segunda-feira, 30 de maio de 2016

Códigos e Linguagens - Intertextualidades (Atualização 4)

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“...escrever, pois, é sempre reescrever, não difere de citar. A citação, graças à confusão metonímica a que preside, é leitura e escrita, une o ato de leitura ao de escrita. Ler ou escrever é realizar um ato de citação.”
(Antoine Compagnon)

“Se todo texto é só uma série de citações anônimas, não susceptíveis de atribuições, por que então assinar um texto defendendo essa intertextualidade absoluta? Se o texto moderno, segundo Barthes, essa ‘citação sem aspas’, por que deveria ficar ligado a um nome, uma vez que esse nome não poderia, de modo algum, atestar ou indicar a origem?”
(Michel Schneider)

A intertextualidade, como a própria palavra já denuncia, é a relação estabelecida ou dialogicidade entre textos diferentes com o intuito de compor matéria “nova” a partir de conhecimento anterior, ou seja, texto novo a partir da íntegra ou de parte de outro pré-existente. Essa prática é inerente a qualquer produção linguística humana, visto que o homem produz linguagem a partir de referências, modelos e padrões que precedem a enunciação ou criação textual, os quais são em diversos sentidos formadores da experiência dos usuários de uma dada linguagem.
Dessa forma, é impossível afirmar que algum texto nasce alheio a referências constituintes e anteriores tanto na forma quanto no conteúdo, ou seja, não há de fato autonomia ou originalidade textual integral no tocante ao possível produção de um texto "inédito" em todas as suas peculiaridades linguísticas, estéticas e formais. Isso seria se não impossível, irrealizável, já que ele se tornaria incompreensível. Sobre essa questão, Juan Bordenave, bem define e amplia o debate quando afirma que “A intertextualidade tornou-se, hoje, um conceito operatório indispensável para a compreensão da literatura. Ele caracteriza o romance moderno como dialógico, isto é, como um tipo de texto em que as diversas vozes da sociedade estão presentes e se entrecruzam, relativizando o poder de uma única voz condutora. Mikhail Bakhtin compara a intertextualidade à língua, dizendo que esta ‘não é propriedade de algum indivíduo em particular, nem é, por outro lado, um objeto independente da existência dos indivíduos’. Exatamente no espaço dos intercâmbios, dos conflitos, das vozes que se propagam e se influenciam sem cessar situa-se a linguagem como processo social. A linguagem, em qualquer de suas manifestações, teria uma base relacional, interacional, ao processar-se entre os indivíduos de uma sociedade.”
Além disso, pode-se até dizer que a intertextualidade realiza-se também no exercício da leitura, porque parte das interações ou diálogos entre textos comunicados conscientemente ou não pelo autor de uma obra também podem ou não ser entendidas pelo leitor, visto que, para reconhecê-las, é fundamental o conhecimento do leitor sobre tais referências. Além disso, o leitor pode atribuir ao texto padrões de intertextualidade que mesmo o autor dele desconhece ou não percebe conscientemente, o que confere a qualquer forma de comunicação humana o título de obra sempre inacabada ou aberta, dependente do olhar temporal, espacial e circunstancial em relação ao outro e ao dinamismo entre o que se fala ou escreve e o que se ouve ou lê. Michel de Montaigne bem definiu essa relação no famoso aforismo: “A palavra é metade de quem a pronuncia e metade de quem a escuta.”
A intertextualidade está, portanto, presente tanto na produção como na recepção da vasta experiência cultural humana da qual somos ao mesmo tempo assunto, meio, emissor, receptor e analista. Tal multifacetado processo faz crer na onipresença dele próprio como formador de discursos e como auxiliar na interpretação deles, daí pode-se afirmar a existência de diálogos velados entre textos diferentes (intertextualidade implícita), os quais para serem percebidos exigem não só mais atenção quanto mais conhecimento dos interlocutores, tal como nos muitos momentos que indivíduos educados no Ocidente podem sem mesmo eles perceberem ser socráticos, cristãos, platônicos em suas próprias afirmações, indagações e formas de pensar. Por outro lado, há momentos que se quer declarar ou elucidar as intertextualidades que servem a inúmeras intenções (intertextualidade explícita), quando, por meio de citações, paráfrases, bricolagens, epígrafes, etc., são estabelecidos diálogos entre textos com o intuito de emprestar prestígio, autoridade, compreensão, erudição, etc., a uma enunciação de ideia, posicionamento,  narrativa, etc.
Eis a prática, por muitas vezes arte, de poemas serem precedidos de aforismos, de propagandas apropriarem-se de músicas famosas, de filmes dialogarem com outras películas, de obras de arte serem inspiradas em outras manifestações artísticas, de músicas serem feitas de outras, etc., ou seja, dos textos estabelecerem relações entre si, por serem construídos por uma rede de associações mútuas, constantes e inesgotáveis, daí emerge a clareza e a razoabilidade da afirmação da pensadora Julia Kristeva quando ela escreve que “...todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto.”

