segunda-feira, 24 de junho de 2013

Samba: plural, miscigenado e em movimento

Samba
          Símbolo maior e referencial mais amplo e significativo da música brasileira, além de ser uma das principais manifestações artísticas do Brasil, é também principal motivo e trilha sonora da maior festa popular do Brasil: o carnaval.
          É definido grosso modo como um tipo de canção popular de ritmo geralmente sincopado e andamento variado, surgido a partir do início do século XX da união de ritmos afro-brasileiros como o Lundu, o Maxixe, os cantos e batuques de religiões afro-brasileiras somados a influências musicais europeias e indígenas. De origem controversa, parece ter se desenvolvido ao longo do século XIX de forma anônima e coletiva no Recôncavo Baiano em torno dos chamados Sambas de Roda. No fim deste século, chegou ao Rio de Janeiro, onde de forma veloz amadureceu ritma e poeticamente na região do centro chamada Pequena África em meio à profusão de terreiros de Candomblé que existiam por lá. Portanto, como estilo musical, o samba genericamente é uma manifestação artística urbana, percussiva, periférica, de origem plural; oriunda do século XX e produto da fusão de diversos ritmos musicais folclóricos, estrangeiros e de várias regiões do Brasil.
          Contudo, é importante ressaltar que o Samba desenvolveu-se de forma bastante peculiar em quase todo o país, com a incorporação de inúmeras tradições musicais regionais ao batuque africano associado às diversas etnias negras trazidas para o Brasil pelo tráfico negreiro, o que o tornou um estilo musical plural e de definição múltipla ao se observar a sua variedade em solo brasileiro, como bem mostram estudos de Mário de Andrade, Hermano Vianna, etc. São exemplos desse processo o Coco no Ceará; o Samba-de-roda na Bahia; o Jongo, o Partido-alto e o Miudinho no Rio de Janeiro; o Samba-rural em São Paulo; o Tambor-de-crioula no Maranhão; o Coco-de-parelha e o Samba de Coco em Pernambuco; etc.
          Todavia, ainda que hoje seja reconhecível a diversidade de subestilos do que se chama genericamente de Samba, a versão carioca é a variante que passou a condição de ícone da identidade nacional brasileira a partir dos anos de 1930 e que foi empossada com o significado do que a maioria das pessoas no mundo inteiro reconheceriam como Samba brasileiro. Isso porque era o tipo dominante na capital do país naquela ocasião, o que dava a essa variedade uma vantagem natural sobre outros subestilos.
          De volta a uma cronologia para o Samba, a partir da segunda metade do século XIX, intensifica-se a migração de baianos para o Rio além do retorno dos combatentes de Canudos. Esse processo fez crescer de modo significativo o número de negros e mestiços na cidade do Rio de Janeiro, além de aumentar o intercâmbio cultural entre regiões diferentes do Brasil com etnias negras dominantes distintas em cada uma delas. Esses agrupamentos ocupariam imediações de morros como o da Conceição e áreas próximas às Praças Mauá e Onze, além da Zona Portuária. Desse processo de ocupação geográfica, terá origem muitas das chamadas favelas cariocas. Nessas comunidades, constituiu-se um ambiente profícuo para o desenvolvimento de uma cultura urbana, brasileira e mestiça de origem evidentemente africana, em torno dos ritos da religiosidade afro-brasileira, do Lundu e do Maxixe. Nesse contexto, é que as famosas “Tias Baianas” da Pequena África ganham importância no amadurecimento de uma forma carioca e urbana de Samba, como organizadoras de espaço privilegiado e libertário para a execução e criação, muitas vezes coletiva e de improviso, de Sambas nos terreiros dos quais eram líderes. Tais festas eram uma oportunidade para louvar os ancestrais; rir do cotidiano; aliviar tensões provenientes do trabalho e do preconceito; cantar e dançar. Dentre elas, destacaram-se Tia Amélia, mãe de Donga; Tia Prisciliana, mãe de João da Baiana; Tia Rosa Olé; Tia Veridiana, mãe de Chico da Baiana e Tia Ciata. Desse processo de intensas e espontâneas trocas culturais, nasceria o Samba como gênero musical brasileiro, ainda que fosse carioca, era uma síntese de diversas tradições musicais de regiões distintas do Brasil e do exterior.
          A primeira gravação em disco de um samba ocorreu em 1917, era “Pelo telefone”, que já foi muito bem sucedida nesta época. Segundo a Biblioteca Nacional, deu-se por intermédio do sambista Donga. Era um Samba-maxixe, que denunciava as origens híbridas, mestiças e paradoxais que fazem tão brasileiro o Samba. Nesse momento, o Samba era visto com reservas pela classe média e pelas elites, pois era reconhecido e criminalizado como uma música lasciva, licenciosa e corruptora da moralidade.
          Concomitantemente, consolida-se nas reuniões nas casas das Tias o Samba de partido-alto, que é uma variante do Samba muito próxima dos batuques africanos com uma origem que se confunde com as próprias festas ou pagodes embalados por música, dança, comida e bebida que sucediam muitas vezes ritos sagrados conduzidos pelas Tias em suas casas. O Samba de Partido-alto é dividido em duas partes chamadas refrão e versos improvisados, em que se unem, a partir de uma linha melódica preexistente, um refrão que é seguido de versos improvisados pelos componentes da roda de samba formada.
          Mais tarde, a partir da década de 1920, ocorre uma revolução no Samba, quando ele toma contornos do que mais facilmente é reconhecido na atualidade como Samba de Raiz. Esse processo deu-se por meio da intervenção de sambistas dos bairros Estácio de Sá e Osvaldo Cruz e de morros da Mangueira, Salgueiro e São Carlos, que modificaram a estrutura do Samba ao impor determinada forma poética e melódica ao ritmo, bem diferente da espontaneidade e da improvisação peculiares ao Partido-alto. Nessas comunidades, uniram-se, misturaram-se, fundiram-se experiências estéticas que consolidaram o Samba urbano e carioca tal como é conhecido e mais executado atualmente. Delas a mais importante foi a de Estácio de Sá a ponto da tal “Turma do Estácio” ter ganhado “status” de lenda na história do Samba, muito porque além das mudanças estéticas no Samba, foi nesse bairro que foi criada a Deixa falar, primeira escola de samba brasileira e responsável pelo primeiro desfile ao som de uma orquestra de surdos, pandeiros, maracanãs, cuícas, tamborins, etc., a qual viria a ser chamada de bateria. Foi formada por sambistas como Alcebíades Barcellos (o Bide), Armando Marçal, Ismael Silva, Nilton Bastos, Baiaco, Brancura, Mano Edgar, Mano Rubem, entre outros responsáveis por impor uma cadência mais marcada e ordenada ao Samba. Outra mudança fundamental operada pela “Turma do Estácio” foi a valorização do compositor em função da atenção à segunda parte do samba não mais improvisada, porque composta. O Samba, assim, torna-se o grande cronista da vida brasileira das próximas décadas.
          Mais tarde, o Samba carioca seria tomado como símbolo cultural nacional, por vontade e interesse do Estado, paulatinamente indo além do Samba-enredo para também ocupar a vida das pessoas para além do carnaval com o Samba-canção, também chamado de Samba do meio do ano; e o Samba-exaltação ou Samba legalista, pelo seu caráter assumidamente defensor do “status quo”. Outra mudança foi temática, por força do governo varguista, em especial durante o Estado Novo, temas como a malandragem, o ócio, a apologia aos pequenos golpes, o sexo, etc., passaram a ser mal vistos e mesmo punidos com a censura ou a prisão de seus criadores e intérpretes, para dar espaço para temáticas ufanistas, valorizadoras do trabalho e do “status quo”, etc.
          O rádio também tem papel fundamental nesse processo de aceitação e massificação do Samba, além da importante oficialização em 1935 do desfile de carnaval no Rio de Janeiro. Nesse período, destacam-se Francisco Alves, Mário Reis, Orlando Silva, Silvio Caldas, Carmen Miranda, Aracy de Almeida, Dalva de Oliveira, Noel Rosa, Ary Barroso, Lamartine Babo, Braguinha, Ataulfo Alves, Assis Valente, entre muitos outros. Em função desses eventos, interesses e modificações, o Samba passou de maldito a inserido nas elites brasileiras, inclusive dentro do programa oficial de eventos culturais até no Teatro Municipal, além de fazer parte da campanha de propaganda sobre o Brasil impetrado por programas de rádio encomendados por Getúlio Vargas. Cassinos e o cinema também muito ajudaram no estabelecimento do Samba como símbolo nacional brasileiro e como elemento da propaganda oficial.
           O Samba-canção - que era uma forma mais cadenciada, lenta e melodiosa de Samba  - firma-se como uma expressão das mais populares em função não só do apelo radiofônico confirmado pelos sucessos de cantores como Dolores Duran, Ismael Neto, Lupicínio Rodrigues, Batatinha, mais tarde Cartola, Carlos Cachaça, Nelson cavaquinho, etc., como também pela capacidade de emular as dores de amor com requinte e fina elaboração estética. Posteriormente, surgiriam o Samba-choro, oriundo da mistura entre o sincopado do Samba com o fraseado elaborado do Choro; e o Samba de breque, fortemente sincopado e com paradas bruscas que serviam a intervenções do cantor para conferir humor e criticidade à letra do música.
          Na década de 1930, rapidamente, depois da criação da Deixa falar, surgiram várias escolas de Samba como a Mangueira, Portela, Império Serrano, Salgueiro e, na sequencia, Beija-Flor, Imperatriz Leopoldinense e Mocidade Independente de Padre Miguel. Nessa época, a organização do desfile foi assumida pelo Estado que impôs regras e condutas a ser observadas, dentre elas estabeleceu a lógica do Samba-enredo como elemento condutor do desfile, que sempre deveria ter um tema associado á história oficial do Brasil como fio condutor da apresentação.
          Em 1940, prova do prestígio desse ritmo musical como realização estética, o grande maestro Heitor Villa-Lobos organizou a gravação para o também maestro estadunidense Leopold Stokowski no navio Uruguai de Sambas interpretados por gênios como Cartola, Donga, João da Baiana e Pixinguinha.
          A partir da década de 1950, o Samba volta a ser alvo de intensas trocas culturais com ritmos latinos como o Bolero e com ritmos norte-americanos como o Jazz que produziriam novas possibilidades como a Bossa Nova, o Samba-Jazz, o Samba-Rock, etc.
          Com o preciosismo da Bossa Nova, o Samba distancia-se de suas origens periféricas, mestiças e populares, para incorporar técnicas eruditas e típicas de ritmos norte-americanos. Na contramão do sucesso internacional da Bossa Nova, no Brasil, artistas como Chico Buarque de Holanda, Paulinho da Viola, Martinho da Vila passam a defender a revalorização e o resgate do chamado Samba de Raiz que remete ao Samba de breque, ao Samba-canção, ao Samba-choro, etc. Assim, gênios como Candeia, Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Keti, Nelson Sargento, etc., passam a ser revisitados da forma como suas obras únicas e de alta relevância cultural exigem. Ao longo da década de 1960, outros símbolos desse processo proliferam-se, são o "Movimento de Revitalização do Samba de Raiz" organizado pelo Centro Popular de Cultura; o restaurante Zicartola, epicentro da boemia carioca; os espetáculos no Teatro de Arena; o musical “Rosa de Ouro”, com sua constelação de bambas do Samba como Clementina de Jesus; e a Bienal do Samba. Ainda no final dessa década, surgiriam blocos carnavalescos como o Bafo da Onça (Catumbi), o Cacique de Ramos (Olaria) e o Boêmios de Irajá (Irajá), que muito bem promoveriam o Samba de forma até hoje fundada no aspecto democrático, caótico e descompromissado dos seus desfiles. Simultaneamente, o pianista Dom Salvador mesclaria o Funk norte americano com o suingue e o sincopado do Samba, daí surgiria o Samba-Funk, que alcançaria na década posterior popularidade e excelência estética com a banda Black Rio.
          No final também da década de 1960, influenciado pela Bossa Nova e pelo R&B norte-americano, surge o músico, cantor e compositor Jorge Ben com o Samba-Rock. Nesse momento, surge também o Tropicalismo que soma antropofagicamente o Samba a um grande número de ritmos brasileiros e estrangeiros para criar um movimento sem paralelo na cultura brasileira até então. Ao mesmo tempo, também ocorre o reconhecimento de São Paulo como uma região sensível ao Samba e capaz de produzir música de qualidade e autêntica como mostram a obra de grandes como Adoniran Barbosa e Geraldo Filme.
          Na década de 1970, cantoras como Clara Nunes, Beth Carvalho e Alcione, além das grandes damas Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus e Jovelina Pérola Negra, alcançariam vendagens expressivas de discos, o que mostraria não só o vigor do Samba como das mulheres nesse ambiente até esse momento prioritariamente dominado por homens. Destacam-se nesse período também Martinho da Vila, Bezerra da Silva, Nei Lopes, João Nogueira, Os Originais do Samba, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, etc., como divulgadores, compositores ou intérpretes do Samba de Raiz.
          Na década de 1980, surge o chamado Pagode, com letras geralmente românticas; estrutura de banda pop em função do teclado, baixo, guitarra e bateria; às vezes, algum elemento do Samba-Rock; etc., bandas como Art Popular, Exaltasamba, Harmonia do Samba, Karametade, Negritude Jr, Só Pra Contrariar, Os Travessos, Molejo e Katinguelê seriam grandes vendedoras de discos nas décadas de 1980 e 1990.
          No início do século XXI, o Samba seria mais uma vez alvo de intensas fusões como o Samba-RAP de Marcelo D2 e de incursões ousadas na fronteira do Samba com outros ritmos de grandes cantoras como Alcione e Elza Soares. Além disso, surgem inúmeros grupos e intérpretes muito compromissados com a rica herança do Samba como o Grupo Semente, Quinteto em Branco e Preto, Marisa Monte, Roberta Sá, Diogo Nogueira, Clube do Balanço, Casuarina, etc. Em 2004, o governo brasileiro solicitou o tombamento do Samba como Patrimônio Cultural da Humanidade, na categoria "Bem Imaterial", por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Além disso, no dia 2 de dezembro, passou a se comemorar o Dia do Samba em todo o território brasileiro.
          Como forma de dança também assumiu inúmeras possibilidades a partir da dança de roda, das umbigadas e das formas de dançar ligadas ao batuque e à religiosidade africana, com dançarinos solistas e razoável liberdade coreográfica. Tornou-se popular e difundida como dança popular no Brasil inteiro com grande sorte de variedades de movimentos e de acompanhamento musical.

Marchinha
Um dos elementos mais importantes do Carnaval no Brasil, especialmente ao longo das seis primeiras décadas do século XX, para muito além dos Sambas-enredo, era a Marchinha o símbolo maior do espírito carnavalesco ingênuo, brincalhão e familiar que, ao menos no imaginário popular, figurou nos carnavais até a Segunda Grande Guerra. Seus compositores são responsáveis por muitas das melodias e letras mais conhecidas da música brasileira, tais como “Ô abre alas”, de Chiquinha Gonzaga; “Cidade maravilhosa”, de André Filho; “Pierrô apaixonado”, de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres; “Chiquita bacana”, de João de Barro e Alberto Ribeiro; “O teu cabelo não nega”, Irmãos Valença e Lamartine Babo; “Sassaricando”, de Luís Antônio, Jota Júnior e Oldemar Magalhães; Alá-Lá-Ô, de Haroldo Lobo e Nássara; Mamãe eu quero, de Jararaca e Vicente Paiva; “Eu dei”, de Ary Barroso; “Me dá um dinheiro aí”, de Homero Ferreira, Glauco Ferreira e Ivan Ferreira; “Cabeleira do Zezé”, de João Roberto Kelly e Roberto Faissal; “Maria Sapatão”, de Chacrinha, “Balancê”, de João de Barro e Alberto Ribeiro; entre muitos outros. A marchinha caracteriza-se pelo compasso binário assemelhado ao da marcha militar; pelo ritmo acelerado; pelas melodias simples e alegres; pelas letras com abordagens humorísticas, jocosas e atentas ao cotidiano das pessoas comuns; além da despretensão associada a uma produção musical focada no entretenimento e adesão rápida das pessoas.

Choro
Ritmo normalmente instrumental de temática melancólica, por vezes pitoresca ou jocosa, que estrutura-se a partir da junção de arranjos densos e ricos com harmonizações complexas e com execuções de grande sofisticação. A instrumentação é baseada em metais e cordas, ainda que se possa notar a presença marcante de instrumentos percussivos como o pandeiro. Os expoentes desse ritmo são Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Paulo Moura, Radamés Gnattali, Altamiro Carrilho, Garoto, Raphael Rabello, Hamilton de Holanda, Henrique Cazes, entre muitos outros. Foi criado na transição entre o século XIX e o XX a partir da mistura de elementos musicais de danças europeias (como a Valsa, o Minueto e, especialmente, a Polca), da música popular portuguesa e, evidentemente, da música afro-brasileira.

Gafieira

Baile de caráter urbano onde se executava vários tipos de Samba, em especial aqueles com acompanhamento de naipes de metais responsáveis pelo som malemolente algo inspirado no maxixe. Segundo registro de Mário de Andrade, no Rio de Janeiro, era visto como um “baile muito ordinário”, que era dedicado às classes “baixas” da sociedade.

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