domingo, 13 de maio de 2012

Intensivão - Uberaba - 2012-1 - Módulo 3 - O texto: tipologia textual e intertextualidade)

Módulo 3 – O texto
Por Estéfani Martins



Tipologia textual (protótipos textuais)

“Os textos também podem ser classificados levando-se em consideração o caráter da interação entre autor e leitor, pois o autor se propõe a fazer algo, e quando essa intenção está materialmente presente no texto, através das marcas formais, o leitor se dispõe a escutar, momentaneamente, o autor, para depois aceitar, julgar, rejeitar. Sob esse ponto de vista da interação podemos também distinguir os discursos narrativos, descritivos, argumentativos.”
(Kleiman)

“Gerar um texto significa executar uma estratégia de que fazem parte as previsões dos movimentos dos outros.” (Umberto Eco)

            As tipologias textuais ou protótipos textuais são mecanismos de construção textual/discursiva, os quais são produtos de capacidades e necessidades humanas usadas na interação com o meio, com o próprio íntimo e com o outro. Além disso, são formas de apreender, interferir e apresentar a realidade. Assim, mesmo timidamente, elas podem ser vistas desde tempos primordiais nas simples ações cotidianas de contar uma história; instruir ou ordenar; dialogar; expor um determinado conhecimento; descrever um desejo ou uma nova experiência sensorial; ou ainda defender um posicionamento ou uma visão de mundo.
            Quanto a questões técnicas, são sequências linguísticas com especificidades associadas às estruturas morfológicas mais comuns usadas no texto, a determinadas escolhas sintáticas, ao maior ou menor grau de subjetividade e conotação na linguagem empregada, a como são utilizados os verbos quanto ao modo, tempo e aspecto, ao uso das pessoas do discurso, etc.
            Para essas formas elementares de expressão, foram dados os nomes de narração, injunção ou instrução, diálogo, exposição, descrição e argumentação, as quais, de certa forma, tentam exprimir a experiência humana com o texto/discurso. Tais tipos textuais organizam-se também em função da finalidade e das intenções pretendidas pelos seus usuários.
Pode-se também dizer sobre os tipos de texto que, separados ou puros, é muito difícil encontrá-los, pois é mais comum estarem misturados na maioria dos gêneros textuais com os quais tomamos contato em nosso cotidiano. Quanto a essa questão, é importante ressaltar que não há pureza na maioria dos textos produzidos pelo homem quanto à tipologia textual, mas, sim, predominância de uma em relação à outra.
            Nesse sentido, alguns estudiosos definem essas relações como uma forma de nomear e hierarquizar a interação entre as tipologias textuais a partir de características substantivas (predominantes) e adjetivas (traços, recursos, ferramentas). Essas inúmeras possibilidades de interação entre as diferentes tipologias podem classificar um texto entre os mais variados gêneros textuais, são exemplos: a fábula, o conto, a dissertação, a carta, o manifesto, a crônica, a notícia, o artigo, o editorial, o sermão, etc. A seguir, seguem discussões detalhadas sobre as tipologias ou os protótipos textuais:

Tipologia textual descritiva

Descrever é perceber algo como se dele fizéssemos parte.”
(Vitório Sá)

“Entendo que para contar é necessário primeiramente construir um mundo, o mais mobiliado possível, até os últimos pormenores. Constrói-se um rio, duas margens, e na margem esquerda coloca-se um pescador, e esse pescador possui um temperamento agressivo e uma folha penal pouco limpa, pronto: pode-se começar a escrever, traduzindo em palavras o que não pode deixar de acontecer.”
(Umberto Eco)

_Transforma em linguagem aquilo que os cinco sentidos captam.
_Há a caracterização de pessoas, ambientes, objetos, sensações, etc., com a utilização dos cinco sentidos ou da imaginação criadora.
_Adjetivos, classificações, atributos e impressões são recursos descritivos obrigatórios.
_Constrói “imagensfísicas ou psicológicas de um determinado objeto, sensação, paisagem, pessoa, etc.
_O tempo verbal predominante é o presente.
_Recorte da realidade a partir de um ponto de vista físico ou ideológico.
_Amplo uso de verbos de ligação [ser, estar, permanecer, parecer, ficar, continuar, virar (tornar-se), etc.].
_Amplo uso de orações nominais.
_Preferência por períodos curtos e orações coordenadas.
_Amplo emprego de metáforas, comparações e outras figuras de linguagem.
_O texto descritivo prescinde de estrutura textual, a não ser pelo fato de, normalmente, ser estruturado de forma dedutiva, ou seja, parte de observações mais gerais para as mais particulares.
_A descrição pode ser objetiva ou subjetiva, o que independe do assunto do texto.
_Normalmente, transforma-se em ferramenta discursiva em textos jornalísticos, literários, científicos e didáticos.

s.f. ato ou efeito de descrever; reprodução, traçado, delimitação. 1 representação fiel; imitação, cópia, retrato. 2 representação oral ou escrita de; exposição. 3 estl lit desenvolvimento literário por meio do qual se representa o aspecto exterior de seres e coisas. 4 jur num processo, a enumeração circunstanciada, detalhada dos caracteres de algo (...). (Dicionário Houaiss Digital)

Exemplos:

Texto 9.1
            “Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, - únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.” (Trecho de “O Alienista” de Machado de Assis)

Texto 9.2
            “A Wikipédia é uma enciclopédia livre que está sendo construída por milhares de colaboradores de todo o mundo. Este é um site baseado no conceito de wiki, o que significa que qualquer internauta, inclusive você, pode editar o conteúdo de quase TODOS artigos acionando o link "Editar" (Nas abas de conteúdo) que é mostrado em quase todas as páginas do site.
O projeto Wikipédia foi iniciado em 15 de Janeiro de 2001, na versão em língua inglesa. Em apenas um ano de existência, esta versão já possuía quase 10.000 artigos. Até hoje já foram criados mais de 5 milhões de artigos em dezenas de línguas (246 932 artigos na versão em português). Todos os dias, centenas de colaboradores de todas as partes do mundo editam milhares de artigos e criam muitos artigos inteiramente novos.” (www.wikipedia.org.br)

Texto 9.3
            “Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechada e cinza, aqui contra a sacada, com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um através do outro. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu e se esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que se prende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.” (Júlio Cortázar)

Texto 9.4. A casa materna

Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas plantas, tinhorões a samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.
É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta de almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar.
A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para quartos cheios de sombras. Na estante, junto à escada, há um tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema de beleza: o verso.
Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoito de araruta – pois não há lugar mais propício do que a casa materna para uma boa ceia noturna . E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficaram guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna, sabe por que queima, às vezes, uma vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia.
A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como se marca ainda na velha poltrona da sala e como se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se faziam mais lentas e mãos filiais mais unidas em torno da grande mesa, onde já vibram também vozes infantis. (Vinícius de Morais)

Tipologia textual narrativa

               "Minha força vem da lembrança da infância na fazenda, de correr e subir em árvores. E das histórias fantásticas que as empregadas negras contavam."
(Tarsila do Amaral)

“Lembrava mais do passado que do presente. Morreu empoeirado.”
(Roberto Prado)

               “Contar histórias para crianças é a arte que melhor se adapta a nossa forma de pensar: tocam o ser humano há 4000 anos e o farão no ano 6000.”
(Margaret Read Mac Donald)

