sábado, 12 de maio de 2012

Intensivão - Uberaba - 2012-1 - Módulo 2 - A língua e a linguagem - variações linguísticas, funções e figuras da linguagem


Módulo 2 - A língua e a linguagem - variações linguísticas, funções e figuras da linguagem
Por Estéfani Martins



Variação linguística

Mateus enter(Intro)
Eu vim com a nação zumbi
ao seu ouvido falar
quero ver a poesia subir
e muita fumaça no ar
cheguei com meu universo
e aterriso no seu pensamento
trago as luzes dos postes nos olhos
rios e pontes no coração
Pernambuco em baixo dos pés
e minha mente na imensidão.
(Chico Science)

                               “... as práticas de linguagem a serem tomadas no espaço da escola não se restringem à palavra escrita nem se filiam apenas aos padrões socioculturais hegemônicos.”
(Orientações Curriculares para o Ensino Médio; Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, MEC)

                              A linguagem é como uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras em vez de dedos, ou dedos na ponta das palavras."
(Roland Barthes)

Toda língua é um sistema variável quanto ao tempo, ao espaço geográfico, às transformações sociais e culturais, à faixa etária, à profissão, ao nível de escolaridade de um indivíduo ou de um grupo e à situação comunicativa em que é utilizada, por isso ela é usada de modo heterogêneo, mutante e dinâmico. Assim, pode-se dizer que existem variantes acerca do uso da Língua Portuguesa na sociedade brasileira e que é preconceituoso o estabelecimento de qualquer forma de hierarquia para que as pessoas tenham sua capacidade intelectual, suas referências culturais e suas possibilidades julgadas por intermédio da variante da língua usada por elas.
Cada variante linguística constitui uma forma específica e com muitas regras próprias da língua, ainda que essas diferenças não possam fazer com que os usuários dela não se entendam. Entretanto, descrever tais variações não é uma tarefa simples, visto que as fronteiras entre elas não são muitas vezes claras e objetivas.
Essas variações são as chamadas Variações Linguísticas, as quais estão diretamente relacionadas às condições sociais e ao contexto cultural, regional e histórico a que são aplicadas e, quase sempre, submetidas. Tais processos linguísticos determinam-se por diversidades lexicais, rítmicas, sintáticas, entre outras, as quais caracterizarão cada uma das variedades.
O referencial para se compreender as diferenças e as nuances dessas variações é a chamada norma padrão, que é regulada por princípios gramaticais rígidos e normativos, utilizada na maioria dos documentos legais, informativos e científicos e normalmente adquirida em processos sólidos de educação formal. Além disso, para muitos, a norma padrão da Língua Portuguesa pode ser chamada também de norma culta, entretanto esse não é um conceito adequado, porque se mostra preconceituoso em relação àqueles que não tiveram a oportunidade de serem formados para dominá-la, o que os torna, portanto, usuários da “norma inculta” da língua.
Pode-se dizer ainda que norma padrão (ou culta) não é o emprego da língua de forma rebuscada, erudita, empolada ou mesmo arcaica, cuja compreensão estaria restrita apenas a um grupo seleto de pessoas com uma formação acadêmica e um repertório cultural incomum. Ao contrário, é a expressão de um indivíduo qualquer em Língua Portuguesa usual, de acordo com as Normas Gramaticais Brasileiras e em sintonia com os padrões estéticos e culturais responsáveis por fazer um dado discurso tornar-se objetivo, claro e coerente com o tempo histórico de enunciação dele.
            As demais variedades, como a regional, a social, a profissional e a histórica, são, em linhas gerais, chamadas de norma popular. Diante disso, é fato que qualquer língua contém variações no uso que se faz dela, a esses fenômenos dá-se o nome de variações linguísticas. Tais possibilidades de utilização de uma língua podem ocorrer devido a condicionantes de ordem temporal (histórica), espacial (regional), social e estilística. A partir dessas considerações, pode-se perceber que, em possivelmente todas as sociedades, interagem e convivem variedades linguísticas distintas, as quais são empregadas por diferentes pessoas ou grupos sociais, com diferentes acessos à educação formal, de forma consciente ou não, de acordo com a situação social em que o processo comunicativo está inserido, etc. É importante ressaltar que tais variantes de uma mesma língua são mais facilmente percebidas em formas orais de expressão, ainda que possam ser também vistas em formas escritas.
Dessa forma, pode-se inferir que a língua não é una e imutável, por isso ela pode ser considerada um conjunto de dialetos ou variações. Um exemplo dessa afirmativa é o Brasil, com seus muitos falares regionais com alterações léxicas, prosódicas ou mesmo sintáticas, além, evidentemente, das variações sociais, profissionais e contextuais típicas dos usuários de qualquer língua.

:::::Dialeto

O dialeto é um conjunto de marcas linguísticas de caráter semântico-lexical, morfossintático e fonético-morfológico, típicas de uma determinada comunidade de fala (grupo, tribo, etc.) inserida numa comunidade maior de usuários da mesma língua, ainda que tais diferenças não impeçam a intercomunicação entre os grupos de falantes de, em última instância, um mesmo idioma. São exemplos a gíria, o jargão, etc. Pode também ser visto como uma variedade linguística coexistente com outra, ainda que sejam consideradas formas de uma mesma língua, em função de não haver diferenças o bastante entre elas, são exemplos no português do Brasil: o linguajar caipira, o falar gaúcho, entre muitos outros.
Outro conceito sobre a questão do dialeto, ainda que muito menos usado atualmente, é o que o vê como uma modalidade circunscrita a um determinado espaço em que se fala uma língua sem versão escrita (povos ágrafos), o que a faz predominantemente oral; ou mesmo pode se referir a uma língua que, ainda que tenha uma expressão escrita, não é língua oficial de nenhum país, como o catalão, o basco, o galego, etc.
De outra perspectiva, pode ser visto ainda como uma variante regional de uma determinada língua em que, em função das muitas e severas diferenças entre falares de regiões distintas, há grande dificuldade de intercomunicação entre seus falantes, como é o caso do siciliano, do calabrês, etc. em relação ao idioma italiano.

