martins herdou a paixão pela música de seu pai José, que teve seus estudos de piano interrompidos ainda na infância, quando perdeu um dos dedos da mão direita em uma máquina de corte, na gráfica onde trabalhava.
            A paixão pela música, no entanto, seria passada para a próxima geração e o acidente ocorrido com sua mão foi o primeiro de uma série que iria marcar a história da família.
            Em 1940 nasceu João Carlos Martins, 4º filho de José,  que logo se tornou amante da música, assim como seu irmão, José Eduardo. Desde as primeiras aulas de piano João já demonstrava grande talento, e aos 8 anos venceu seu primeiro concurso tocando obras de Bach.
            João se tornou o maior intérprete mundial de Bach, mas teve vários incidentes ao longo da vida envolvendo suas mãos, que hoje estão atrofiadas.
            Aos 63 anos João iniciou uma nova carreira, como regente e mais uma vez surpreendeu a todos com sua dedicação. Hoje com 69 anos, ele se sente agradecido por ser brasileiro e poder continuar levando a música às todas as camadas sociais, provando que ‘A música venceu’.”


Texto 02.
A reta final
            Quando chegou meu primeiro dia de ir para escola estava muito ansiosa pensando o que iria encontrar pela frente. Crianças, iguais a mim, meus futuros amigos, professores, obstáculos e uma grande insegurança, pois estava deixando o aconchego da minha casa para compartilhar parte do meu dia com pessoas estranhas e diferentes.
            Desde que iniciei na escola até hoje sempre gostei de estudar, aprender, trocar idéias acho que sempre temos algo á aprender e á ensinar. Pensava em dar continuidade aos estudos, em cursar nível superior, mas sem muitas condições financeiras, acabei adiando este sonho como tantas outras pessoas que lutam pra ingressar em uma faculdade, mas se limita a isso, apesar de minha família sempre me incentivar a estudar.
            No ensino fundamental estudei em três escolas e no ensino médio em duas, apesar dos obstáculos que encontrei, como a mudança de uma escola para outra, a conquista de novas amizades e novos professores, nunca desisti, procurava me esforçar e conseguir terminar no mínimo o segundo grau. Foi o que fiz.
            Passados alguns anos, depois de fazer alguns cursos, fui incentivada pelo meu namorado a prestar o vestibular, me inscrevi já com orgulho de mim mesma, pela coragem de encarar mais este obstáculo. Não imaginava que iria passar devido aos vários anos longe da escola. Além disso, surgia à dúvida entre qual curso eu escolheria. Fiz minha inscrição e decidi fazer Pedagogia, para minha surpresa passei em 1ª chamada, fiz minha matrícula e ingressei no curso.
            Durante a minha caminhada tive algumas dúvidas se era realmente este caminho que gostaria de seguir, pensava: Vou ser professora, será que é isso que realmente quero... Ficava um pouco confusa, pois além da dúvida, havia as pessoas que criticavam as minhas escolhas, dizendo: Tu vai ser professora para ganhar uma miséria? Tranquei minha matrícula por dois anos, pensei, repensei e pensei de novo. Quando surgiram algumas especializações na área, decidi voltar, pois haveria mais opções de escolha dentro da área de Pedagogia e não somente dar aula. Se não me saísse bem na sala de aula, teria outras opções.
            Hoje estou a um passo de concluir meu curso e sinto muito orgulho quando as pessoas perguntam quando vou me formar e posso responder: “Me formo ano que vem...”. Achava que este dia não iria chegar tão cedo. Imagino o dia da minha formatura, que as pessoas que eu amo estarão lá me assistindo, penso nos amigos torcendo por mim, pela minha conquista. Imagino a música tocando no momento que chamarem meu nome. Quero que este dia seja inesquecível, pois tenho certeza que naquele momento as pessoas próximas vão lembrar do quanto custou minha caminhada até realizar este sonho, as desilusões, as perdas e ganhos, as decepções até conseguir chegar aonde cheguei.
Relembro o início da minha vida como estudante e da satisfação em estar conquistando mais um sonho na minha vida, que quase estava sendo deixado de lado.
            Mas não deixo de citar uma pessoa muito importante na realização desta conquista. Uma pessoa que sempre me ajuda muito que preciso, meu namorado Wagner, hoje meu marido. Graças ao incentivo dele, da sua insistência, da sua compreensão durante todos estes anos, estou na reta final da realização de mais um dos nossos sonhos, e espero que este seja apenas um alicerce que sustente os próximos sonhos que pretendemos realizar juntos. (Keli Cristina Till)

Texto 03.
[...] Em Santos, onde morávamos, minha mãe me lia histórias, meu pai gostava de declamar poesias. Foi em um momento da escola - 6ª série hoje – que li do começo ao fim um romance: Inocência, de Taunay. Essa é minha mais remota lembrança de leitura de um romance brasileiro. Lia o livro aberto nos joelhos, afundada numa poltrona velha e gorda, num quartinho com máquina de costura, estante cheia de livros e quinquilharias e vez ou outra atrapalhada por uma gata branca chamada Minnie
Até então leitura era coisa doméstica. Tinha a ver apenas comigo mesma, com os livros que havia na estante de meu pai e com os volumes que avós, tias e madrinhas me davam de presente. No cardápio destas leituras, Monteiro Lobato com seu sítio do pica-pau amarelo, as aventuras de Tarzan, gibis e mais gibis.
Mas um dia a escola entrou na história.
Dona Célia, nossa professora de português, mandou a gente ler um livro chamado Inocência. Disse que era um romance. Na classe tinha uma menina chamada Maria Inocência. Loira desbotada, rica e chata. Muito chata. Alguma coisa em minha cabeça dizia que um livro com nome de colega chata não podia ser coisa boa.
Foi por isso que com a maior má vontade do mundo é que comecei a leitura do romance. O livro começou bem chatinho, mas depois acabei me interessando por ele. Não o incluo entre os melhores livros que li, mas foi ele quem me ensinou a ler romances e a gostar deles, desconfiando primeiro, abrindo trilhas depois e, finalmente, me entregando à história.
Depois vieram outros, em casa e na escola. Com o tempo virei uma profissional da leitura, dando aula de literatura em colégios, cursinhos e faculdades.
Assim, livros e leituras foram ocupando espaços cada vez maiores. Na minha casa e na minha vida. A estante do quartinho dos fundos ampliou-se. Falar de livros virou profissão e muitos outros romances brasileiros continuaram a construção da leitora que sou hoje. (Marisa Lajolo)

