sábado, 12 de maio de 2012

Gêneros textuais: manifesto


Manifesto do Contra

Considerando que só a desordem parece se encontrar com o progresso; que os que seguiram brasileiros foram trucidados ou morreram na miséria; que nem ser não é possível e que o ser não prova ser melhor que o nada: nós somos do contra. Contra a transformação constante para a permanência irritante do que se recusa a morrer! Contra os maquiadores desses cadáveres, os cirurgiões dessas plásticas e suas performances dramáticas! Contra o centralismo antidemocrático da administração, a dispersão fratricida da revolução e os danos por baixo dos panos!
Somos contra o alívio sintético dos livrinhos da auto-ajuda e dos analgésicos, o sexo anal sem preservativos e a preservação dos ativos suspeitos em contas escuras e mal cheirosas, transmitindo epidemias de desleixo e desinteresse.
Somos contra o baixo preço da vida: os hospitais com equipamentos de segunda, os seguros saúde com profissionais de terceira e a devastação provocada pelos planos econômicos de quinta nas caladas das noites alheias sem prejuízo aos seus autores sobreviventes.
Somos contra as inutilidades domésticas para os aflitos indecentes e a execração pública dos bandidos indigentes. Os que salvam a própria cabeça pisando nos pescoços, nos processos, nos arquivos. Contra os que escutam conversas pra se entender, os que transmitem recados pra aproveitar e os que vendem a identidade pra se acobertar. Contra o câncer do serviço secreto e das tropas especiais. Contra o desprezo pelos programas espaciais, nossa única saída de nós mesmos.
Também somos contra os ensimesmados pelos ensinamentos sagrados, que passam a vida prática atrás da teoria física, morrendo com artrite no pensamento embotado. Contra a macumba, contra deus e o diabo. Contra as pragas egípcias, contra o mal olhado. Contra os que reparam, invejam, atrasam! Contra os que diante de uma pergunta invocam advogados escusos ou tornam-se juizes uniformizados em portas de cadeia degradadas, geridas e gestadas por traficantes operantes e abastecidas com as cestas básicas da má consciência da elite produtiva, que se destrói em carros velozes, helicópteros particulares e bancos escolares de quarta classe.
Estamos contra os que perdem seu tempo reclamando do tempo, inventando cursos mirabolantes, conhecimentos extravagantes e diplomas esquisitos para tudo o que é preciso saber por iniciativa própria.
Contra o gigantesco espaço dedicado à propaganda de ilusões minúsculas. O "emocionamento" aritmético da razão e a racionalização gramatical dos sentimentos. As ciências das opiniões e os palpites irracionais em meio aos linchamentos e às bacanais de processos fraudulentos ou cocaína pura.
Contra os que vestem as carapuças, as carapaças, as catapultas. Contra a inteligência militar e a burrice das emboscadas. Contra o desprezo preguiçoso pela violência dos argumentos. Contra a especulação imobiliária, a incontinência urinária e bucal dos caçadores de marginais. Contra os pequenos que são iguais e os grandes indiferentes. Contra a eterna purificação dos paraísos fiscais, onde os recursos nacionais viram iates sensacionais, malas especiais e contratos de gaveta. Contra jornalistas amigos de artistas, artistas patrocinados por políticos e políticas de achatamento da ousadia. Contra os críticos céticos e os éticos mesquinhos. Contra o terceiro setor da caridade, a terceira via da bondade e a encruzilhada da inocência. Contra os malandros que se escondem em ternos de bacanas e bacanas que posam de inocentes. Contra as coleções de segredos fechadas nos palácios. Contra a difusão condescendente da ignorância dos casebres e do elogio de fachada. Contra o estrangeiro que incomoda e contra a pátria conhecida. Contra o ponto batido, a vontade adiada, a bala perdida. Contra a família unida pela falta de dinheiro para os aluguéis de cada um. Contra a apropriação pessoal do bem comum e a comunização das pessoalidades. Contra a propriedade inconsentida da privacidade e a privacidade deliberada e inconsciente da propriedade. Contra os que servem os pratos mórbidos da vingança e os que os comem frios com um pé na cova. Contra o presunto na sarjeta e a Maizena na lasanha.
Contra o pão engordado com bromato, a terra grilada por força das armas e a liberdade às custas da lei.
Contra o voto útil, de cabresto, por cabeça e o voto de confiança. Contra a institucionalização da dúvida e da dívida. Contra os que são feitos pelo que fazem e os que jazem nestas cadeias e cadeiras de compromisso, onde um paletó dobrado é a única marca de sua impertinência. Contra os que pedem amor, os que imploram perdão, os que têm o prazer na confusão, gozando espremidos em surdina na latrina de nossa História.
Contra o comprimido, a vacina e o antibiótico que desestimulam os pacientes de serem agentes de suas autonomias! Contra os que conquistam a própria força à força dos cavalos que escoiceiam! Contra os que fazem conta, os que tomam conta e os que não contam com isso!
Aliás, na hora em que tudo se tornar realmente insuportável, nós viramos do avesso, depois do outro lado. Somos do contra. Somos contrários. Contra você, contra os do contra, contra mim... é o fim; estamos desconversados.

Fernando Bonassi