Tipos de variação linguística


A variação histórica é produto do processo histórico, assim recursos linguísticos muito usados no passado são gradativamente abandonados para dar lugar a novos recursos mais afinados com o tempo, a vida, as necessidades de seus usuários. Um exemplo ilustrativo desse processo é a presença massiva de estrangeirismos originários do francês ao longo do século XIX e do início do XX no Brasil, que foram se tornando obsoletos ou pouco usados. Mais tarde, em função do resultado da Segunda Guerra Mundial e de questões de ordem política e econômica, o inglês ocupou esse lugar e ampliou a abrangência do uso desses recursos, já que mesmo pessoas humildes apropriaram-se de termos provenientes desse idioma graças a referências vindas dos meios de comunicação de massa ou até do jargão computacional e da internet. Pode-se ainda perceber as muitas mudanças no uso de pronomes de tratamento, quase sempre no sentido de tornar as relações interpessoais menos formais e, muitas vezes, menos respeitosas, por exemplo, quando uma pessoa desconhecida é tratada com tamanha informalidade por alguém a ponto de soar grosseira e inconveniente a abordagem.
O ritmo comum a esse tipo de mudança é lento e gradativo. Isso é perceptível em situações em que uma expressão linguística típica de um grupo restrito de pessoas passa a ser adotada por um grupo maior até se popularizar, ou mesmo uma forma arcaica de uso da língua permanece ainda frequente no repertorio linguístico de idosos, enquanto gerações mais jovens usam outros meios mais contemporâneos para se comunicar, ainda que seja uma questão de tempo para aquela forma ser considerada um arcaísmo, enquanto esta é consagrada pela quantidade de usuários e pela entrada em dicionários ou no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.
Carlos Drummond de Andrade bem soube mostrar a variação histórica em vários momentos de sua obra, é um exemplo:



Trata das diferentes formas de pronúncia, vocabulário e estrutura sintática percebidas entre falantes de uma língua entre as regiões de um país, isso ocorre em função da origem ou do tempo que um indivíduo passou em uma região a ponto de assimilar as nuances do falar característico de um determinado espaço. Com isso, ocorre a formação de comunidades linguísticas menores interiores a uma comunidade linguística maior, como é o caso do linguajar gaúcho diante da comunidade de brasileiros falantes da Língua Portuguesa. As variantes geográficas dão-se pelas diferentes pronúncias para uma mesma palavra (como é o caso do “r” retroflexo dos falantes do interior de São Paulo e do Triângulo Mineiro); pelos diferentes nomes para o mesmo objeto, fruto, ação, tipo físico, etc. (tangerina, vergamota, mexerica, mandarina, mimosa, etc.); ou mesmo pelas diferentes formas de estruturar a oração (no Maranhão e no Rio Grande do Sul, uma pessoa diria: “Tu estás nervoso?”, enquanto na maioria dos outros estados, seria mais comum ouvir: “Você está nervoso”?).
Essas variantes linguísticas geográficas são, em grande parte, determinadas por diferenças étnicas, culturais, geográficas, naturais entre as regiões, o que confere aos falantes de diversas regiões de um país modos diferentes de usar a língua materna, ainda que sejam mantidas as condições de eles se entenderem. As diferenças linguísticas regionais são graduais, o que as faz nem sempre respeitar fronteiras espaciais, como é o caso da região norte de Minas Gerais, a qual tem um modo de falar muito mais assemelhado ao linguajar nordestino do que a variantes típicas do Sudeste.
Guimarães Rosa, em sua vasta e fundamental obra, ilustra de forma irretocável as muitas possibilidades de expressão condicionadas à variação linguística geográfica como nos muitos nomes dados ao diabo no sertão brasileiro presentes na obra Grande sertão: veredas.



A variação social é determinada por muitos condicionantes, tais como os sociais, os profissionais, os etários, os educacionais, os de gênero, etc. Em função disso, entende-se que uma mesma pessoa usa diversas variações sociais ao longo da vida, em contextos de enunciação diferentes, em função disso agrupa-se ou é agrupado consciente ou inconscientemente em função da forma como interage com o outro por meio da língua. Nessa variação, a norma padrão é o referencial mais importante, já que ele se torna visivelmente uma baliza para se reconhecer e classificar as outras. Por isso, a variação social pode comprometer, por exemplo, o entendimento de um idoso sobre as gírias usadas por um jovem, ainda que no passado aquele também possa ter usado do mesmo expediente para integrar-se em um determinado grupo social. O entendimento de um indivíduo leigo em economia sobre o texto de um economista num jornal especializado em bolsa de valores ou mesmo a decodificação de um contrato de aluguel por um adulto recentemente alfabetizado são outros exemplos de dificuldades de comunicação geradas por essa variação.
Dentro das possibilidades de variação social, é notória e facilmente perceptível a que corresponde à camada social da qual o indivíduo faz parte. O falar de um cidadão é subordinado na maioria das vezes ao nível socioeconômico e cultural dele. Quanto mais estudo tiver, mais bem trabalhadas serão suas frases. Quanto mais livros ler, mais cultura terá. Quanto mais exemplos tiver de seus pais e professores, mais facilmente se comunicará com os demais.
É importante salientar ainda que as gírias são um processo de reconhecimento social entre os jovens e de exclusão, ao mesmo tempo, dos mais velhos. Já os jargões, do Direito, da Economia, da Medicina, etc., são tanto uma forma de mediar certa relação de hierarquia e de dependência em favor de muitos advogados, médicos, etc., em relação aos seus clientes quanto uma necessidade linguística de mostrar de forma objetiva as especificidades de cada um desses saberes ou ciências.
Exemplo da variação social e também do preconceito produzido a partir de características linguísticas de um indivíduo ou grupo é a obra do mestre Patativa do Assaré, que, por causa das muitas características que aproximam sua poética da oralidade, ainda é alvo de julgamentos depreciativos por parte de determinados indivíduos em função da sua origem e do uso que ele faz da língua. Eis um exemplo de um poema do mestre Patativa:

O Poeta da Roça

Sou fio das mata, canto da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de paia de mío.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argun menestré, ou errante canto
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.
Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! Vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastero, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.
(...)

Considerações finais

Sobre a questão das variações linguísticas, pode-se ainda discutir a existência de uma no campo do estilo individual submetido a distintas situações comunicativas, determinadas pela percepção por parte do locutor do ambiente onde ocorre a enunciação (familiar, profissional, formal, informal, etc.), do grau de intimidade com o interlocutor, do tipo de informação, de quem são os interlocutores, de qual a intenção comunicativa, etc. Pode-se afirmar ainda que esse tipo de variação realiza-se mais na fala, porque essas condições de enunciação são mais fácil e frequentemente percebidas nela.
Outra consideração importante diz respeito às relações dinâmicas entre as variações linguísticas: quando uma variante histórica pode ser vista como sociocultural, em virtude do prestígio social que variantes atuais e presentes nos meios de comunicação de massa têm em relação a variantes vistas como antigas ou anacrônicas. Esse fato pode entrecruzar-se com a existência no meio rural - menos influenciado pela sociedade da informação e do entretenimento - de tais variantes antigas. Soma-se a isso o processo histórico do êxodo rural, que tornou também sociocultural uma variante geográfica, já que, nas grandes cidades, aquela variante é vista como de menor prestígio.
Os meios de comunicação de massa foram muito responsáveis pela construção de diversos tipos de preconceitos relativos às variações linguísticas no Brasil, porque impuseram ao público, especialmente no caso da televisão, um falar neutralizado de sotaque, próximo à norma padrão e a determinadas características presentes nos falantes da Língua Portuguesa nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
A negação de uma tradição cultural e linguística em relação a outras variantes é o resultado de todo esse processo de afirmação exagerada da norma padrão e de determinadas variações regionais. Esse processo intensifica-se quando são rejeitadas algumas tradições linguísticas, porque são consideradas deficiências intelectuais do usuário delas, o que não pode ocorrer sob diversos pontos de vista éticos, políticos, antropológicos, etc. Preconceitos linguísticos não são aceitáveis porque a linguagem deveria ser veículo de interação com o outro e de transformações nos indivíduos que os faria ver o óbvio: no falar de um caipira de um confim do Brasil pode haver conhecimento aplicado à agricultura, ou mesmo ao clima, similar em qualidade de análise e de observação ao de um cientista, muitas vezes. Portanto, a forma como uma pessoa fala ou escreve não pode ser usada como limite das suas possibilidades, mas como ponto de partida delas.
Outra questão a considerar é a de que nessas inter-relações entre as variações, especialmente entre aquelas medidas pela competição e pelo preconceito, são estabelecidas relações de poder, quase sempre ditadas pelo domínio da norma padrão e pelo acesso à educação formal, as quais possibilitam aos indivíduos que as dominam moldar seu discurso às mais variadas situações de enunciação, das mais informais e corriqueiras às mais formais e eruditas. Isso é poder: comunicar-se de forma adequada aos seus interlocutores, à situação em que eles se inscrevem, ao assunto em questão, mas, especialmente, à intenção comunicativa. Tais habilidades permitem a quaisquer pessoas ampla vantagem sobre os outros que não conseguem moldar seus discursos em função da demanda imediata, porque, pela linguagem e pelo conhecimento, relações de poder em todos os níveis são estabelecidas, consolidadas e determinantes dos limites da atuação social, cultural, econômica e política de cada indivíduo.