Texto 01.

Texto 02.


Texto 03.
Nota: Criolo canta e reinventa "Cálice" de Chico Buarque de Holanda.

Texto 04.
Nota: "Gaiola das cabeçudas" satiriza por meio de uma paródia tanto o funk carioca ("Gaiola das popozudas") quanto mesmo o próprio conhecimento.

1 - Epígrafe

“Sinto que meu copo é grande demais para mim, e ainda bebo no copo dos outros.”
(Mário de Andrade)


A epígrafe constitui um texto breve ou parte dele introdutório a outro, como forma de abertura de um poema, um ensaio, um conto, uma tese, etc. Comumente, serve de resumo, síntese ou introdução às informações seguintes, até porque é escrito logo abaixo do título da obra ou em página a parte.

Texto 05.
Epitáfio Dark nº 1

“Existem coisas conhecidas e coisas desconhecidas, entre elas estão as portas.”
(Jim Morrison)

“Se as portas da percepção fossem abertas, tudo pareceria aos homens como realmente é, infinito.”
(Willian Blake)

me sinto
fora de foco
in loco
foto pose finale
no hotel del leito louco
outra lacraia sem apoio
mas me sinto
o sentido nato de escroto
leite de porco & corvo
aborto nesta ilustração de tinteiro absorto
absurdo espanto & destôo
gota e gota  (Sérgio Luiz Blank)

2 - Citação

“Somos feitos de citações.”
(Gustave Flaubert)

"A exatidão do citar é um talento muito mais raro do que se pensa."
(Pierre Bayle)

"Um homem muito lido nunca cita com precisão [...} A citação errada é o orgulho e o privilégio da pessoa culta."
(H. Pearsons)



A citação é uma transcrição de texto alheio marcada por aspas, com o intuito de se utilizar o pensamento de outros como motivação ou referência com alguma intenção. A citação pode ser usada como meio para, ao se fazer referência às ideias do outro tal qual ele as enunciou, legitimar a tese ou abordagem argumentativa do texto que a contém, ou seja, é base para o argumento de autoridade: citar o pensamento alheio como forma de reforçar um ponto de vista sobre o quer que seja. 



Texto 06.
“O manguebeat pode ser classificado como um típico fenômeno pós-moderno de hibridismo cultural, caracterizado por uma assimilação da cultura hegemônica decorrente dos processos de globalização, porém de uma forma negociada, resgatando e preservando as raízes de uma identidade regional como forma de resistência ao caráter homogenizador desses mesmos processos. Segundo Leão: ‘O consumo de signos estrangeiros não se configura como recepção passiva, despolitizada, mas como apropriação que instaura o espaço da mediação cultural, onde a hegemonia vai ser desafiada.’” (Luciano de Azambuja)

Texto 07.
Texto 08.
Nota: Versão de "Disparada" de Jair Rodrigues por Rappin Hood.

Texto 09. A citação no parágrafo dissertativo.

