terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Artes (ATA) Módulo 0 – A arte – conceitos, linguagens, plataforma e meios

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“A arte pode ser considerada uma linguagem universal. Essa linguagem artística atravessando séculos e milênios, fronteiras geográficas e culturas das mais diversas consegue preservar significados para os que viverão amanhã. A arte surge com como uma linguagem natural dos homens. Todos nós dispomos das potencialidades dessa linguagem e, sem nos darmos conta disso, usamos seus elementos com a maior espontaneidade ao nós comunicarmos uns com os outros. São sempre as formas que se tornam não-verbais da comunicação artística que constituem o motivo concreto da arte ser tão acessível e não exigir a erudição das pessoas para ser entendida. Exige-se inteligência, sim e sempre sensibilidade. E a arte continua sendo uma necessidade para os homens, caminho essencial de conhecimento e realização de vida.”
(Universos da Arte - Fayga Ostrower)

“A Arte não reproduz o visível, torna visível.”
(Paul Klee)

            A arte, apesar de ser razão de debates controversos e intermináveis, pode ser compreendida como uma forma de expressão humana, investida de subjetividade e invento, muitas vezes reforçada pelo apuro estético formal, aprendido em escolas ou fruto do desenvolvimento natural e espontâneo de um artista.
            Esse é um dos muitos conceitos concebidos para definir o que é arte e, para ilustrar a multiplicidade de visões a esse respeito, seguem alguns conceitos de autores e artistas para auxiliar na reflexão preliminar sobre o assunto.

“A beleza perece na vida, porém na Arte é imortal.” (Leonardo Da Vinci)

“A fantasia, isolada da razão, só produz monstros impossíveis. Unida a ela, ao contrário, é a mãe da Arte e fonte de seus desejos.” (Francisco de Goya)

 “Só a arte permite a realização de tudo o que na realidade a vida recusa ao homem.” (Johann Wolfgang Von Goethe)

“Se eu pinto meu cachorro exatamente como é, naturalmente terei dois cachorros, mas não uma obra de arte.” (Johann Wolfgang Von Goethe)

“Enquanto a ciência tranquiliza, a Arte perturba.” (George Braque)

“Todos sabemos que arte não é verdade. A arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade, pelo menos a verdade que podemos compreender.” (Pablo Picasso)

“A arte é uma magia que liberta a mentira de ser verdade.” (Adorno)

 “A beleza é a finalidade da arte. Que é arte, que é beleza, que é finalidade?” (Rosário Fusco)

“Antiarte - compreensão e razão de ser o artista não mais como um criador para a contemplação, mas como um motivador para a criação - a criação como tal se completa pela participação dinâmica do espectador, agora considerado ‘participador’. (...) Não há a proposição de um ‘elevar o espectador a um nível de criação’, a uma ‘metarrealidade’, ou de impor-lhe uma ‘idéia’ ou um ‘padrão estético’ correspondentes àqueles conceitos de arte, mas de dar-lhe uma simples oportunidade de participação para que ele ‘ache’ aí algo que queira realizar - é pois uma ‘realização criativa’ o que propõe o artista, realização esta isenta de premissas morais, intelectuais ou estéticas.” (Hélio Oiticica)

Para aprofundamento:
            Todavia, a arte também deve ser compreendida numa perspectiva que contemple e respeite prioritariamente a diversidade étnica, religiosa, estética, política, social, sexual e de gênero, enfim, o fazer artístico deve ser visto sempre em uma perspectiva multicultural, includente e democrática.
            Considera-se ainda fundamental a reflexão e a consideração como arte, em especial no contexto de concursos com provas de quaisquer manifestações artísticas inspiradas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), a produção artística de pessoas inseridas nas chamadas culturas de minorias como é o caso de pacientes psiquiátricos e portadores de necessidades especiais. Exemplo de instituição comprometida com a defesa da expressão artística dessas minorias é o Museu de Imagens do Inconsciente. Entre as muitas manifestações artísticas e artistas nesse contexto, é crucial citar a obra do artista plástico Arthur Bispo do Rosário, reconhecido mundialmente pela qualidade e vigor de suas obras.