Funções da linguagem

“A linguagem é um jogo conjunto, de quem fala e de quem ouve, contra as forças da confusão.”
(Norbert Wiener)

            O estudo da situação comunicativa e, especialmente, de suas implicações no estudo das funções da linguagem é fundamental para se entender as muitas intenções implícitas e explícitas no processo de produção textual oral ou escrita. Seguem definições e exemplos capazes de ampliar e clarear essa discussão.

A situação comunicativa

Uma situação comunicativa deve ser compreendida como a união de características extralinguísticas e intralinguísticas capazes de influenciar na transmissão de informações, sentimentos, etc., num determinado processo comunicativo estabelecido por meio do uso de uma ou mais linguagens. Entende-se por extralinguísticas as condições de realização do discurso que compreendem a finalidade dele, as características dos participantes, o conhecimento dos interlocutores sobre o assunto, o contexto histórico, as relações afetivas, sociais e culturais pré-existentes entre os interlocutores, etc. Sob outro ponto de vista, as intralinguísticas remetem ao domínio da norma padrão, à objetividade ou subjetividade da linguagem empregada, ao uso de recursos verbais e não-verbais no discurso, etc. Como uma forma esquemática de se compreender tal processo, têm-se os chamados elementos da situação comunicativa detalhados abaixo.

Elementos da situação comunicativa

Emissor (locutor) - emite, codifica a mensagem. Aquele que comunica algo a alguém.
Receptor (interlocutor) - recebe, decodifica a mensagem. Aquele com quem o locutor comunica-se.
Mensagem - conteúdo transmitido pelo emissor.
Código - conjunto de signos usado na transmissão e recepção da mensagem. Convenção linguística social que permite aos interlocutores entenderem-se.
Canal (meio) - meio pelo qual é veiculada a mensagem. Voz, carta, etc.
Referente (contexto) - contexto relacionado ao emissor, ao receptor e à situação comunicativa como um todo. Variáveis, quase sempre extralinguísticas, que atrapalham ou favorecem o adequado entendimento de uma informação dada.

Funções da Linguagem

“O meio é a mensagem.”
(Marshall McLuhan)

“Com o telefone e a TV, o que está sendo transmitido é mais a pessoa do que a mensagem.”
(Marshall McLuhan)


            As funções da linguagem são recursos empregados para se estabelecer uma comunicação eficiente em função do objetivo de um locutor em uma determinada situação comunicativa. Todo texto ou discurso funda-se em um elemento da situação comunicativa, em vista disso, uma função da linguagem predominará nesse processo comunicativo, ainda que várias possam conviver em um mesmo texto.
O emprego e o estudo das funções da linguagem objetiva a adaptação da intenção comunicativa aos diversos contextos e necessidades que se apresentam para todo usuário de uma determinada língua nas mais variadas situações.

1 - A função emotiva ou expressiva traduz opiniões ou emoções do emissor. Caracteriza-se pela expressão da opinião ou da observação de alguém sobre determinado assunto, ou seja, é empregada em situações nas quais o emissor expõe sua intimidade discursivamente. Geralmente, textos em que essa função predomina são realizados em primeira pessoa do discurso no singular. Os principais exemplos desse tipo de texto são as cartas, os depoimentos, os poemas líricos, as memórias e as autobiografias. Exemplos:

“Prefiro tirar nota baixa. Descobri que a vida fica mais fácil quando os outros não têm muitas expectativas sobre a gente.” (Bill Waterson)

Cogito

eu sou como eu sou pronome pessoal intransferível do
homem que iniciei na medida do impossível eu sou
como eu sou agora sem grandes segredos dantes sem
novos secretos dentes nesta hora eu sou como eu sou
presente desferrolhado indecente feito um pedaço de
mim eu sou como eu sou vidente e vivo tranquilamente
todas as horas do fim. (Torquato Neto)

Com o passar dos anos

Quando a velhice em mim chegar
Quero ser o que sonhei na juventude
Sonhando o que serei na juventude que virá.

E o que sou hoje lá não serei mais
Enquanto estarei deixando de ser
Aquilo que deixei e que fui, atrás.

Dos meus amores, quero as cartas
E as doces lembranças dos beijos
E dos pecados que não vivemos.

Quando a velhice chegar, não quero sofrer
Pelos amores que não vivi por covardia
Ou pêlos que tive quando não os queria.

Ah, quando a velhice chegar
Quero dizer aos meus amigos:
- Fomos mais do que pensávamos.

E se não formos ainda assim direi:
- Sonhamos muito mais que fomos
E vivemos muito mais, porque sonhamos.

Serei doce pelas palavras e lembranças
Forte pelas duras batalhas vencidas
E ditoso pela bem cumprida jornada.

E ainda assim se eu nada dizer, ao morrer
E nada mais de mim restar quero apenas que
Digam que eu era alguém que sonhava. (Lígia Prado)

"nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez" (Paulo Leminski)

Vim, vi e perdi meus óculos. (Fábio Assis)

2 - A função fática tem por objetivo prolongar ou não o contato com o interlocutor ou mesmo iniciar uma conversa. Caracteriza-se pela repetição de interjeições ou de termos próximos do valor semântico e estilístico da interjeição. A função fática também ocorre quando o locutor testa o canal de comunicação a fim de observar se está sendo compreendido pelo interlocutor. Nesse contexto, são frequentes perguntas como "não é mesmo?", "você entendeu?", "cê tá ligado?", "ouviram?", ou frases como "alô!", "oi", “Bom dia”, etc.
Perguntas direcionadas ao receptor da mensagem também podem caracterizar a função fática, quando são feitas para confirmar o interesse do interlocutor no assunto que está sendo discutido, o que é muito comum em comunicações não presenciais, como é o caso de perguntas como: “Concorda?”, “O que acha?”, etc.
Podem ser entendidas como recursos fáticos as frases que perderam seu valor semântico original para dar lugar a sentidos que comuniquem emoções simples como o espanto, o susto, o exagero, etc., em determinadas situações comunicativas. São exemplos: “Nossa senhora!”, “Meu Deus!”, etc.
            A seguir, há um exemplo de texto com forte presença de elementos fáticos em sua composição:

“— Como vai, Maria?
— Vou bem. E você?
— Você vai bem, Maria?
— Já disse que sim!
— Eu também. Está tão bonita!
— Ah, bem, é que eu...
— Ah, é.” (Dalton Trevisan)

3 - A função poética predomina nos textos em que a mensagem é construída de modo a elaborar esteticamente tanto o conteúdo quanto a forma do texto. Ao utilizar essa função, o autor dá mais atenção a estruturas linguísticas escolhidas por razões estéticas e subjetivas, daí a grande importância dada à maneira de estruturar a mensagem com o intuito de singularizá-la por meio da invenção e da sensibilidade. Embora seja mais comum em obras literárias, essa função pode estar presente em qualquer tipo de discurso. Nos textos centrados nessa função da linguagem são comuns recursos expressivos da língua como as figuras de linguagem. Exemplos:
“Ficar neutra é tapar um olho quando tapam a vista de outra pessoa.” (Jeannine Luczack)
“A árvore, quando está sendo cortada, observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira.” (Provérbio Árabe)
“Não te cases por dinheiro, podes conseguir um empréstimo mais barato.” (Provérbio escocês)
Uma vida inteira pela frente. O tiro veio por trás. (Cíntia Moscovich)
            - Que dor nas costas - dizia o porco-espinho ao acupunturista. (Rafael Reinehr)
Lembrava mais do passado que do presente. Morreu empoeirado. (Roberto Prado)
Pegou a mulher com outro, largou a mulher, ficou com o outro. (Victor Az)
Nada pior que gente boazinha: santos são tediosos... (Maria Carolina Marzagão Jimenez)
“O ser humano é resultado do que viu com o que sonha.” (Lirinha)

Maracatu Silêncio

Lampiões carregados
Porta estandarte, o rei e a rainha
Os tambores quando batem
Acorda o povo da Vila Maria
Os cordões que invadem
Os carnavais cheios de alegria
Vou dançar no pátio
Até o dia raiar
Meu maracatu
Vivendo sempre a lembrar
Morros, alagados
O interior do lugar. (Lenine)

Zona e progresso

eu digo dioniso é o deus da zona
abençoa essa zona imortal
que eu faço vir à tona

zona sagrada
zen do gen genial
lugar do bem e do mal

tudo pode ser
tudo pode ver
quase tudo eu via ali

zona do nada
vento vem criação
farol brilha a escuridão

tudo pode ser
tudo pode ver
quase tudo eu via ali. (Suely Mesquita, Pedro Luís e Arícia Mess)

Exemplos: Porcas borboletas, Mundo Livre S/A, Cansei de ser sexy, Berimbrown, Móveis coloniais de Acaju, Velhas virgens, Matuto moderno, Acústicos e valvulados, Cordel do Fogo Encantado, Pequena Morte, entre tanto outros nomes de bandas.

4 - A função metalinguística ocorre quando o código é utilizado para explicar a si próprio. Um bom exemplo dessa função são os dicionários da Língua Portuguesa, chamados de lexicográficos, ou ainda, poemas que tratem do ato de fazer poemas ou mesmo da própria poesia. São exemplos do emprego da função metalinguística da linguagem: uma pessoa falando do ato de falar, outra escrevendo sobre o ato de escrever, palavras que explicam o significado de outra palavra, metaliteratura, etc.

Era um conto muito velho, que só queria acabar. (Herbert Farias)

Língua torta:
Portão menor que porta. (Millôr Fernandes)

“As palavras são a sombra das coisas”. (Demócrito)

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz! (Florbela Espanca)

Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti... (Mario Quintana)

Gramática [Do lat. grammatica < gr. grammatiké, ‘arte de ler e de escrever’, f. subst. de grammatikós.] Subst. feminino
1)   A arte de falar e de escrever bem em uma língua.
2)   E. Ling. Estudo ou tratado que expõe as regras da língua-padrão (q. v.).
3)   Obra em que se expõem essas regras.
4)   Exemplar de uma dessas obras.
5)   E. Ling. Estudo da morfologia e da sintaxe de uma língua.
6)   E. Ling. Conhecimento internalizado dos princípios e regras de uma língua particular. (Dicionário Digital Aurélio XXI)

5 - A função conativa ou apelativa tem como intuito influir no comportamento do receptor, por meio de um apelo, um conselho, uma sugestão ou uma ordem transmitida de forma explícita ou implícita. Para tanto, o texto é endereçado aos anseios, desejos e fraquezas do receptor/interlocutor. Naturalmente, por causa disso, tem como principal expressão o discurso publicitário. Caracteriza-se pelo uso, geralmente, da segunda pessoa do discurso e da linguagem imperativa, com o intuito de tentar convencer o receptor a praticar determinada ação ou pensar de determinada forma. Exemplos:

“Educai as crianças e não será preciso punir os homens.” (Pitágoras)

“Não haverá entre vós quem, ao acender uma vela, não desdenhe os astros?” (Gibran)

“Senta-te a tua porta e verás passar o cadáver do teu inimigo.” (Provérbio indiano)

“Slogans” publicitários, tais como: “Porque nós somos mamíferos.”, para a Parmalat; “Não temos música ao vivo. Sorte sua.”, para o Taco Del Maestro, restaurante de comida mexicana; “Beba-o com respeito. É provável que ele seja mais velho que você.”, para o Conhaque Martell; “Não servimos almoço. Levamos o dia inteiro para preparar o seu jantar.”, para o restaurante D'Amico Cucina; “A crítica adorou. Mas pode assistir que é bom.”, para a Semp Toshiba.

6 - A Função referencial, denotativa ou informativa ocorre quando o objetivo do emissor é informar com precisão e objetividade um determinado fato, acontecimento ou conhecimento, tanto linguística quanto conceitualmente. Essa é a função que predomina nos textos de caráter científico ou didático (com destaque para a linguagem dissertativa) e que muitos textos jornalísticos ambicionam privilegiar. Exemplos:

            “Na velocidade da luz, ideologias e partidos políticos são substituídos por imagens carismáticas.” (Marshall McLuhan)

“Na nossa civilização, os homens têm medo de não serem considerados homens o bastante, e as mulheres têm medo de serem consideradas apenas mulheres.” (Theodor Reik)

            “Os programas sensacionalistas do rádio e os programas policiais de final da tarde em televisão saciam curiosidades perversas e até mórbidas tirando sua matéria-prima do drama de cidadãos humildes que aparecem nas delegacias como suspeitos de pequenos crimes. Ali, são entrevistados por intimidação. As câmeras invadem barracos e cortiços, e gravam sem pedir licença a estupefação de famílias de baixíssima renda que não sabem direito o que se passa: um parente é suspeito de estupro, ou o vizinho acaba de ser preso por tráfico, ou o primo morreu no massacre de fim de semana no bar da esquina. A polícia chega atirando; a mídia chega filmando.”. (Eugênio Bucci)

