quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Redação - Módulo 0 - 3º anos e extensivo - Comunicação e linguagem

Aula introdutória para o curso de redação dos terceiros anos de Uberaba e Uberlândia e Extensivo Uberaba.



Linguagem (do lat. lingua) - “Em um sentido genérico, pode-se definir a linguagem como um sistema de signos convencionais que pretende representar a realidade e que é usado na comunicação humana. Distinguem-se, em algumas teorias, a língua empírica, concreta (por exemplo, o português, o inglês, etc.) da linguagem como estrutura lógica, formal e abstrata, subjacente a todas as línguas.”
(Dicionário de Filosofia -  Japiassu e Marcondes)

A linguagem é “todo sistema de signos que serve de meio de comunicação entre indivíduos e pode ser percebido pelos diversos órgãos dos sentidos, o que leva a distinguir-se uma linguagem visual, uma linguagem auditiva, uma linguagem tátil, etc., ou, ainda, outras mais complexas, constituídas, ao mesmo tempo, de elementos diversos.”
(Dicionário Digital Aurélio XXI)

A capacidade de se comunicar por meio das mais variadas linguagens é uma das principais características que nos distinguem dos animais. Ainda que eles tenham tipos rudimentares dessa faculdade, na ampla maioria das vezes, nenhum deles alcançou refino, diversidade e complexidade linguística como a espécie humana, tanto no campo verbal como no não verbal, até porque, diferente deles, nossa linguagem é fruto de esforços produtivos fundamentados no raciocínio, na abstração e na criatividade. As razões dessa significativa diferença entre nós e os demais animais são explicadas desde por questões de caráter fisiológico, como dedo opositor, tamanho do cérebro, consequências da mudança da dieta alimentar, etc. até por determinados processos técnicos e de socialização intensificados pelo domínio da produção do fogo, pelo sedentarismo e pela Revolução Agrária.
Em virtude dessa importância incontestável que a linguagem assume como condição para o desenvolvimento intelectual, político, ético, econômico, social e cultural da humanidade, fazem-se razoáveis e previsíveis todos os estudos focados nessa competência humana. Além disso, quanto mais usada e estudada, mais é aprimorada, construindo-se a partir de um processo contínuo e crítico de revisões, renovações e inter-relações responsáveis por modificá-la continuamente.
Assim, o estudo desse campo riquíssimo da atuação humana torna-se necessário, tanto para a melhoria das relações estabelecidas com o outro em sociedade quanto para desenvolvermos nossa sensibilidade para apreciarmos e analisarmos uma obra de arte, uma música, um filme, uma peça de teatro, uma ópera, um espetáculo de dança, um discurso, etc.
Outro aspecto importante dos estudos linguísticos é a preparação para o vestibular que, atento a essas questões, faz com que, nas provas de Língua Portuguesa, Literatura e Redação, sejam exigidas aptidões linguísticas capazes de demonstrar - muito além do puro conhecimento gramatical, mas sem jamais desprezá-lo - a competência do candidato para ser um leitor crítico de muitos tipos de linguagens verbais e não verbais, além de mostrar-se um produtor linguístico articulado, no caso, de textos verbais, capazes de expressar qualquer conteúdo de forma clara, objetiva e precisa. Ou seja, segundo as Orientações Curriculares do Ensino Médio produzidas pelo Ministério da Educação (MEC):

“A lógica de uma proposta de ensino e de aprendizagem que busque promover letramentos múltiplos pressupõe conceber a leitura e a escrita como ferramentas de empoderamento e inclusão social. Some-se a isso que as práticas de linguagem a serem tomadas no espaço da escola não se restringem à palavra escrita nem se filiam apenas aos padrões socioculturais hegemônicos. Isso significa que o professor deve procurar, também, resgatar do contexto das comunidades em que a escola está inserida as práticas de linguagem e os respectivos textos que melhor representam sua realidade.
Dando sequência a esse raciocínio, defende-se que a abordagem do letramento deve, portanto, considerar as práticas de linguagem que envolvem a palavra escrita e/ou diferentes sistemas semióticos – seja em contextos escolares seja em contextos não escolares –, prevendo, assim, diferentes níveis e tipos de habilidades, bem como diferentes formas de interação e, consequentemente, pressupondo as implicações ideológicas daí decorrentes.”