“Toda história de amor só presta se tiver, como ponto final, um beijo de mulher!”
(Menotti Del Picchia)

_Respeita uma determinada sequência no relato de fatos e acontecimentos reais ou imaginários (texto sequencial).
_Texto marcado por uma determinada cronologia de eventos e acontecimentos (temporalidade).
_Narrador, personagens, espaço, tempo e enredo são tradicionalmente elementos importantes para a caracterização do texto narrativo.
_Geralmente, respeita a seguinte estrutura textual: apresentação, desenvolvimento, clímax e desfecho ou, simplesmente, começo, meio e fim. Contudo, não é obrigatório que as partes da narrativa estejam dispostas exatamente dessa forma, além de, muitas vezes, ser comum encontrar narrativas sem apresentação ou desfecho.
_É comum a presença de personagens que, classicamente, enquadram-se na seguinte disposição: protagonista (herói), antagonista (vilão) e coadjuvante (personagem secundário).
_Presença de um conflito na narrativa que tende ao equilíbrio ou à solução, normalmente encontrada no clímax do texto.
_Verbos de ação ou processuais são fundamentais para existência desse tipo de texto.
_Presença intensa de advérbios e locuções adverbiais.
_Discurso direto, indireto e indireto livre são amplamente empregados.
_O tempo verbal predominante é o pretérito.
_É representada por textos de vários tamanhos, temáticas e estruturas, tais como o romance, a novela, o micro conto, o conto, a fábula, a narrativa oral, o cordel, etc., os quais podem ser escritos admitindo-se eixos temáticos que permitem classificar as narrativas como humorísticas, de aventura, de amor, de terror, de horror, de ficção científica, etc.

s.f. ação, processo ou efeito de narrar; narrativa 1 exposição escrita ou oral de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos sequenciados 2 cine tv fala que acompanha, comenta ou explica uma sequência de imagens que expõem um acontecimento ou uma série deles 3 o texto dessa fala 4 sequência de imagens que expõem ou mostram um acontecimento ou uma série deles. (Dicionário Houaiss Digital)

Exemplos:

Texto 9.5. Prólogo
Enfim, um indivíduo de idéias abertas

A coceira no ouvido atormentava. Pegou o molho de chaves, enfiou a mais fininha na cavidade. Coçou de leve o pavilhão, depois afundou no orifício encerado. E rodou, virou a pontinha da chave em beatitude, à procura daquele ponto exato em que cessaria a coceira.
Até que, traque, ouviu o leve estalo e, a chave enfim no seu encaixe, percebeu que a cabeça lentamente se abria. (Marina Colasanti, Contos de amor rasgados)

Texto 9.6
            70, 70, 70, 71, 95, zero. O coração parou. (Ricardo Barioni)

Texto 9.7
            Pensou em vender a alma. Buscou por dentro, não a encontrou. (Rosa Meire)

Texto 9.8. Dia dos namorados
Ontem. Dia dos namorados. Um casal beijava-se entregue numa praça, quando ocorreu um assalto. Horas depois, o namorado registrava a queixa em que anunciava o roubo de uma namorada. (Vitório Sá)

Texto 9.9. Fábula Curta
"Ai de mim!", disse o rato, – "o mundo vai ficando dia a dia mais estreito". "Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão rapidamente um ao encontro do outro que eis-me já no fim do percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair". "– Mas o que tens a fazer é mudar de direção", disse o gato, devorando-o. (Franz Kafka)

Texto 9.10. Era uma vez
            Olhei para o espelho. Queria que me dissesse a verdade da minha beleza e virtudes. Mas, disse-me: – Você é um nada, nunca irá existir!– joguei o espelho fora. Comprei outro.
Que se dane a verdade. Fui feliz(Dudu Oliva)

Tipologia textual injuntiva ou instrucional

_Uso de linguagem geralmente objetiva, precisa e clara para orientar e indicar procedimentos capazes de cumprir determinadas ações.
_Tem como objetivo que o interlocutor pratique uma determinada ação requerida, desejada; cumpra meticulosamente diferentes etapas - cronologicamente ordenadas - de execução de uma ação; seja orientado sobre o que ou como fazer determinada tarefa ou ação; seja incitado à realização de uma dada ação ou um procedimento; etc.
_Muitas vezes, um texto injuntivo tem a seguinte estruturação: 1ª parte: descrição dos materiais e circunstâncias necessárias para a realização da uma ação; 2ª parte: enumeração de procedimentos, os quais podem ser limitados quanto ao tempo, ao espaço, à quantidade, á qualidade e a circunstâncias a ater-se para o adequado desenvolvimento de algum projeto, ação ou procedimento.
_As formas verbais mais utilizadas na injunção são a 3ª pessoa do modo imperativo: "Depois de quentes, mexa todos os ingredientes."; o presente do indicativo com sujeito indeterminado: "Depois de quentes, mexe-se todos os ingredientes."; o infinitivo: "Depois de quentes, mexer todos os ingredientes.".
_Uso frequente de advérbios de modo e de negação.
_O enunciado é feito na perspectiva do fazer posterior ao tempo da enunciação.
_São exemplos dessa tipologia textual os manuais de instrução, as receitas culinárias, as constituições, os regimentos, etc.

s.f. 1.ato de injungir, de ordenar expressamente uma coisa; ordem precisa e formal. 2.influência coercitiva de leis, regras, costumes ou circunstâncias; imposição, exigência, pressão. (Dicionário Houaiss)

Exemplos:

Texto 9.11. Pennette di casa mia
Ingredientes:
200 g de tomates secos
1 dente de alho
2 filés de anchovas
500 g de tomates maduros sem pele
50 g de alcaparras
50 g de azeitonas pretas médias
1 berinjela
100 g de ricota de búfala
500 g de penne
1 colher de sopa de manteiga
2 colheres de sopa de azeite de oliva extravirgem
sal
pimenta moída
folhinhas de basílico
100 ml de vinho branco seco

Acompanhamento: Polpettine di Pesce
300 gr de peixe branco cortado fino
1 colher pequena de salsinha picada
1 ovo
1 pitada de alho picado
1 pitada de gengibre ralado fino, sal, pimenta

Preparo:
1 Fatie a berinjela pelo comprimento, bem fininha e coloque para grelhar no com azeite. 2 Em uma frigideira coloque o azeite, a manteiga e o alho bem batido. 3 Amasse os filés de anchova com um garfo. 4 Junte-os às alcaparras, as azeitonas sem caroço e adicione o vinho até evaporar. 5 Acrescente os tomates secos cortados em pedaços graúdos. 6 Após alguns minutos, junte os tomates frescos cortados em pedaços graúdos sem a semente. 7 Adicione o sal, a pimenta, a ricota. 8 Não deixe ferver e sim apenas incorporar o molho. 9 Cubra com as folhas de basílico. 10 Em outra panela, coloque a água para ferver, com uma colher média de sal. 11 Deixe cozinhar a massa de 6 a 8 minutos. 12 Escoe e junte a massa ao molho.