Para aprofundamento:

            Outra questão importante no âmbito de concursos influenciados pelos PCNs e mais importante, pela relevância absoluta desses povos na formação da cultura brasileira, é o estudo da produção artística afro-brasileira e indígena brasileira como meio de legitimar tanto as manifestações culturais quanto a própria existência desses grupos como parte fundamental e significativa da concepção do que se pode chamar de patrimônio artístico e cultural brasileiro. Mesmo as mulheres, apesar das suas muitas contribuições acadêmicas ou produtivas para a arte, são em minoria nas discussões acerca da História da Arte e nos círculos de criação, reprodução, comercialização e debate sobre essa manifestação, especialmente no Brasil. Daí, a função não só da arte, mas do debate acerca dela, na necessária inclusão plena de grupos como esses nesse processo.
     Assim, entendida como meio e realização do desenvolvimento humanístico, a arte deve remontar ao processo de hominização, ao processo de diferenciação física e mental que permitiu intervenções humanas na natureza e, dentro delas, a criação artística. A esse respeito, devemos avaliar os estudos de especialistas sobre o assunto, como Ernst Fischer e Gordon Childe.
O primeiro coloca:

“...o ser pré-humano que se desenvolveu e se tornou humano só foi capaz de tal desenvolvimento porque possuía um órgão especial, a mão, com a qual podia apanhar e segurar objetos. A mão é o órgão essencial da cultura, o indicador da humanização. Isso não quer dizer que tenha sido a mão sozinha que fez o homem: a natureza (particularmente a natureza orgânica) não admite semelhantes simplificações, semelhantes sequências unilaterais de causa e efeito. Um sistema de complexas relações – uma nova qualidade – resulta sempre do estabelecimento de diversos efeitos recíprocos. O desenvolvimento de certos organismos biológicos trepados nas árvores, em condições que favoreciam o aperfeiçoamento da visão em detrimento do sentido do olfato; o encolhimento do focinho, facilitando uma mudança na disposição dos olhos; a emergência em que se via essa criatura (então equipada com um senso de visão mais agudo e mais preciso) de olhar em todas as direções, como também a postura ereta condicionada por tal situação; a libertação dos membros dianteiros e o crescimento do cérebro devido à postura ereta do corpo; as mudanças na alimentação e diversas outras circunstâncias, em conjunto, contribuíram para a criação das condições necessárias para que o homem se tornasse homem. Porém, o órgão diretamente decisivo foi a mão. Já São Tomás de Aquino estava ciente dessa significação única da mão, esse organum organorum (órgão dos órgãos) e expressou-o na sua definição do homem: Habet homo rationem et manum (O homem possui razão e mão). E é verdade que foi a mão que libertou a razão humana e produziu a consciência própria do homem.”

O segundo afirma que:

“...Os homens podem fabricar ferramentas porque suas patas dianteiras tornaram-se mãos, porque vêem o mesmo objeto com ambos os olhos e podem avaliar as distâncias com muita exatidão, bem como porque um delicadíssimo sistema nervoso e complicado cérebro os capacitam a controlar os movimentos da mão e do braço em adequação precisa ao que estão vendo com ambos os olhos. Mas os homens não sabem por algum instinto inato fazer ferramentas e usá-las: precisam aprender através da experiência, através do ensaio e do erro.”

       Portanto, arte deve ser vista sempre numa perspectiva que privilegie valores estéticos fundamentados em princípios democráticos, multiculturais e multilinguísticos para que seu estudo, produção e recepção possam contribuir para o desenvolvimento da da sociedade e dos indivíduos orientados por princípios humanistas.

:::Linguagens da arte

“Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de idéias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.”
(Fernando Pessoa)

“A pintura é uma poesia visível.”
(Leonardo da Vinci)

            O conceito de arte já foi bem mais amplo do que atualmente entende-se como tal, já que o grupo das artes chamadas “As sete artes liberais clássicas”, eram na Antiguidade Clássica as habilidades ou conhecimentos considerados fundamentais para tornar uma pessoa livre e, por isso, em termos intelectuais, diferente de um escravo. Era composto do “Trivium” e do “Quadrivium”. Durante Idade Média, seriam disciplinas fundamentais para qualquer sacerdote católico com pretensões em subir na hierarquia eclesiástica. O “trivium” era composto de três artes responsáveis por disciplinar e ordenar a mente, a saber: Lógica (ou Dialética), arte responsável por ordenar o discurso de forma a torná-lo sólido e coerente com o intuito de separar o verdadeiro do falso; Gramática, arte capaz de habilitar o indivíduo a usar linguagem de forma correta e eficaz; e a Retórica, arte da persuasão, capaz de tornar mais potente e convincente qualquer discurso. Por sua vez, o “Quadrivium” era formado por Aritmética, que era considerada a arte teórica dos números; Música, que era vista como a aplicação da teoria do número; Geometria, a arte teórica do espaço; e a Astronomia, que era a aplicação da teoria do espaço.