"De outro modo, o avanço tecnológico e científico é irrefreável, mas como Isaac Asimov, o grande escritor de ficção científica muito oportunamente observou: 'O aspecto mais triste da vida de hoje é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria.' Tal aforismo apenas reforça o entendimento de muitos de que a forma mais confiável de garantir que novos adventos sejam produtivos e benéficos para a humanidade é a ampliação na maior escala possível de uma educação de qualidade, democrática e laica."


3 - Paráfrase

“...um texto é sempre depositário de elementos vindos de outros textos, o que vem apontar então para o caráter intertextual que deverá ter sua leitura.”
(Jacques Derrida)

A paráfrase é a reprodução de um texto, aqui chamado original, com outras palavras e com outros recursos linguísticos, porém com o objetivo de manter integralmente as informações comunicadas no texto fonte, ou seja, é uma versão de uma obra original no próprio idioma em que ele foi escrita. Pode também ter o intuito de tornar mais claro e objetivo o que se comunicou em um texto anterior. Dessa forma, configura-se como um tipo de reescritura de um texto pré-existente, ou seja, uma forma de traduzir em que não se altera o idioma em nenhum momento, não se inclui informação e nem se retira. São exemplos:



Texto 10.

“Moralmente, é tão condenável não querer saber se uma coisa é verdade ou não, desde que ela nos dê prazer, quanto não querer saber como conseguimos o dinheiro, desde que ele esteja na nossa mão.” (Edmund Way Teale)

Texto 10.1.

Eticamente, tal como ignorar o que é verdadeiro, em troca de satisfação pessoal, é igualmente questionável ignorar a origem de uma riqueza, desde que ela seja de nossa propriedade.


Texto 11.
“O universo não foi feito à medida do ser humano, mas tampouco lhe é adverso: é-lhe indiferente.” (Carl Sagan)
Texto 11.1.
O cosmo não foi concebido tendo como parâmetro o homem, porém não se opõe a ele: é apenas insensível a sua presença.

Texto 12. A paráfrase no parágrafo dissertativo.
"Toda a descoberta da ciência pura é potencialmente subversiva; por vezes a ciência deve ser tratada como um inimigo possível." (Aldous Huxley)
"Dessa forma, é inescapável que, tal como o escritor Aldous Huxley anteviu, os adventos provenientes da ciência pura possam ser subvertidos, por isso é prudente que os avanços científicos sejam vistos como possivelmente danosos para a humanidade. Tal afirmação apenas confirma que o idealismo e a inocência ao se pensar sobre o futuro da ciência ou da tecnologia são tão perigosos como as próprias realizações tecnológicas."


4 - Paródia

“A paródia é a carnavalização da vida.”
(Vitório Sá)

"Paródias e caricaturas são as críticas mais pertinentes."
(Aldous Huxley)


A paródia é um mecanismo de apropriação do texto alheio a fim pervertê-lo com a ajuda da ironia, do escracho, da crítica, etc., em lugar de ratificar as ideias dele, como é o caso da paráfrase. Pode ser construída sutil ou escancaradamente. A paródia é especialmente comum em filmes, em músicas e na literatura. São exemplos os filmes “A vida de Brian” e “Todo mundo em pânico”, que fazem paródias, no primeiro caso, da vida de Jesus Cristo e, no segundo, de vários filmes de terror. Pode-se citar também a obra de bandas como Língua de Trapo e Mamonas Assassinas ou ainda os vídeos de grupos como o Porta dos Fundos. Na literatura, tal como na arte, são muitos os exemplos, eis talvez o mais conhecido parodiado da poesia brasileira:


Texto 13.
Canção do exílio

Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühen?
Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!
Möchtl ich... ziehn. *
(Goethe)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá. (Gonçalves Dias. Coimbra - julho 1843)

* - "Conheces a região onde florescem os limoeiros ?
laranjas de ouro ardem no verde escuro da folhagem;
conheces bem? Nesse lugar, eu desejava estar" (“Mignon”, de Goethe)

Texto 13.1.
Canção do exílio facilitada

lá?
ah!
sabiá...
papá...
maná...
sofá...            
sinhá...

cá?
bah! (José Paulo Paes)

Texto 13.2.
Minha terra não tem palmeiras …
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem refúgios,
Cada qual com a sua hora
Nos mais diversos instantes …
Mas onde o instante de agora?

