sexta-feira, 11 de maio de 2012

Gêneros textuais: fábulas e intertextualidade


Fábula 1

A cigarra e a formiga
Esopo

Em pleno Verão, sob um sol escaldante, a formiga trabalhava sem descanso. Ia e vinha dos campos para o formigueiro, para encher a sua despensa de alimentos.
Entretanto, deitada descansadamente à sombra, a cigarra desfrutava bons momentos. Cantava alegremente o dia todo, sem preocupações nem cansaço.
Quando passava por ali, a formiga via sempre a cigarra a descansar.
-Por que é que trabalhas tanto, formiga? Faz como eu, aproveita a vida! - dizia-lhe a cigarra, tranquilamente.
O Verão passou e chegaram as primeiras nuvens trazidas pelo Outono. A formiga apressou-se ainda mais para encher a despensa, enquanto a cigarra observava o céu, inquieta. Cansada e satisfeita com o seu trabalho, a formiga verificou que tinha alimento de sobra para o Inverno. Finalmente, podia descansar tranqüila.
Entretanto, a cigarra via cair as últimas folhas das árvores. Em pouco tempo, tudo ficou coberto de neve. Ela já não tinha vontade de cantar. O Sol tinha desaparecido.  A cigarra estava com fome e tremia de frio.
Lembrou-se então da formiga trabalhadora e foi bater à porta do formigueiro, à procura de abrigo e alimento.
A formiga disse-lhe:
- Enquanto te divertias, eu trabalhava. Pois agora estás a colher o que plantaste!
E fechou-lhe a porta na cara.
Gelada e esfomeada, a cigarra ficou sozinha no meio da floresta. Tinha um longo Inverno pela frente para se arrepender de ter sido tão preguiçosa.

Fábula 2

A formiga má
Monteiro Lobato

Já houve entretanto, uma formiga má que não soube compreender a cigarra e com dureza a repeliu de sua porta.
Foi isso na Europa, em pleno inverno, quando a neve recobria o mundo com seu cruel manto de gelo.
A cigarra, como de costume, havia cantado sem parar o estio inteiro e o inverno veio encontrá-la desprovida de tudo, sem casa onde abrigar-se nem folhinhas que comesse.
Desprovida, bateu à porta da formiga e implorou - emprestado, notem! - uns miseráveis restos de comida. Pagaria com juros altos aquela comida de empréstimo, logo que o tempo o permitisse.
Mas a formiga era uma usurária sem entranhas. Além disso, invejosa. Como não soubesse cantar, tinha ódio à cigarra por vê-la querida de todos os seres.
- Que fazia você durante o bom tempo?
- Eu...eu cantava!...
-Cantava? Pois dance agora, vagabunda! - e fechou-lhe a porta no nariz.
Resultado: a cigarra ali morreu entanguidinha; e quando voltou a primavera o mundo apresentava um aspecto mais triste. É que faltava na música do mundo o som estridente daquela cigarra, morta por causa da avareza da formiga. Mas se a usurária morresse, quem daria pela falta dela?