         A partir de mudanças no entendimento do que é a arte, música, dança e artes plásticas passaram a dominar o entendimento da maioria das pessoas sobre linguagens artísticas. Em 1912, o teórico e crítico de cinema ligado ao movimento futurista italiano Ricciotto Canudo, a fim de legitimar o cinema como uma linguagem artística, a qual considerava a “arte total” e “alma da modernidade”, tanto por reunir muitas vezes todas as outras artes em uma só como por ser a forma da arte mais sensível à Modernidade no que ela tem de tecnológica, veloz e dinâmica. Para tanto, propôs o chamado “Manifesto das sete artes” expandindo o conceito de arte de Hegel ao incluir o cinema, são elas: arquitetura, escultura, pintura, música, dança, poesia e cinema. Posteriormente, passaram a ser entendidas como arte em alguns círculos intelectualizados também a Fotografia, a Banda desenhada, os Jogos eletrônicos, a Arte digital, etc.
Portanto, a arte pode ser dividida em várias linguagens as quais podem contemplar diversas formas de expressão que têm características, métodos, suportes e realizações distintas, ainda que possam ser usadas simultaneamente na mesma obra ou ainda conjugadas para se criar outra linguagem artística. Dessa forma, numa visão mias contemporânea e livre de preconceitos acadêmicos ou mesmo de classe, são forma de arte, a saber: pintura, desenho, escultura, arquitetura, música, dança, teatro, pantomima, instalação, vídeo arte, tatuagem, literatura, gravura, fotografia, cinema, cerâmica, tecelagem, grafite, circo, banda desenhada (história em quadrinhos, mangá, tira e cartum), moda, etc.

:::Mixagens

“Será Arte tudo o que eu disser que é Arte”
(Marcel Duchamp)

            As mixagens em arte compreendem os esforços programados ou espontâneos de diluir as fronteiras entre diversas manifestações artísticas para que se produza uma obra capaz de estimular um indivíduo de uma forma múltipla do ponto de vista da recepção sensorial, sentimental e intelectual dos interlocutores inseridos nessa situação comunicativa em que alguém, por intermédio de uma realização artística construída com duas ou mais linguagens, ambiciona transmitir uma mensagem para determinadas ou quaisquer pessoas. Exemplos dessa prática são as instalações que, ao mesmo tempo, podem agregar experiências sonoras, táteis, visuais, etc., para sensibilizar de alguma forma um espectador; a cultura urbana do Hip Hop constituída por expressões corporais (Break), musicais e poéticas (RAP) e visuais interligadas (Grafite); as muitas realizações da arte conceitual; a música eletrônica, feita muitas vezes de colagens (“samplers”) de outras músicas; etc.

Para aprofundamento:

:::Arte e as novas tecnologias da informação e da comunicação

“A validade, os limites o estatuto de "obra" desses produtos, só fruíveis em redes, colocam em discussão as teorias estéticas e a própria ideia de criação.”
(Ricardo Ribenboim)

            As novas tecnologias, como o computador, muito contribuíram para a ampliação das possibilidades do fazer artístico. Desde especialmente as vanguardas da década de 1960, com as primeiras experiências concretas com aparatos digitais na produção artística, são visíveis as consequências desse advento para a produção artística como é o caso da obra da banda alemã Kraftwerk, um dos fundadores do que viria a se chamar sugestivamente música eletrônica. Pode-se ainda citar a produção de instaladores, designers, VJs, etc., como exemplo atual e em constante desenvolvimento de tecnologias computacionais e da informação empregadas como linguagem e meio para a produção artística.

Para aprofundamento:

:::As linguagens da arte e a situação comunicativa

“A expressão não pode ser então a tradução de um pensamento já claro, pois que os pensamentos claros são os que já foram ditos em nós ou pelos outros.”
(Merleau-Ponty)
A linguagem artística, como todas as linguagens usadas pelo homem, tem como intuito a produção de textos por um emissor a partir de um ponto de vista, os quais serão interpretados por um receptor sob provavelmente outra perspectiva. Esse processo se dará por um código que é o grupo de elementos e de estruturas das diversas linguagens verbais, sonoras, táteis, corporais e suas mixagens. Além disso, é fundamental a utilização de um canal representado por meios de comunicação como a voz, a televisão, a tela, a internet, o mármore, o papel, etc., usados como suportes para a transmissão da informação contida na obra de arte. Quanto ao contexto, pode-se dizer que são as idéias, valores, crenças, conhecimentos e intenções dos interlocutores associadas a um dado tempo num dado espaço inscritos em uma determinada circunstância histórica, os quais estão inseridos numa situação comunicativa em que concorrem e colaboram todos esses elementos para a decodificação ou interpretação (ou mesmo a sua impossibilidade) da obra artística. A imagem abaixo extraída das Orientações Curriculares do Ensino Médio do MEC, bem corporifica e esquematiza a situação comunicativa que engloba um artista, a obra e o espectador dela.