Em razão dessas demandas, o domínio de muitos conceitos associados ao amplo universo da linguagem é fundamental, os quais serão abordados nos tópicos seguintes.



:::::Comunicação

Comunicação é, segundo o Dicionário Aurélio XXI, o “ato ou efeito de emitir, transmitir e receber mensagens por meio de métodos e/ou processos convencionados, quer através da linguagem falada ou escrita, quer de outros sinais, signos ou símbolos, quer de aparelhamento técnico especializado, sonoro e/ou visual. “

A comunicação é um processo pelo qual se almeja a troca de informações, por meio de sistemas simbólicos como suporte para esse fim. Especialmente quando se faz referência aos processos comunicativos humanos, por isso, convém citar uma infinidade de maneiras de se comunicar, tais como o diálogo, a pantomima ou mesmo qualquer tipo de comunicação gestual; a escrita; a linguagem artística ou mesmo o silêncio, que pode ser compreendido das mais variadas formas em um processo comunicativo. Há ainda a comunicação mediada, quando meios e artifícios técnicos são usados para estabelecer contato entre interlocutores, como são os casos do envio de “e-mails” (correio eletrônico); dos comunicadores instantâneos virtuais como o Google Talk ou o Messenger; da conversa telefônica; dos meios de comunicação de massa; etc.

:::::Linguagem

“A linguagem permite ao homem exprimir-se e é isso que torna possível a vida social.”
Aristóteles (384-322 a.C.)

“A linguagem é a capacidade humana de articular significados coletivos e compartilhá-los.”
“A principal razão de qualquer ato de linguagem é a produção de sentido.”
Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs)

            A linguagem é qualquer forma sistemática e convencionada de comunicar estados, ideias ou sentimentos por meios sonoros, gráficos, gestuais, táteis, entre outros. Segundo as Orientações Curriculares para o Ensino Médio, no material da área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, produzido pelo Ministério da Educação (MEC), “...a linguagem é uma capacidade humana de simbolizar e de interagir e, por essa via, condição para que se construam as realidades, não se pode dizer que entre os signos que constituem os diferentes sistemas semióticos e o mundo haja de fato uma relação direta. Assume-se, portanto, o pressuposto de que as relações entre mundo e linguagem são convencionais, nascem das demandas das sociedades e de seus grupos sociais, e das transformações pelas quais passam em razão de novos usos, que emergem de novas demandas.”
            Sobre a função e a importância da linguagem, esse importante documento de referência para o Ensino Médio afirma que:

“...os conhecimentos são elaborados, sempre, por formas de linguagem, sendo fruto de ações intersubjetivas, geradas em atividades coletivas, pelas quais as ações dos sujeitos são reguladas por outros sujeitos.
Seguindo esse raciocínio, pode-se concluir, também, que o processo de desenvolvimento do sujeito está imbricado em seu processo de socialização. Dito de outro modo, é na interação em diferentes instituições sociais (a família, o grupo de amigos, as comunidades de bairro, as igrejas, a escola, o trabalho, as associações, etc.) que o sujeito aprende e apreende as formas de funcionamento da língua e os modos de manifestação da linguagem; ao fazê-lo, vai construindo seus conhecimentos relativos aos usos da língua e da linguagem em diferentes situações. Também nessas instâncias sociais o sujeito constrói um conjunto de representações sobre o que são os sistemas semióticos, o que são as variações de uso da língua e da linguagem, bem como qual seu valor social.
Em síntese, por ser uma atividade de natureza ao mesmo tempo social e cognitiva, pode-se dizer que toda e qualquer situação de interação é co-construída entre os sujeitos. Pode-se ainda complementar dizendo que, como somos sujeitos cujas experiências se constroem num espaço social e num tempo histórico, as nossas atividades de uso da língua e da linguagem, que assumem propósitos distintos e, consequentemente, diferentes configurações, são sempre marcadas pelo contexto social e histórico. Mas o fato de que tais atividades recebam seu significado e seus sentidos singulares em relação aos contextos mais imediatos em que ocorrem e ao contexto social e histórico mais amplo não elimina a nossa condição para agir e transformar essa história, para ressignificá-la, enfim.”