Texto 04.
“Noite escura, sem céu nem estrelas. Uma noite de ardentia. Estava tremendo. O que seria desta vez? A resposta veio do fundo. Uma enorme baleia, com o corpo todo iluminado, passava exatamente sob o barco, quase tocando-lhe o fundo. Podia ser sua descomunal cauda, de envergadura talvez igual ao comprimento do meu barco, passando por baixo, de um lado, enquanto do outro, seguiam o corpo e a cabeça. Com o seu movimento verde fosforescente iluminando a noite, nem me tocou, e iluminada seguiu em frente. Com as mãos agarradas na borda, estava completamente paralisado por tão impressionante espetáculo— belo e assustador ao mesmo tempo. Acompanhava com os olhos e a respiração seu caminho sob a superfície. Manobrou e voltou-se de novo, e, mesmo maravilhado com o que via, não tive a menor dúvida: voei para dentro, fechei a porta e todos os respiros, e fiquei aguardando, deitado, com as mãos no teto, pronto para o golpe. Suavemente tocou o leme e passou a empurrar o barco, que ficou atravessado a sua frente. Eu procurava imaginar o que ela queria.”
(KLINK, Amir. "Cem dias entre céu e mar". Rio de Janeiro: José Olympio, 1986)


2 - Conto - ainda que se possa afirmar que é uma narrativa mais breve do que o romance e a novela, para muitos teóricos é uma forma narrativa de ficção literária melhor definida pela captação de um instante, de um momento da trajetória de um núcleo dramático (um protagonista, uma família, etc.). Isso porque contém geralmente um único drama ou conflito desenvolvido num espaço restrito, num tempo curto e por um número reduzido de personagens. São exemplos: “O primo”, Paulo Henriques Britto; “Amor”, Clarice Lispector; etc.
Este gênero remonta à Antiguidade na forma escrita e a tempos imemoriais na oralidade. As histórias contadas no livro egípcio intitulado “O livro do mágico” são precursoras desse tipo de gênero narrativo, mais tarde a história bíblica de Caim e Abel poderia muito bem ser enquadrada como um conto. Mais tarde, os irmão Grimm fariam uma importante contribuição para a história do conto com o seu “Contos para crianças e famílias”, em que diversas narrativas que povoam o imaginário da sociedade até hoje foram escritas no seu formato e enredo mais conhecido. No século XIX, o conto se estabeleceria como um gênero narrativo de muita popularidade, o que ainda perdura na atualidade, contribuiriam para a consolidação do conto uma importante expressão literária Maupassant, Edgar Allan Poe, Mary Shelley, Leon Tolstoy, Flaubert, Machado de Assis, Gogol, Arthur Conan Doyle e Eça de Queiroz, entre muitos outros.

Exemplos:

Texto 01.
A igreja do diabo
Machado de Assis

CAPÍTULO I

DE UMA IDÉIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
- Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: - Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

II
ENTRE DEUS E O DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
- Que me queres tu? perguntou este.
- Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
- Explica-te.
- Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
- Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
- Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?
- Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor,
- Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
- Vai
- Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
- Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
- Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
- Velho retórico! murmurou o Senhor.
- Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, - a indiferença, ao menos, - com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, - ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.
- Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
- Já vos disse que não.
- Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
- Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
- Negas esta morte?
- Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
- Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

III
A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
- Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: - Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

IV
FRANJAS E FRANJAS

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outra descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:
- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Prestigio - Ediouro - s/d.

Texto 02.
Um saco de risadas

Eu sou feliz. Sou muito feliz. Sou feliz demais. Eu sou tão feliz, mas tão feliz, que cada degrau da minha vida é um sorriso onde eu piso. Ah essa brancura da dentadura que se espalha! Essa cara de palhaço estampada no espelho! Já nem tenho tempo de parar pra rir: rio dormindo, rio acordado; rio correndo, rio parado. Rio um riso arrepiado, rio o riso arrependido. Rio o riso dos amantes, rio o riso dos maridos. Riso esganiçado. Riso empedernido. Rio quando cago. Rio quando mijo. Rio quando o sol aparece, rio quando fica escondido. Ninguém pode me proibir. Um desgraçado também pode rir! Rio pra seduzir, rio pra disfarçar, rio pra distrair, rio pra suportar. O eterno exercício do maxilar! Rio no almoço, rio no jantar. O riso da garganta em carne viva, riso que se morde na gengiva. Rio de tudo, rio de nádegas, riso absurdo, riso de cócegas. O riso feito um soluço. Riso rido como um susto! O riso de terror petrificado. Rir de um corpo estatelado. Risos calculados. O riso embasbacado dos casais apaixonados. E eu rio com o que tenho de dentes! Alegria enxurrada de enchentes! Riso histérico dos dementes! Rio porque é duro. Rio porque é de graça. Gás hilariante espalhado pelas praças! Rir com segurança, rir das ameaças! Rio quando cheiro. Rio sem vergonha. Rio quando fumo. Rio com maconha o riso dos malucos. Rio quando encontro, rio quando esbarro. Rio porque é sério, rio tirando sarro - a língua mergulhada na saliva e no catarro! Rio tomando água, rio bebendo pinga. Rio porque são frescas. Rio porque são lindas. O riso como um pote de pimenta gargalhando num sorriso que aumenta. Rio o riso dos primeiros, rio o riso dos cansados. Rio o riso dos coveiros, rio o riso dos defuntos. Rio pra me lembrar. Rio pra me esquecer. Risos pra resfriar, risos pra aquecer. Rir o riso dos parentes, rir o riso dos amigos, rir o riso dos contentes, rir o riso dos falidos. Rio o riso do pecado. Rir um riso preocupado. O riso do cachorro se pendura pelo rabo. O riso das hienas quando encontram a carniça. O riso dos ateus que precisam ir à missa. O riso imaculado, o vagabundo e o invocado. O riso dos maduros, o riso dos meninos. Sorrisos em apuros: o destino dos forçados, a sina dos verdugos. O riso amarelo da educação. O riso budista da meditação. Rir como aviso. A pura tentação do riso. As risadas meladas das tortas arremessadas. Rir o riso pastelão, riso engarrafado de televisão. As mesmas piadas repassadas e caímos na cilada! Rio em congestionamento, rio em casamento. Rio com farinha, rio com cimento. Rio direto. Do bom, do melhor, do desprezível. Rir que o riso é infalível. Uma risada grudando na outra, fazendo uma música rachada no céu da minha boca. Rio da minha cara, rio da minha fome. A vingança que se cospe no prato frio. Rir à puta que pariu! Rio por dentro de pesadelos esquisitos; nas marquises dos edifícios espremidos, rir o riso dos pobres, rir o riso dos ricos (é bom que fique claro: o riso dos bacanas é o mesmo dos coitados). Com a cara, a coragem, a covardia. Rio todo dia. Rio porque sim, rio porque não. Rio de janeiro, fevereiro ou março. Rio de mim, rio do fim, rio de você. Ontem ainda "estava" feliz, mas hoje "eu sou". Nada abala minha felicidade. Eu sou feliz. Feliz até à carne. Feliz demais. Risos. Só risos. Nada mais. Exalo felicidade por todos os poros. Uma felicidade contagiante mesmo. Uma hora dessas, puxa! Eu nem sei... (Fernando Bonassi)

