sábado, 9 de junho de 2012

Atualidades - 2012 - EM e PV - Lista 15

Caras e caros,

Eis a nossa décima quinta coletânea, espero que aproveitem, especialmente, o debate fundamental e necessário sobre a promoção de tolerância religiosa em nosso país, a fim de que não mergulhemos no poço profundo que lamentavelmente muitos países, como a Síria, mergulharam.

Abraços e boa leitura,

Professor Estéfani Martins
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1 - 1ª anos, 2º anos, 3º anos e PV
Uma guerra longe de ser ganha

2 - 1ª anos, 2º anos, 3º anos e PV
Um novo olhar sobre um velho problema

3 - 1ª anos, 2º anos, 3º anos e PV
Sobre o diálogo imprescindível e tolerante entre as religiões

4 - 1ª anos, 2º anos, 3º anos e PV
Um dos últimos textos de um brasileiro ilustre pelo intelecto
Fim de festa
Ivan Lessa
Colunista da BBC Brasil
Atualizado em  6 de junho, 2012 - 05:54 (Brasília) 08:54 GMT

Foram 4 jubilosos dias. Mais me parecem 40. Sou gringo, não estou acostumado a essas coisas.
Nem fui até a esquina. Mais 40 % da vida afinal de contas se passa em telas. De TV. De computador.
Melhor assim mesmo. Gente não tem estado puro e quando lhe bate um, sai da frente que vem besteira.
Não teve um poeta aí que disse que a Humanidade não suporta muito a Realidade? Os poetas manjam disso. Por isso andam de cabeça baixa na rua.
Lamentam, para as pedras que pisam, não haver uma cuia com que encher de realidade, assim mesmo com R minúsculo. Então eles catam rimas e métricas onde e como podem.
Terça-feira, pelas bandas londrinas, com missa e orações, foram devidamente encerradas as comemorações do jubileu de diamantes da Rainha.
Como? Com concerto (um piadista bilíngue chamou de "concerto sem conserto" no Mall em frente à Família Real).
Todo mundo sabe que a Rainha não suporta música popular. Nem mesmo Rihanna ou Robbie Williams lhe falam ao cetro.
O que fizeram então os senhores organizadores? Enfileiraram 27 atrações pop de uma Dona Elizabeth que só faltou bater na parede e reclamar para os vizinhos, “Olha o barulho aí, pomba!”.
Embora ache que esse “pomba” aí seja excesso de – olhaí, atenção! – “realidade” de minha parte. Que bom não saber rimar.
Valeu-me enfim uma ignorância entre as muito que as fadas más (hoje se pode dizer, Diana, Princesa de Gales compareceu) me contemplaram quando de meu batizado. Virei meio, para voltar ao assunto em pauta, astro pop.
Os organizadores tacaram uma atração após outra (Aargh! Bleargh!) após outra, popescas todas, segundo critério deles, embora todos sabedores que a jubilada prefira ópera a Kylie Minogue, uma australiana (como se não bastasse) bonitinha que salta, pula, mexe pra cá e pra lá, sorri mostrando a categoria da classe dos dentistas antípodas e foi a abertura dos duros trabalhos roqueiros que se seguiram durante horas.
Foram 27 atrações, como dizem aqui sem aspas, incluindo, e muito, Paul McCartney e – vade retro! – Elton John.
Só tem que Rainha jubilada de diamantes tem o direito, apesar de muito amada e festejada, de armar carranca quando quer.
A BBC TV mostrou em baita close o real rosto como se exposto ao último dos odontologistas que sobrou do Império que foi lindo e se acabou.
Trabalhou mal a BBC. Fuçando os jornais de terça-feira, lá estavam as críticas à rival de notícias 24 horas por dia, a Sky, do notório Ropert Murdoch, que, segundo os críticos, em matéria de cobertura, deu de 5 a 1 na tradicional e já quase parte da Família Real, BBC, três letrinhas que valem quanto pesam.
Faz mal, não. Fica para a próxima. Na Sky, que foi de onde participei do brilhante jubileu, ou jubileu de brilhante, lá estava ela, “dona” Rainha: cara chateadérrima e, mais, segurem que essa que não foi brincadeira, tremendos tampões nos ouvidos, ou Protetores Auriculares, conforme se diz nessas rodas.
O resto do pessoal de sangue azul ou cerúleo, fazia o que lhes fora ensinado, sorriam, que é sempre uma forma de se lidar com simpatia com a já muito citada realidade, ao menos nestas linhas.
Agora vivo mesmo foi o príncipe Philip. Forte e despachado, mesmo para seus 90 anos, depois de passar não sei quantas horas na chuva, no dia anterior, fez uma careta (diferente, bem diferente da que fez sua jubilada cara-metade vale quanto pesa) deu uns dois grunhidos discretos, levou a mãozona de origem grega ali por perto dos países baixos e reclamou de uma dorzinha aqui e outra ali.
Não teve por onde. Levaram-no para um hospital onde ficará (pois essa é sua sina na vida) em estado de observação. Mas distante do concerto pop.
Esse é vivo, esse sabe das coisas, está por dentro dessa jóia rara que é a... pois é, como vínhamos falando, realidade. Colou e não colou, uma vez que todos sabem que príncipe jubilado com mais de 1m85 de altura não tem o órgão de que reclamou, ou seja, a bexiga. Bexiga é um bairro em São Paulo ou coisa de pobre. Essa a realidade.