            Sob outra perspectiva e sobre a mesma questão, o importante linguista dinamarquês Louis Trolle Hjelmslev escreveu:

“A linguagem é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores. A linguagem é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana. Mas é também o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta contra a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador.”

:::::Linguagem verbal e linguagem não-verbal

“Note que a leitura não-verbal é uma maneira peculiar de ler: visão / leitura, espécie de olhar tátil, multissensível (...) Não se ensina como ler o não-verbal: exige uma leitura, se não desorganizada, pelo menos sem ordem estabelecida, convencional ou sistematizada.”
(Lucrécia D’Aléssio)

“As línguas constituem sistemas de comunicação verbal. Conquanto a fala seja da maior importância, fator fundamental de humanidade do homem, a nossa capacidade de comunicar conteúdos expressivos não se restringe às palavras; nem são elas o único modo de comunicação simbólica. Existem, na faixa de mediação significativa entre nosso mundo interno e o externo, outras linguagens além das verbais.”
(Fayga Ostrowe. Criatividade e processos de criação.)

Toda linguagem é uma forma de enunciar uma informação com uma determinada intencionalidade comunicativa capaz de ser manifestada com ou sem o auxílio das palavras. Em função dessas características, pode-se estabelecer a existência de dois tipos de linguagem: a verbal e a não verbal.
A linguagem verbal utiliza como código a língua na forma oral ou escrita; já a linguagem não verbal faz uso de outros códigos, diferentes da palavra, tais como a cor, a forma, o movimento, o gesto, o cheiro, etc. Como exemplos concretos de linguagem não verbal podem ser citadas as artes pictóricas, a pantomima, a cenografia, a música, etc. A linguagem verbal também é farta de exemplos como as conversas do cotidiano, os romances, os livros didáticos, os poemas, os bilhetes, etc.

:::::Linguagem denotativa e linguagem conotativa

(André Gide)

Todo texto baseado em linguagem denotativa é caracterizado pelo uso de palavras tal como elas estão previstas no dicionário na sua acepção mais usada e previsível socialmente, de forma objetiva e desprovida de emoção, para que o texto tenha univocidade de sentido e seja, sobretudo, informativo.
Já os textos conotativos são baseados numa linguagem caracterizada pelo uso de palavras subjetivas e plurais quanto ao sentido delas, por isso, entende-se que elas foram submetidas a um estilo individual de produção, que possibilita também a individualização da compreensão desse discurso. Isso gera a plurissignificação do texto. Logo, ultrapassa-se a intenção informativa de um texto por causa da amplificação e da pluralização dos sentidos e das interpretações desenvolvidas pelo interlocutor sobre o que lê, ouve ou vê, com o objetivo de que o texto possa ser compreendido também sob uma perspectiva estética.
Dessa forma, é predominantemente denotativa a maioria dos textos científicos, jornalísticos, didáticos e informativos; enquanto são conotativos os textos literários, muitas propagandas, alguns tipos de cartas, etc. Para melhor diferenciar esses dois tipos de linguagens, leia com atenção os exemplos a seguir:


“A linguagem é todo sistema capaz de servir à comunicação entre os indivíduos. Torna possível o desenvolvimento e a transmissão de culturas, bem como o funcionamento eficiente e o controle de grupos sociais. A linguagem é um fato exclusivamente humano, um método de comunicação racional de idéias, emoções e desejos por meio de símbolos produzidos de maneira deliberada. ” (Dicionário de Comunicação. SP. Ática, 1987, p.367)