Montagem:
1 Distribua as fatias de berinjela ao redor de um prato. 2 Coloque a massa, o molho e feche com as respectivas fatias de berinjela que haviam ficado abertas. 3 O queijo parmesão é opcional

Acompanhamento:
Faça pequenas bolinhas. Passe na farinha e frite-as em óleo quente. Elas complementam o prato de penne, que deve estar previamente misturado ao molho. Calculamos três unidades por pessoa.

Rendimento: 3 porções
Menu: prato principal
Cozinha: italiana

Texto 9.12 - Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio
Pensa nisto: quando te oferecem um relógio, oferecem-te um pequeno inferno florido, uma prisão de rosas, um calabouço de ar. Não te dão somente o relógio, muitos parabéns, que te dure muitos e bons, é uma ótima marca, suíço com não sei quantos rubis, não te oferecem somente esse pequeno pedreiro que prenderás ao pulso e passeará contigo. Oferecem-te -- ignoram-no, é terrível ignorá-lo -- um novo bocado frágil e precário de ti mesmo, algo que é teu mas não é o teu corpo, que tens de prender ao teu corpo com uma correia, como um bracito desesperado pendente do pulso. Oferecem-te a necessidade de lhe dar corda todos os dias, a obrigação de dar corda para que continue a ser um relógio; oferecem-te a obsessão de ver as horas certas nas montras das joalharias, o sinal horário na rádio, o serviço telefônico. Oferecem-te o medo de o perder, de seres roubado, de que caia ao chão e se parta. Oferecem-te uma marca, a convicção de que é uma marca superior às outras, oferecem-te a tentação de comparares o teu com os outros relógios. Não te oferecem um relógio, és tu o oferecido, a ti oferecem para o nascimento do relógio.

Instruções para dar corda ao relógio

Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as velas do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte, se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada. (Julio Cortázar)

Tipologia textual expositiva

“O escritor curto em idéias e fatos será, naturalmente, um autor de idéias curtas, assim como de um sujeito de escasso miolo na cachola, de uma cabeça de coco velado, não se poderá esperar senão breves análises e chochas tolices.” (Rui Barbosa)

_Uso da linguagem com o intuito de explanar, de fazer entender ou conhecer determinado assunto, de enumerar, de definir, ou seja, de explicar determinado tema com a pretensão de ser imparcial para que o leitor, o ouvinte ou o interlocutor possa informar-se sobre o assunto exposto.
_Há certo distanciamento do autor do texto em relação ao assunto por ele abordado, o que pode produzir um caráter razoavelmente imparcial ao texto.
_Presença intensa de orações coordenadas explicativas e subordinadas adjetivas explicativas.
_Predomínio da ordem direta na construção das orações e frases.
_Na maioria das vezes, a exposição das ideias e fatos respeita uma temporalidade lógica.
_A norma padrão é normalmente exigida na confecção desse tipo de texto, em especial, nos escritos.
_Uso de conectivos de esclarecimento, reiteração ou reformulação com o intuito de facilitar, esclarecer e explicar mais detalhadamente o conteúdo do texto (isto é, ou seja, em outras palavras, etc.).
_Emprego de exemplificações (por exemplo, a saber, etc.).
_Pode-se fazer uso de comparações e analogias para facilitar a compreensão das ideias expostas no texto.
_É possível encontrar textos expositivos construídos com mais de uma explicação sobre um mesmo assunto, com o intuito de que, pela enumeração de diversos pontos de vista sobre tal tema, um determinado interlocutor se informe para melhor produzir suas próprias conclusões sobre o assunto em questão.
_É um texto com preocupações informativas.
_São exemplos dessa tipologia textual a notícia, muitas dissertações, o livro didático, alguns documentos científicos, etc.

s.f. 1. apresentação organizada de um assunto, oralmente ou por escrito; palestra, explanação. 1.1 ação de declarar, de manifestar. (Dicionário Houaiss)

Exemplos:

Texto 9.13. Superdotados - Como identificar um superdotado e as dificuldades que eles enfrentam
Os superdotados causam admiração e inveja, mas não têm uma vida tão fácil quanto parece. Afinal, é bacana ser chamado de gênio, mas ninguém quer ser o C.D.F, o nerd do colégio, e ganhar a antipatia da turma. Outro problema é a burocracia e a falta de oportunidades. Nem sempre eles têm permissão do colégio para pular séries ou entrar numa faculdade muito novos.
Quem não pode entrar numa instituição especializada, acaba fingindo saber menos para se igualar aos colegas da mesma idade. Por isso, é comum que crianças extremamente inteligentes tenham desempenho ruim na escola. Já imaginou estudar tabuada sabendo resolver problemas complexos de matemática? Ou ser obrigado a ler o alfabeto já sabendo duas línguas? É um convite ao tédio... “É preciso estimular essas crianças, dar a oportunidade para que elas desenvolvam seu potencial”, diz Clara Sodré, doutora em superdotação pela Universidade de Columbia, em Nova York.
Aliás, o termo “superdotado”, não agrada aos especialistas da área. Zenita Guenther, fundadora do Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento (Cedet), diz que o termo “superdotado” é uma tradução mal feita do inglês. Os especialistas preferem usar a expressão “crianças e jovens com dotação e talento”.
Veja no quadro abaixo algumas características que ajudam a identificar crianças e jovens com esse potencial:

- curiosidade aguçada
- memória acentuada
- persistência nos objetivos
- gosto por desafios
- rapidez para aprender
- vocabulário inusitado para a idade
- senso de humor apurado
(www.mundoestranho.com.br)

Texto 9.14. De onde vem a expressão rock and roll?
A expressão, que literalmente significa "balançar e rolar", fazia parte da gíria dos negros americanos desde as primeiras décadas do século XX, para referir-se ao ato sexual. Assim, ela já aparecia em várias letras de blues e rhythm’n’blues como "Good Rockin’ Tonight" (1947), de Roy Brown - antes de ser adotada como nome do novo estilo musical, que surgiu nos anos 50, com Bill Halley e Elvis Presley, e consistia basicamente na fusão desses ritmos negros com a branquela música country. Esse batismo costuma ser atribuído ao disc-jóquei americano Alan Freed (1922-1965), cujo programa de rádio foi um dos principais responsáveis pela popularização da nova onda, altamente dançante, que logo contagiou toda a juventude do país e do mundo.
Na década de 60, o rótulo foi abreviado para rock, para abranger as mudanças provocadas por artistas como Bob Dylan e Beatles, abrindo um leque de infinitas variações: rock psicodélico, rock progressivo, folk rock, hard rock, heavy metal etc etc. A partir daí, o termo rock’n’roll passou a significar exclusivamente o estilo original, característico da década de 50.


