segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Linguagem do teatro – conceitos, características e mixagens


Linguagem do teatro – conceitos, características e mixagens

“A vida é o pânico num teatro sem chamas.”
(Jean-Paul Sartre)

“O teatro é o primeiro soro que o homem inventou para se proteger da doença da angústia.”
(Jean Barrault)

“A vida é uma peça de teatro razoavelmente boa com um terceiro ato mal escrito.”
(Truman Capote)

"...São infindáveis as tendências do teatro contemporâneo. Há uma permanência do realismo e paralelamente uma contestação do mesmo. As tendências muitas vezes são opostas, mas freqüentemente se incorporam umas as outras..."
(Fernando Peixoto)

“Não ir ao teatro é como fazer a toilette sem espelho.”
(Arthur Schopenhauer)

            O teatro é uma arte ficcional comprometida algumas vezes consigo mesma, embora seja mais comumente associada à busca da verdade, ao respeito por valores básicos do ser humano ou pelo apuro e zelo pela realização dramática. É uma forma de arte que remonta de forma organizada ao início das grandes civilizações e - como meio de expressão espontâneo e pragmático - ao período Pré-Histórico. Essa forma de arte, fundamentada na performance, é realizada por um ator ou um conjunto de atores em um palco ou algo semelhante, em que é interpretada uma história ficcional ou não, com o auxílio de técnicos e auxiliares, sob a orientação de um diretor que encena a obra escrita por um dramaturgo. O teatro só se realiza plenamente em cena, com a presença do público, que pode inclusive participar do espetáculo como sugerem algumas experimentações teatrais no século XX.