“A Propaganda pode ser definida como divulgação intencional e constante de mensagens destinadas a um determinado auditório visando criar uma imagem positiva ou negativa de determinados fenômenos. A Propaganda está muitas vezes ligada à idéia de manipulação de grandes massas por parte de pequenos grupos. Alguns princípios da Propaganda são: o princípio da simplificação, da saturação, da deformação e da parcialidade.” (Adaptado de Norberto Bobbio, Dicionário de Política)


“A linguagem, portanto, é a terceira margem do rio, confluência do sonho e da realidade, núpcias da pulsão e do Logos, que, no transporte da paixão, engendra o verbo. Há quem pense que, com a dominância do princípio da realidade, o sonho se acabe. Em verdade, não acaba nunca. O sonho é centelha que salta do desejo e é através dela que vou acender as fogueiras através das quais o rosto do mundo se ilumina. O sonho, levado aos ombros da realidade, que o simboliza, é o projeto profundo do homem e a teologia da história. O sonho vivido, enraizado no real, que o suporta, vai ser a matriz da utopia, o eixo das grandes transformações, que fazem a grandeza do processo civilizatório.” (Hélio Pellegrino. Édipo e Paixão. In: Os Sentidos da Paixão.)

Epílogo

Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada agüenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe... Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade. (Mario Quintana)

:::::A língua

A língua é “um sistema de representação por palavras e por regras que as combinam em frases que os indivíduos de uma comunidade linguística usam como principal meio de comunicação e expressão, falado ou escrito. Também pode ser entendida como forma de agregação.”
(Dicionário Hoauiss)

“A língua é uma razão humana que tem suas razões, e que o homem não conhece.”
(Lévi-Strauss)

A língua é um produto das interações sociais, por isso suas regras são convencionadas entre os membros de uma determinada sociedade. Isso ocorre para que tais normas sejam acatadas por todos os indivíduos de uma comunidade com o intuito de que eles possam entender-se, para tanto fazer esse grupo progredir cultural e tecnologicamente quanto interagir das mais variadas e produtivas formas, ou até para que construam preconceitos e pré-julgamentos em função da forma como um indivíduo usa a língua na sua modalidade oral ou escrita.
Essa faculdade humana pode ser entendida também como forma de reconhecimento entre pessoas originárias de uma determinada região, o que contribui para o estabelecimento de identidades nacionais. Isso reafirma o caráter em princípio social da língua, ainda que questões de ordem cultural, política e econômica interajam ativamente para o estabelecimento, a mudança ou o prestígio de uma determinada tradição linguística inscrita em um espaço específico em determinado tempo numa dada sociedade.
É importante ressaltar que, a despeito da existência de um sistema de comunicação de regras socializadas e aceitas por dada comunidade, há a presença de um estilo individual submetido às escolhas linguísticas de um determinado indivíduo no que tange aos aspectos léxicos, sintáticos, semânticos, fonéticos, etc., de uma língua, sem, contudo, na maioria das vezes, inviabilizar a comunicação dele com falantes do seu próprio idioma.

:::::Língua e signo linguístico

“O signo é o elemento fundamental da comunicação.”
(Ferdinand Saussure. Curso de linguística geral.)

“só pensamos através de signos.”
(Peirce)

“... a língua é uma das formas de manifestação da linguagem, é um entre os sistemas semióticos construídos histórica e socialmente pelo homem.”
(Orientações Curriculares para o Ensino Médio; Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, MEC)

            A linguagem verbal, que tem a língua como código, é construída a partir de signos linguísticos, os quais são responsáveis pela representação de ideias e são as unidades mínimas da língua. Tais signos podem ser vistos como as próprias palavras escritas ou faladas que são associadas a determinadas ideias, conceitos, sentimentos, objetos, etc. Por isso, diz-se que o signo linguístico apresenta três componentes: o significante, que é a parte concreta e material (som, letras, ideogramas, etc.); o significado, que é a parte abstrata e conceitual (objeto, idéia), e o referente, que é objeto, pessoa ou coisa em questão representada por meio do significante e explicada por meio do significado. Portanto, signo linguístico é qualquer forma significativa, de qualquer linguagem, resultado de uma conexão arbitrária e pública entre um significado e um significante. Segue um exemplo dessa relação de complementaridade:

Significante: sequência sonora: /kakaw/ ou representação gráfica: cacau.