            "A trajetória de nossa vida pode parecer definitivamente marcada por certas situações. Nossa vida, entretanto, conserva sempre todas as possibilidades de mudança e conversão que estiverem ao nosso alcance. E tais possibilidades são tanto maiores, quanto mais abrigarmos em nós de infância, de gratidão, de capacidade de amar." (Herman Hesse)

Observação: em um mesmo texto, duas ou mais funções podem ocorrer simultaneamente: uma poesia em que o autor discorra sobre o que ele sente ao escrever poesias tem muitas vezes as linguagens poética, emotiva e metalinguística ao mesmo tempo. Contudo, uma das funções da linguagem será sempre predominante. Sobre isso, Roman Jakobson afirmou que "dificilmente lograríamos (...) encontrar mensagens verbais que preenchem uma única função... A estrutura verbal de uma mensagem depende basicamente da função predominante". Nos exemplos abaixo, há a presença das funções da linguagem emotiva e poética simultaneamente:

“Cada vez mais gosto dos homens.” (Canibal anônimo)

“Não me considere o chefe; considere-me um colega de trabalho que tem sempre razão.” (Bob Thaves)

Figuras de linguagem

               "Em meus textos, quero chocar o leitor, não deixar que ele repouse na bengala dos lugares-comuns, das expressões acostumadas e domesticadas. Quero obrigá-lo a sentir uma novidade nas palavras!"
(João Guimarães Rosa)

“Não tem porque interpretar um poema. O poema já é uma interpretação.”
(Mário Quintana)

“Não se cria nada com um texto que se compreende com excessiva exatidão.”
(Miguel de Unamuno)

"As palavras fazem um efeito na boca e outro nos ouvidos."
(A. Manzoni)

As figuras de linguagem são criadas na maioria das vezes a partir da experiência cotidiana, pragmática e estética do homem com a língua e com o outro. Além disso, “linguagens auxiliares”, como a gestual, a de sinais, a das cores, etc., são fundamentais para a construção dessas sentenças. Daí ser possível inferir que a inventividade é imprescindível para a construção da maioria das figuras de linguagem, tanto no âmbito do uso literário delas quanto no uso cotidiano desses recursos.
Para tanto, a linguagem conotativa e o arranjo meticuloso e criativo das palavras constituem, muitas vezes, uma espécie de jogo de interpretação, em que, por várias razões, cooperam ou concorrem um locutor e um interlocutor inseridos num dado contexto de enunciação, influenciados por uma determinada e sempre distinta experiência cultural, e munidos de intenções relativas àquela situação comunicativa.
Quanto ao uso desse tipo de recurso nas tipologias e gêneros textuais, é notória e facilmente observada a utilização de praticamente todas as figuras de linguagem em textos narrativos, injuntivos e dialogais, por razões ligadas às liberdades estéticas constituintes dessas modalidades de texto; no caso dos descritivos, o uso torna-se mais focado em figuras como a metáfora, a prosopopéia, a catacrese e a onomatopéia; já no caso dos gêneros textuais expositivo e argumentativo, as figuras de linguagem apresentam-se de forma muitas vezes pontual, porque as exigências acerca da objetividade, clareza e informatividade, tão comuns em relação a essas tipologias, limita sensivelmente o uso desses recursos. Embora textos argumentativos, como os sermões, possam fazer amplo uso de figuras, são casos relativamente raros dentro do universo dos textos exigidos em provas ou vestibulares.
Seguem algumas figuras de linguagem mais comumente presentes em vestibulares e, em especial, em provas de disciplinas como Redação, Literatura e Língua Portuguesa.

Figuras de palavras (tropos)

1 - Comparação metafórica ou símile: consiste no uso de um termo comparador para estabelecer uma relação conotativa entre dois elementos de universos diferentes ou mesmo pouco semelhantes, quando observados sob critérios que organizam e orientam o uso objetivo da linguagem e do raciocínio.

Exemplos: A atriz é bela como uma manhã ensolarada de verão.
A casa dela é escura feito a treva da noite.
Ele chorou que nem uma carpideira.
“Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...” (Manuel Bandeira)
“Amava a natureza como um monge calmo a Cristo.” (Alberto Caeiro)
“Meu amor me ensinou a ser simples como um largo de igreja.” (Oswald de Andrade)

Obs.: Outros termos comparadores são assim como, tal, tal qual, qual, etc.

2 - Metáfora: diferencia-se da comparação metafórica apenas porque não tem termo comparador nem explicita a característica comparada nos elementos entre os quais se estabeleceu conotativamente uma determinada relação. Isso se deve ao intuito de produzir, por analogia ou semelhança, de forma subjetiva e mais velada, um meio de expressar uma sensação, um pensamento ou uma emoção para as quais a linguagem denotativa não é adequada ou que não é capaz de comunicar.
Dessa forma, garante que o leitor ou ouvinte possa interferir no sentido da expressão em virtude de ela ser construída na perspectiva da polissemia, da multiplicidade do sentido e da interação entre as idiossincrasias do produtor e do receptor da metáfora.

Exemplos: Aquela atriz é uma manhã ensolarada de verão.
“Meu pensamento é um rio subterrâneo.” (Fernando Pessoa)
“Meu coração é um balde despejado.” (Fernando Pessoa)
"Veja bem, nosso caso é uma porta entreaberta" (Luiz Gonzaga Jr.)
“O Pão de Açúcar era um teorema geométrico.” (Oswald de Andrade)
“Amar é mudar a alma de casa.” (Mario Quintana)
“Solidão é uma ilha com saudade de barco.” (Adriana Falcão)
"A noite é luz sonhando." (C. Drummond de Andrade)
“O pavão é um arco-íris de plumas.” (Rubem Braga)
“O mundo é um moinho.” (Cartola)
“Lá fora a noite é um pulmão ofegante.” (Fernando Namora)
"A filosofia é o moinho de vento da razão que gira em torno de si mesma." (F. Mezzina)

Sugestão: O livro O carteiro e o poeta e posteriormente sua adaptação homônima para o cinema mostram diálogos interessantes entre Pablo Neruda e o carteiro Mario Ruoppolo a respeito das metáforas.

3 - Metonímia ou sinédoque: é a troca de um termo por outro em virtude de haver entre eles alguma relação ou associação que permita a um deles ser evocado pelo outro. É classificada pelo tipo de relação que associa um termo ou palavra a outra. Eis alguns casos mais comuns:

a) O autor pela obra:
Ler Torquato Neto.
Na minha casa, há um Rodin no canto da sala.
b) O possuidor pelo possuído, ou vice-versa:
Ir ao açougueiro.
c) O lugar pela coisa ou pelo produto:
A população deve ir à Câmara protestar.
d) A causa pela consequência, ou vice-versa:
Soldados são os mensageiros da morte.
Sócrates tomou a morte.
e) O continente pelo conteúdo:
Bebi vários copos de água por causa do ar seco daquela região.
f) O instrumento pela causa ativa:
Meu primo era muito bom de garfo, por isso morreu.
g) O sinal pela ideia significada:
O trono esteve em perigo naqueles tempos.
h) A parte pelo todo
Depois daquele furacão, muitas famílias ficaram sem teto.
i) A espécie pelo indivíduo
Na década de 1960, muitos duvidaram que o homem foi à Lua.
j) A coisa por seu símbolo
A cruz ainda é a maior religião do mundo.

