sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Redação - Competência 2 - A coerência textual no texto dissertativo por Estéfani Martins (Atualização 3)




“O homem que trabalha, que minimamente ganha a vida, que leia! Leia em casa, no ônibus, no metrô. Leia naquela hora que os meios de comunicação devoram contando casos de polícia, bobagens incoerentes, mexericos e fatos muito menores, cuja confusão e abundância parecem feitas para aturdir e simplificar grosseiramente os espíritos.” 

(Paul Valéry)

A coerência textual está diretamente ligada à possibilidade de ser estabelecido um sentido para um texto; ela depende de vários fatores para ser desenvolvida, tais como o conhecimento dos interlocutores sobre o assunto, a informatividade do texto, a intertextualidade, etc. Sem esses elementos, dentre outros, o texto pode ser até parcialmente compreensível do ponto de vista linguístico, entretanto não terá validade como expressão do pensamento em relação ao qual se requer organização, pertinência e embasamento teórico ou empírico, a fim de estabelecer-se um processo de comunicação amplamente produtivo entre os envolvidos em uma dada situação comunicativa.
Por isso, a coerência textual é regida pelo princípio da interpretabilidade possível para o interlocutor ligado à inteligibilidade do texto produzido por um locutor atento às intenções comunicativas pretendidas numa situação de comunicação específica. Essa interação determina a capacidade que o leitor terá para compreender de forma satisfatória o sentido do texto.

São fatores responsáveis pela coerência em um texto:

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- Os elementos linguísticos são os mecanismos de ativação dos conhecimentos a serem apreendidos pelo interlocutor, ou seja, são uma espécie de meio pelo qual as intenções comunicativas sejam perpetradas com o intuito de transmitir uma determinada informação.

- O conhecimento de mundo é determinante no estabelecimento da coerência, já que, tanto por parte do autor de um texto quanto por parte dos leitores dele, esse fator é crucial para produzir sentido para um texto. Assim, o repertório cultural dos interlocutores é decisivo para que um texto seja compreendido. Tal repertório é adquirido de forma tanto empírica quanto teórica, e sua abrangência e sua qualidade dependem das oportunidades, dos objetivos, das escolhas e da curiosidade que determinaram a formação cultural de um indivíduo.

- O conhecimento compartilhado refere-se à quantidade e à qualidade de informações conhecidas sobre determinado assunto pelos interlocutores envolvidos em uma situação comunicativa. Dessa forma, um texto terá geralmente tantas informações já conhecidas pelo autor e pelo interlocutor quanto informações novas. Essa relação será definida pelas diferenças e semelhanças entre os repertórios culturais dos interlocutores. A capacidade de despertar interesse, a pertinência e a importância de um texto são, em grande medida, definidas pelo equilíbrio entre informações novas e dadas (“velhas”) presentes nele. Esse fator de coerência é muito importante em textos jornalísticos, que equilibram informações dadas para que o leitor possa ter elementos para entender a notícia e informações novas para que ele se interesse em lê-la ou vê-la.

- As inferências são o resultado do cálculo de um interlocutor a respeito das informações implícitas ou apenas sugeridas em um texto. A qualidade desse processo depende naturalmente do conhecimento de mundo, da atenção e da sensibilidade do leitor ou do ouvinte inserido em uma situação comunicativa. Em textos literários, humorísticos, entre outros, esse fator de coerência é, por vezes, determinante para a satisfatória compreensão do texto.

- Os fatores de contextualização são referenciais, marcas ou mesmo dados comunicados em um texto em uma situação comunicativa determinada para que ele possa ser melhor e integralmente compreendido em função desses mecanismos usados para situar um processo comunicativo quanto ao espaço, ao tempo, às circunstâncias, às condições de produção, etc. Tais elementos contextualizadores podem ser a data, o local, a assinatura, os elementos gráficos diversos (ilustrações, fotos, disposição espacial, etc.), a entonação, o timbre, o sotaque, etc. Existem ainda os chamados elementos perspectivos ou prospectivos, que são o título, o nome do autor e o início de um texto. Isso porque o título geralmente auxilia na previsão do que será lido posteriormente; o nome do autor diz sobre a temática, o estilo ou mesmo as intenções do texto e o início do texto revela dados sobre o conteúdo e a forma do que se quer comunicar. Tais fatores são sobretudo importantes em correspondências oficiais, cartas diversas, textos jornalísticos, etc.

- A situacionalidade é um fator muito importante para estabelecimento da coerência textual, porque, em primeiro lugar, um texto pode ser coerente em uma situação, mas não o ser em outra. Por isso, situacionalidade é o grupo de exigências ou referências externas ao texto que podem influenciar a produção textual ou por elas ser influenciada. Um exemplo oportuno é o texto de concursos vestibulares, já que o texto produzido pelos candidatos deve atender a exigências acerca do gênero textual, da variação linguística, do tempo, do tema a ser debatido, etc.