Tipologia textual argumentativa

“Na dissertação podemos expor, sem combater, idéias de que discordamos ou que nos são indiferentes. Um professor de filosofia pode fazer uma explanação sobre o existencialismo ou o marxismo com absoluta isenção, dando dessas doutrinas uma idéia exata, fiel, sem tentar convencer seus alunos das verdades ou falsidades numa ou noutra contidas, sem tentar formar lhes a opinião, deixando os, ao contrário, em inteira liberdade de se decidirem por qualquer delas. Mas, se, por ser positivista, fizer a respeito da doutrina de Comte uma exposição com o propósito de influenciar seus ouvintes, de Ihes formar a opinião, de convertê-los em adeptos do positivismo, com o propósito, enfim, de mostrar ou provar as vantagens, a conveniência, a verdade, em suma, da filosofia comtista — se assim proceder, esse professor estará argumentando. Argumentar é, em última análise, convencer ou tentar convencer mediante a apresentação de razões, em face da evidência das provas e à luz de um raciocínio coerente e consistente.”
(Othon M. Garcia)

"Nada é mais perigoso do que uma idéia quando se tem apenas uma."
(Émile-Auguste Chartier)

"Não é triste mudar de idéias, triste é não ter idéias para mudar."
(Barão de Itararé)


_Defesa de um ponto de vista acerca de algum assunto, ideia ou conceito.
_Utilização da linguagem com o objetivo de, por meio de exposição de fatos, ideias e conceitos, chegar a conclusões lógicas e verossímeis que possam convencer alguém sobre um determinado posicionamento ou opinião.
_Uso de recursos lógicos com a intenção de fazer convencer o leitor ou o ouvinte de um determinado ponto de vista.
_Emprego de recursos retóricos para cumprir os objetivos argumentativos do texto.
_Pode empregar até mesmo recursos emotivos com o intuito de convencer alguém.
_Podem ser empregados recursos denotativos ou conotativos na construção de argumentos, ainda que aqueles sejam mais frequentemente utilizados.
_A presença de mais de um ponto de vista em um texto argumentativo pode ser explicada pelo recurso retórico em que, para reforçar determinada posição sobre um tema, refuta-se outras, ou seja, constrói-se um contra-argumento.
_São exemplos dessa tipologia textual o sermão, muitas dissertações científicas, as defesas orais de advogados em julgamentos, etc.

s.f. 1.arte, ato ou efeito de argumentar. 2. Derivação: por extensão de sentido. troca de palavras em controvérsia, disputa; discussão. 3. Rubrica: termo jurídico. conjunto de idéias, fatos que constituem os argumentos que levam ao convencimento ou conclusão de (algo ou alguém). 4. Rubrica: literatura, estilística. no desenvolvimento do discurso, corresponde aos recursos lógicos, como silogismos, paradoxos etc. ger. acompanhados de exemplos, que induzem à aceitação de uma tese e à conclusão geral e final. (Dicionário Houaiss)

Exemplos:

Texto 9.15
            “Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso enconfuso, depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o Mundo fora santo. Este argumento de fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as histórias eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do Mundo; os reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? -- Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta, tão grande e tão importante dúvida, será a matéria do sermão. Quero começar pregando-me a mim. A mim será, e também a vós; a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais a ouvir.
Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus? (...)” (Padre Antônio Vieira)

Texto 9.16
“Odeio os indiferentes. Como Friedrich Habel, acredito que viver significa tomar partido. Não podem existir apenas homens, estranhos a cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é viver sem vontade, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, e a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes os leva a desistir da gesta heróica. (...)” (Antônio Gramsci)

Texto 9.17
            "A poesia deixa algo em cada leitor: uma sílaba, uma metáfora, um conceito, uma visão do universo. Cada verso é de natural ambíguo, tem duas caras, como certas pessoas que eu conheço, ou cem, ou mil. As palavras não dispõem apenas de uma carteira de identidade;usam várias, como os ladrões ou os contrabandistas. Costumam sair disfarçadas, ou incógnitas, ou fantasiadas como no Carnaval. O demónio da polissemia que habita nelas como uma segunda natureza, torna-as verdadeiros camaleões, que tomam a cor da paisagem ou do instante." (Ledo Ivo)

Texto 9.18
            "Creio na verdade fundamental de todas as grandes religiões do mundo. Creio que são todas concedidas por Deus e creio que eram necessárias para os povos a quem essas religiões foram reveladas. E creio que se pudéssemos todos ler as escrituras das diferentes fés, sob o ponto de vista de seus respectivos seguidores, haveríamos de descobrir que, no fundo, foram todas a mesma coisa e sempre úteis umas às outras."  (Mahatma Gandhi)

Texto 9.19
            "Uma estranha loucura apossa-se das classes operárias das nações onde impera a civilização capitalista. Esta loucura tem como conseqüência as misérias individuais e sociais que [...] torturam a triste humanidade. Esta loucura é o amor pelo trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do indivíduo e sua prole. Em vez de reagir contra essa aberração mental, os padres, economistas, moralistas sacrossantificaram o trabalho. Pessoas cegas e limitadas quiseram ser mais sábias que seu próprio deus; pessoas fracas e desprezíveis quiseram reabilitar aquilo que seu próprio deus havia amaldiçoado. Eu, que não sou cristão, ecônomo ou moralista, no lugar do juízo que proferiram, invoco o juízo do deus delas; no lugar das pregações de sua moral religiosa, econômica, livre-pensadora, invoco as terríveis conseqüências do trabalho na sociedade capitalista.
(...)
Essas misérias individuais e sociais, por maiores e mais numerosas que sejam, por mais eternas que possam parecer, desaparecerão como as hienas e os chacais quando o leão aparecer no dia em que o proletariado disser: ‘quero que assim seja’. Mas para que tenha consciência de sua força, é preciso que o proletariado pisoteie os preconceitos da moral cristã, econômica e livre-pensadora; é preciso que volte a seus instintos naturais, que proclame os Direitos à Preguiça, mil vezes mais nobres e mais sagrados que os tísicos Direitos do Homem, arquitetados pelos adversários metafísicos da revolução burguesa. É preciso que ele se obrigue a não trabalhar mais que três horas por dia, não fazendo mais nada, festejando, pelo resto do dia e da noite.” (Excertos do clássico Direito à Preguiça, de Paul Lafargue.)

Tipologia textual dialogal ou conversacional

_Texto produzido por, ao menos, dois interlocutores que falam preferencialmente sob a lógica dos turnos, ou seja, um por vez.
_Quanto ao tamanho, não se pode prevê-lo, visto que um diálogo pode se dar num rápido encontro ou mesmo num debate em um programa como “Café filosófico” ou “Diálogos impertinentes”.
_Uso recorrente de elementos fáticos.
_Recepção imediata do ato comunicativo.
_Muitos turnos de conversação organizados sob a lógica da pergunta e da resposta.
_Presença constante de sinais gráficos que almejam reproduzir alguns recursos inerentes à oralidade, tais como as reticências, os sinais de pontuação de entoação, onomatopeias, etc.
_Situação comunicativa construída na perspectiva de uma interação entre os interlocutores. _São exemplos a conversa telefônica, o debate, a entrevista, etc.

s.m. 1  fala em que há a interação entre dois ou mais indivíduos; colóquio, conversa. 2 contato e discussão entre duas partes em busca de um acordo 3 conjunto das palavras trocadas pelas personagens de um romance, filme etc.; fala que um autor atribui a cada personagem 4 obra em forma de conversação com fins expositivos, explanatórios ou didáticos. (Dicionário Houaiss)

Exemplos:

Texto 9.20.Casal é tudo igual
Luís Fernando Veríssimo

Ele: – Alô?
Ela: – Pronto.
Ele: – Voz estranha… Gripada?
Ela: – Faringite.
Ele: – Deve ser o sereno. No mínimo tá saindo todas as noites pra badalar.
Ela: – E se estivesse? Algum problema?
Ele: – Não, imagina! Agora, você é uma mulher livre.
Ela: – E você? Sua voz também está diferente. Faringite?
Ele: – Constipado.
Ela: – Constipado? Você nunca usou esta palavra na vida.
Ele: – A gente aprende.
Ela: – Tá vendo? A separação serviu para alguma coisa.
Ele: – Viver sozinho é bom. A gente cresce.
Ela: – Você sempre viveu sozinho. Até quando casado só fez o que quis.
Ele: – Maldade sua, pois deixei de lado várias coisas quando a gente se casou.
Ela: – Evidente! Só faltava você continuar rebolando nas discotecas com as amigas.
Ele: – Já você não abriu mão de nada. Não deixou de ver novela, passear no shopping, comprar jóias, conversar ao telefone com as amigas durante horas…
… Silêncio ….
Ela: – Comprar jóias? De onde você tirou essa idéia? A única coisa que comprei em quinze anos de casamento foi um par de brincos.
Ele: – Quinze anos? Pensei que fosse bem menos.
Ela: – A memória dos homens é um caso de polícia!
Ele: – Mas conversar com as amigas no telefone…
Ela: – Solidão, meu caro, cansaço… Trabalhar fora, cuidar das crianças e ainda preparar o jantar para o HERÓI que chega à noite…Convenhamos, não chega a ser uma roda-gigante de emoções…
Ele: – Você nunca reclamou disso.
Ela: – E você me perguntou alguma vez?
Ele: – Lá vem você de novo… As poucas coisas que eu achava que estavam certas… Isso também era errado!?
Ela – Evidente, a gente não conversava nunca…
Ele: – Faltou diálogo, é isso? Na hora, ninguém fala nada. Aparece um impasse e as mulheres não reclamam. Depois, dizem que faltou diálogo. As mulheres são de Marte.
Ela: – E vocês são de Saturno!
…Silêncio…
Ele: – E aí, como vai a vida?
Ela: – Nunca estive tão bem. Livre para pensar, ninguém pra me dizer o que devo fazer…
Ele: – E isso é bom?
Ela: – Pense o que quiser, mas quinze anos de jornada são de enlouquecer qualquer uma.
Ele: – Eu nunca fui autoritário!
Ela: – Também nunca foi compreensivo!
Ele: – Jamais dei a entender que era perfeito. Tenho minhas limitações como qualquer mortal..
Ela: – Limitado e omisso como qualquer mortal.
Ele: – Você nunca foi irônica.
Ela: – Isso a gente aprende também.
Ele: – Eu sempre te apoiei.
Ela: – Lógico. Se não me engano foi no segundo mês de casamento que você lavou a única louça da tua vida. Um apoio inestimável…Sinceramente, eu não sei o que faria sem você. Ou você acha que fazer vinte caipirinhas numa tarde para um bando de marmanjos que assistem ao jogo da Copa do Mundo era realmente o meu grande objetivo na vida?
Ele: – Do que você está falando?
Ela: – Ah, não lembra?
Ele: – Ana, eu detesto futebol.
Ela: – Ana!? Esqueceu meu nome também? Alexandre, você ficou louco?
Ele: – Alexandre? Meu nome é Ronaldo!
…Silêncio…
Ele: – De onde está falando?
Ela: – 578 9922
Ele: – Não é o 579 9222?
Ela: – Não.
Ele: – Ah, desculpe, foi engano.
Depois de um tempo ambos caem na gargalhada.
Ele: Quer dizer que você faz uma ótima caipirinha, hein?
Ela: – Modéstia à parte… Mas não gosto, prefiro vinho tinto.
Ele: – Mesmo? Vinho é a minha bebida preferida!
Ela: – E detesta futebol?
Ele: – Deus me livre… 22 caras correndo atrás de uma bola… Acho ridículo!
Ela: – Bem, você me dá licença, mas eu vou preparar o jantar.
Ele: – Que pena… O meu já está pronto. Risoto, minha especialidade!
Ela: – Mentira! É o meu prato predileto…
Ele: – Mesmo! Bem, a porção dá pra dois, e estou abrindo um Chianti também. Você não gostaria de…
Ela: – Adoraria!
Ele dá o endereço.
Ela: – Nossa, tão pertinho! São dois quarteirões daqui.
Ele: – Então? É pegar ou largar.
Ela: – Tô passando aí, Ronaldo.
Ele: – Combinado, vizinha.

Texto 9.21
            Primeira marionete anuncia o espetáculo:
            - "Senhoras e senhores, temos a honra de apresentar um grande drama social. O espetáculo provará que o erro é sempre punido".
            Segunda marionete interrompe:
            - "Senhoras e senhores, temos a honra e apresentar uma comédia moral".
            - "O que faz aqui?", surpreende-se a primeira marionete.
            - "Apresento a comédia", responde a segunda.
            - "De jeito nenhum. É comigo", retruca a primeira.
            Então, surge a terceira marionete, pondo fim à discussão das outras duas:
            - "Senhoras e senhores, não lhes dêem ouvidos. A peça não é nem um drama nem uma comédia. Ela não tem intenção moral e não provará nada. Os personagens não são heróis nem tratantes, são pobres homens como eu e vocês. ele é bom, tímido, não muito jovem e muito ingênuo. Tem uma cultura intelectual e sentimental inferior, de modo que, em seu meio, parece um imbecil. Ela ... é uma moça de charme próprio e a vulgaridade em pessoa. É sempre sincera: mente o tempo todo. O outro ... é o jovem Dédé, e nada mais. E agora, senhoras e senhores, o espetáculo vai começar. (Introdução de A cadela, de Jean Renoir. O primeiro grande filme do mestre francês, de 1931)

Texto 9.22
            – no caixão...
            – Sim, paizinho.
            – ...não deixe essa me beijar. (Dalton Trevisan)

Texto 9.23
            Respostas a uma entrevista:
            - Qual o maior poeta brasileiro atual?
            - Deixa disso. Nenhum poeta é cavalo de corrida para ser obrigado a chegar em primeiro lugar. (Mario Quintana)

Intertextualidade

“...escrever, pois, é sempre reescrever, não difere de citar. A citação, graças à confusão metonímica a que preside, é leitura e escrita, une o ato de leitura ao de escrita. Ler ou escrever é realizar um ato de citação.”
(Antoine Compagnon)

“Se todo texto é só uma série de citações anônimas, não susceptíveis de atribuições, por que então assinar um texto defendendo essa intertextualidade absoluta? Se o texto moderno, segundo Barthes, essa ‘citação sem aspas’, por que deveria ficar ligado a um nome, uma vez que esse nome não poderia, de modo algum, atestar ou indicar a origem?”
(Michel Schneider)

“A intertextualidade tornou-se, hoje, um conceito operatório indispensável para a compreensão da literatura. Ele caracteriza o romance moderno como dialógico, isto é, como um tipo de texto em que as diversas vozes da sociedade estão presentes e se entrecruzam, relativizando o poder de uma única voz condutora. Mikhail Bakhtin compara a intertextualidade à língua, dizendo que esta “não é propriedade de algum indivíduo em particular, nem é, por outro lado, um objeto independente da existência dos indivíduos”. Exatamente no espaço dos intercâmbios, dos conflitos, das vozes que se propagam e se influenciam sem cessar situa-se a linguagem como processo social. A linguagem, em qualquer de suas manifestações, teria uma base relacional, interacional, ao processar-se entre os indivíduos de uma sociedade.”
(Juan Bordenave)

