segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Atualidades - Coletânea 2014-27

Caras e caros,

Semana intensa e triste essa última, em especial para a já debilitada democracia brasileira, pois perde-se muito quando um candidato morre da forma como Eduardo Campos morreu. Para a família dele e das outras vítimas, minhas humildes condolências. 
Para entender bem o riso temos que nos fartar de choros, parece esse um epitáfio para a vida do genial e atormentado Robin Willians que lamentavelmente escolheu nos deixar recentemente, astro de grandes filmes como "Good morning, Vietnã", "Sociedade dos poetas mortos", "Gênio indomável", "Patch Adams", "Retratos de uma obsessão" para citar apenas os que julgo obrigatórios. 
Além disso, registro com pesar aqui a morte que mais me entristeceu, especialmente pela carência que nosso país tem tido de lucidez intelectual forjada pelo interesse de ser acessível e relevante. Na última quarta perdemos Nicolau Sevcenko, autor de "Literatura como missão", um dos livros mais impactantes que já tive a honra de ler e "A corrida para o século XXI, no loop da montanha russa", uma das mais proféticas e perturbadoras visões sobre este século que vale ser lida por quaisquer pessoas interessadas em entender o seu tempo. Além de autor, era um grande professor, cultuado pelos alunos e pelas aulas que não respeitavam as fronteiras que foram artificial e tolamente criadas e alimentadas entre conhecimentos siameses como a Literatura, a Arte, a Música, a Sociologia, a Filosofia, a Antropologia e a História.
Peço antecipadas desculpas pelos muitos textos para além de nossos acordo inicial, mas a semana merece em função do que perdemos, mas também da comemoração dos 45 anos de Woodstock e dos 100 anos do Canal do Panamá. 
Espero que aproveitem bem a coletânea desta semana que foi feita com especial atenção e carinho em função da importância histórica do que vivemos nos últimos dias.













Indicação 01.

Indicação 02.


Legenda: na minha opinião, dois dos shows mais seminais do festival de Woodstock. Primeiramente, Santana, com sua excepcional banda, apresentando a fusão mais contundente que conheço entre o rock e a música centro-americana, "Soul sacrifice". Depois, o grande Richie Havens, apresenta a música "Motherless Child, erroneamente conhecida como "Freedom", em função do improviso de Havens ao incluir várias vezes essa palavra na letra original, a ponto disso engolir o título original dela, isso resume muito do que aquela multidão esperava conseguir com a contracultura e mesmo com os ideias hippies. Sua música era produto de uma mistura de africanidade crua com o folk norte-americano que resultou num dos melhores momentos do festival, não só pela excelência da música e da performance, mas pela visceral entrega de Havens à sua música convertida em transe numa celebração sagradamente profana. Ambos os registros, mostram bem o clima pacífico do festival que soa idílico e surreal quando pensamos num número de pessoas tão grande reunido  em um local absolutamente despreparado para recebê-los.


Indicação 03.
Legenda: por ocasião dos 45 anos do Festival de Woodstock, num mesmo tempo auge e início do fim da cultura Hippie, eis uma foto do emblemático e seminal show do guitarrista Jimi Hendrix em Woodstock. Apesar do número inédito de pessoas em um festival alcançado em 1969 nesse evento contracultural histórico, Hendrix tocou para uma fração do público do Festival, era o último show do derradeiro dia, só os mais resistentes esperavam para ver a apresentação que contribuiria decisivamente para tornar míticos aqueles três dias na zona rural da pequena cidade de Bethel nos EUA.
Para mais infirmações:
Fonte: caso alguém saiba quem é o fotógrafo, favor deixar as informações nos comentários.

Indicação 04.

Indicação 05.

Indicação 06.
Detalhe da instalação 'Tropicália', de
                Hélio Oiticica - a primeira versão da obra está no Tate
                Modern, em Londres. (Foto: Divulgação)
Legenda: detalhe da instalação “Tropicália”, 1967, de Hélio Oiticica, a primeira versão da obra está no Tate Modern, em Londres. Esta obra é o que o artista chamava de penetrável. A obra “Tropicália” não inspirou apenas o nome do movimento cultural homônimo de 1968 como inclusive ofereceu alguns dos subsídios estéticos para seus articuladores, dentre eles destacam-se Torquato Neto, Rogério Duprat, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Para Oiticica era a "primeiríssima tentativa consciente de impor uma imagem 'brasileira' ao contexto da vanguarda". Os penetráveis têm como premissa a possibilidade de incursão do espectador na obra, que, de toda forma, ao estar inserido nela, dialoga e compõe uma experiência artística mais ativa em relação à arte do que a mera fruição ou a simples observação passiva.


Indicação 07.
Bilhetinho Sem Maiores Conseqüências

Uma retificação, meu bom Vinícius:
Você falou em "bares repletos de homens vazios"
e no entanto se esqueceu
de que há bares
lares
teatros, oficinas
aviões, chiqueiros
e sentinas,
cheinhos(ao contrário)
de homens cheios
Homens cheios.
(e você bem sabe)
entulhados da primeira à última geração
da imoralidade desta vida
das cotidianas encruzilhadas e decepções
da patente inconsequência disso tudo.
Você se esqueceu
Vinícius, meu bom,
dos bares que estão repletos de homens cheios
da maldade das coisas e dos fatos,
dos bares que estão cheios de homens cheios
da maldade insaciável
dos que fazem as coisas
e organizam os fatos
E você
que os conhece tão de perto
Vinícius "Felicidade" de Moraes
não tinha o direito de esquecer
essa parcela imensa de homens tristes,
condenados candidatos naturais
a títulos de tão alta racionalidade
a deboches de tão falsa humanidade.

Com uma admiração "deste tamanho".

Rio 7.7.62
Torquato Neto

Nota: poeta fundamental para o Tropicalismo e para a poesia contemporânea, em especial a Marginal brasileira. De certa forma, um eco dos ventos contraculturais que sopravam fortes nos EUA e na Europa que, no Brasil, vingaram, mas de forma difusa e pouco evidente, não só pela forma antropofágica tropicalista de filtrá-los, como pela resistência conservadora construída contra eles pela classe média e pela Ditadura, além da assimilação superficial de grupos de jovens que converteram os gritos daquele tempo em uma busca muitas vezes hedonista por uma vida de mais liberdade, sobretudo, nos costumes, mais até do que a política e a intelectual. Para tanto, os versos de Torquato dilaceram esse enigma e esses paradoxos ao serem escritos por meio de uma poesia livre de métricas, sobre temas alheios ao universo artístico tradicional e com uma franqueza moral e discursiva que explicam a pertinência visceral de sua produção ainda hoje.

Abraços,

Professor Estéfani Martins
opera10@gmail.com