- A informatividade refere-se ao grau de previsibilidade das informações contidas no texto, ou seja, se nele são reunidas informações o bastante para que ele seja compreendido como uma unidade de sentido independente e completa quanto ao que informa. Um texto será pouco informativo quando ele for construído em torno de informações previsíveis ou redundantes e quando nele faltarem informações cruciais para seu entendimento seja pela incompetência do autor do texto ou por qualquer outra razão responsável pela insuficiência informativa dele. 

- A focalização refere-se - como fator de coerência - a um processo que submete o entendimento do texto às condições de produção controladas pelo tipo de repertório cultural, de profissão, de inclinação ideológica, etc., a que respondem um determinado autor. Tal processo também ocorre com o interlocutor que pode, em função das mesmas razões, alcançar determinado nível de leitura, ou mesmo interferir em como ele recebe, interpreta e julga determinada intenção comunicativa. Exemplo disso seria a solicitação de que um ateu, um muçulmano e um cristão escrevessem um texto sobre Deus, para que depois fossem lidos por um psiquiatra, um teólogo e um linguista. Certamente, cada produtor de texto faria um texto focalizado em suas concepções sobre Deus, enquanto cada leitor submeteria as idéias dos três autores a seu repertório cultural, o que os faria ler de forma razoavelmente distinta o que qualquer um dos três textos contivesse.

- A intertextualidade é um fator determinante na produção de coerência em um texto, pois, sem conhecimento prévio de outros textos, não há como produzir um ou mesmo o ler de forma satisfatória. A intertextualidade pode ser relativa à forma, quando há referências em um texto a passagens, estruturas estilísticas e preferências estéticas constantes em outros textos. Quanto ao conteúdo, a intertextualidade é de ocorrência contínua na produção textual, porque é improvável que as produções textuais de um determinado período histórico ou artístico, de um grupo de profissionais, de campo da Ciência, etc., não dialoguem de forma explícita ou implícita, contínua e intensa.

- A intencionalidade trata do modo como os locutores usam textos para alcançar seus objetivos, para tanto adéquam suas produções discursivas com o intuito de obter os efeitos desejados nos interlocutores. Esse processo dialoga e é dependente da aceitabilidade, outro fator de coerência textual, que o interlocutor pode ter de forma consciente ou não em relação aos mecanismos e às ideias apresentadas pelo autor de um texto. O mediador desse processo entre a intencionalidade e a aceitabilidade é a argumentatividade, que se manifesta textualmente por meio de muitos procedimentos e recursos retóricos empregados com o objetivo de convencer alguém sobre um determinado ponto de vista. Dessa forma, a argumentatividade permeia todo processo linguístico, já que a maioria dos linguistas admite não haver textos neutros, ou seja, não há interação textual em que não seja possível mesmo inferir alguma intenção argumentativa.

- A consistência é o fator de coerência textual responsável por garantir que as partes de um texto contribuam entre si para cooperar com a produção de um texto que seja uma unidade de sentido completa e pertinente com a realidade imediata ou interior à própria produção textual. Por relevância entende-se o fator de coerência capaz de orientar a produção textual de um indivíduo no sentido de cooperar com uma discussão subjacente à situação comunicativa , ou mesmo em um diálogo.

Como forma de resumir e sintetizar as ideias acima, a partir do texto dos autores que norteiam a concepção de Coerência Textual usada como referência teórica nesta teoria, segundo Koch e Travaglia:

“Não existe o texto incoerente em si, mas o texto pode ser incoerente em/ para determinar situação comunicativa. [ ... ] O texto será incoerente se seu produtor não souber adequá-lo à situação, levando em conta intenção comunicativa, objetivos, destinatários, regras sociais culturais, outros elementos da situação, uso dos recursos lingüísticos etc. Caso contrário, será coerente.
É evidente que a capacidade de cálculo do sentido pelo receptor é fundamental. Pode acontecer que, mesmo o texto sendo bem estruturado, com todas as pistas necessárias ao cálculo do seu sentido, um receptor pode, no nível individual, não ser capaz de determinar o sentido por limitações próprias (não domínio do léxico e/ ou estruturas, desconhecimento do assunto, etc.), nesse caso, não dirá, sobretudo considerando o produtor, que o texto é incoerente, seu comentário será: 'Não consegui entender este texto'." 
(Ingedore Grufeld Villaça Koch e Luiz Carlos Travaglia. A coerência textual. São Paulo: contexto, 1993.p.50)

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