4 - Antonomásia: é um tipo de metonímia em que se substitui o nome de alguém para designá-lo por uma qualidade, atributo ou feito que o diferencia dos outros.

Exemplos: o Poeta Negro (Cruz e Sousa), o Rei do Futebol (Pelé), um Nero (um homem cruel), um Romeu (um homem apaixonado), o pai dos burros (dicionário), o rei das selvas (leão), o pai da aviação (Santos Dumont), O herói sem nenhum caráter (Macunaíma), o cavaleiro das trevas (Batman), etc.

5 - Catacrese: caracteriza-se pela nomeação ou caracterização de algum objeto ou ação, que não tenha vocábulo próprio, por analogia, semelhança física ou material com outro (cabelo de milho, cabeça de alfinete, etc.); ou mesmo pelo desconhecimento do nome a ele conferido pela ciência (palato por céu da boca, panturrilha por barriga da perna, etc.); ou por uma espécie de abuso no emprego da palavra a ser “transferida” (sacar dinheiro no banco, encaixar uma ideia na cabeça, etc.). Por isso, a catacrese em muito se assemelha à metáfora, porém elas diferem pelo uso corrente, habitual e unívoco de sentido daquela.

Exemplos: mão de pilão, pena de aço, andar a cavalo numa vassoura, prateleira cheia de livros, embarcar no trem, árvore genealógica, aterrissar no mar, amolar a paciência, folha de zinco, torrar a paciência, maçã do rosto, dente de alho, pé da página, dente do serrote, pescoço de garrafa, nariz do avião, etc.
                       
“Redondos tomates de pele quase estalando.” (Clarice Lispector)

6 - Sinestesia: consiste na utilização de duas percepções sensoriais ou mais, contanto que combinadas, na exposição de uma sensação, objeto, circunstância, situação, etc.

Exemplos: cheiro gostoso, voz macia, voz aveludada, som claro, gosto áspero, perfume doce, olhar gelado, etc.
“Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas
Réquiem do Sol que a Dor da luz resume...” (Cruz e Sousa)
“Avista-se o grito das araras.” (Guimarães Rosa)
“Por uma única janela envidraçada, entravam claridades cinzentas e surdas, sem sombras.” (Clarice Lispector)
“Que gigante tentação enfeitada/Multi-cor, Ultra-som...” (Jorge Du Peixe)

Figuras de pensamento

7 - Perífrase: é o uso de uma palavra ou expressão no lugar do vocábulo próprio. Designa os seres por meio de seus atributos, qualidades ou ações.

Exemplos: O primeiro presidente eleito de forma legítima depois da ditadura militar foi cassado. (Fernando Collor)
“O maior país da América do Sul tem uma dívida pública que faz juz ao seu tamanho.” (Brasil)
“A rede mundial de computadores tornou-se um instrumento para a consolidação da ‘ditadura da informação’.” (Internet)

8 - Antítese: é construída a partir do emprego de palavras ou ideias de sentido oposto na mesma expressão.  Entretanto, apesar de serem opostas, as ideias são conciliáveis, verossímeis ou possíveis, no contexto dado pela situação comunicativa em questão, de apresentarem-se na mesma sentença.

Exemplos: Ela acendia uma vela para Deus e outra para o diabo.
“Era o porvir - em frente ao passado.” (Castro Alves)
“Museu de grandes novidades.” (Cazuza)
“O inferno nem é tão longe/Bem depois de onde nada se esconde/Mais perto do que distante” (Jorge Du Peixe)
“Ver mais claro no escuro.” (Tim Maia)
“Amigos e inimigos estão, amiúde, em posições trocadas. Uns nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos trazem o mal.” (Rui Barbosa)
“Só depois de muito tempo
Fui entender aquele homem
Eu queria ouvir muito
Mas ele me disse pouco...” (Edgard Scandurra, “Dias de Luta”)
“Onde queres prazer sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido sou herói(Caetano Veloso)

9 - Paradoxo: é uma antítese extremada a ponto de se fundirem dois opostos em uma ideia, o que a torna absurda, ilógica, inverossímil ou inconciliável.

Exemplos: desespero da espera, a voz do silêncio, a inocente culpa, etc.
“Mudaram as estações
Nada mudou
Mas eu sei que
Alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim
Tão diferente...” (Renato Russo, “Por enquanto”)

10 – Eufemismo: é a expressão de ideias rudes, desagradáveis ou deselegantes, por meio de construções suaves e mais polidas.

Exemplos: Uma pequena e importante parcela da população é portadora de necessidades especiais.
O deputado naquela ocasião foi severamente reprimido e ofendido pela platéia. (xingado)
O governante faltou com a verdade. (mentiu)
Ele se apossou do alheio. (roubou)
Era um tumor que o deixava tão abatido. (câncer)
"Era uma estrela divina que ao firmamento voou!" (Álvares de Azevedo) (morte)
"Quando a indesejada da gente chegar." (Manuel Bandeira) (morte)
"Verdades que esqueceram de acontecer." (Mário Quintana) (mentira)

Observação: o contrário do eufemismo é o disfemismo, que consiste no uso de termo rude, depreciativo, ridículo, sarcástico ou chulo, em vez de outro considerado neutro, por exemplo, “pintor de rodapé” no lugar de “pessoa baixa” ou “rolha de poço” no lugar de “pessoa obesa”. É importante salientar que ambas as figuras de linguagem têm uma forte dependência do tempo histórico, dos costumes e das transformações sociais para serem reconhecidas, porque expressões eufemísticas numa época podem ser consideradas disfemísticas em outra, tal como a expressão “negrinho” para se referir a pessoas de pele escura ou negra.

11 – Hipérbole: é toda expressão caracterizada pelo exagero ou por ênfase extremada numa característica, consequência ou avaliação de uma pessoa, de um objeto ou mesmo de um acontecimento.

Exemplo: Lúcia morreu de tanto rir.
Falei a solução do problema mil vezes.
O cérebro dele é do tamanho de uma ervilha cortada pela metade.
Trazem ferocidade e furor tanto,/Que a vivos medo e a mortos faz espanto.
Ele possuía um mar de sonho.
Ela gastou rios de dinheiro.
“Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã, somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva.“ (Machado de Assis)
“Todo sorriso é feito de mil prantos, toda vida se tece de mil mortes.” (Carlos de Laet)

12 - Prosopopéia ou personificação: caracteriza-se pela atribuição de características humanas ou animadas ao que é inumano ou inanimado. Essa é a essência da figura de linguagem caracterizada pela atribuição de capacidade de comunicação, de sentimentos, de características e de ações típicas dos seres humanos ou animados a seres ou objetos, os quais não podem, pensando-se no que é verossímil, desempenhar tais características.