5 - 2º anos, 3º anos e PV
Sempre há mais terra para cavar para se ir mais fundo
Quinze meses de conflito acentuam divisões religiosas na Síria
Le Monde
Boris Mabillard

Do nada, os thuwar (os revolucionários) surgem na estrada e apontam suas kalashnikovs para o carro que eles bloquearam com um tronco de árvore. O condutor, apavorado, tira de seu bolso uma carteira de identidade. É um cristão de Conseba. Deixam-no ir. O sol aquece a estrada entre Kabani e Jebel Ahmar ao longo do jebel Akrad, noroeste da Síria. Praticamente não há tráfego, uma hora se passa antes que uma caminhonete carregada de material agrícola apareça depois da curva. Parado no posto de controle e revistado, o motorista também é cristão. "Que azar o meu", reclama Abu Hassan. "Dois carros, dois cristãos". Se ele tivesse encontrado um alauíta, teria confiscado o carro.
No final do dia, quando o combatente do Exército Sírio Livre (ESL) relatou sua desventura, seus colegas gargalharam: um deles, Abu Bakr, teve mais sorte. Ele parou um alauíta do vilarejo de Jebel Ahmar ao volante de um veículo quase novo que ele logo confiscou. Um dos rebeldes presentes tentou justificar o roubo: "Os thuwar não têm nada contra os alauítas, eles lutam contra as chabiha [milícias pró-regime] e contra um regime político." Todos ao redor da mesa concordaram, bebendo um chá escuro e doce em pequenos copos arredondados. Um deles acabou dizendo: "Os alauítas de Jebel Ahmar são todos chabiha. Prova disso é que eles estavam presentes, em apoio ao exército regular, no saque a Kabani, em abril".