Mas a palavra “onde”?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus de minha terra
Eu canto a Canção do Exílio. (Mário Quintana)

Texto 13.3.
Um sabiá
Na palmeira, longe
Estas aves cantam
Um outro mundo
(...)
Só, na noite,
Seria feliz:
Um sabiá
Na palmeira, longe. (Carlos Drummond de Andrade)

Texto 13.4.
Amor à Terra

Laranja na mesa.
Bendita a árvore
que te pariu. (Poema atribuído à Clarice Lispector)

Texto 14.

Texto 15.

Texto 16.

Texto 17.

Texto 18.


5 - Tradução

“Quem não conhece línguas estrangeiras não sabe nada a respeito da sua própria.”
(Goethe)

“Qualquer bobagem em francês soa como uma dessas verdades inapeláveis e eternas.”
(Nelson Rodrigues)

A tradução é a versão de um texto em outro idioma, está no contexto da intertextualidade já que, ao transpor qualquer informação, especialmente literária, para um outro idioma, pode ocorrer de duas traduções serem divergentes em alguns pontos. Isso ocorre em virtude das muitas interpretações que expressões populares, incompatibilidades vocabulares, ironias, metáforas, polifonias, etc., podem permitir. Certamente, por isso, George Borrow, bem definiu o ato de traduzir com o aforismo: “Toda tradução é, no melhor dos casos, um eco.”. A seguir, veja algumas traduções do famoso poema “O Corvo”, do escritor inglês Edgar Allan Poe:

Texto 19.
“Once upon a midnight dreary, while I ponde-red
weak ande weary
Over many a quaint and curious volume of for-got-
tem lore, while i modded, neraly napping, su-ddenly
there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at may
chamber door
Only this and nothing more.” (Edgar A. Poe)

Texto 19.1.
“Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
‘Uma visita’ eu me disse, ‘está batendo a meus umbrais
E só isto, e nada mais.” (Tradução de Fernando Pessoa)

Texto 19.2.
“Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
‘É alguém que me bate à porta de mansinho:
Há de ser isso e nada mais.” (Tradução de Machado de Assis)

6 – Alusão ou referência
A alusão é toda referência direta ou indireta, intencional ou não, ao título de uma obra, um personagem, um lugar, uma situação descrita numa obra, etc., pertencente ao mundo do literário, do artístico, do mitológico, etc., e que seja potencialmente do conhecimento do interlocutor. Machado de Assis é bom exemplo desse tipo de intertextualidade quando, dentre outras ocasiões em muitos de seus livros, alude a Otelo, personagem da obra de Shakespeare, em seu livro "Dom Casmurro" como uma forma de comparação entre os dramas vividos por aquele e por Bentinho nas obras em questão.

Texto 20.
“Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço, — um simples lenço! — e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há, e valem só as camisas. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira; não queria expor-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerências, até que o pano subia e continuava a peça. O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público.” (Machado de Assis, "Dom Casmurro")


Texto 21.
“No filme 'Matrix', o ator protagonista Keanu Reeves guarda seus programas de paraísos artificiais no fundo falso do livro 'Simulacros e Simulação', de Baudrillard. Keanu leu o livro e adorava citá-lo em suas entrevistas, mas Baudrillard não gostava do filme. Dizia que se inspiraram nele, mas não o compreenderam.” (Revista Época)

Texto 22.
Assim como as filhas de sua madrasta, a Gata Boralheira calça 34.
(J. Novelino)

Texto 23.
Depois do beijo do príncipe, a Bela Adormecida começou a ter insônia.
(J. Novelino)

Texto 24.

Texto 25.

Texto 26.
Epitáfio para o Século XX

1. Aqui jaz um século
onde houve duas ou três guerras
mundiais e milhares
de outras pequenas
e igualmente bestiais.

2. Aqui jaz um século
onde se acreditou
que estar à esquerda
ou à direita
eram questões centrais.

3. Aqui jaz um século
que quase se esvaiu
na nuvem atômica.
Salvaram-no o acaso
e os pacifistas
com sua homeopática
atitude
-nux vômica.

