sábado, 12 de maio de 2012

Gêneros textuais: conto


Um saco de risadas

Eu sou feliz. Sou muito feliz. Sou feliz demais. Eu sou tão feliz, mas tão feliz, que cada degrau da minha vida é um sorriso onde eu piso. Ah essa brancura da dentadura que se espalha! Essa cara de palhaço estampada no espelho! Já nem tenho tempo de parar pra rir: rio dormindo, rio acordado; rio correndo, rio parado. Rio um riso arrepiado, rio o riso arrependido. Rio o riso dos amantes, rio o riso dos maridos. Riso esganiçado. Riso empedernido. Rio quando cago. Rio quando mijo. Rio quando o sol aparece, rio quando fica escondido. Ninguém pode me proibir. Um desgraçado também pode rir! Rio pra seduzir, rio pra disfarçar, rio pra distrair, rio pra suportar. O eterno exercício do maxilar! Rio no almoço, rio no jantar. O riso da garganta em carne viva, riso que se morde na gengiva. Rio de tudo, rio de nádegas, riso absurdo, riso de cócegas. O riso feito um soluço. Riso rido como um susto! O riso de terror petrificado. Rir de um corpo estatelado. Risos calculados. O riso embasbacado dos casais apaixonados. E eu rio com o que tenho de dentes! Alegria enxurrada de enchentes! Riso histérico dos dementes! Rio porque é duro. Rio porque é de graça. Gás hilariante espalhado pelas praças! Rir com segurança, rir das ameaças! Rio quando cheiro. Rio sem vergonha. Rio quando fumo. Rio com maconha o riso dos malucos. Rio quando encontro, rio quando esbarro. Rio porque é sério, rio tirando sarro - a língua mergulhada na saliva e no catarro! Rio tomando água, rio bebendo pinga. Rio porque são frescas. Rio porque são lindas. O riso como um pote de pimenta gargalhando num sorriso que aumenta. Rio o riso dos primeiros, rio o riso dos cansados. Rio o riso dos coveiros, rio o riso dos defuntos. Rio pra me lembrar. Rio pra me esquecer. Risos pra resfriar, risos pra aquecer. Rir o riso dos parentes, rir o riso dos amigos, rir o riso dos contentes, rir o riso dos falidos. Rio o riso do pecado. Rir um riso preocupado. O riso do cachorro se pendura pelo rabo. O riso das hienas quando encontram a carniça. O riso dos ateus que precisam ir à missa. O riso imaculado, o vagabundo e o invocado. O riso dos maduros, o riso dos meninos. Sorrisos em apuros: o destino dos forçados, a sina dos verdugos. O riso amarelo da educação. O riso budista da meditação. Rir como aviso. A pura tentação do riso. As risadas meladas das tortas arremessadas. Rir o riso pastelão, riso engarrafado de televisão. As mesmas piadas repassadas e caímos na cilada! Rio em congestionamento, rio em casamento. Rio com farinha, rio com cimento. Rio direto. Do bom, do melhor, do desprezível. Rir que o riso é infalível. Uma risada grudando na outra, fazendo uma música rachada no céu da minha boca. Rio da minha cara, rio da minha fome. A vingança que se cospe no prato frio. Rir à puta que pariu! Rio por dentro de pesadelos esquisitos; nas marquises dos edifícios espremidos, rir o riso dos pobres, rir o riso dos ricos (é bom que fique claro: o riso dos bacanas é o mesmo dos coitados). Com a cara, a coragem, a covardia. Rio todo dia. Rio porque sim, rio porque não. Rio de janeiro, fevereiro ou março. Rio de mim, rio do fim, rio de você. Ontem ainda "estava" feliz, mas hoje "eu sou". Nada abala minha felicidade. Eu sou feliz. Feliz até à carne. Feliz demais. Risos. Só risos. Nada mais. Exalo felicidade por todos os poros. Uma felicidade contagiante mesmo. Uma hora dessas, puxa! Eu nem sei...

Fernando Bonassi