“(...) todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto.”
(Julia Kristeva)

            A intertextualidade, como a própria palavra já denuncia, é a relação estabelecida entre textos diferentes com o intuito de compor matéria “nova” a partir de conhecimento anterior. Essa prática é inerente a qualquer produção linguística humana, visto que produzimos linguagem a partir de referências, modelos e padrões que nos precedem, os quais são em algum sentido formadores da nossa experiência como usuários de uma dada linguagem.
            Dessa forma, é impossível afirmar que algum texto nasce alheio a referências constituintes de sua forma e conteúdo, ou seja, não há autonomia textual no tocante ao fato de alguém produzir um texto inédito em todas as suas peculiaridades linguísticas. Isso seria se não impossível, irrealizável, já que ele se tornaria incompreensível.
            Além disso, pode-se até dizer que a intertextualidade realiza-se também no exercício da leitura, porque parte das intertextualidades comunicadas conscientemente ou não pelo autor de um texto também podem ou não ser entendidas pelo leitor, visto que, para reconhecê-las, é fundamental o conhecimento do leitor sobre tais referências. Além disso, o leitor pode atribuir ao texto padrões de intertextualidade que mesmo o autor dele desconhece, o que confere ao texto e a qualquer forma de comunicação humana o título de obra sempre inacabada ou aberta, dependente do olhar temporal, espacial e circunstancial em relação ao outro e ao dinamismo entre o que se fala ou escreve e o que se ouve ou lê. Michel de Montaigne bem definiu essa relação no famoso aforismo: “A palavra é metade de quem a pronuncia e metade de quem a escuta.”
            A intertextualidade está, portanto, presente tanto na produção como na recepção da vasta experiência cultural humana da qual somos ao mesmo tempo assunto, meio, emissor, receptor e analista. Tal multifacetado processo faz crer na onipresença da intertextualidade como formadora de discursos e como auxiliar na interpretação deles. Eis a prática, por muitas vezes arte, de poemas serem precedidos de aforismos, de propagandas apropriarem-se de músicas famosas, de filmes dialogarem com outros filmes, de obras de arte serem inspiradas em outras manifestações artísticas, etc., ou seja, dos textos estabelecerem relações entre si, por serem construídos por uma rede de associações mútuas, constantes e inesgotáveis. Como é o caso do exemplo: “Quando voltou do cinema, a família ainda agonizava.” (Idelber Avelar)

Podem ser destacados seis tipos de intertextualidade explícita:

1 - Epígrafe

“Sinto que meu copo é grande demais para mim, e ainda bebo no copo dos outros.”
(Mário de Andrade)

A epígrafe constitui um texto breve ou parte dele introdutório a outro, como forma de abertura de um poema, um ensaio, um conto, uma tese, etc. Comumente, serve de resumo, síntese ou introdução às informações seguintes, até porque é escrito logo abaixo do título da obra ou em página a parte.

Epitáfio Dark nº 1

“Existem coisas conhecidas e coisas desconhecidas, entre elas estão as portas.”
(Jim Morrison)

“Se as portas da percepção fossem abertas, tudo pareceria aos homens como realmente é, infinito.”
(Willian Blake)

me sinto
fora de foco
in loco
foto pose finale
no hotel del leito louco
outra lacraia sem apoio
mas me sinto
o sentido nato de escroto
leite de porco & corvo
aborto nesta ilustração de tinteiro absorto
absurdo espanto & destôo
gota e gota

(Sérgio Luiz Blank)

2 - Citação

“Somos feitos de citações.”
(Gustave Flaubert)

A citação é uma transcrição de texto alheio, marcada por aspas. A citação pode ser usada como meio para, ao se fazer referência às ideias do outro tal qual ele as enunciou, legitimar a tese ou abordagem argumentativa do texto que a  contém, ou seja, é base para o argumento de autoridade: citar o pensamento alheio como forma de autenticar um ponto de vista sobre o quer que seja.

“O mangue beat pode ser classificado como um típico fenômeno pós-moderno de hibridismo cultural, caracterizado por uma assimilação da cultura hegemônica decorrente dos processos de globalização, porém de uma forma negociada, resgatando e preservando as raízes de uma identidade regional como forma de resistência ao caráter homogenizador desses mesmos processos. Segundo Leão: ‘O consumo de signos estrangeiros não se configura como recepção passiva, despolitizada, mas como apropriação que instaura o espaço da mediação cultural, onde a hegemonia vai ser desafiada.’” (Luciano de Azambuja)

3 - Paráfrase

“...um texto é sempre depositário de elementos vindos de outros textos, o que vem apontar então para o caráter intertextual que deverá ter sua leitura.”
(Jacques Derrida)

A paráfrase é a reprodução de um texto, aqui chamado original, com outras palavras, com outros recursos linguísticos, porém com o objetivo de manter integralmente as informações comunicadas no texto fonte, ou seja, é a versão de um dado texto no seu próprio idioma. Pode também ter o intuito de tornar mais claro e objetivo o que se comunicou em um texto anterior no tempo. Dessa forma, configura-se como um tipo de reescritura de um texto pré-existente, ou seja, uma forma de traduzir em que não se altera o idioma em nenhum momento do exercício de intertextualidade. São exemplos:

Moralmente, é tão condenável não querer saber se uma coisa é verdade ou não, desde que ela nos prazer, quanto não querer saber como conseguimos o dinheiro, desde que ele esteja na nossa mão.” (Edmund Way Teale)
Eticamente, tal como ignorar o que é verdadeiro, em troca de satisfação pessoal, é igualmente questionável ignorar a origem de uma riqueza, desde que ela seja de nossa propriedade.

“O universo não foi feito à medida do ser humano, mas tampouco lhe é adverso: é-lhe indiferente.” (Carl Sagan)
O cosmo não foi concebido tendo como parâmetro o homem, porém não se opõe a ele: é apenas insensível a sua presença.

4 - Paródia

“A paródia é a carnavalização da vida.”
(Vitório Sá)

A paródia é um mecanismo de apropriação do texto alheio a fim pervertê-lo com a ajuda da ironia, do escracho, da crítica, em lugar de ratificar as ideias dele, como é o caso da paráfrase. Pode ser construída sutil ou escancaradamente. A paródia é especialmente comum em filmes, em músicas e na literatura. São exemplos os filmes “A vida de Brian” e “Todo mundo em pânico”, que fazem paródias, no primeiro caso, da vida de Jesus Cristo e, no segundo, de vários filmes de terror. Pode-se citar também a obra de bandas como “Língua de Trapo” e “Mamonas Assassinas”. Na literatura, tal como na arte, são muitos os exemplos, eis talvez o mais conhecido:

Exemplo 1

Canção do exílio

Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühen?
Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!
Möchtl ich... ziehn. *
(Goethe)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

(Gonçalves Dias. Coimbra - julho 1843)

* - "Conheces a região onde florescem os limoeiros ?
laranjas de ouro ardem no verde escuro da folhagem;
conheces bem? Nesse lugar,
eu desejava estar" (Mignon, de Goethe)

Canção do exílio facilitada

lá?
ah!
sabiá...
papá...
maná...
sofá...
sinhá...

cá?
bah!