Segundo ainda as Orientações Curriculares do Ensino Médio do MEC, sobre as relações entre arte e linguagem e sobre as formas como as linguagens artísticas manifestam-se, pode-se dizer:





            Diante dessas informações, percebe-se quase naturalmente a necessidade de que a análise de qualquer obra artística seja permeada por ciências que possam subsidiá-la como a Filosofia, a Antropologia, a Sociologia, a Semiótica, a História, a Física, etc. Essa característica faz do estudo e da análise de obras de arte um ato multidisciplinar, que muito pode contribuir para o entendimento da sociedade, de um determinado período histórico e mesmo das concepções de mundo do homem de hoje ou de quaisquer épocas do passado às quais tenham ainda registros de sua produção artística. Exemplo disso é o quanto as pinturas rupestres ajudaram cientistas a compreender povos pré-históricos, todos ágrafos, que pouco ou nada deixaram além das inscrições e desenhos nas paredes das cavernas por quase todo o mundo.
Dessa forma, a obra de arte deve ser analisada numa perspectiva em que sejam consideradas as motivações e interesses tanto do produtor quanto do espectador dela, assim como devem ser consideradas as muitas manifestações artísticas e suas motivações submetidas ou influenciadas por uma circunstância sociocultural inserida em um espaço geográfico num determinado período histórico. Portanto, são muitas as nuances a serem incorporadas à análise de uma obra de arte para que de forma ética e isenta de preconceitos seja possível estudar e interpretar o texto artístico verbal “e/ou” não verbal nas suas especificidades regionais, nacionais e internacionais; passadas, presentes ou futuras; além de suas características eruditas, populares e massivas.

:::Características da obra artística

“A função da arte não é de passar por portas abertas, mas a de abrir portas fechadas.”
(Ernst Fischer)

A arte é uma forma de expressão exclusivamente humana associada ao uso da razão, da emoção e da técnica para representar a realidade de modo a copiá-la, moldá-la, transpô-la, superá-la, questioná-la “e/ou” modificá-la de acordo com o ponto de vista de um artista que pode estar associado a questões religiosas, como é o caso da arte sacra católica, dos sarcófagos de faraós egípcios, de esculturas de deuses gregos da Antiguidade Clássica; políticas, como em regimes ditatoriais em que a produção artística é controlada e direcionada a fazer propaganda governamental, são exemplos o período nazista na Alemanha e stalinista na URSS; sociais, como o fato de morar na periferia violenta de uma grande cidade e transpor para o RAP essa realidade; etc.
Para se tornar arte, para muitos autores, o produto do fazer artístico deve ultrapassar a idéia de utilidade, para tanto se estimula um ou mais sentidos a fim de o observador ter uma experiência estética, em que sejam associados, das formas mais imprevistas ou não, aspectos emocionais e racionais responsáveis por possibilitar que uma obra artística possa ter por vezes múltiplas interpretações.
Obras de arte, geralmente, são norteadas por estilos, escolas ou períodos em que determinadas escolhas estéticas predominam em função de questões de caráter histórico, geográfico, ideológico, econômico, político, etc. Contudo, as escolhas individuais dos artistas podem produzir em uma obra particularidades tão inovadoras e marcantes que elas passam a influenciar seus pares e mesmo seu tempo.

:::Funções da obra artística

“A arte é muitas coisas. Uma das coisas que a arte é, parece, é uma transformação simbólica do mundo. Quer dizer: o artista cria um mundo outro [...] por cima da realidade imediata. [...] Naturalmente, esse mundo que o artista cria ou inventa nasce de sua cultura, de sua experiência de vida, das idéias que ele tem na cabeça, enfim, de sua visão de mundo, que tanto pode ser erudita como ingênua. Se é ingênua, diz-se que o pintor é primitivo. Mas que é cultura ingênua? [...] Seria, em termos genéricos, o que se chama de cultura popular.”
(“Sobre arte, sobre poesia (Uma luz no chão)”, de Ferreira Gullar)

Para muitos estudiosos da arte são três as funções que podem ser exercidas por uma obra de arte, são elas a pragmática ou utilitária, a naturalista e a formalista.