Texto 03.
“Os crimes da Rua Morgue”, Edgar Allan Poe.

Texto 04.
Amor*

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.
Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível… O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo… E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite – tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.
Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.
De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.
Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.
Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.
Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.
Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.
 Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.
 As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada… Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado… O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.
 Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.
 Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.
 Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha… Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles… Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.
 Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?
 Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.
 Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.
 Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.
 Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água – havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d’água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.
 Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.
 Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.
 Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.
 Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.
 — O que foi?! gritou vibrando toda.
 Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
 — Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.
 Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
 — Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.
 — Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.
 Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
 Acabara-se a vertigem de bondade.
 E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

Clarice Lispector
Extraído no livro Laços de Família, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998
*Considerado por Ítalo Mariconi um dos 100 melhores contos brasileiros do séc. XX.

3 - Micro conto e nano conto – gênero textual caracterizado pela intensa e por vezes radical opção pela concisão da história narrada. Na maioria das vezes, as histórias são contadas com não mais do que algumas ou no máximo dezenas de palavras. As limitações de palavras ou caracteres usados pelos seus autores, muitas vezes, remetem a recursos de comunicação como as mensagens enviadas por SMS (150 caracteres) ou mesmo as enviadas pela Twitter (140 caracteres). Por isso, forma de narrar muito cultuada por escritores que têm como principal suporte de divulgação para seus trabalhos a internet, porque dialoga com a velocidade e o dinamismo de um tempo muito determinado por esse meio de comunicação, daí talvez o gosto pela síntese que define essa modalidade narrativa. São exemplos as produções do “site” www.nemonox.com/1000portas.

Texto 01.
O maior trauma do vampiro narcisista era não poder se admirar ao espelho. (@microcontos)

Texto 02.
Vende-se: sapatos de bebê, sem uso. (Ernest Hemingway)

Texto 03.
“Olha, Pai, eu tentei, mas acho que não deu muito certo não...” (Antônio Prata)

Texto 04.
“Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida.” (Anton Tchekhov)

Texto 05.
“A velha insônia tossiu três da manhã.” (Dalton Trevisan)

Texto 06.
“Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.” (Franz Kafka)

Texto 07.
“Uma vida inteira pela frente. O tiro veio por trás.” (Cíntia Moscovich)

Texto 08.
“Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada.” (Lygia Fagundes Telles)

Texto 09.
“Alzheimer: conhecer novas pessoas todos os dias.” (Phil Skversky)

Texto 10.
“Eu perguntei. Eles responderam. Eu escrevi.” (Sebastian Junger)

Texto 11.
“Eu ainda faço café para dois.” (Zak Nelson)

4 - Romance –  texto narrativo em prosa tal como o conto e a novela. Forma de explorar mais que um conflito na trajetória de um núcleo dramático, de maneira geralmente pormenorizada, em virtude de os personagens, os espaços e o enredo serem desenvolvidos mais profunda e detalhadamente que em outros gêneros narrativos literários. Além disso, os episódios e histórias paralelas a principal têm forte dependência em relação ao eixo temático principal. São exemplos: “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos; “O vermelho e o negro”, de Stendhal; “Crime e castigo”, de Dostoiévski; “1984”, de George Orwell; “Lolita”, de Vladimir Nabokov; etc.

5 - Novela – tipo de narrativa caracterizado pela presença de um núcleo dramático principal, desenvolvido de forma mais detalhada que no conto e menos do que no romance, entretanto é acompanhado por outros núcleos de importância menor na história, mesmo porque orbitam o principal, os quais podem ter alguns momentos da narrativa com atenção semelhante à dada ao núcleo principal. Isso não ocorre no conto ou no romance, visto que neles o (s) protagonista (s) tem atenção absoluta ao longo de praticamente toda a narrativa. Comparada ao romance, a novela apresenta menos recursos narrativos; já em comparação ao conto, um enredo mais desenvolvido e personagens descritos com mais detalhamento. São exemplos: “Um copo de cólera”, Raduan Nassar; “Noites brancas", Fiódor Dostoiévski; "A hora da estrela", Clarice Lispector; etc.

6 - Narrativa oral – forma oral de se contar uma história ou relatar um fato que pode ser esquecida em meio ao cotidiano de indivíduos e comunidades ou pode ser incorporada às vivências de uma pessoa ou mesmo à cultura de uma comunidade, o que permite que essa história atravesse, mesmo não documentada pela escrita, séculos com suas informações principais preservadas razoavelmente. Essa modalidade textual narrativa é fundamental na criação, no estabelecimento e na manutenção de aspectos importantes do folclore, da religião, da medicina popular, etc.

7 - Fábula - narrativa curta protagonizada geralmente por animais que foram humanizados, já que interagem e comunicam-se de forma assemelhada aos seres humanos. Geralmente, contém uma "moral" implícita ou explícita, que tem caráter pedagógico, no sentido de que ambiciona incutir, em particular nas crianças, determinados ensinamentos e regras. Além disso, os animais humanizados assumem com frequência algum arquétipo associado a uma característica, personalidade ou estereótipo humano. Dentre os escritores que se notabilizaram estão Ésopo, La Fontaine, Monteiro Lobato, etc. George Orwell também fez-se famoso por causa de obras como “Revolução dos bichos”, em que animais assumem papeis típicos de um regime autocrático em uma fazenda, contudo é uma narrativa voltada a adultos por causa da temática violenta e opressiva, mas ainda assim uma fábula.

