quinta-feira, 19 de abril de 2012

2012 - Uberaba - 3ano - Bim1 - Prova de redação


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Prova bimestral - Redação
Professor Estéfani Martins

TEXTO: 1 - Comum à questão: 1

O maiúsculo e o minúsculo

(1) É lastimável quando alguém simplifica em demasia as realidades complexas: perde a proporção dos fatos e se põe a fazer afirmações desprovidas de qualquer fundamento. Enquanto essas simplificações permanecem nos limites estritos do idiossincrático, parece não haver maiores problemas, afinal cada um acredita naquilo que bem lhe apraz. Contudo, quando essas simplificações ultrapassam tais limites e começam a sustentar ações com repercussão para além do idiossincrático, a situação se torna, no mínimo, preocupante.
(2) É o que tem ocorrido ultimamente com certa discussão em torno da língua. Nessa área, há, sem dúvida, questões maiúsculas a serem enfrentadas. O Brasil precisa desencadear um amplo debate com vista à elaboração de uma nova política linguística para si, superando os efeitos deletérios de uma situação ainda muito mal resolvida entre nós.
(3) Essa nova política deverá, entre outros aspectos, reconhecer o caráter multilíngue do país (o fato de o português ser hegemônico não deve nos cegar para as muitas línguas indígenas, europeias e asiáticas que aqui se falam, multiplicidade que constitui parte significativa do patrimônio cultural brasileiro). Ao mesmo tempo, deverá reconhecer a grande e rica diversidade do português falado aqui, vencendo de vez o mito da língua única e homogênea.
(4) Será preciso incluir, nessa nova política, um combate sistemático a todos os preconceitos linguísticos que afetam nossas relações sociais e que constituem pesado fator de exclusão social. E incluir, ainda, um incentivo permanente à pesquisa científica da complexa realidade linguística nacional e à ampla divulgação de seus resultados, estimulando com isso, por exemplo, um registro mais adequado, em gramáticas e dicionários, da norma-padrão real, bem como das demais variedades do português, viabilizando uma comparação sistemática de todas elas, como forma de subsidiar o acesso escolar (hoje tão precarizado) ao padrão oral e escrito.
(5) Apesar de termos essas tarefas maiúsculas à frente, foi uma questão minúscula que, a partir de uma grosseira simplificação dos fatos, acabou por tomar corpo em prejuízo de todo o resto: a presença de palavras da língua inglesa em nosso cotidiano.
(6) Uma observação cuidadosa e honesta dos fatos nos mostra que, proporcionalmente ao tamanho do nosso léxico (composto por cerca de 500 mil palavras), esses estrangeirismos não passam de uma insignificante gota d’água (algumas poucas dezenas) num imenso oceano.
(7) Mostra-nos ainda mais (e aqui um dado fundamental): muitos deles, pelas próprias ações dos falantes, estão já em pleno refluxo (a maioria terá, como em qualquer outra época da história da língua, vida efêmera).
(Carlos Alberto Faraco. Folha de S. Paulo. 13/05/2001).

1 - Analise os dois segmentos a seguir e identifique o conectivo que seria coerente inserir entre eles:

          O Brasil precisa desencadear um amplo debate com vista à elaboração de uma nova política linguística.
          [O Brasil precisa] superar os efeitos deletérios de uma situação ainda muito mal resolvida entre nós.

a)         não obstante
b)         uma vez que
c)         mesmo que
d)         a fim de
e)         ainda assim

TEXTO: 2 - Comum às questões: 2 e 3.