De forma sistemática, o teatro surgiu, supõe-se, na Grécia antiga, no século IV a.C., como uma forma de homenagem ao deus do vinho Dionísio como agradecimento pelas colheitas de uva. Essa tradição começou como simples procissões nas áreas urbana e rural que foram ficando cada vez mais elaboradas até que passaram a ser apresentadas cenas inspiradas nos feitos desse deus do panteão grego, com a ajuda de cantorias, danças e pequenas representações. O primeiro “diretor de coro” renomado, espécie de organizador dessas procissões, foi Téspis, que era o responsável por dirigir a procissão de Atenas. Ele concebeu o uso de máscaras no processo de encenação como forma de facilitar a visualização por parte dos espectadores dos sentimentos associados à cena que eram representados pelas feições das máscaras, para alguns historiadores elas também eram uma forma de dar maior alcance para as vozes dos atores em cena.
Nessas encenações, o "coro", composto por narradores, que por meio de danças, cantos e atuações contavam a história de um personagem, que estabelecia um processo de interlocução com a platéia, além de ser responsável pela conclusão da peça. Podia haver ainda o “corifeu”, que era um representante do coro que também se comunicava com a platéia.
A partir dessas experiências iniciais, desenvolveu-se a tragédia grega que teve como principais autores Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Aquele se notabilizou por suas histórias sobre fatos da vida de deuses e sobre mitos, seu principal texto foi “Prometeu acorrentado”. Já Sófocles preferiu os temas mais realistas e associados à vida de figuras históricas, sua tragédia mais importante foi “Édipo Rei”. Eurípedes dedicou-se aos renegados, aos vencidos sendo, por isso, considerado precursor do drama ocidental. Seu principal texto é “As troianas”. No campo das comédias, destacou-se Aristófanes, visto como dramaturgo mais importante da comédia grega clássica.
No Brasil, o teatro surgiu no século XVI com o objetivo de auxiliar na propagação da fé católica. O padre José de Anchieta foi um dos primeiros autores teatrais brasileiros em virtude dos autos (antiga composição teatral) que escreveu a fim de catequizar os índios. O “Auto de São Lourenço”, escrito em tupi-guarani, português e espanhol, foi um marco da incipiente produção teatral brasileira.
Um intervalo de dois séculos separou a atividade teatral jesuítica da continuidade do início de produção teatral regular no Brasil. Foi a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, que permitiu o progresso contínuo do teatro brasileiro. A partir de então, começou a produção teatral marcadamente brasileira que passou a se consolidar com os trabalhos do ator e empresário João Caetano que participou em 1838 da encenação da peça “Antônio José ou O Poeta e a Inquisição”, de autoria de Gonçalves de Magalhães, que foi a primeira tragédia escrita por um brasileiro com motivações visivelmente brasileiras. No mesmo ano, também foi responsável pela montagem da peça “O Juiz de Paz na Roça”, de autoria de Martins Pena, precursor da longa tradição de comédias de costumes na história do teatro brasileiro. Gonçalves de Magalhães, ao voltar da Europa em 1867, introduziu no Brasil a estética romântica, que iria nortear escritores, poetas e dramaturgos brasileiros como Gonçalves Dias que, além de poesia, também escreveu uma peça de grande relevância história e artística: “Leonor de Mendonça”. Mais alguns autores conhecidos comumente como prosadores e poetas também escreveram peças teatrais, são exemplos: Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, Álvares de Azevedo e Castro Alves.
Na transição do século XIX para o XX, o Realismo passou a influenciar a dramaturgia brasileira com a montagem da peça “O mandarim” de Artur Azevedo por Joaquim Heliodoro em 1855, além disso, houve a estabilização da opereta e do teatro de revista como o tipo de montagem preferida do público brasileiro. Entretanto, no teatro, o Realismo não deriva para Naturalismo como na literatura, provavelmente por causa da preferência brasileira pelo  "vaudeville", a revista e a paródia, gêneros mais leves e humorísticos.
Outro marco importante foi a abertura do Ginásio Dramático em 1855, quando Joaquim Heliodoro ajudou a consagração da comédia como gênero dramático mais popular à época com esse novo teatro em que eram encenadas as peças francesas mais modernas de então.
O Realismo de origem francesa influenciou a produção teatral brasileira a discutir nas peças temáticas sociais e psicológicas, que muito ecoariam nas produções teatrais do Modernismo.
O século XX nasceu para o teatro ainda muito ligado a produções sem aspectos modernistas no Brasil, assim, eram populares o teatro de variedades, as companhias estrangeiras com encenações trágicas e óperas de elaboração clássica e elitista, além é claro das onipresentes comédias. O Modernismo seria sentido de forma contundente apenas com a obra de Oswald de Andrade, “O Rei da Vela”, que só seria encenada por José Celso Martinez Corrêa na década de 1960. Entretanto, para a maioria dos historiadores, a encenação de “Vestido de Noiva” de Nelson Rodrigues, em pleno Estado Novo inauguraria o moderno teatro brasileiro do ponto de vista da concepção e da encenação teatral. Mais tarde, Nélson Rodrigues seria por muitos considerado o maior dramaturgo brasileiro por causa de uma vasta obra em que rivalizam a qualidade inquestionável e a capacidade dele de questionar a sociedade e os tabus de então, em especial os da classe média, são elas: “Anjo Negro”, “Álbum de Família”, “Os Sete Gatinhos”, “A Falecida”, “Perdoa-me por me Traires”, “Beijo no Asfalto”, “Bonitinha mas Ordinária”, etc.
Ao longo da década de 1960, surgiram a partir dessas referências e outras estrangeiras no campo do teatro e de posturas ideológicas e políticas, por vezes explícitas, uma grande quantidade de grupos e companhias estáveis de teatro. São considerados os grupos mais importantes para a história do teatro brasileiro da segunda metade do século XX: o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), o Teatro Oficina, o grupo de Cacilda Becker, o Teatro dos Sete, o Teatro de Arena de São Paulo, a Companhia Celi-Autran-Carrero, entre muitos outros. Em virtude dessas muitas novidades no campo estético, político e cultural na dramaturgia brasileira, era possível no início da década de 1960 prever um intenso avanço e uma profunda diversificação da produção teatral no Brasil, entretanto esse processo foi boicotado pelos militares após o Golpe Militar de 1964, e, após o AI-5, a censura perseguiu impiedosamente diversos realizadores de teatro que foram obrigados a parar seus trabalhos ou exilar-se no exterior. Entretanto, ainda que as produções tivessem diminuído, a criação teatral alcançou altos níveis de qualidade pelas idéias e criações de diversos autores como Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri, António Callado, Osman Lins, Ariano Suassuna, Dias Gomes, etc.
A partir da década de 1980, com o fim do regime militar, com um país em aparente e eterna crise econômica e com a consolidação da televisão como meio de informação e entretenimento da maior parte da sociedade, as pessoas envolvidas com o teatro passaram a questionar a função, a linguagem e a produção teatral por causa da especulação de que o teatro poderia perder ainda mais público no Brasil. Como resposta a essas questões, realizadores uniram-se mais uma vez em grupos como o Galpão para reavaliar e experimentar novas linguagens dramáticas. Além disso, o Governo e a iniciativa privada passaram a contribuir de forma importante para o custeio de produções que seriam inviáveis sem esse apoio e absolutamente inacessíveis a praticamente todos os brasileiros. A televisão também cumpriu um papel positivo para o teatro ao dialogar com ele em obras televisivas com diversos elementos cênicos e com uma abordagem teatral do enredo, da cenografia ou mesmo da atuação dos atores. São exemplos dessa iniciativa “Hojé é dia de Maria”, “Capitu”, “Pedra do Reino”, “Som e Fúria”, “Decamerão”, etc.


“3.2 Teatro
3.2.1 Código
Estruturas morfológicas
Movimento, voz e gesto. Espaço cênico. Texto, gênero e partitura cênica. Funções (atuação, direção, caracterização, iluminação, sonoplastia, figurino, maquiagem, etc.).