(José Paulo Paes)

Minha terra não tem palmeiras …
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem refúgios,
Cada qual com a sua hora
Nos mais diversos instantes …
Mas onde o instante de agora?

Mas a palavra “onde”?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus de minha terra
Eu canto a Canção do Exílio.

(Mário Quintana)

Exemplo 2

Amor à Terra

Laranja na mesa.
Bendita a árvore
que te pariu.

(Poema atribuído à Clarice Lispector)

5 - Tradução

“Quem não conhece línguas estrangeiras não sabe nada a respeito da sua própria.”
(Goethe)

“Qualquer bobagem em francês soa como uma dessas verdades inapeláveis e eternas.”
(Nelson Rodrigues)

A tradução é a versão de um texto em outro idioma, está no contexto da intertextualidade já que, ao transpor qualquer texto, especialmente os literários, para um outro idioma, pode ocorrer de duas traduções serem divergentes em alguns pontos. Isso ocorre em virtude das muitas interpretações que expressões populares, incompatibilidades vocabulares, ironias, metáforas, polifonias, etc., podem permitir. Certamente, por isso, George Borrow, bem definiu o ato de traduzir com o aforismo: “Toda tradução é, no melhor dos casos, um eco.”. A seguir, veja algumas traduções do famoso poema “O Corvo”, do escritor inglês Edgar Allan Poe:

“Once upon a midnight dreary, while i ponde-red
weak ande weary
Over many a quaint and curious volume of for-got-
tem lore, while i modded, neraly napping, su-ddenly
there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at may
chamber door
Only this and nothing more.” (Edgar A. Poe)

1

“Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
‘Uma visita’ eu me disse, ‘está batendo a meus umbrais
E só isto, e nada mais.” (Tradução de Fernando Pessoa)

2

“Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
‘É alguém que me bate à porta de mansinho:
Há de ser isso e nada mais.” (Tradução de Machado de Assis)

6 - Alusão

A alusão é toda referência direta ou indireta, intencional ou não, ao título de uma obra, um personagem, uma situação descrita numa obra, etc., pertencente ao mundo do literário, do artístico, do mitológico, etc., e que seja potencialmente do conhecimento do interlocutor. Machado de Assis é bom exemplo desse tipo de intertextualidade quando, dentre outras ocasiões em muitos de seus livros, alude a Otelo, personagem da obra de Shakespeare, em seu livro dom Casmurro como uma forma de comparação entre os dramas vividos por aquele e por Bentinho nas obras em questão.

“No filme “Matrix”, o ator protagonista Keanu Reeves guarda seus programas de paraísos artificiais no fundo falso do livro “Simulacros e Simulação”, de Baudrillard. Keanu leu o livro e adorava citá-lo em suas entrevistas, mas Baudrillard não gostava do filme. Dizia que se inspiraram nele, mas não o compreenderam.” (Revista Época)

“Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço, — um simples lenço! — e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há, e valem só as camisas. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira; não queria expor-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerências, até que o pano subia e continuava a peça. O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público.” (Machado de Assis, Dom Casmurro)

Assim como as filhas de sua madrasta, a Gata Boralheira calça 34.
(J. Novelino)

Depois do beijo do príncipe, a Bela Adormecida começou a ter insônia.
(J. Novelino)

Epitáfio Para o Sec. XX

1. Aqui jaz um século
onde houve duas ou três guerras
mundiais e milhares
de outras pequenas
e igualmente bestiais.

2. Aqui jaz um século
onde se acreditou
que estar à esquerda
ou à direita
eram questões centrais.

3. Aqui jaz um século
que quase se esvaiu
na nuvem atômica.
Salvaram-no o acaso
e os pacifistas
com sua homeopática
atitude
-nux vômica.

4. Aqui jaz o século
que um muro dividiu.
Um século de concreto
armado, canceroso,
drogado,empestado,
que enfim sobreviveu
às bactérias que pariu.

5. Aqui jaz um século
que se abismou
com as estrelas
nas telas
e que o suicídio
de supernovas
contemplou.
Um século filmado
que o vento levou.

6. Aqui jaz um século
semiótico e despótico,
que se pensou dialético
e foi patético e aidético.
Um século que decretou
a morte de Deus,
a morte da história,
a morte do homem,
em que se pisou na Lua
e se morreu de fome.

7. Aqui jaz um século
que opondo classe a classe
quase se desclassificou.
Século cheio de anátemas
e antenas,sibérias e gestapos
e ideológicas safenas;
século tecnicolor
que tudo transplantou
e o branco, do negro,
a custo aproximou.

8. Aqui jaz um século
que se deitou no divã.
Século narciso & esquizo,
que não pôde computar
seus neologismos.
Século vanguardista,
marxista, guerrilheiro,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyciano,
borges-kafkiano.
Século de utopias e hippies
que caberiam num chip.

9. Aqui jaz um século
que se chamou moderno
e olhando presunçoso
o passado e o futuro
julgou-se eterno;
século que de si
fez tanto alarde
e, no entanto,
-já vai tarde.

10. Foi duro atravessá-lo.
Muitas vezes morri, outras
quis regressar ao 18
ou 16, pular ao 21,
sair daqui
para o lugar nenhum.

11. Tende piedade de nós, ó vós
que em outros tempos nos julgais
da confortável galáxia
em que irônico estais.
Tende piedade de nós
-modernos medievais-
tende piedade como Villon
e Brecht por minha voz
de novo imploram. Piedade
dos que viveram neste século
per seculae seculorum.

(Affonso Romano de Sant’Anna)

Mecanismos de construção da paráfrase

A paráfrase é uma interpretação ou tradução de um texto original, na qual o autor desse meta ou intertexto mantém as ideias do texto fonte quase intactas, preocupando-se em reescrevê-las com o intuito de manter o máximo possível do sentido original. Também pode ser entendida como uma forma de interpretar e explicar um texto (trecho, aforismo, etc.), com o objetivo de torná-lo mais inteligível ou mais fácil de ser compreendido.
É feita com intenção elogiosa, supondo-se assim admiração por parte de quem parafraseia pelo texto original, ou seja, é a reescritura de um texto sem ou com pouca alteração de sentido. Vários recursos podem ser utilizados para se parafrasear um texto. Dentre eles destacam-se:

1) Emprego de sinônimos.
Exemplos: O Brasil é visto como uma espécie de alternativa futura para sanar a crise do petróleo.
            O maior país da América Latina é percebido feito um tipo de opção futura para resolver o problema do principal combustível fóssil.

2) Emprego de antônimos, com apoio de uma expressão com valor negativo e vice-versa.
Exemplos: O sucesso de muitas bandas deve-se ao investimento maciço de gravadoras na divulgação pela internet do trabalho delas.
            A realização de não poucos grupos musicais atribui-se ao aporte substancial de empresas do mercado fonográfico na distribuição pela rede de computadores da produção daquelas.

3) Utilização de termos anafóricos, isto é, que retomam outros anteriormente mencionados no texto.
Exemplos: A violência, no século XX, mostrou-se como um dos mais preocupantes problemas das grandes cidades brasileiras. A violência incentivou um novo negócio nessas cidades, a área de segurança privada.
            A segurança pública, no século XX, foi vista como uma das mais graves questões das metrópoles do Brasil. Essa preocupação fomentou um ramo comercial inovador nessas grandes aglomerações de pessoas, o setor da segurança particular.