Referente

Fonte: internet

Significado (conceito): “fruto do cacaueiro, com polpa adocicada, comestível, tb. us. em refrescos e doces.” (Dicionário Houaiss)


A fala “...é sempre individual e dela o indivíduo é sempre senhor. A língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza seus efeitos; mas é tão necessária para que a língua se estabeleça; historicamente, o fato da fala vem sempre antes.”.
(Ferdinand Saussure. Curso de linguística geral.)

“... se é pelas atividades de linguagem que o homem se constitui sujeito, só por intermédio delas é que tem condições de refletir sobre si mesmo.”
(Orientações Curriculares para o Ensino Médio; Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, MEC)


::::Língua, discurso e enunciação

A língua “...é a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-la nem modificá-la; ela não existe senão em virtude duma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade.”. (Ferdinand Saussure. Curso de linguística geral.)

“A língua não exprime só o pensamento, mas o homem todo; seus sentimentos, sua vontade, suas oscilações.”
(Charles Bally)

“As vivências do homem se projetam na língua.”
(Charles Bally)

Enunciação “...é uma atualização temporal e espacial do locutor em seu discurso.”
(Orlandi)

            Portanto, discurso é todo texto verbal ou não-verbal em que seu produtor emprega recursos e estratégias linguísticas com o intuito de produzir, evocar, induzir, etc. alguma atitude ou resposta por parte de seu interlocutor.

:::::Língua falada e língua escrita

“...o homem, em suas práticas orais e escritas de interação, recorre ao sistema lingüístico – com suas regras fonológicas, morfológicas, sintáticas, semânticas e com seu léxico.”
(Orientações Curriculares para o Ensino Médio; Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, MEC)

            Pode-se dizer que as expressões de uma língua em suas modalidades faladas e escritas respeitam variáveis significativamente distintas, tanto no que concerne a preparação do que será dito ou escrito quanto na própria conformação gramatical e discursiva do que foi comunicado. Isso ocorre porque tais possibilidades de expressão atendem a objetivos específicos em contextos igualmente singulares, o que exige níveis e maneiras diferentes de organizar e expressar um determinado conteúdo. Para facilitar a compreensão dessas diferenças, segue estudo sobre as características de cada uma dessas modalidades de expressão da língua.

Modalidade falada
_Forte dependência contextual.
_Pouco planejamento ou planejamento simultâneo à produção da fala, pautado na espontaneidade, o que pode gerar: fluxo fragmentado, mudança abrupta de construção, frases quebradas, hesitações, etc.
_Coesão por meio de recursos paralinguísticos (entonação, gestos, olhares, etc.).
_Predomínio de frases curtas, ordem direta do discurso, período simples e orações coordenadas.
_Presença de elementos fáticos que mantêm ou não a conversação aberta: "cê tá me ouvindo?", "Alô", “ahã”, “hum”, “né”, “tá”, etc.

Modalidade escrita
_Pouca dependência contextual.
_Permite planejamento prévio; fluxo das informações organizado e contínuo.
_Coesão por meio de conectivos, de estruturas sintáticas, etc.
_Períodos longos com forte presença de orações subordinadas, frases com estrutura complexa e encadeamento de várias orações sucessivas.
_Forte influência das convenções linguísticas, técnicas, estruturais, etc., ou seja, respeita de forma mais abrangente a norma padrão da língua.

Exercícios de sala

1 - Fuvest

Examine esta propaganda de uma empresa de certificação digital (mecanismo de segurança que garante autenticidade, confidenciabilidade e integridade às informações eletrônicas).


a) Aponte a relação de sentido que existe entre a mensagem verbal e a imagem.
b) Forme uma frase correta e coerente com base em um verbo derivado da palavra “burocracia”.
c) “Estar com os dias contados” é uma das dezenas de locuções formadas a partir do substantivo “dia”. Crie uma frase em que apareça uma dessas locuções (sem repetir, é claro, a locução utilizada na propaganda acima).