4. Aqui jaz o século
que um muro dividiu.
Um século de concreto
armado, canceroso,
drogado,empestado,
que enfim sobreviveu
às bactérias que pariu.

5. Aqui jaz um século
que se abismou
com as estrelas
nas telas
e que o suicídio
de supernovas
contemplou.
Um século filmado
que o vento levou.

6. Aqui jaz um século
semiótico e despótico,
que se pensou dialético
e foi patético e aidético.
Um século que decretou
a morte de Deus,
a morte da história,
a morte do homem,
em que se pisou na Lua
e se morreu de fome.

7. Aqui jaz um século
que opondo classe a classe
quase se desclassificou.
Século cheio de anátemas
e antenas,sibérias e gestapos
e ideológicas safenas;
século tecnicolor
que tudo transplantou
e o branco, do negro,
a custo aproximou.

8. Aqui jaz um século
que se deitou no divã.
Século narciso & esquizo,
que não pôde computar
seus neologismos.
Século vanguardista,
marxista, guerrilheiro,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyciano,
borges-kafkiano.
Século de utopias e hippies
que caberiam num chip.

9. Aqui jaz um século
que se chamou moderno
e olhando presunçoso
o passado e o futuro
julgou-se eterno;
século que de si
fez tanto alarde
e, no entanto,
-já vai tarde.

10. Foi duro atravessá-lo.
Muitas vezes morri, outras
quis regressar ao 18
ou 16, pular ao 21,
sair daqui
para o lugar nenhum.

11. Tende piedade de nós, ó vós
que em outros tempos nos julgais
da confortável galáxia
em que irônico estais.
Tende piedade de nós
-modernos medievais-
tende piedade como Villon
e Brecht por minha voz
de novo imploram. Piedade
dos que viveram neste século
per seculae seculorum. (Affonso Romano de Sant’Anna)


Texto 27. A alusão no parágrafo dissertativo.
"Sobre as questões acerca do futuro da tecnologia, apesar dos receios e dilemas morais que essa importante discussão suscita em praticamente todas as sociedades é muito relevante lembrar, como o escritor Robert Jungk ensina, no título evocativo do livro, que 'O futuro já começou'. Logo, é urgente debater da forma mais ampla e democrática possível os avanços impressionantes por vir para que a humanidade seja beneficiada por eles, e não vítima deles."

7 – Pastiche ou pasticho
Imitação de obra literária ou artística em que se faz referência grosseira e abertamente ao estilo de outros escritores, designers, pintores, músicos, etc., sem, necessariamente, atribuir-lhes a autoria das ideias apresentadas no texto produto do pastiche.

Texto 28.
8 - Bricolagem
São procedimentos intertextuais das artes plásticas, da música e da literatura em que o processo de criação dá-se a partir da montagem de quadro, composição, texto, música, filme, etc., em que fragmentos de autor (es) são citados em grande escala, às vezes, exclusivamente, no intuito de compor nova obra a partir da junção de partes de criações de outros.

Texto 30.

Nota: "Baile Parangolé" - a bricolagem é exemplificada pela trilha musical da animação.