4) Troca de termo verbal por nominal, e vice-versa.
Exemplos: É necessário mais investimento privado na produção cinematográfica brasileira, além, é claro, dos cidadãos comuns verem os filmes de produção nacional.
            Há a necessidade de que as empresas particulares invistam mais no cinema brasileiro, além, obviamente, das pessoas passarem a assistir películas produzidas no Brasil.

5) Mudança de voz verbal.
Exemplos: Os governantes debatem a abertura dos arquivos da Ditadura Militar no Brasil.
            A disponibilização dos documentos do período militar brasileiro foi debatida por membros do Governo.

Obs.: se o sujeito for indeterminado (verbo na terceira pessoa do plural sem o sujeito expresso na frase), haverá duas mudanças possíveis.
Exemplos: Plantaram uma roseira. (voz ativa)
            Uma roseira foi plantada. (voz passiva analítica)
            Plantou-se uma roseira. (voz passiva sintética)

6) Troca de discurso.
Exemplos: Certa vez, um sábio, desses que ignoramos, disse: - Triste será o tempo em que a razão for medida pela quantidade de pólvora que se poderá comprar. (discurso direto)
            Certa vez, um sábio, desses que ignoramos, disse que triste seria o tempo em que a razão fosse medida pela quantidade de pólvora que se poderia comprar. (discurso indireto)

7) Troca de locuções por palavras e vice-versa.
Exemplos: O homem da cidade não conhece os sinais da natureza que indicam chuva, frio ou calor.
            O homem urbano desconhece os sinais naturais indicadores de tempo chuvoso, frio ou quente.

:::::Informações importantes para a construção da paráfrase

1. Utilizar a mesma ordem de ideias adotada no texto original.
2. Não omitir nenhuma informação fundamental para a construção do texto original.
3. Não tecer comentário algum a respeito de qualquer informação ou ponto de vista presente no discurso parafraseado.
4. Manter marcas chamadas de não-parafraseáveis presentes no texto original na paráfrase, ou seja, datas, nomes de lugar e pessoa, números, etc. não devem ser parafraseados.
5. Ao parafrasear o texto, deve-se respeitar a norma culta.
6. Ler com extrema atenção o texto original antes de parafraseá-lo.
7. Cuidado para não fazer um resumo ao invés de uma paráfrase, o intuito é transpor todas as ideias presentes no texto original, e não só as mais importantes.

Veja abaixo exemplos de paráfrases:

“Se você perguntar o porquê das coisas, logo estarão perguntando o porquê de você.” (Anônimo)
As pessoas que são autônomas e críticas na sociedade, rapidamente, tornam-se indesejáveis.

“Não fui chamado a dar as mãos a Hitler, mas também nunca me convidaram para cumprimentar o presidente americano na Casa Branca.” (Jesse Owens)
Nunca fui cumprimentado pelo chefe do 3º Reich, da mesma forma que jamais recebi felicitações do presidente estadunidense.

“Tentei alfabetizar as crianças, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria, não consegui. Mas eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.” (Darcy Ribeiro)
Pensei em métodos mais eficientes de alfabetização. Lutei pela causa indígena. Pus-me a trabalhar pelo ensino superior, fracassei. Entretanto, eu odiaria ser aquele que me derrotou.

Hoje, consigo perceber que nossa tecnologia ultrapassou nossa humanidade.” (Albert Einstein)
Atualmente, percebo, enfim, que os aparatos tecnológicos avançam mais rápido do que os sentimentos que nos fazem humanos.

"Os homens são porcos que se alimentam de ouro." (Napoleão Bonaparte)
A humanidade alimenta-se da ganância por riquezas.

“A vantagem do capitalismo sobre o socialismo é que, no capitalismo, os resultados são melhores do que as intenções; e, no socialismo, é o contrário.” (Winston Churchill)
O sistema capitalista é superior ao socialista, porque, naquele, o produto é melhor do que as motivações; já, neste, é o inverso.

“Sou talvez a visão que alguém sonhou, alguém que veio ao mundo para me ver e jamais na vida me encontrou.” (Florbela Espanca)
Talvez eu seja a imagem que alguém idealizou, uma pessoa que viveu com o intuito de me encontrar, mas nunca me achou.

“O ser humano, por um lado, é semelhante a muitas espécies animais, em luta contra a própria espécie; mas, por outro lado, entre as milhares de espécies que assim lutam, é o único em que a luta é destrutiva... O ser humano é o único que assassina em massa, é o único que não se adapta à sua própria sociedade.” (Jan Tinbergen)
O homem, de certa forma, é parecido com muitos outros animais, travando uma batalha contra os da mesma espécie, mas, sob outro ponto de vista, entre as inúmeras espécies que travam essa batalha diária, somos os únicos em que o embate é negativo...O homem é o único animal capaz de genocídios, é o único animal não adaptado ao seu próprio sistema social.

“A verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere, e a estar sozinhos até no meio da multidão.” (Massimo Bontempelli)
Estar realmente livre de qualquer forma de controle é uma medida estritamente íntima, feito o ato incontestável de estar só: temos o dever de nos sentirmos libertos mesmo numa prisão, além de aprendermos a estar sós mesmo no meio de inúmeras pessoas.

“Praticamente qualquer um pode suportar a adversidade, mas se quer testar o caráter de alguém, dê-lhe poder !” (Abraham Lincoln)
Quase todas as pessoas podem agüentar uma situação desagradável, entretanto, porém, caso você queira testar os preceitos morais de alguma pessoa, coloque-a numa posição privilegiada quanto ao poder em relação às outras.

“Cem vezes por dia eu me lembro que minha vida interior e minha vida exterior dependem do trabalho que outros homens estão fazendo agora. Por causa disso, preciso me esforçar para retribuir pelo menos uma parte dessa generosidade - e não posso deixar nenhum minuto vazio.” (Albert Einstein)
Recordo-me uma centena de vezes diariamente que minha intimidade e minha existência em sociedade são dependentes do esforço praticado por muitos homens neste momento. Em função dessa constatação, é necessário que eu me dedique com o intuito de fazer jus ao menos a uma parcela desses atos generosos, portanto não tenho o direito de deixar nenhum tempo sem alguma atividade.

“Não há sentido em orar como um santo pela manhã e viver como um bárbaro o resto do dia.” (Alexis Carrel)
Não existe razão em rezar tal qual um beato ao amanhecer e durante o restante do dia comportar-se como um selvagem.

“Se um homem bate na mesa e grita, está impondo controle. Se a mulher faz o mesmo, está perdendo o controle.” (Bárbara Soares)
Caso um homem grite e dê um soco num móvel, dirão que ele está controlando uma situação. Caso a mulher faça o mesmo, dirão que ela está descontrolando-se.

“Quando a última das árvores for cortada, quando o último rio for poluído, quando o último peixe for pescado, aí sim eles verão que dinheiro não se come.” (Chefe da tribo Sioux)
No momento em que a derradeira planta for eliminada, no momento em que o derradeiro manancial estiver sob os efeitos da poluição e não houver mais o que pescar, então o homem branco perceberá que cédulas e moedas não são possíveis de se comer.