Barba à maneira salafista
Os 500 habitantes do vilarejo de Kabani são todos sunitas; mas, a cinco quilômetros de lá, Jebel Ahmar é 100% alauíta; e o burgo de Selma é misto, alauíta e sunita. Quanto a Conseba, ali encontram-se cristãos, alauítas e sunitas. Um mosaico inextricável de religiões. O ESL montou seu quartel-general na região central do jebel Akrad, que inclui cerca de 15 vilarejos exclusivamente sunitas. Mas ele não se aventura na periferia do maciço, onde se encontram os povoados alauítas ou mistos que são suspeitos de ter cumplicidade com o regime. Em 15 meses, o conflito levantou um muro em ziguezague entre as diferentes comunidades religiosas. De ambos os lados, a desconfiança parece irremediavelmente enraizada.
Em fila indiana, os fiéis pegam seus calçados de volta após a prece da sexta-feira, na saída da mesquita de Akko. Durante seu sermão, o xeque abençoou os revolucionários e lembrou que somente Deus poderia lhes dar a vitória. Ele foi nomeado recentemente e não consegue se impor junto aos jovens, que preferem seu antecessor, mais veemente: "O sermão de hoje foi meio mole", lamenta Ahmed, um jovem combatente que usa uma barba preta, ainda pouco volumosa.
Na entrada da mesquita, pequenos grupos se formam. Quase todos os velhos estão com a barba feita ou usam um bigodinho, parecido com o de Hafez al-Assad, o pai do tirano. Já os jovens usam barba. "A maioria dos thuwar usam barba sem bigode, à maneira dos salafistas. Tornou-se quase um sinal de reconhecimento", explica Ahmed, cuja barba nasceu junto com o levante: "A revolução revelou minha fé. Entendi a importância dos valores morais. Agora quero regular minha vida de acordo com os princípios do islamismo".
Ele vê em sua luta contra o regime de Bashar al-Assad um combate para que os valores do islã triunfem. Mas ele recusa qualquer influência estrangeira: "Minha evolução se deu naturalmente, conversando com outros combatentes. Quando se tem medo, pensar em Deus tranquiliza, e vemos que nossa vida não nos pertence".
Um combatente chega, com sua barba bem cheia. Em tom meio sério, meio de zombaria, os outros o chamam de xeque, por causa de sua devoção. "Aí está nosso terrorista da Al-Qaeda!", brinca Hassan, antes de explicar: "Ele conhece o Corão melhor que nós, ele nos guia durante a prece". Abu Mohammed, o xeque, conquistou o respeito de seus irmãos de armas permanecendo calmo nas situações mais críticas. Mas quando ele os surpreende olhando a tela de um celular mostrando a foto anódina de uma jovem sem véu, sua condenação é feita com rigor: "Haram [impuros]!"
Ismail, um jovem técnico em informática de Kabani, lamenta essa falta de tolerância. Durante seus estudos em Latakia, ele se apaixonou por uma jovem alauíta. Ele esperava se casar com ela, mas a revolução mudou seu destino. Obrigado a deixar Latakia, ele se juntou à sua família no jebel. "Ela queria que ficássemos juntos, mas minha família nunca teria aceitado". Ismail baixa o olhar, e tira seu telefone do bolso. "Nós nos falamos quase todos os dias. Escondido. Mas um de meus irmãos me pegou, e desde então tira sarro de mim". As mulheres alauítas, que antigamente eram cortejadas por jovens sunitas, hoje são desdenhadas por sua suposta leviandade.
Na sexta-feira, quando o xeque interage com os moradores dos vilarejos, Ismail aproveita uma brecha nas conversas para lhe fazer a pergunta que o atormenta: "Casar com uma cristã não é problema", garante seu interlocutor. "E uma mulher alauíta?" Depois de um momento de silêncio, o xeque determina: "Isso vai contra o islamismo".

Tradutor: Lana Lim


6 - 2º anos, 3º anos e PV
Fracassos esperados ou a esperança de fracassos
Fracasso de estreia do Facebook na Bolsa não diagnostica o futuro
Le Monde
Sylvain Cypel