Texto 01.
A cigarra e as formigas

Num belo dia de inverno as formigas estavam tendo o maior trabalho para secar suas reservas de trigo. Depois de uma chuvarada, os grãos tinham ficado completamente molhados. De repente aparece uma cigarra:
“Por favor, formiguinhas, me deem um pouco de trigo! Estou com uma fome danada, acho que vou morrer.”
As formigas pararam de trabalhar, coisa que era contra os princípios delas, e perguntaram:
“Mas por quê? O que você fez durante o verão? Por acaso não se lembrou de guardar comida para o inverno?”
“Para falar a verdade, não tive tempo”, respondeu a cigarra. “Passei o verão cantando!”
“Bom... Se você passou o verão cantando, que tal passar o inverno dançando”, disseram as formigas, e voltaram para o trabalho dando risada.

Moral: Os preguiçosos colhem o que merecem. (Esopo)

Texto 02.
A cigarra e a formiga má

Já houve entretanto, uma formiga má que não soube compreender a cigarra e com dureza a repeliu de sua porta. Foi isso na Europa, em pleno inverno, quando a neve recobria o mundo com o seu cruel manto de gelo. A cigarra, como de costume, havia cantado sem parar o estio inteiro, e o inverno veio encontrá-la desprovida de tudo, sem casa onde abrigar-se, nem folhinhas que comesse. Desesperada, bateu à porta da formiga e implorou - emprestado, notem! - uns miseráveis restos de comida. Pagaria com juros altos aquela comida de empréstimo, logo que o tempo o permitisse. Mas a formiga era uma usuária sem entranhas. Além disso, invejosa. Como não soubesse cantar, tinha ódio à cigarra por vê-la querida de todos os seres.
- Que fazia você durante o bom tempo?
- Eu... eu cantava!...
- Cantava? Pois dance agora... - e fechou-lhe a porta no nariz.

Resultado: a cigarra ali morreu estanguidinha; e quando voltou a primavera o mundo apresentava um aspecto mais triste. Ë que faltava na música do mundo o som estridente daquela cigarra morta por causa da avareza da formiga. Mas se a usurária morresse, quem daria pela falta dela?


Os artistas - poetas, pintores e músicos - são as cigarras da humanidade. (Monteiro Lobato)

Texto 03.
O Rei dos Animais

Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar. Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses. Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou: "Hei, você aí, macaco - quem é o rei dos animais?" O Macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: "Claro que é você, Leão, claro que é você!".
Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: "Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?" E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: "Currupaco... não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?".
Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade. Encontrou a coruja e perguntou: "Coruja, não sou eu o maioral da mata?" "Sim, és tu", disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. "Tigre, - disse em voz de estentor - eu sou o rei da floresta. Certo?" O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: "Sim". E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o leão se afastou.
Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: "Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?" O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensanguentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou: "Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado".

Moral: cada um tira dos acontecimentos a conclusão que bem entende. (Millôr Fernandes)

8 - Apólogo - narrativa em prosa e alegórica geralmente curta e protagonizada por objetos humanizados, por isso falam, sofrem, alegram-se, etc. Assemelha-se à fábula, visto que contém uma "moral" implícita ou explícita também pelas mesmas razões. São os autores mais renomados Esopo e La Fontaine.

Texto 01.
Um Apólogo

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária! (Machado de Assis. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br)

9 - Parábola - narrativa alegórica, moralizante e curta protagonizada por seres humanos. Tipo de narrativa muito comum em vários povos, especialmente entre os hebreus, daí o fato de haver muitas delas no Novo Testamento, inclusive, segundo tradições cristãs, contadas por Jesus. Exemplos:

Texto 01.
"Continuou: Um homem tinha dois filhos. Disse o mais moço a seu pai: Meu pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Ele repartiu os seus haveres entre ambos. Poucos dias depois o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para um país longínquo, e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidades.Foi encostar-se a um dos cidadãos daquele país, e este o mandou para os seus campos guardar porcos. Ali desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Caindo, porém, em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui estou morrendo de fome! Levantar-me-ei, irei a meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti: já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros. Levantando-se, foi para seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai viu-o e teve compaixão dele e, correndo, o abraçou e beijou. Disse-lhe o filho: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei-me depressa a melhor roupa e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também o novilho cevado, matai-o, comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho era morto e reviveu, estava perdido e se achou. E começaram a regozijar-se. Seu filho mais velho estava no campo; quando voltou e foi chegando à casa, ouviu a música e a dança: e chamando um dos criados, perguntou-lhe que era aquilo. Este lhe respondeu: chegou teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde. Ele se indignou, e não queria entrar; e saindo seu pai, procurava conciliá-lo. Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com os meus amigos; mas quando veio este teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado. Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu; entretanto cumpria regozijarmo-nos e alegrarmo-nos, porque este teu irmão era morto e reviveu, estava perdido e se achou." (Lucas 15:11-32)

Texto 02.
"Naquele dia saindo Jesus de casa, sentou-se junto ao mar; chegaram-se a ele grandes multidões, de modo que entrou numa barca e se assentou; e todo o povo ficou em pé na praia. Muitas coisas lhes falou em parábolas, dizendo: O semeador saiu a semear. Quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e comeram-na. Outra parte caiu nos lugares pedregosos, onde não havia muita terra; logo nasceu, porque a terra não era profunda e tendo saído o sol, queimou-se; e porque não tinha raiz, secou-se. Outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram. Outra caiu na boa terra e dava fruto, havendo grãos que rendiam cem, outros sessenta, outros trinta por um. Quem tem ouvidos, ouça." (Mateus 13:1-9)

Texto 03.
Buda e a Flor de Lotus

Buda reuniu seus discípulos, e mostrou uma flor de lótus - símbolo da pureza, porque cresce imaculada em águas pantanosas.
- Quero que me digam algo sobre isto que tenho nas mãos - perguntou Buda.
O primeiro fez um verdadeiro tratado sobre a importância das flores.
O segundo compôs uma linda poesia sobre suas pétalas.
O terceiro inventou uma parábola usando a flor como exemplo.
Chegou a vez de Mahakashyao. Este aproximou-se de Buda, cheirou a flor, e acariciou seu rosto com uma das pétalas.
- É uma flor de lótus - disse Mahakashyao. Simples e bela.

