segunda-feira, 8 de abril de 2013

ATA - Rock - uma introdução (primeira parte)


O Rock, apesar das aparências e de outras influências provenientes do Folk e do Country, é filho de mãe negra, é filho do Blues, ritmo nascido no chamado “sul profundo” dos EUA, na área do Delta do Mississipi e nas imediações também rurais dessa região e de outros estados sulistas. 
O Blues constituiu-se como crônica musical da vida de trabalho, poucas alegrias, humilhações e preconceito sofridos pelos negros norte-americanos na virada do século XIX para o XX. Além desse, outros temas dominavam as predileções dos primeiros “bluesmen”, a saber: o sexo, o demônio, a bebida, a noite e os relacionamentos afetivos. De modo geral, o Blues é uma música de harmonia simples, de ritmo melancólico e solos de guitarra, gaita e piano comumente, que simulavam um lamento, um choro ancestral – a famosa “blue note” - vindo da África manifestando-se contra a violência, o degredo e as muitas tentativas de aculturamento sofridas pelos negros chegados nos EUA por parte dos brancos norte-americanos.



Do ponto de vista musical, é um dos pilares do Jazz e em alguns momentos confunde-se com ele, especialmente nas duas primeiras décadas do século XX. Sobre outro aspecto do processo de urbanização do Blues com o desenvolvimento do chamado Chicago Blues e, mais tarde, do Rhythm and Blues (R&B), é importante perceber a relação direta desses novos estilos como consequências do êxodo rural dos negros do sul dos EUA que buscavam as cidades do norte desse país com o intuito de buscar melhores condições de vida, de escapar de leis segregacionistas como as “Jim Crow” e de evitar organizações racistas como a Ku Klux Klan (KKK).
Em Chicago e em outras cidades do norte, esse migrantes negros encontraram uma parte mais desenvolvida e liberal dos EUA, daí muitos negros do sul procurarem melhores condições de vida e trabalho, além de uma sociedade menos preconceituosa, entretanto quase sempre não a achavam, porque eram obrigados - por questões também econômicas - a morarem em guetos pobres e, portanto, continuavam de certa forma marginalizados na sociedade.
A partir de então, variantes do Blues passaram a ser aceleradas e eletrificadas como é o caso do Chicago Blues e o Detroit Blues, assim o Blues passou a influenciar de forma mais contundente no desenvolvimento de ritmos derivados e dependentes dele, tais como: o Rhythm and Blues (R&B), o Rock, o Funk, o Soul e o RAP, os quais são consequências estéticas desse primordial gênero musical norte-americano, que, junto ao samba, influenciou a música mundial numa proporção e abrangência incomparável. O blues ao longo da primeira metade do século XX foi diversificando-se em muitos estilos tais como o Delta Blues, o Piedmont Blues, o Country Blues, o Chicago Blues, o Detroit Blues, o Jump Blues, etc. Entre os músicos de blues, destacam-se alguns nomes  como Charlie Paton, Son House, Leadbelly, Robert Johnson, Willie Dixon, Muddy Waters, B.B. King, Buddy Guy, Pinetop Perkins, Hound Dog Taylor, Koko Taylor, Blind Wille McTell, Blind Lemon Jefferson, Arthur “Big Boy” Crudup, Blind Willie Johnson, Big Mama Thornton, Eddie Boyd, Sonny Terry, Elmore James, Willian Clarke, Fenton Robinson, Howlin' Wolf, J. B. Lenoir, John Lee Hooker, etc.
Assim, o ritmo musical nascido da união de influências estéticas negras como o Blues e, seu filho de cadência acelerada e letras subversivas, o Rhythm'n'Blues, com ritmos musicais como o Country, o Bluegrass e o Folk, os quais unidos das mais diversas formas permitiriam o nascimento do Rock’n’Roll entre as décadas de 1940 e 1950 com mais evidência, ainda que já se pudesse antevê-lo em produções anteriores de músicos negros como Chuck Berry ou Little Richards.
O rock nasceu cercado de preconceitos impostos pela sociedade branca, protestante e conservadora da década de 1950 nos EUA, muito em função do ritmo acelerado, das letras ideologicamente distintas da moral vigente à época, da forma frenética de dança-lo, da associação com a rebeldia adolescente, etc. Entretanto, a partir da década de 1960 foi lentamente assimilado pela cultura urbana e jovem que se formava até tornar-se parte fundamental da indústria cultural a partir da década de 1970.
Quanto à expressão, ela literalmente significa "balançar e rolar" e era uma gíria dos negros norte-americanos do início do século XX, para referir-se comumente ao ato sexual, que figurava com certa constância em muitas letras de blues e R&B da primeira metade do século XX. O nome efetivamente foi dado pelo radialista Alan Freed, também conhecido como "Moondog", que foi um disk-jockey (DJ) norte-americano, tido como o criador do termo "rock 'n' roll" no início da década de 1950 como referência à música de pioneiros do Rock como Chuck Berry, Fats Domino, Little Richards, etc.