O fracasso retumbante do Facebook em sua estreia na Bolsa não é necessariamente um prenúncio para o futuro.
Sabemos de ofertas públicas iniciais na Bolsa (IPO, sigla em inglês) que começaram com os melhores presságios antes de rapidamente se degradarem – a General Motors, em 2010, que voltou a Wall Street depois de seu resgate público dois anos antes – e de outras lançadas com dificuldades – "Eu não compro", proclamara Stephen Wozniak, cofundador da Apple, na ocasião da IPO do Google em 2004 – que, por fim, se revelaram notáveis sucessos. Em compensação, o alcance do debate que se iniciou nos Estados Unidos por conta desse fracasso é muito revelador.
De um lado, estão aqueles para quem esse revés da rede social é um acidente de percurso devido a um erro de apreciação de seu valor na Bolsa. Um acidente certamente desolador diante dos volumes financeiros em jogo, mas que não muda nada na visão geral que se pode ter sobre o funcionamento dos mercados, o futuro da internet ou o do Facebook, mais especificamente.
Do outro lado, aqueles para quem o fracasso evidencia problemas bem mais essenciais que a conjuntura da Bolsa. Estes consideram que essa IPO fracassada trouxe um questionamento mais global sobre o futuro das redes sociais, sobre o lugar da internet na economia e até mesmo, para alguns, as questões estratégicas da economia americana.
Um dos raros pontos de concordância entre os detentores dos dois pontos de vista é que a "incerteza" sobre o Facebook começou quando este comprou o Instagram, no dia 9 de abril. A rede social havia adquirido então por US$ 1 bilhão essa pequena empresa de 13 funcionários que desenvolvera um aplicativo fotográfico que a interessava. O preço foi pago sem que a novíssima start-up tivesse qualquer receita ou lucro.
Muitos investidores consideraram que essa equação, mesmo dentro da lógica financeira "bizarra" da internet, era insana. Como escreveu o analista da Reuters, James Saft, "é injusto criticar o Facebook por ter pago uma infinidade pela receita inexistente do Instagram. Isso porque o Facebook toma decisões racionais em um contexto que essencialmente não é racional".
O cronista conservador Ross Douthat resumiu essa ideia de um "contexto irracional" que estaria dominando a internet da seguinte maneira: segundo ele, duas grandes ilusões teriam marcado a primeira década do século 21 nos Estados Unidos. Primeiro, a de que o crescimento do setor imobiliário seria eterno. Depois, "que na era da web 2.0, finalmente iríamos entender como ganhar muito dinheiro com a internet". Para ele, a recente desventura do Facebook teria delimitado "os limites comerciais" da internet ou, mais precisamente, daqueles que ali prosperam contentando-se em oferecer um serviço "virtual", sem ter um produto específico para comercializar, como fazem as operadoras de telefonia, a Apple ou a Amazon.
Brett Gordon, professor associado na Business School de Columbia, em Nova York, reconhece que de fato a aquisição do Instagram pelo Facebook "instilou uma dúvida" entre os investidores. Mas, "por definição, uma empresa não tem outro valor além daquele que lhe conferem aqueles que o determinam". Acima de tudo, ele rejeita completamente a ideia da "irracionalidade" do mercado da internet e de sua incapacidade em gerar lucros. "Se a internet não fosse rentável, a ilusão teria sido desfeita há muito tempo", ele argumenta. Ele se diz convencido: para além de suas dificuldades conjunturais, o Facebook “continuará a crescer porque sua razão de ser perdurará. A rede se tornou o lugar da socialização mundial". E ele será altamente lucrativo: não se pode estar à beira da ruína quando se oferece um serviço buscado universalmente por 900 milhões de membros.
Não, responde Rich Karlgaard, editor da revista "Forbes", pois, se perdurar da forma como é, o Facebook, que foi ainda mais supervalorizado pela ideologia do momento do que por banqueiros de investimentos interessados, será somente um ator menor do futuro. Seus argumentos, apresentados no "Wall Street Journal", são os seguintes:
Um: o Vale do Silício está em "superaquecimento". A prova: logo após a compra do Instagram e pouco antes do episódio Facebook, outra jovem empresa local, chamada Splunk, foi introduzida na Bolsa. Valor inicial: US$ 37 a ação. Dois dias depois, ela valia US$ 27. "Cheirava a bolha, não?"
Dois: o ambiente será racionalizado. "No próprio Vale do Silício, investir em mídias sociais já é coisa do passado." A maior parte de seus atores entendeu que "foi-se o tempo dos grandes lucros no Facebook e nesse tipo de site".
Três: o futuro está na tecnologia que produz bens, não no laço virtual. "A última grande descoberta, para o Vale do Silício, não é nem o Instagram nem o Splunk, é o carro robotizado do Google". Isso, ele acredita, é algo sólido para um universo onde amanhã será preciso transportar 9 milhões de pessoas.
E conclui: "O made in USA terá sua grande volta. (...) Se os Estados Unidos tivessem de escolher um único dos três – Facebook, Twitter ou as perfurações [de gás] por fraturação – qual seria a escolha mais inteligente?"
Da introdução fracassada da rede na Bolsa até os grandes questionamentos atuais dos Estados Unidos (a "reindustrialização"), foi só um passo.
Tradutor: Lana Lim


7 - 3º anos e PV
A sombra grega
Sobrevivência do euro dependerá da forma como a UE lidará com a Grécia
Herald Tribune
Simon Tilford