- Você foi o único que viu o que eu tinha nas mãos - disse Buda. (Parábola budista)

Texto 04.
Parábolas

Um Mestre Sufi contava sempre uma parábola no final de cada aula, mas os alunos nem sempre entendiam o seu significado.
- Mestre, - perguntou um deles, certo dia - tu contas-nos contos mas nunca nos explicas o que significam.
- As minhas desculpas. - disse o Mestre - Como compensação, deixa-me que te ofereça um belo pêssego.
- Obrigado, Mestre - disse o discípulo, comovido.
- Mais ainda: como prova do meu afecto, queria descascar-te o pêssego. Permites que o faça?
- Sim, muito obrigado. - disse o discípulo.
- E, já que tenho a faca na mão, não gostarias que eu cortasse o pêssego em pedaços, para que te seja mais fácil comê-lo?
- Sim, mas não quero abusar da tua generosidade, Mestre...
- Não é um abuso; sou eu que me estou a oferecer. Quero apenas agradar-te. Permite-me também que mastigue o pêssego antes de to oferecer...
- Não, Mestre! Não gostaria que fizesses isso! - queixou-se o discípulo, surpreendido.
O Mestre fez uma pausa e disse:
- Se vos explicasse o sentido de cada conto, seria como dar-vos de comer fruta mastigada. (Parábola sufi)

10 - Conto de fadas - versão curta, fantasiosa e híbrida de outras narrativas populares, já que podem conter animais e objetos humanizados. É na sua forma clássica profundamente maniqueísta, já que um herói, depois de uma longa série de obstáculos, geralmente triunfa sobre o mal, o que empresta a esse gênero narrativo grande previsibilidade. Os temas são normalmente associados a questões familiares, existenciais, de autodescoberta e morais. Neles, são comuns elementos associados à magia, à metamorfose e a eventos que desafiam as leis naturais. Quanto à estrutura, como as demais narrativas populares, são muito tradicionais. Entre os autores, destacam-se os irmãos Grimm, Hans Cristhian Andersen, Lewis Carroll, Carlo Collodi, Gabrielle-Suzanne Barbot, Charles Perrault e Monteiro Lobato.

Texto 01.

Texto 02.

Texto 03. (sobre as histórias originais dos contos de fadas.)
http://www.lendo.org/7-horrendos-contos-de-fadas-que-lhe-contam-desde-crianca/


11 - Arte sequencial - História em Quadrinhos (HQ), Mangá e “Graphic Novel” – as HQs surgiram no século XIX da união entre a linguagem verbal presente nos “balões”, em que constam as falas ou pensamentos dos personagens, e desenhos que os representam em todo tipo possível de ação, portanto é uma forma de contar histórias mista, porque verbal e não verbal ao mesmo tempo. A reprodução das ações nesse tipo de narrativa, daí arte sequencial, inspira-se em alguma medida no cinema, são exemplos as séries históricas das décadas de 1960 e 1970 de heróis como Capitão América, Super homem, Batman, Homem-aranha, X-Men, etc. Contudo essa escolha é denunciada de forma mais explícita nos mangás, criados no Japão, que se diferem das HQs, porque o enquadramento é realmente muito assemelhado ao movimento de câmera do cinema, já que a história submete o enquadrinhamento e não o contrário como é comum nas HQs, e pela pouca importância dada à linguagem verbal, daí a grande expressividade dos desenhos. São exemplos os títulos “Vagabond”, “Cowboy Bebop”, “Neon Genesis Evangelion”, “Akira”, etc. Quanto à Graphic Novel ou Romance gráfico, criada nos EUA, trata-se de uma HQ destinada ao público adulto em função do argumento com honestas pretensões literárias, sociológicas ou filosóficas; das discussões refinadas sobre vários aspectos da experiência humana e da qualidade artística requintada e inovadora dos desenhos, além do enquadramento muito inspirado no Mangá. São exemplos “Watchmen”, “Constantine”, “Sin City”, “Ronin”, “Livros da Magia”, “Sandman”, “Maus”, "Piada mortal", etc.

Texto 01. HQ
Texto 02. Mangá

Texto 03. "Graphic novel"

12 - Cartum/charge - tipo de arte sequencial narrativa e humorística, composta de apenas um quadro, acompanhada ou não de texto verbal com forte apelo crítico normalmente voltado ao universo da política, da sociedade e dos costumes e centrado em um humor caricatural na representação dos personagens inspirados em estereótipos, arquétipos e pessoas reais. É muito comum na imprensa impressa desde o século XIX. São exemplos:

Texto 01.

Texto 02.

Texto 03.

13 - Tira - tipo de narrativa verbal e não verbal em que se sucedem quadros, no mínimo dois, com clara intenção crítica em relação a algum aspecto da sociedade. Frequentemente são uma sequência de imagens sobre personagens fictícios  e regulares que, com suas trajetórias, permitem de forma comum e pretensamente cômica tratar de assunto de interesse público. São os casos das tiras de personagens como Mafalda, Calvin e Haroldo, Garfield, Recruta Zero, Wood e Stock, Rebordosa, etc. São exemplos:

Texto 01.

Texto 02.

Texto 03.

Texto 04.

14 - "Storyboard" - ilustrações dispostas em sequência com a pretensão de apresentar uma prévia sobre o que ainda será filmando para ser apresentado em vídeo ao público. É, em linhas gerais, uma versão em arte sequencial de um filme, série, etc., com o intuito de acelerar, auxiliar ou antever a produção de uma narrativa  audiovisual antes de se usar câmeras ou profissionais em loco para fazer as gravações. Exemplos:

Texto 01.

Texto 02.

15 - Fotonovelas - novelas em quadrinhos utilizam, no lugar dos desenhos comuns a outras formas de Arte Sequencial, fotografias sequencialmente organizadas com o intuito de contar uma história com ajuda de balões utilizados para informar as falas ou mesmo os pensamentos dos personagens. No Brasil, as fotonovelas fizeram muito sucesso entre as décadas de 1950 e 1970, quando não sofriam de forma severa a concorrência da versão televisiva desse gênero narrativo.


Texto 01.

Texto 02.

16 - Anedota - é uma espécie de piada com forte apelo narrativo. É uma narrativa curta em que a graça é construída ao longo do desenvolvimento a fim de, em geral, ter seu ápice no clímax, quando o efeito de humor pretendido é desencadeado no ouvinte ou leitor.