Exemplos: “O mau tempo competia contra o raiar do sol outonal.”
“O Governo apostou na solidez da moeda nacional.”
“As grandes cidades não dormem...”
“Como o passado criou um conjunto de fatores...
“Entre os meios para difundir a pedofilia, podemos citar a Internet como o principal, porque é um meio mais anônimo...”
O galo cantou ferozmente antes de entrar na rinha, onde encontraria o seu ocaso nos esporões de oponente mais graúdo, calculista e feroz.
“... os rios vão carregando as queixas do caminho.” (Raul Bopp)
“Um frio inteligente (...) percorria o jardim....” (Clarice Lispector)
“Outro retrato em branco e preto/A maltratar meu coração.” (Chico Buarque)
“O tempo passou na janela e só Carolina não viu.” (Chico Buarque)
“Já apertaram o botão da folia/Terreno de alegoria maior/E as avenidas já fervendo suadas...” (Jorge Du Peixe)

13 – Ironia: é a expressão em que se diz o oposto do que se pensa com a intenção de criticar ou ridicularizar uma ideia ou uma pessoa, ou seja, é uma forma intencional de dizer o contrário do que se pretendia exprimir. A ironia, muitas vezes, pode ser sarcástica ou depreciativa.

Exemplos: O aluno foi reprovado em apenas 12 matérias.
Que belo presente de aniversário! Minha casa foi assaltada.
Aquele cliente foi sutil como um elefante.
“A excelente D. Inácia era mestra na arte de judiar de crianças.” (Monteiro Lobato)
“Moça linda, bem tratada, três séculos de família, burra como uma porta: um amor!” (Mário de Andrade)

Obs.: a ironia depende muito do contexto de enunciação para ser bem compreendida.

14 – Gradação: ocorre quando há uma sequência ascendente (clímax) ou descendente (anti-clímax) de palavras - sinônimas ou nãoque intensificam uma mesma ideia, ou seja, é a expressão progressiva do pensamento por meio de palavras.

Exemplos: Ele murmurou, falou, gritou e, por fim, esbravejou loucamente.
“A Clonagem nasceu como um sonho, tornou-se uma dura realidade e, agora, constituiu-se como o veículo do desastre.”
“Já se supunha um príncipe, um gênio, um deus, mas que caiu das alturas, rodopiou no ar e estatelou-se no abismo.” (Machado de Assis)
“O trigo...nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se.” (Padre Antônio Vieira)

15 – Apóstrofe: consiste na invocação ou no chamamento de alguém ou de algo que foi personificado, em função do objetivo de um discurso poético, sagrado, etc. Caracteriza-se pelo chamamento do interlocutor da mensagem, seja imaginário ou real. Para tanto, usa-se um vocativo.
Exemplos: "Liberdade, Liberdade,
Abre as asas sobre nós,
Das lutas, na tempestade,
Dá que ouçamos tua voz..." (Osório Duque Estrada)
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal.” (Fernando Pessoa)
“Deus! Deus! Onde estás que não responde? (Castro Alves)

Figuras de som ou harmonia

16 – Paronomásia: consiste no emprego de palavras na mesma expressão com som e grafia semelhante ou idêntico, porém com significação diferente.

Exemplos: “O Brasil é um país de mandados e mandatos, estes, de corrupção, aqueles, de prisão.”
Além dos migrantes, o Brasil deve preocupar-se com emigrantes que a cada dia saem do país a procura de melhores oportunidades no Japão, nos EUA, etc.

Obs.: A paronímia é a relação que se estabelece entre duas ou mais palavras que possuem significados diferentes, mas são muito parecidas na pronúncia e na escrita, ou seja, são parônimas. Exemplos: cavaleirocavalheiro, absolver – absorver, etc. Essa interação pode produzir muitos erros quando somada à desatenção do produtor de texto, como nos exemplos seguintes:

“É ponto passivo...” (pacífico)
“Discriminar a maconha...” (descriminalizar)
“A individualidade destrói qualquer sonho de propostas coletivas para a sociedade.” (individualismo)

Segue uma pequena lista de parônimos:

Comprimento = extensão
Cumprimento = saudação, ato de cumprir

Delatar = denunciar
Dilatar = retardar, estender

Descrição = representação
Discrição = reserva

Emigrante = o que sai do próprio país.
Imigrante = o que entra em país estranho.
Migrante = o que se desloca dentro de um mesmo país.

Emergir = vir à tona.
Imergir = mergulhar.

Flagrante = evidente, óbvio. Ato em que a pessoa é surpreendida.
Fragrante = perfumado, aromático.

Infligir = aplicar ou impor castigo.
Infringir = transgredir, violar (leis e regras).

Mandado = que deve ser, para ser feito.
Mandato = autorização, procuração.

Ratificar = validar, confirmar.
Retificar = emendar, corrigir.

Sortido = abastecido (variadamente).
Surtido = do verbo surtir (resultar).

Soar = produzir som, ecoar.
Suar = transpirar.

Tráfego = trânsito, fluxo.
Tráfico = comércio ilegal.

17 - Aliteração (consoantes), assonância (vogais) e eco: são repetições de fonemas de mesma natureza.

Exemplos: Ivo tardou em ver o trem, e nunca mais viu a uva. (Herbert Farias) aliteração
 “A população deve tratar a corrupção com pressão política....” eco
 “Atualmente, o Brasil vem passando por problemas, unicamente, ligados a desigualdade social, o que desmente a máxima popular que esse é essencialmente o país do futuro.” eco
“Brilham com brilhos sinistros.” (Eugénio de Castro) assonância
“Sou Ana, da cama
Da cana, fulana, bacana
Sou Ana de Amsterdam.” (Chico Buarque) assonância
“Quando eu morrer, não quero choro nem vela/Quero uma fita amarela gravada com o nome dela” (Noel Rosa) eco

18 - Onomatopéia: é a imitação do som natural de seres animados e inanimados, de processos, de fenômenos de qualquer natureza, etc.

Exemplos: tique-taque, toc-toc, tilintar, reco-reco, teco-teco, buá, beep, tssss, pum, tico-tico, bem-te-vi, ploft, bam, atchim, chuá-chuá, zunzunzum, etc.

“E, no bramido daquele mar, os muitos sons se dissociavam – grugulejos de redemoinhos, sussurros de remansos, chupões de panelas, chapes de encontros de ondas...” (Guimarães Rosa)

Figuras sintáticas ou de construção

19 - Elipse: consiste na omissão de um ou mais termos de uma oração, ou mesmo de uma oração inteira, que podem ser facilmente subentendidos no contexto.

Exemplos: “Na rua, tanto barulho que ficamos ensurdecidos.”
Empreste-me essa folha.
Como estávamos exaustos, preferi encurtar nossa viagem.

20 - Zeugma: é um tipo de elipse em que se omite um termo anteriormente enunciado.

Exemplos: Eu vi coisas lindas, realmente emocionantes; ela, coisas abomináveis, terríveis aos seus olhos.
Na terra dele havia mato; na minha, prédios.
Meus primos conheciam todos. Eu, poucos.