       Função pragmática ou utilitária – nesse caso, a obra é feita em função de sua finalidade em primeiro lugar, portanto tem um fim não artístico, por isso não é valorizada necessariamente por causa de sua beleza, mas por sua utilidade. Segundo essa perspectiva, a arte pode ter uma finalidade pedagógica, religiosa, funcional, econômica, etc. Por isso, feito em função desses objetivos, a obra pode prescindir de qualidade estética, em favor de um fim mais pragmático. São exemplos a cerâmica Marajoara, a confecção de imagens sacras, a pintura rupestre, alguns tipos de artesanato, a música pop, etc.
Função naturalista – a obra, segundo essa perspectiva, é feita segundo parâmetros o mais próximos possível do que é visto como real para a maioria das pessoas, ou mesmo da imaginação, ainda que retratada de forma fidedigna a situações análogas na realidade. Tal preocupação justifica-se pela necessidade do artista fazer-se compreender, ou seja, para que a mensagem da obra de arte torne-se mais acessível e fácil de ser compreendida ou ainda por causa dos princípios estéticos, éticos e ideológicos que imperam em determinadas épocas e lugares a ponto de serem impostos na produção artística de então. É normalmente identificada com grande preciosidade técnica e com a busca da perfeição. São exemplos as obras da Missão Francesa no Brasil, a Arte Grega, a maioria das obras da Renascença, etc.
Função formalista – é a função da arte que delineia o conceito de arte mais comum na atualidade, até porque ao longo do século XX ela predominou nas produções artísticas do Modernismo. A função formalista centra suas ações na busca de maior qualidade e apuro na forma de apresentação de uma obra com o intuito tanto de permitir múltiplas interpretações acerca dela quanto elaborar com mais liberdade as características estéticas da produção artística, o que confere ao artista mais espaço para produzir de acordo com sua idiossincrasia e personalidade. É normalmente mais plurissignificativa do que outras manifestações artísticas submetidas a outras funções. Em linhas gerais, tem como principal objetivo transmitir sentimentos, sensações e estados de espírito por meio da arte. São exemplos as vanguardas europeias, o concretismo, a arte conceitual, a poesia concreta, etc.

:::Arte e artesanato: considerações sobre a produção e a função

Toda discussão sobre fronteiras entre ‘arte’ e ‘artesanato’, entreartista’ e ‘artesão’, a partir do discurso dominante, carece de sentido dentro da perspectiva do indivíduo que exerce essa atividade, pois ele raramente separa a instância do trabalho manual ou mecânico (‘artesanal’) do trabalho intelectual e confere a ambos igual dignidade.”
(Sylvia Porto Alegre)

O artesanato, porque de origem pragmática e fundamentada na experiência, é caracterizado pelo próprio trabalho manual, por isso o artesão é identificado como o produtor de artefatos que pertenceriam à chamada cultura popular. É essencialmente uma produção em série, comumente produzida sob demanda do consumidor, de caráter familiar e caseiro. O artesão domina todas as etapas e possui geralmente todos os meios e ferramentas que permitem a realização de seu ofício, portanto sem divisão do trabalho. Daí pode-se afirmar a autossuficiência do artesão em relação ao que produz a não ser pelo acesso à matéria prima que pode depender da natureza ou mesmo de indústrias produtoras de tintas, ferramentas, tecidos, etc.
Por outro lado, a arte é caracterizada pela feitura da obra única, ou seja, sem produção em série, exceto no caso de gravuras que são produzidas em séries limitadas. Em tese, exige um conhecimento estético e instrumental elevado de seus produtores, ainda que não se possa dizer sobre maior sensibilidade, talento ou inspiração sem ser preconceituoso com a produção artística popular. Normalmente, é exposta em museus ou galerias de arte, já o artesanato é exposto nas vias públicas, feiras ou em lojas especializadas.
Contudo, é cada vez mais difícil estabelecer limites claros e precisos entre essas duas expressões humanas, já que os pontos de contato entre elas são cada vez mais frequentes e a utilização de técnicas do artesanato na arte e vice-versa torna-se comum. São os casos do artesanato cada vez mais usado nas coleções de desfiles de alta costura, das técnicas de artesanato usadas em esculturas de cerâmica feitas por artistas consagrados pela crítica especializada, de artistas que fazem esculturas e quadros sob demanda desde o Antigo Egito no mínimo, etc.

Para aprofundamento: