quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

3 - Redação - gêneros textuais - Editorial

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Editorial

Também chamado artigo de fundo, é um texto tipicamente jornalístico que exprime a opinião de um veículo de informação. Em geral, é escrito pelo redator-chefe e publicado nas primeiras páginas de revistas ou jornais, e ele nunca é assinado por exprimir uma espécie de opinião institucional de um determinado jornal, por exemplo.

Objetivo – comunicar a opinião institucional de um veículo de comunicação e buscar a adesão do leitor à posição defendida ao longo do editorial.
Estrutura – dissertativa-argumentativa (ainda que seja interessante justificar a razão do assunto abordado no editorial pelo destaque dado no veículo de comunicação.).
Argumentação – normalmente, mais branda do que num artigo de opinião, por causa das implicações institucionais e jurídicas de um editorial que culpe ou julgue alguém sem provas ou fundamento.
Pessoa do discurso – ainda que historicamente seja comum encontrar editoriais em 1ª pessoa do plural, no caso da UFU, exige-se o uso de uma linguagem impessoal, portanto em 3ª pessoa.
Linguagem – clara, objetiva e adequada à norma padrão. Verbos predominantemente no presente do indicativo. É desaconselhável o uso de gírias, coloquialidades e oralidades mesmo entre aspas.
Máscara – obrigatória e institucional (“este jornal”).
Assinatura – proibida, tal como é praxe nos jornais diários.

Observação importante: lembro que os exemplos abaixo são oriundos da produção dos alunos ou de veículos midiáticos, assim tem virtudes e defeitos que serão apontados em sala de aula, já que respondem a situações de produção diferentes das de concurso ou mostram dificuldades linguísticas, estruturais e temáticas.

Exemplos:

Texto 01.
Editorial:
De quem é a culpa?

            O nosso tempo é o da diluição, é o da vida em rede, é o da mobilização social espontânea e instantânea, é o tempo das reivindicações inocentemente apartidárias. Neste contexto, este jornal entende e assume a obrigação de se posicionar diante de tais fatos pelo risco que eles representam para a democracia, a liberdade de expressão, o direito à manifestação e a liberdade de imprensa.
            Sobre as razões para tudo que os brasileiros têm vivido de bom ou ruim nos últimos meses ligados a manifestações, é importante entender que Black Blocs, mortes violentas, destruição repetida de patrimônio público e particular, etc., são na verdade antes de tudo produto do imobilismo político; da incapacidade dos Governos darem respostas às muitas críticas da maioria da população à qualidade precária dos serviços públicos, dos gastos faraônicos com a Copa, etc.; da crise de representatividade; e da corrupção generalizada. Todavia, nada disso justifica os mortos e os feridos que se somam entre alvejados por rojões; atropelados em fuga da repressão policial; acometidos pelo gás lacrimogênio, pelas balas de borracha ou pelas bombas de efeito moral; feridos em cumprimento de ordens e do trabalho de policial.
            São todos vítimas de uma elite econômica e política que não tem mais lugar no Brasil, não por conta da ascensão de uma esquerda revolucionária que jamais esteve no poder no Brasil e jamais estará, mas por ser uma classe que parece incapaz de responder aos anseios mínimos da população e tampouco calá-la por meio da repressão ideológica, institucional, velada ou mesmo policial. A elite que comanda o Brasil é um anacronismo, uma oligarquia saudosa de tempos mais “fáceis” quando as cidades eram bem divididas entre os ricos e os pobres que moravam bem distantes uns dos outros, que locais públicos como shoppings não eram tomados por “rolezinhos”, que aviões eram um meio de transporte de luxo, etc.
            Portanto, este jornal, não desresponsabiliza o cidadão que escolheu acender um rojão que matou um cinegrafista trabalhando, não defende Black Blocs como se fossem uma expressão legítima da revolta do povo e não defende a PM em ações nas quais atua de forma indiscriminada e violenta de acordo com a herança repressora de outros tempos. Por outro lado, não se deve simplificar a complexa situação social de nosso país com juízos maniqueístas, pouco informados e fundamentalistas que nada contribuem para que o Brasil seja de fato um país democrático, laico e justo socialmente.

Texto 02.
Editorial – Rede Globo

Não é só a imprensa que está de luto com a morte do nosso colega da TV Bandeirantes Santiago Andrade. É a sociedade.
Jornalistas não são pessoas especiais, não são melhores nem piores do que os outros profissionais. Mas é essencial, numa democracia, um jornalismo profissional, que busque sempre a isenção e a correção para informar o cidadão sobre o que está acontecendo. E o cidadão, informado de maneira ampla e plural, escolha o caminho que quer seguir. Sem cidadãos informados não existe democracia.
Desde as primeiras grandes manifestações de junho, que reuniram milhões de cidadãos pacificamente no Brasil todo, grupos minoritários acrescentaram a elas o ingrediente desastroso da violência. E a cada nova manifestação, passaram a hostilizar jornalistas profissionais.
Foi uma atitude autoritária, porque atacou a liberdade de expressão; e foi uma atitude suicida, porque sem os jornalistas profissionais, a nação não tem como tomar conhecimento amplo das manifestações que promove.
Também a polícia errou - e muitas vezes. Em algumas, se excedeu de uma forma inaceitável contra os manifestantes; em outras, simplesmente decidiu se omitir. E, em todos esses casos, a imprensa denunciou. Ou o excesso ou a omissão.
A violência é condenável sempre, venha de onde vier. Ela pode atingir um manifestante, um policial, um cidadão que está na rua e que não tem nada tem a ver com a manifestação. E pode atingir os jornalistas, que são os olhos e os ouvidos da sociedade. Toda vez que isso acontece, a sociedade perde, porque a violência resulta num cerceamento à liberdade de imprensa.
Como um jornalista pode colher e divulgar as informações quando se vê entre paus e pedras e rojões de um lado, e bombas de efeito moral e bala de borracha de outro?
Os brasileiros têm o direito de se manifestar, sem violência, quando quiserem, contra isso ou a favor daquilo. E o jornalismo profissional vai estar lá - sem tomar posição a favor de lado nenhum.
Exatamente como o nosso colega Santiago Andrade estava fazendo na quinta-feira passada. Ele não estava ali protestando, nem combatendo o protesto. Ele estava trabalhando, para que os brasileiros fossem informados da manifestação contra o aumento das passagens de ônibus e pudessem formar, com suas próprias cabeças, uma opinião sobre o assunto.
Mas a violência o feriu de morte aos 49 anos, no auge da experiência, cumprindo o dever profissional.
O que se espera, agora, é que essa morte absurda leve racionalidade aos que contaminam as manifestações com a violência. A violência tira a vida de pessoas, machuca pessoas inocentes e impede o trabalho jornalístico, que é essencial - nós repetimos - essencial numa democracia.
A Rede Globo se solidariza com a família de Santiago, lamenta a sua morte, e se junta a todos que exigem que os culpados sejam identificados, exemplarmente punidos. E que a polícia investigue se, por trás da violência, existe algo mais do que a pura irracionalidade.

Texto 03.