Texto 31.
Nota: "Nós que aqui estamos por vós esperamos", filme de 1999 dirigido por Marcelo Masagão que conta a história do século XX de forma impressionante e rica a partir de um ponto de vista inusitado. Documentário feito basicamente com música, imagem e vídeos de diversas obras que foram arranjadas e concatenadas de forma a fazerem sentido narrativo e cronológico.
9 - "Crossover"
Estabelece-se mais comumente como um obra artística em que se relacionam personagens pertencentes a universos ou a contextos fictícios diferentes em função da relevância narrativa ou do sucesso deles em capítulos, episódios, edições ou volumes de outras obras. É muito comum em histórias em quadrinhos (arte sequencial) especialmente dos universos Marvel e DC Comics, séries televisivas, jogos eletrônicos e mais recentemente no cinema. Em alguns casos, um personagem, por se destacar, pode mesmo ter sua própria série ou mesmo uma série pode derivar de outras, o que pode ser chamado também de "spin-off", como é o caso de "Better caul Saul", série derivada do sucesso "Breaking bad". Pode também ocorre de uma série ser a explicação da origem de outras como é o caso de "Fear the walking dead" em relação à "The walking dead". Sob certo aspecto, pode-se entender séries como "Penny Dreadful" como produto de um "crossover" já que nela encontram-se na Londres vitoriana vampiros, lobisomem, possuídos por demônios, Dorian Gray (personagem do escritor Oscar Wilde), Doutor Frankenstein (personagem do romance homônimo de Mary Shelley), etc. Nesse sentido, o filme e as HQs dos Vingadores e Liga da justiça também podem ser considerados "crossovers".

10 - "Sample"
Para se usar "samples", é necessário o uso de um aparelho ou um programa chamado "sampler" que consegue armazenar pedaços de música a fim de editá-los, combiná-los e reproduzi-los. Um "sample" é um trecho de uma música, discurso, etc., recortado para ser usado posteriormente em uma outra música. Muito comum no rap e na música eletrônica. No Brasil, essa prática passou a ser chamada de "samplear". 

Texto 32.
Nota: "samples" de músicas em espanhol usadas no rap.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=neyymGNaprU

Texto 33.
Nota: "samples" de músicas famosas usadas em raps norte-americanos.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=PxIJMHUyS9M


11 - Plágio
É um ato imoral, ilegal e artisticamente reprovável, em que alguém se apropria de parte ou partes da criação alheia sem fazer referência a autoria da obra original, normalmente com o intuito de se servir da qualidade das ideias de outros. É, portanto, uma apropriação intelectual indevida e desonesta.

Texto 34.
Nota: sobre os muitos plágios dos quais a banda Led Zeppelin é acusada.

12 - Cópia
Mais do que o plágio, é produto da absoluta despreocupação de alguém em ser descoberto, pois ele copia integralmente uma criação intelectual de outra pessoa a fim de assumir e beneficiar-se da "autoria" da cópia. Em função das facilidades da cultura digital, é um recurso infelizmente muito comumente usado para gerar conteúdo para "sites" e blogues da internet.

Anexo

Mecanismos de construção da paráfrase

A paráfrase é uma interpretação ou tradução de um texto original, na qual o autor desse meta ou intertexto mantém as ideias do texto fonte quase intactas, preocupando-se em reescrevê-las com o intuito de manter o máximo possível do sentido original. Também pode ser entendida como uma forma de interpretar e explicar um texto (trecho, aforismo, etc.), com o objetivo de torná-lo mais inteligível ou mais fácil de ser compreendido.
É feita com intenção elogiosa, supondo-se assim admiração por parte de quem parafraseia pelo texto original, ou seja, é a reescritura de um texto sem ou com pouca alteração de sentido. Vários recursos podem ser utilizados para se parafrasear um texto. Dentre eles destacam-se:

1 - Emprego de sinônimos.
Exemplo:     
O Brasil é visto como uma espécie de alternativa futura para sanar a crise do petróleo.
O maior país da América Latina é percebido feito um tipo de opção futura para resolver o problema do principal combustível fóssil.

2 - Emprego de antônimos, com apoio de uma expressão com valor negativo e vice-versa.
Exemplo:
O sucesso de muitas bandas deve-se ao investimento maciço de gravadoras na divulgação pela internet do trabalho delas.
A realização de não poucos grupos musicais atribui-se ao aporte substancial de empresas do mercado fonográfico na distribuição pela rede de computadores da produção daquelas.

3 - Utilização de termos anafóricos, isto é, que retomam outros anteriormente mencionados no texto.
Exemplo:     
A violência, no século XX, mostrou-se como um dos mais preocupantes problemas das grandes cidades brasileiras. A violência incentivou um novo negócio nessas cidades, a área de segurança privada.
A segurança pública, no século XX, foi vista como uma das mais graves questões das metrópoles do Brasil. Essa preocupação fomentou um ramo comercial inovador nessas grandes aglomerações de pessoas, o setor da segurança particular.