2 – Opera10

Leia o trecho abaixo de um romance do escritor moçambicano Mia Couto.

"Falo muito do mar? Me deixe explicar, senhor inspector: eu sou como o salmão. Vivo no mar mas estou sempre de regresso ao lugar da minha origem, vencendo a corrente, saltando cascata. Retorno ao rio onde nasci para deixar meu sémen e depois morrer. Todavia, eu sou peixe que perdeu a memória." (A Varanda do Frangipani. Maputo: Ndjira, 2001, pág. 50).

a)    Qual o recurso estilístico usado por Mia Couto no trecho acima. Justifique sua resposta.
b)    No contexto do trecho o que significa a expressão “...eu sou peixe que perdeu a memória.”.

Exercícios complementares

3 – Fuvest

Leia o seguinte texto.

Flagrado na Ilha de Caras, Fernando Pessoa disse que está bem mais leve depois que passou a ser um só.
LISBOA – Em pronunciamento que pegou de surpresa o mercado editorial, o poeta e investidor Fernando Pessoa anunciou ontem a fusão dos seus heterônimos. Com o enxugamento, as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro passam a fazer parte da holding* Fernando Pessoa S.A. “É uma reengenharia”, explicou o assessor e empresário Mário Sá Carneiro. Pessoa confessou que a decisão foi tomada “de coração pesado”: “Drummond sempre foi um só. A operação dele é enxutinha. Como competir?”, indagou. O poeta chegou a
pensar em terceirizar os heterônimos através de um call-center** em Goa, mas questões de gramática e semântica acabaram inviabilizando as negociações. “Eles não usam mesóclise”, explicou Pessoa.
http://www.revistapiaui.com.br. Adaptado.

*Holding [holding company]: empresa criada para controlar outras empresas.
**Call-center: central de atendimento telefônico.

a) Esse texto tem apenas finalidade humorística ou comporta também finalidade crítica? Justifique sua resposta.
b) Por que o “call-center” mencionado no texto seria localizado especificamente em Goa?

4 – Enem

O “politicamente correto” tem seus exageros, como chamar baixinho de “verticalmente prejudicado”, mas, no fundo, vem de uma louvável preocupação em não ofender os diferentes. É muito mais gentil chamar estrabismo de “idiossincrasia ótica” do que de vesguice. O linguajar brasileiro está cheio de expressões racistas e preconceituosas que precisam de uma correção, e até as várias denominações para bêbado (pinguço, bebo, pé-de-cana) poderiam ser substituídas por algo como “contumaz etílico”, para lhe poupar os sentimentos. O tratamento verbal dado aos negros é o melhor exemplo da condescendência que passa por tolerância
racial no Brasil. Termos como “crioulo”, “negão” etc. são até considerados carinhosos, do tipo de carinho que se dá a inferiores, e, felizmente, cada vez menos ouvidos. “Negro” também não é mais correto. Foi substituído por Foi substituído por afrodescendente, por influência de “afro-americans”, num caso de colonialismo cultural positivo. Está certo. Enquanto o racismo que não quer dizer seu nome continua no Brasil, uma integração real pode começar pela linguagem.
VERÍSSIMO, L. F. Peixe na cama. Diário de Pernambuco. 10 jun. 2006 (adaptado).

Ao comparar a linguagem cotidiana utilizada no Brasil e as exigências do comportamento “politicamente correto”, o autor tem a intenção de
a)     criticar o racismo declarado do brasileiro, que convive com a discriminação camuflada em certas expressões linguísticas.
b)    defender o uso de termos que revelam a despreocupação do brasileiro quanto ao preconceito racial, que inexiste no Brasil.
c)     mostrar que os problemas de intolerância racial, no Brasil, já estão superados, o que se evidencia na linguagem cotidiana.
d)    questionar a condenação de certas expressões consideradas “politicamente incorretas”, o que impede os falantes de usarem a linguagem espontaneamente.
e)     sugerir que o país adote, além de uma postura linguística “politicamente correta”, uma política de convivência sem preconceito racial.