Alan Freed foi crucial na promoção do rock, especialmente, em atrair uma juventude branca e urbana dos EUA para uma música derivada do Blues que, em um primeiro momento, era feita quase exclusivamente por negros, com isso ela acabou por ser responsável pela projeção por meio de seu muito prestigiado programa de rádio de muitos nomes que seriam mais tarde vistos como pais do rock. Além disso, também organizava shows, chamados naquele momento de “Rock‘n’Roll Jamboree”m os quais foram pioneiros ao reunir em uma mesma plateia e num mesmo palco, negros e brancos.
São nomes representativos do chamado Rock’n’Roll clássico e do Rockabilly: Chuck Berry, Little Richards, Jerry Lee Lewis, Fats Domino, Bill Halley, Roy Orbison, Bo Diddley, Hank Willians, Muddy Waters, Buddy Holly, Johnny Cash, Elvis Presley, etc.
A partir da década de 1960, com as influências do Folk, da “Invasão britânica”, do revigorado Blues, das experiências com drogas alucinógenas, do ideário Hippie, do oriente indiano, entre outras, desenvolveram-se inúmeras vertentes do rock como o Blues Rock (Canned Heat, Yardbirds, Taste, Blue Cheer, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Bacon Fat, etc.), o Folk Rock (Bob Dylan; The Band; Crosby; Stills, Nash and Young; Buffalo Springfield; etc.), o Rock Progressivo (Pink Floyd, Yes, Jethro Tull, Rush, Van de Graaf, King Crimson, Gentle Giant, etc.), o Rock Psicodélico (Grateful Dead, Jefferson Airplane, etc.), o Hard Rock (Led Zeppelin, Deep Purple, Humble Pie, Free, etc.), o Heavy Metal (Black Sabbath, Dust, Buffalo, etc.), o Punk Rock (Stooges, MC5, etc.), etc.
O Rock brasileiro nasceu oficialmente com uma versão do clássico de Bill Haley & His Comets: “Rock Around the clock”, que ficou mundialmente conhecida por fazer parte do sucesso do cinema “Blackboard jungle”. Era 1955, quando a cantora Nora Ney lançou “Ronda das horas” em ritmo diferente do original, porque mais parecia um Foxtrot do que um Rock. Mais tarde Cauby Peixoto com “Rock and Roll em Copacabana”; Sérgio Murilo com “Broto legal” e Cely Campelo com os clássicos “Estúpido cupido” e “Banho de lua” seriam transformados em ídolos da juventude brasileira nos anos posteriores. No final da década de 1960, o primeiro movimento organizado desse gênero musical, a Jovem Guarda, seria desenvolvido no Brasil em torno das figuras de Erasmo e Roberto Carlos, ainda que fosse uma música distante do que se fazia à época nos EUA e na Inglaterra, porque ingênua, apolítica e, para muitos, mera cópia do que se havia feito nesses países dez anos antes.
Também vale destacar o Tropicalismo e os Novos Baianos, que dialogariam intensamente com a vanguarda roqueira norte-americana e inglesa; o som de bandas como Secos e Molhados, Mutantes, Som nosso de cada dia, A Barca do Sol, A Banda, Som Imaginário, Ave sangria que tinham claras influências do rock psicodélico e progressivo feito no exterior; o Samba-rock, também chamado sambalanço, samba-soul, suingue, que foi uma associação feita entre o som da guitarra elétrica e a sonoridade do Samba, o que produziu um ritmo único também pelas letras leves e despretensiosas; as influências Punk em diferentes níveis em bandas como Aborto Elétrico, Plebe Rude, Capital inicial, Legião Urbana, Olho Seco, Ratos de porão, Inocentes, etc.; as influências do rock inglês e da cultura Mod em bandas como Ira e Violetas de Outono; as múltiplas influências Rock e Pop de bandas como Titãs, Ultraje a rigor, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, RPM, Blitz, etc.; a influência do som de Black Sabbath, Motorhead, Iron Maiden, Metallica, etc. no som de bandas brasileiras como Sarcófago, Sepultura, Angra, Viper, entre muitas outras; e o multiculturalismo e as referências múltiplas e imprevistas em bandas como Nação Zumbi, Mundo Livre S.A., Cordel do Fogo Encantado, Móveis Coloniais de Acaju, Sheik Tosado, Pata de Elefante, Burro Morto, Mombojó. Porcas Borboletas, Macaco Bong, etc.

Para ouvir:

Son House - Death Letter Blues

Robert Johnson - Me and the Devil Blues

Lightin' Hopkins - Baby please don't go

Howlin' Wolf - Evil

Etta James - I'd Rather Go Blind

Muddy Waters - Got My Mojo Workin'

Muddy Waters - Mannish boy (from the album "Electric mud")

John Lee Hooker - Think Twice Before You Go 

Chuck Berry - Johnny B. Goode

Little Richard - Long Tall Sally

Fats Domino - Ain't That A Shame

Bo Diddley - Bo Diddley 

Bill Haley  His Comets- Rock Around The Clock

       Elvis Presley - Jailhouse rock

Pat Boone -Tutti frutti


Aprofundamento:

Uma breve história sobre os primeiros anos do Rock

Um texto interessante sobre os anos iniciais do Rock