4 - Troca de termo verbal por nominal, e vice-versa.
Exemplo:
É necessário mais investimento privado na produção cinematográfica brasileira, além, é claro, dos cidadãos comuns verem os filmes de produção nacional.
Há a necessidade de que as empresas particulares invistam mais no cinema brasileiro, além, obviamente, das pessoas passarem a assistir películas produzidas no Brasil.

5 - Mudança de voz verbal.
Exemplo:
Os governantes debatem a abertura dos arquivos da Ditadura Militar no Brasil.
A disponibilização dos documentos do período militar brasileiro foi debatida por membros do Governo.

Obs.: se o sujeito for indeterminado (verbo na terceira pessoa do plural sem o sujeito expresso na frase), haverá duas mudanças possíveis.
Exemplo:     
Plantaram uma roseira. (voz ativa)
Uma roseira foi plantada. (voz passiva analítica)
Plantou-se uma roseira. (voz passiva sintética)

6 - Troca de discurso.
Exemplo:
Certa vez, um sábio, desses que ignoramos, disse: - Triste será o tempo em que a razão for medida pela quantidade de pólvora que se poderá comprar. (discurso direto)
Certa vez, um sábio, desses que ignoramos, disse que triste seria o tempo em que a razão fosse medida pela quantidade de pólvora que se poderia comprar. (discurso indireto)

7 - Troca de locuções por palavras e vice-versa.
Exemplos:
O homem da cidade não conhece os sinais da natureza que indicam chuva, frio ou calor.
O homem urbano desconhece os sinais naturais indicadores de tempo chuvoso, frio ou quente.

Informações importantes para a construção da paráfrase

1. Utilizar a mesma ordem de ideias adotada no texto original.
2. Não omitir nenhuma informação contida no texto original.
3. Não tecer comentário algum a respeito de qualquer informação ou ponto de vista presente no discurso parafraseado.
4. Manter marcas chamadas de não-parafraseáveis presentes do texto original na paráfrase, ou seja, datas, nomes de lugar e pessoa, números, etc. não devem ser parafraseados.
5. Ao parafrasear o texto, deve-se respeitar a norma padrão.
6. Deve-se ler com extrema atenção o texto original antes de parafraseá-lo.
7. Cuidado para não fazer um resumo ao invés de uma paráfrase, o intuito é transpor todas as ideias presentes no texto original, e não só as mais importantes.

Veja abaixo exemplos de paráfrases:

Texto 35.
“Sou talvez a visão que alguém sonhou, alguém que veio ao mundo para me ver e jamais na vida me encontrou.” (Florbela Espanca)
Texto 35.1.
Talvez eu seja a imagem que alguém idealizou, uma pessoa que viveu com o intuito de me encontrar, mas nunca me achou.

Texto 36.
“O ser humano, por um lado, é semelhante a muitas espécies animais, em luta contra a própria espécie; mas, por outro lado, entre as milhares de espécies que assim lutam, é o único em que a luta é destrutiva... O ser humano é o único que assassina em massa, é o único que não se adapta à sua própria sociedade.” (Jan Tinbergen)
Texto 36.1.
O homem, de certa forma, é parecido com muitos outros animais, travando uma batalha contra os da mesma espécie, mas, sob outro ponto de vista, entre as inúmeras espécies que travam essa batalha diária, somos os únicos em que o embate é negativo... O homem é o único animal capaz de genocídios, é o único animal não adaptado ao seu próprio sistema social.

Texto 37.
“A verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere, e a estar sozinhos até no meio da multidão.” (Massimo Bontempelli)
Texto 37.1.
Estar realmente livre de qualquer forma de controle é uma medida estritamente íntima, feito o ato incontestável de estar só: temos o dever de nos sentirmos libertos mesmo numa prisão, além de aprendermos a estar sós mesmo no meio de inúmeras pessoas.

Texto 38.
“Praticamente qualquer um pode suportar a adversidade, mas se quer testar o caráter de alguém, dê-lhe poder!” (Abraham Lincoln)
Texto 38.1.
Quase todas as pessoas podem aguentar uma situação desagradável, entretanto, porém, caso você queira testar os preceitos morais de alguma pessoa, coloque-a numa posição privilegiada quanto ao poder em relação às outras.

Texto 39.
“Cem vezes por dia eu me lembro que minha vida interior e minha vida exterior dependem do trabalho que outros homens estão fazendo agora. Por causa disso, preciso me esforçar para retribuir pelo menos uma parte dessa generosidade - e não posso deixar nenhum minuto vazio.” (Albert Einstein)
Texto 39.1.
Recordo-me uma centena de vezes diariamente que minha intimidade e minha existência em sociedade são dependentes do esforço praticado por muitos homens neste momento. Em função dessa constatação, é necessário que eu me dedique com o intuito de fazer jus ao menos a uma parcela desses atos generosos, portanto não tenho o direito de deixar nenhum tempo sem alguma atividade.

Texto 40.
“Não há sentido em orar como um santo pela manhã e viver como um bárbaro o resto do dia.” (Alexis Carrel)
Texto 40.1.
Não existe razão em rezar tal qual um beato ao amanhecer e durante o restante do dia comportar-se como um selvagem.

Texto 41.
“Se um homem bate na mesa e grita, está impondo controle. Se a mulher faz o mesmo, está perdendo o controle.” (Bárbara Soares)
Texto 41.1.
Caso um homem grite e dê um soco num móvel, dirão que ele está controlando uma situação. Caso a mulher faça o mesmo, dirão que ela está descontrolando-se.

Texto 42.
“Quando a última das árvores for cortada, quando o último rio for poluído, quando o último peixe for pescado, aí sim eles verão que dinheiro não se come.” (Chefe da tribo Sioux)
Texto 42.1.
No momento em que a derradeira planta for eliminada, no momento em que o derradeiro manancial estiver sob os efeitos da poluição e não houver mais o que pescar, então o homem branco perceberá que cédulas e moedas não são possíveis de se comer.


Texto 43.
“Se você perguntar o porquê das coisaslogo estarão perguntando o porquê de você.” (Anônimo)
Texto 43.1.
As pessoas que são autônomas e críticas na sociedade, rapidamente, tornam-se indesejáveis para aqueles que foram questionados.

Texto 44.
“Não fui chamado a dar as mãos a Hitler, mas também nunca me convidaram para cumprimentar o presidente americano na Casa Branca.” (Jesse Owens)
Texto 44.1.
Nunca fui cumprimentado pelo chefe do Terceiro Reich, da mesma forma que jamais recebi felicitações do presidente estadunidense.

Texto 45.
“Tentei alfabetizar as criançasnão consegui. Tentei salvar os índiosnão consegui. Tentei fazer uma universidade sérianão consegui. Mas eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.” (Darcy Ribeiro)
Texto 45.1.
Pensei em métodos mais eficientes de alfabetização, lutei pela causa indígena, pus-me a trabalhar pelo ensino superior, fracassei todas as vezes. Entretanto, eu odiaria ser aquele que me derrotou.

Texto 46.
Hojeconsigo perceber que nossa tecnologia ultrapassou nossa humanidade.” (Albert Einstein)
Texto 46.1.
Atualmente, percebo que os aparatos tecnológicos avançam mais rápido do que os sentimentos que nos fazem humanos.

Texto 47.
"Os homens são porcos que se alimentam de ouro." (Napoleão Bonaparte)
Texto 47.1.
A humanidade alimenta-se da ganância por riquezas.

Texto 48.
“A vantagem do capitalismo sobre o socialismo é que, no capitalismo, os resultados são melhores do que as intenções; e, no socialismo, é o contrário.” (Winston Churchill)
Texto 48.1.
O sistema capitalista é superior ao socialista, porque, naquele, o produto é melhor do que as motivações; já, neste, é o inverso.