A forma como a zona do euro lidar com a Grécia determinará se a moeda única sobreviverá –e consequentemente o futuro da União Europeia como um todo. Se uma saída da Grécia da zona do euro for mal administrada, o contágio para outros países membros em dificuldades poderia ser incontrolável, levando inexoravelmente ao colapso do euro.
Mas se uma saída grega for acompanhada por grandes reformas institucionais, a união monetária ainda poderia ser salva. De fato, uma saída grega poderia ser positiva para a zona do euro se abrisse o espaço político necessário para as autoridades alemãs abraçarem as reformas.
Alguns autores de políticas acreditam que uma saída da Grécia seria uma 'purificação' –que demonstraria a outras economias em dificuldades da zona do euro os riscos de voltarem atrás em suas metas fiscais ou nos termos dos programas de resgate. O risco de contágio seria limitado, já que os governos não teriam opção a não ser se curvarem, o que tranquilizaria os investidores sobre a sustentabilidade de suas finanças públicas. Segundo esse ponto de vista, a expulsão da Grécia tornaria óbvia a necessidade de grandes reformas institucionais na união monetária, como a mutualização da dívida ou uma proteção bancária na zona do euro.
Mas há vários problemas nessa linha de raciocínio. Primeiro, ela presume que a Grécia e outros países duramente atingidos da zona do euro poderiam cumprir suas metas fiscais caso se esforçassem. Esse é um exemplo do raciocínio falho que é responsável pela crise ter saído de controle.
A suposição é a de que se os gregos quiserem permanecer na união monetária, eles sabem o que têm que fazer: uma política fiscal tão dura quanto for necessário e a aprovação das reformas econômicas acertadas. A Grécia é reconhecidamente muito mal administrada. Mas essa narrativa ainda assim é enganadora, porque a austeridade fiscal exigida dos gregos tem se mostrado autodestrutiva, levando a economia a uma profunda recessão e causando um aumento dramático da dívida pública.
O segundo problema é que essa análise subestima o risco de contágio apresentado por uma saída grega. A crise grega já levou a um aumento acentuado dos custos de tomada de empréstimo para as economias mais fracas da zona do euro e causou uma maior perda de confiança dos investidores em seus bancos.
Os motivos para isso são óbvios: assim que fica claro que a associação à zona do euro não é para sempre, os riscos de emprestar para outros países membros (ou aos seus bancos) que enfrentam estagnação econômica e metas fiscais inatingíveis dentro da união monetária aumentarão ainda mais. A fuga de capital aceleraria, enfraquecendo os bancos e os governos que os apoiam.
O terceiro problema com a crença de que uma saída da Grécia de alguma forma seria uma experiência purificadora é a suposição de que a Grécia poderia ser simplesmente afastada e abandonada à própria sorte, como um trágico exemplo dos riscos do não cumprimento dos programas de resgate. Mas não é isso o que aconteceria. Além de ter que aceitar uma imensa baixa contábil nos empréstimos, o restante da zona do euro teria que fornecer apoio contínuo à Grécia visando escorar seus bancos e finanças públicas. A alternativa seria um colapso econômico e social.
Com a ajuda da zona do euro e do FMI, a Grécia poderia se recuperar de forma relativamente rápida fora da zona do euro, tornando a opção de saída atraente para outros países enfrentando depressão e uma erosão da soberania dentro da união monetária.
A melhor forma de limitar o contágio seria manter a Grécia na zona do euro. Mas os obstáculos políticos para a continuidade da Grécia no euro são quase intransponíveis. É verdade que a situação difícil da Grécia se deve muito às políticas que foi obrigada a adotar pela zona do euro, pelo FMI e pelo Banco Central Europeu.
Mas a corrupção do sistema político grego compreensivelmente dificulta para outros países fazerem concessões aos gregos ou se sentirem confiantes em compartilhar uma moeda comum com eles. As reformas necessárias para salvar o euro exigirão um grau elevado de solidariedade, algo que será difícil com a Grécia ainda na união monetária.
A questão, portanto, é como tornar a expulsão da Grécia compatível com a sobrevivência da moeda única.
A exclusão da Grécia claramente teria que ser acompanhada pela criação de um fundo de resgate muito maior, visando aumentar o tamanho do chamado "firewall" em torno de outros países vulneráveis.
Mas conter o contágio causado pela saída da Grécia do euro exigiria muito mais do que isso; ela exigiria três grandes reformas:
Primeiro, um acordo para mutualizar –isto é, assumir a responsabilidade conjunta por– uma proporção da dívida pública de cada país membro. Segundo, a introdução de uma proteção aos bancos da zona do euro, sob a qual a responsabilidade de escorar os bancos seria transferida dos governos nacionais para a zona do euro como um todo. Terceiro, um acordo para ampliar o mandato do Banco Central Europeu, abrindo o caminho para que ele assuma plenamente as funções de credor de último recurso exigidas de um banco central.
Uma saída da Grécia aumentaria, e não diminuiria, os desafios diante da moeda única. Longe de reduzir a necessidade de reformas institucionais fundamentais, uma saída da Grécia aumentaria a necessidade delas.
Se a união monetária quiser evitar o contágio, ela precisaria acompanhar a perda de seu membro mais controverso com medidas às quais países membros chave persistentemente se opõem.
A probabilidade disso acontecer dependerá em grande parte da Alemanha. As autoridades alemãs calcularão que as reformas fundamentais são de interesse político e econômico da Alemanha? E, se forem, elas conseguirão persuadir um país cético de que é o caso?

* Simon Tilford é o economista-chefe do Centro para Reforma Europeia.
Tradutor: George El Khouri Andolfato