Estruturas Sintáticas
Jogos tradicionais e jogos teatrais. Improvisação, interpretação e recepção de cenas.
Montagem. Relação entre palco e platéia, etc.

A experimentação da linguagem teatral dá-se mediante o envolvimento do estudante com os elementos referentes à estrutura dramática (ação/espaço/personagem/público), conforme indicam os elementos arrolados, os quais não exaurem as inúmeras possibilidades que se apresentam a esse campo investigativo.
Assim, não há um ponto de partida nem muito menos de chegada, uma vez que o processo do aprender a estudar e a explorar a linguagem teatral traduz, por si, os objetivos referentes ao desenvolvimento do currículo na sala de aula. A escolha de um conteúdo ou de um determinado agrupamento de conteúdos favorece o compartilhamento de descobertas, trocas, reflexões e análises das propostas de trabalho do professor.
Na cultura do ensinar e aprender teatro, o que mais importa não são os procedimentos estáticos, a fixação na história, nos estilos ou nos elementos da linguagem em separado, mas sim a capacidade de exercer um diálogo de “outra” natureza em sala de aula, de conhecer a si e ao outro, de conviver com o diverso e com a ambigüidade, processo no qual o jogo teatral é concebido como uma estratégia construtiva, na acepção piagetiana, que, pelo trabalho pedagógico, evolui da brincadeira e do “faz-de-conta” à apropriação do conhecimento cênico (KOUDELA, 1998).
Assim, é importante que a abordagem dos códigos da linguagem teatral tenha organicidade, tanto no panorama interno quanto na perspectiva interdisciplinar, considerando todas as outras fontes de conhecimento possíveis e o contexto sócio-histórico.

3.2.2 Canal
Exploração de procedimentos e formas utilizadas tradicionalmente pela escola, palco ou rua (dramatização de situações, temas, transposição de textos etc.).

Relacionamento com as mídias cênicas disponíveis na atualidade (cinema, vídeo, internet e outros), tendo em vista a compreensão da idéia de autoria, de encenação, das funções teatrais, dentre outras possibilidades atinentes à linguagem. Em relação aos canais de criação, veiculação e recepção disponíveis ao ensino de Teatro, as possibilidades são tão diversificadas que, parafraseando Lope de Vega, bastam dois estudantes, um sonho... e obviamente o professor! A rigor, na própria sala de aula, com todas as dificuldades que se apresentam ao processo de ensino-aprendizagem, a superação dos limites tradicionalmente impostos pela técnica da atuação no palco favorece a criação de propostas que podem ser remetidas à reflexão estética e pedagógica, envolvendo, dialogicamente, a participação direta dos jogadores atuantes e dos observadores. Além disso, tal como ocorre nas demais linguagens da arte, a interação entre forma e conteúdo, materiais e suportes, processo e produto são faces de uma mesma moeda, bem como estratégias de construção cotidiana do currículo.

3.2.3 Contexto
Do texto, da obra, da partitura cênica
A elaboração de trabalhos no contexto da sala de aula, a leitura e a adaptação de textos dramáticos de diferentes gêneros, estilos, épocas, bem como a experimentação de diferentes formas de montagem cênica (tradicionais, tecnológicas, etc.), são algumas das possibilidades que se apresentam ao trabalho docente. Nesse sentido, o contato com as propostas de representação dramática presentes na cultura universal e com suas diferentes narrativas é crucial para o envolvimento dos estudantes nas atividades de Teatro, sem que sejam priorizados certos procedimentos em relação a outros, ou seja, sem julgamento de valor entre a “obra” produzida no âmbito da sala de aula ou fora dela, seja erudita ou popular.
Do aluno, do professor, da escola, da comunidade
A recepção de trabalhos cênicos produzidos pelos estudantes, por grupos amadores ou profissionais, e a apreciação das manifestações produzidas por diferentes grupos sociais e étnicos – cavalhada, congada, pastoril, bumba-meu-boi, etc. –, reportam-se à capacidade de refletir sobre os códigos e os canais referentes à linguagem teatral. Participando do processo artístico com seus alunos, o professor amplia as oportunidades de aprendizagem dos participantes, fazendo uso das diversas situações em que a linguagem teatral possa manifestar-se. Assim, conhecer as manifestações da cultura local, assistir na sala de aula a uma cena de novela, peça publicitária ou filme e compreender o ambiente das mídias, assim como partilhar e trocar funções no palco e na platéia, dentre outras possibilidades, é propiciar um valioso repertório relativo ao domínio da linguagem, contextualizando a relação texto – obra.”

Para aprofundamento, seguem uma referência importante sobre muitos dos principais movimentos, autores e atores do teatro brasileiro.

- Enciclopédia do Teatro Brasileiro