Texto 01.

Texto 02.
Mineiro não mente: só que é muito criativo...

Um mineiro, lá de Curvelo, tinha 11 filhos, precisava sair da casa onde morava e alugar outra, mas não conseguia por causa do monte de crianças.
Quando ele dizia que tinha 11 filhos, ninguém queria alugar porque sabiam que a criançada iria destruir a casa e ele não podia dizer que não tinha filhos, não podia mentir, afinal, os mineiros não podem mentir.
Ele estava ficando desesperado, o prazo para se mudar estava se esgotando.
Daí teve uma ideia: mandou a mulher ir passear no cemitério com 10 dos filhos.
Pegou o filho que sobrou e foi ver casas junto com o agente da imobiliária. Gostou de uma e o agente perguntou quantos filhos ele tinha.
Ele respondeu que tinha 11.
Daí, o agente perguntou:
- Mas onde estão os outros?
E ele respondeu, com um ar muito triste:
- Estão no cemitério, junto com a mamãe deles.
E foi assim que ele conseguiu alugar uma casa sem mentir... (Domínio público)

17 - Diário - tipo de texto geralmente de caráter íntimo em que seu autor narra cronologicamente fatos ou acontecimentos do cotidiano, opiniões sobre os mais variados assuntos, impressões acerca de si mesmo ou do outro, confissões, meditações, etc. Pode ainda ser uma espécie de registro de bordo de embarcações e aeronaves em que se anotam todos os acontecimentos e fatos que concernem ao veículo ou mesmo à sua tripulação. Outros usos desse gênero discursivo fazem os cientistas e pesquisadores que vão a campo ou ao laboratório e, em um diário, anotam tudo importante e relevante para as pesquisas nas quais estão envolvidos ou que ambicionam estar. Normalmente, contém todas as características fundamentais do gênero narrativo e as entradas de informação são organizadas por data. Seguem exemplos de trechos de diários famosos como o de Anne Frank e de Charles Darwin:

Texto 01.
“12 de junho de 1942
Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda.
Comentário acrescentado por Anne em 28 de setembro de 1942
Até agora você tem sido um grande apoio para mim, como também tem sido Kitty, para quem tenho escrito com regularidade. Esse modo de manter um diário é bem melhor, e agora mal posso esperar os momentos de escrever em você. Ah, estou tão feliz por ter você comigo!

Domingo, 14 de junho de 1942
Vou começar a partir do momento em que ganhei você, quando o vi na mesa, no meio dos meus outros presentes de aniversário. (Eu estava junto quando você foi comprado, e com isso eu não contava.)
Na sexta-feira, 12 de junho, acordei às seis horas, o que não é de espantar; afinal, era meu aniversário. Mas não me deixam levantar a essa hora; por isso, tive de controlar minha curiosidade até quinze para as sete. Quando não dava mais para esperar, fui até a sala de jantar, onde Moortje (a gata) me deu as boas-vindas, esfregando-se em minhas pernas.
Pouco depois das sete horas, fui ver papai e mamãe e, depois, fui à sala abrir meus presentes, e você foi o primeiro que vi, talvez um dos meus melhores presentes. Depois, em cima da mesa, havia um buquê de rosas, algumas peônias e um vaso de planta. De papai e mamãe ganhei uma blusa azul, um jogo, uma garrafa de suco de uva, que, na minha cabeça, deve ter gosto parecido com o do vinho (afinal de contas, o vinho é feito de uvas), um quebra-cabeça, um pote de creme para o corpo, 2,50 florins e um vale para dois livros. Também ganhei outro livro, Camera obscura (mas Margot já tem, por isso troquei o meu por outro), um prato de biscoitos caseiros (feitos por mim, claro, já que me tornei especialista em biscoitos), montes de doces e uma torta de morangos, de mamãe. E uma carta da vó, que chegou na hora certa, mas, claro, isso foi só uma coincidência.
Depois, Hanneli veio me pegar, e fomos para a escola. Na hora do recreio, distribuí biscoitos para os meus colegas e professores e, logo depois, estava na hora de voltar aos estudos. Só cheguei em casa às cinco horas, pois fui à ginástica com o resto da turma. (Não me deixam participar, porque meus ombros e meus quadris tendem a se deslocar.) Como era meu aniversário, pude decidir o que meus colegas jogariam, e escolhi vôlei. Depois, todos fizeram uma roda em volta de mim, dançaram e cantaram "Parabéns pra você". Quando cheguei em casa, Sanne Ledermann já estava lá. Ilse Wagner, Hanneli Goslar e Jacqueline van Maarsen vieram comigo depois da ginástica, pois somos da mesma turma. Hanneli e Sanne eram minhas melhores amigas. As pessoas que nos viam juntas costumavam dizer: "Lá vão Anne, Hanne e Sanne." Só fui conhecer Jacqueline van Maarsen quando comecei a estudar no Liceu Israelita, e agora ela é minha melhor amiga. Ilse é a melhor amiga de Hanneli, e Sanne é de outra escola e tem amigos lá.
Elas me deram um livro lindo, Nederlandse Sagen en Legenden [Dutch Sagas and Legends], mas por engano deram o volume II, por isso troquei dois outros livros pelo volume I. Tia Helene me trouxe um quebra-cabeça, tia Stephanie, um broche encantador, e tia Leny, um livro fantástico: Daisy’s bergvakantie [Daisy Goes to the Mountain].
Hoje de manhã, fiquei na banheira pensando em como seria maravilhoso se eu tivesse um cachorro como Rin Tin Tin. Eu também iria chamá-lo de Rin Tin Tin e o levaria para a escola; lá, ele poderia ficar na sala do zelador ou perto dos bicicletários, quando o tempo estivesse bom.