21 - Assíndeto: é um tipo de elipse que ocorre quando um conectivo é omitido.

Exemplos: Todos esperamos se faça justiça.
Foi ao “shopping”, andou como nunca, viu diversas vitrines, saiu sem comprar nada.
"Vim, vi, venci." (Júlio César)
"Foi apanhar gravetos, trouxe do chiqueiro das cabras uma braçada de madeira meio ruída pelo cupim, arrancou touceiras de macambira, arrumou tudo para a fogueira." (Graciliano Ramos)

22 - Polissíndeto: é a repetição de um conectivo geralmente por razões estilísticas.

Exemplos: "Falta-lhe o solo aos pés: recua e corre, vacila e grita, luta e ensanguenta, e rola, e tomba, e se espedaça, e morre." (Olavo Bilac)
“Para a humanidade, nem a Nanotecnologia, nem a Física Quântica, nem a Engenharia Genética serão capazes de reabilitar a Terra.”
"O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora." (Machado de Assis)
"No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego
Trabalhe, e teima, e lima, e sofre, e sua!" (Olavo Bilac)

23 - Anáfora: é a repetição de uma ou mais palavras no início de várias frases, criando, assim, um efeito sonoro, mas, antes de tudo, um recurso de ratificação e de estabelecimento de coerência no texto. Pode ainda ser empregada como recurso retórico, o que é muito comum em sermões.

Exemplos:"Se você gritasse
Se você gemesse,
Se você tocasse
a valsa vienense
Se você dormisse,
Se você cansasse,
Se você morresse...
Mas você não morre,
Você é duro José!" (Carlos Drummond de Andrade)

Ilha cheia de graça
Ilha cheia de pássaros
Ilha cheia de luz
Ilha verde onde havia
mulheres morenas e nuas" (Cassiano Ricardo)

O que será que será?
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados. (Chico Buarque)

“Tudo cura o tempo, tudo gasta, tudo digere.” (Vieira)

24 - Pleonasmo: é também um caso de repetição. Ocorre com o emprego de palavras ou expressões redundantes ou desnecessárias para a completa compreensão do enunciado (pleonasmo vicioso e epíteto da natureza).

Exemplos: há séculos atrás, a atual vigente, “Dorme, dorme teu sono, ó vã cidade.”, “A mim resta-me a independência para chorar.”, monopólio exclusivo, elo de ligação, ela via com seus próprios olhos, “As minhas roupas, vou queimá-las”, basta apenas, etc.
"Iam vinte anos desde aquele dia
Quando com os olhos eu quis ver de perto
Quanto em visão com os da saudade via." (Alberto de Oliveira)
"Morrerás morte vil na mão de um forte." (Gonçalves Dias)
"O cadáver de um defunto morto que já faleceu." (Roberto Gómez Bolaños)
"E rir meu riso" (Vinícius de Moraes)
“Ele admirava menos a tela que a pintora, ela menos o espetáculo que o admirador, e eu via-os com estes olhos que a terra fria há de comer.” (Machado de Assis)

25 - Hipérbato ou inversão: consiste na alteração da ordem natural e direta dos termos da oração ou mesmo das orações por razões estilísticas.
Exemplos: “Passarinho, desisti de ter.” (Rubem Braga) (Desisti de ter passarinho.)
“Se morrem, descansa dos seus na lembrança.” (Gonçalves Dias) (Descansa dos seus na lembrança, se morre.)
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante.” (Joaquim Osório Duque Estrada) (As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico.)
"Bendito o que, na terra, o fogo fez, e o teto." (Olavo Bilac) (Bendito o que fez o fogo e o teto na terra.)
“Passeiam, à tarde, as belas na Avenida.” (Carlos Drummond de Andrade) (As belas passeiam na Avenida à tarde.)

26 - Silepse: é a concordância que se faz com a ideia, e não com a palavra expressa. É também chamada de concordância ideológica. Há três tipos de silepse: de gênero (a concordância se faz com a ideia feminina ou masculina); de número (a concordância se faz com a ideia singular ou plural); e de pessoa (a concordância se faz com uma pessoa gramatical diferente da expressa pela palavra).

Exemplos: São Paulo realmente é caótica. [silepse de gênero - o adjetivo caótica ficou no feminino, porque concorda com a ideia (a cidade de) São Paulo]
Vossa Excelência pode ficar tranquilo e calmo. [silepse de gênero - os adjetivos tranquilo e calmo ficaram no masculino, porque concordam com a ideia: a pessoa a quem se dirige o pronome de tratamento Vossa Excelência é homem]
Os paulistas somos bem tratados no Paraná. [silepse de pessoa - o verbo ser concorda com a primeira pessoa do plural (nós), apesar de o sujeito expresso ser “Os paulistas” (terceira pessoa do plural). Com esse recurso, o emissor da mensagem quis passar a ideia de que ele também é paulista, de que ele se inclui entre os paulistas]
A gente não quer alimento. Queremos amor e paz. [silepse de número - o verbo querer ficou no plural, e seu sujeito oculto (A gente) é singular]

Observação: a principal diferença entre silepse de pessoa e de número é que na de pessoa o emissor da mensagem se inclui no sujeito de terceira pessoa do plural.

27 - Anacoluto: é uma ruptura da ordem lógica da frase. É a figura de linguagem que consiste na mudança da construção sintática de forma abrupta e inesperada no meio da frase, o que faz alguns termos parecerem desligados do resto do período.

Exemplos: “O Alexandre, as coisas não lhe estão indo muito bem. A velha hipocrisia, recordo-me dela com vergonha.” (Camilo Castelo Branco)
“Essas empregadas de hoje, não se pode confiar nelas.” (Alcântara Machado)
“...umas carabinas que guardava atrás do guarda-roupa, a gente brincava com elas de tão imprestáveis.” (J. Lins do Rego)

28 - Hipálage: é uma figura de linguagem construída a partir da atribuição, a um termo, de uma qualidade que previsivelmente pertence a outro termo da mesma sentença.

Exemplos: "Fumando um pensativo cigarro." (Eça de Queirós)
"Todos os dias de jejum come um peixe austero." (Eça de Queirós)
“..em cada olho um grito castanho de ódio.” (Dalton Trevisan)

29 - Anadiplose: é a repetição da última palavra ou frase de um verso ou uma sentença no início da seguinte.

Exemplo: "O córrego é o mesmo,/Mesma, aquela árvore,/A casa, o jardim./Meus passos a esmo/(Os passos e o espírito)/Vão pelo passado,/Ai tão  evastado, /Recolhendo triste/Tudo quanto existe/Ainda ali de mim/- Mim daqueles tempos!" (Manuel Bandeira)

30 - Epístrofe: consiste na repetição da mesma palavra ou expressão no final de cada oração ou verso de um texto ou parte dele.

Exemplos:“o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio..." (Carlos Drummond de Andrade)

"Homem!
Vive por Deus!
Sofre por Deus!
Morre por Deus!" (Guerra Junqueiro)