Segunda-feira, 15 de junho de 1942
Minha festa de aniversário foi no domingo à tarde. O filme de Rin Tin Tin fez o maior sucesso entre minhas colegas de escola. Ganhei dois broches, um marcador de livros e dois livros.
Vou começar dizendo algumas coisas sobre minha escola e minha turma, a começar pelos alunos.
Betty Bloemendaal parece meio pobre, e acho que talvez ela seja. Ela mora numa rua que não é muito conhecida, no lado oeste de Amsterdã, e nenhuma de nós sabe onde fica. Ela se dá muito bem na escola, mas é porque estuda muito, e não porque seja inteligente. É muito quieta.
Jacqueline van Maarsen é, talvez, minha melhor amiga, mas nunca tive uma amiga de verdade. No começo, achei que Jacque seria uma, mas estava redondamente enganada.
D.Q.* é uma garota muito nervosa que sempre esquece as coisas, de modo que os professores vivem passando dever de casa extra para ela, como castigo. É muito gentil, especialmente com G.Z.
E.S. fala muito e não é engraçada. Vive mexendo no cabelo da gente ou tocando em nossos botões quando pergunta alguma coisa. Dizem que ela não me suporta, mas não ligo, porque também não gosto muito dela.
Henny Mets é uma garota legal, tem um jeito alegre, só que fala em voz alta e parece mesmo uma criança quando estamos brincando no pátio. Infelizmente, Henny tem uma amiga que se chama Beppy que é má influência para ela, porque é suja e vulgar.
J.R. – eu poderia escrever um livro inteiro sobre ela. J. é uma fofoqueira insuportável, sonsa, presunçosa e de duas caras, que se acha muito adulta. Ela realmente enfeitiçou Jacque, e isso é uma vergonha. J. se ofende à toa, chora pela menor coisa e, além disso tudo, é metida demais. A Srta. J. é a dona da verdade. Ela é muito rica e tem um armário repleto de vestidos maravilhosos, que são adultos demais para a sua idade. Ela se acha linda, mas não é. J. e eu não nos suportamos.
Ilse Wagner é uma garota legal, tem um jeito alegre, mas é afetada demais e consegue passar horas gemendo e reclamando de alguma coisa. A Ilse gosta um bocado de mim. É muito inteligente, mas preguiçosa.
Hanneli Goslar, ou Lies, como todos a chamam na escola, é meio estranha. Costuma ser tímida – expansiva em casa, mas reservada quando está perto de outras pessoas. Conta para a mãe tudo que a gente diz a ela. Mas ela diz o que pensa, e ultimamente passei a admirá-la bastante.
Nannie van Praag-Sigaar é pequena, engraçada e sensível. Acho que ela é ótima. É muito inteligente. Não há muito o que dizer sobre Nannie.
Eefje de Jong é, em minha opinião, fantástica. Apesar de só ter 12 anos, é a própria lady. Age como se eu fosse um bebê. Além disso, é muito atenciosa, e eu gosto dela.
G.Z. é a garota mais bonita da turma. Tem um rosto bonito, mas é meio burra. Acho que vão fazer ela repetir o ano, mas claro que eu não lhe dei a notícia.

Comentário acrescentado por Anne mais tarde
No fim das contas, para minha grande surpresa, G.Z. não repetiu o ano.
E, sentada perto de G.Z., fica a última das 12 meninas: eu.
Há muito o que dizer sobre os garotos, ou talvez não muito, pensando melhor.
Maurice Coster é um de meus muitos admiradores, mas é uma tremenda peste.
Sallie Springer tem uma mente imunda, e todo mundo fala que ele já fez de tudo. Mesmo assim, acho ele fantástico, porque é muito engraçado.
Emiel Bonewit é admirador de G.Z., mas ela nem liga. Ele é bem chato.
Rob Cohen também andou apaixonado por mim, mas não aguento mais ele. É um patetinha antipático, falso, mentiroso e manhoso que se acha simplesmente o máximo.
Max van de Velde é um camponês de Medemblik, mas um cara legal, como diria Margot.
Herman Koopman também tem a mente suja, como Jopie de Beer, que adora paquerar e é completamente louco pelas garotas.
Leo Blom é o melhor amigo de Jopie de Beer, mas foi prejudicado por sua mente suja.
Albert de Mesquita veio da Escola Montessori e pulou de ano. É inteligente de verdade.
Leo Slager veio da mesma escola, mas não é tão inteligente. Ru Stoppelmon é um garoto baixinho e bobo, de Almelo, que foi transferido para esta escola no meio do ano. C.N. faz tudo o que não deve.
Jacques Kocernoot senta atrás de nós, perto de C., e nós (G. e eu) morremos de rir.
Harry Schaap é o garoto mais decente de nossa turma. Ele é legal.
Werner Joseph também é legal, mas as mudanças que vêm acontecendo ultimamente fizeram ele ficar quieto demais, por isso parece chato.
Sam Salomon é um daqueles caras valentões e destrambelhados, um verdadeiro palhaço. (Admirador!)
Appie Riem é bem ortodoxo, mas também é um pestinha.” (Trecho de “O Diário de Anne Frank”, de Anne Frank)

Texto 02.
“A floresta é abundante em belezas; entre elas, samambaias que, embora não muito grandes, eram pela verde e brilhante folhagem e elegante curvatura de suas folhas, muito dignas de admiração.”
“É fácil especificar os objetos de admiração nesses cenários grandiosos, mas não é possível oferecer uma ideia adequada das emoções que sentimos, entre maravilhados, surpresos e com sublime devoção, capazes de elevar a mente.”
“Os brasileiros, até onde vai minha capacidade de julgamento, possuem somente uma pequena quantia daquelas qualidades que dão dignidade à humanidade. Ignorantes, covardes e indolentes ao extremo; hospitaleiros e bem-humorados enquanto isso não lhes causar problemas.”
“O senhor Earl viu um pedaço de um membro, que se arrancou com um aparelho de tortura, e que não sem freqüência eles guardam em casa.”
“O capitão Paget nos fez inúmeras visitas e é sempre muito divertido; ele mencionou em presença de pessoas que teriam, caso pudessem, contradito suas informações, alguns fatos sobre a escravidão tão revoltantes que, houvesse eu lido a respeito delas na Inglaterra, teria atribuído ao zelo crédulo de gente bem-intencionada. A extensão do comércio realizado; a ferocidade com que é defendido; as respeitáveis (!) pessoas que estão envolvidas nele passam longe de ser exageradas no que lemos.” (Charles Darwin, trechos do “Diário do Beagle”)

18 - Crônica - é um texto, originalmente do universo dos relatos históricos, que foi ao longo do século XX no Brasil mais afinado com o ambiente jornalístico. Apesar de se confundir com a linguagem jornalística hoje em dia, por vezes, aproxima-se da Literatura, mais em alguns autores, menos em outros, já que as liberdades linguísticas permitidas aos cronistas: o flerte com o humor, as analogias imprevisíveis e inusitadas, a tendência a conter fortes influências narrativas, a reinvenção na linguagem e a estrutura muito flexível tornam essa modalidade textual uma forma literária e jornalística em muitos casos difícil de classificar e delimitar, mas ainda uma ponte muito oportuna entre os jornais e a arte.
Isso se explica também por causa da opção de não se resumir o universo da crônica a relatos de cunho exclusivamente jornalístico e temporal, ou seja, focados no quem, quando, onde e por quê; ao contrário, o cronista prefere os debates acerca das artes; da vida aparentemente requintada dos ricos; da peleja da vida simples dos pobres; dos triunfos e dos fracassos do esporte, em especial do futebol; do deboche e do descaramento da vida política; dos acidentes e desgraças naturais ou não; e, obviamente, dos crimes e das boas ações que fazem do homem um ser tão paradoxal e fascinante; além disso, não escapam os pequenos eventos rotineiros e, para muitos, imperceptíveis. Enfim, tudo é assunto para esse gênero textual.

Texto 01.
Complexo de vira-latas
Por Nelson Rodrigues

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: - "O Brasil não vai nem se classificar!". E, aqui, eu pergunto: - não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?
Eis a verdade, amigos: - desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse "arrancou" como poderia dizer: - "extraiu" de nós o título como se fosse um dente.
E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: - é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: - o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: - se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.
Mas vejamos: - o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, "não". Mas eis a verdade: - eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: - sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado Flamengo. Pois bem: - não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.
A pura, a santa verdade é a seguinte: - qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: - temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de "complexo de vira-latas". Estou a imaginar o espanto do leitor: - "O que vem a ser isso?". Eu explico.
Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos "os maiores" é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: - e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: - porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.
Eu vos digo: - o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: - para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.
Texto 03.
Recado ao senhor 903
Rubem Braga

Vizinho,
Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento.
Recebi depois sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite – e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito, a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 – que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos: apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão; ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8:15 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas – e prometo silêncio.
Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: “Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou.” E o outro respondesse: “Entra, vizinho, e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela.”
E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz.

Texto 04.
O exercício da crônica
Vinicius de Moraes

O cronista trabalha com um instrumento de grande divulgação, influência e prestígio, que é a palavra impressa. Um jornal, por menos que seja, é um veículo de idéias que são lidas, meditadas e observadas por uma determinada corrente de pensamento formada à sua volta.
Um jornal é um pouco como um organismo humano. Se o editorial é o cérebro; os tópicos e notícias, as artérias e veias; as reportagens, os pulmões; o artigo de fundo, o fígado; e as seções, o aparelho digestivo - a crônica é o seu coração. A crônica é matéria tácita de leitura, que desafoga o leitor da tensão do jornal e lhe estimula um pouco a função do sonho e uma certa disponibilidade dentro de um cotidiano quase sempre “muito tido, muito visto, muito conhecido”, como diria o poeta Rimbaud.
Daí a seriedade do ofício do cronista e a freqüência com que ele, sob a pressão de sua tirania diária, aplica-lhe balões de oxigênio. Os melhores cronistas do mundo, que foram os do século XVIII, na Inglaterra - os chamados essayists - praticaram o essay, isto de onde viria a sair a crônica moderna, com um zelo artesanal tão proficiente quanto o de um bom carpinteiro ou relojoeiro. Libertados da noção exclusivamente moral do primitivo essay, os oitocentistas ingleses deram à crônica suas primeiras lições de liberdade, casualidade e lirismo, sem perda do valor formal e da objetividade. Addison, Steele, Goldsmith e sobretudo Hazlitt e Lamb - estes os dois maiores, - fizeram da crônica, como um bom mestre carpinteiro o faria com uma cadeira, um objeto leve mas sólido, sentável por pessoas gordas ou magras. (...)
Num mundo doente a lutar pela saúde, o cronista não se pode comprazer em ser também ele um doente; em cair na vaguidão dos neurastenizados pelo sofrimento físico; na falta de segurança e objetividade dos enfraquecidos por excessos de cama e carência de exercícios. Sua obrigação é ser leve, nunca vago; íntimo, nunca intimista; claro e preciso, nunca pessimista. Sua crônica é um copo d’água em que todos bebem, e a água há de ser fresca, limpa, luminosa, para satisfação real dos que nela matam a sede.

Texto 05.
A última crônica
Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.


19 - Autobiografia - gênero textual narrativo em que o escritor conta a sua própria vida ou parte dela em primeira pessoa do singular geralmente. Para escrever esse gênero textual, que pode conter quaisquer eventos capazes de compor uma história - das futilidades das celebridades instantâneas ou juvenis à relevância de pessoas com carreiras longas e profícuas ou mesmo autoras de obras e feitos extraordinários – além disso, pode ser escrita em prosa ou em verso, ainda que o primeiro caso seja muito mais comum. A linguagem empregada pode ir da mais absoluta e rigorosa aplicação da norma padrão à espontaneidade e descompromisso da linguagem popular. Essa modalidade textual pode conter ainda confissões, traços memorialísticos e cartas que revelam ou relembram as experiências e vivências da pessoa biografada. Tal gênero pode ser escrito em forma de memórias, diários, coleção de cartas, etc. São exemplos "Confesso que vivi", de Pablo Neruda; "50 anos a mil", de Lobão; "Saindo da sarjeta", de Charles Mingus; "As palavras", de Jean Paul Sartre; etc.

20 – Biografia - texto fundamentalmente narrativo que tem como foco e razão narrar as vivências, os feitos, as experiências, os fracassos, as conquistas, etc., de uma pessoa ao longo de toda a sua vida ou parte dela.  Nesse gênero textual, é fundamental o estabelecimento de uma ordem cronológica e organizada dos fatos narrados, com a ajuda de marcadores temporais como datas, aniversários, eventos históricos, etc. Além disso, a utilização de verbos na terceira pessoa do singular e de tempos verbais como o pretérito perfeito e o presente do indicativo são aspectos marcantes para a composição do texto biográfico. São exemplos "Vale tudo", sobre Tim Maia, escrita por Nelson Motta; "Anjo Pornográfico", sobre Nelson Rodrigues, escrita por Ruy Castro; etc.

Professor Estéfani Martins