Observe o parágrafo abaixo:

“Em 2006, foi condenado pelo crime em júri popular. No mesmo ano, teve a sentença confirmada pelo Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo e, dois anos mais tarde, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Como explicar o fato de que continua livre? A resposta está, sobretudo, numa mudança ideológica que começou a tomar corpo no Supremo Tribunal Federal (STF) no início dos anos 2000. Até a década de 90, o STF era composto de uma maioria de ministros ditos conservadores – termo que – em direito penal, indica aqueles que têm uma interpretação rigorosa da lei, em oposição, por exemplo, aos ‘garantistas’, mais preocupados em assegurar os direitos fundamentais do réu.
Grossíssimo modo, conservadores seriam aqueles que mandam prender e garantistas, ou liberais, aqueles que mandam soltar. A partir de 2003, o colegiado de onze magistrados do STF sofreu sete substituições. O fato de quase todos os novos ministros serem liberais levou a que uma tese passasse a prevalecer nas decisões do tribunal: o princípio da presunção da inocência, segundo o qual ninguém será considerado culpado antes que todos os recursos da defesa sejam julgados. No tempo da supremacia conservadora no STF, entendia-se que uma condenação em segunda instância era suficiente para que o réu pudesse ser preso. Agora, com a hegemonia garantista, desde que ele tenha dinheiro para pagar bons advogados e entrar com sucessivos recursos na Justiça, poderá ficar solto até a palavra final do STF, ainda que isso leve quase uma década – como no caso de Pimenta Neves.”

(DINIS, L. Quase uma década de impunidade. Veja, São Paulo, 23 set. 2009. Brasil, p. 74)

2 - Em qual das expressões abaixo, a jornalista dá entrada para uma mudança de expectativa no processo de compreensão dos termos jurídicos em foco, de forma mais clara:

a)         “no mesmo ano”
b)         “dois anos mais tarde”.
c)         “até a década de 90”.
d)         “grossíssimo modo”
e)         “no tempo da supremacia conservadora”.

3 - No trecho da reportagem acima, a jornalista procura mostrar os mecanismos de funcionamento da justiça brasileira, a partir de um crime bárbaro e que, quase uma década depois, continua impune. A maneira como ela desenvolve a sua argumentação leva em conta algumas minúcias, por meio de termos, que procuram driblar um pouco o peso da linguagem técnica para entender a nossa atual cultura jurídica da impunidade. Isso acontece porque:

a)         diante do fato inaceitável de um assassino continuar livre, ficaria mais fácil para o leitor compreender fatos que, no fundo, só aumentam a nossa indignação, já que favorecem os criminosos endinheirados.
b)         no entendimento da repórter, os criminosos, de alguma maneira, serão seriamente punidos.
c)         o leitor presumível é ingênuo, a ponto de aceitar a impunidade como algo normal.
d)         investe-se, no final das contas, numa maneira de descrição inteiramente voltada para a própria supremacia da linguagem técnico-jurídica.
e)         indiferente ao que acontecer, as tendências conservadoras ou garantistas serão legitimadas, simplesmente, na total capacidade de auto-ajuste do nosso sistema jurídico.

TEXTO: 3 - Comum à questão: 4.

Leia o poema a seguir.

LITANIA DOS POBRES

Os miseráveis, os rotos
são as flores dos esgotos.

São espectros implacáveis
os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários
dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas,
cegos, a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos
e varando o céu de gritos.

Faróis à noite apagados
por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços
pedindo amor aos Espaços.

Mãos inquietas, estendidas
ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício
condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento
dilúvio do Esquecimento.

Perdidas na correnteza
das culpas da Natureza.
(...)
(CRUZ E SOUSA, Os melhores poemas de Cruz e Sousa, p.89)

4 - Julgue verdadeiras (V) ou falsas (F) as assertivas acerca da relação entre os aspectos expressivos, gramaticais e semânticos do fragmento do poema:

(  )       Na expressão “prantos negros” (v.5), o poeta lança mão de uma figura de linguagem denominada sinestesia.
(  )       O substantivo “céu”, na sexta estrofe, tem seu sentido modificado em função dos verbos que o acompanham.
(  )       O substantivo próprio “Espaços”, na oitava estrofe, evoca um ser superior a quem se dirige a súplica justificada pelo título do poema.
(  )       A unidade de sentido do poema é perturbada pelo fenômeno da elipse, cujo referente não é recuperado no próprio texto.

A sequência correta é:

a)         V, V, F, F.
b)         V, F, F, V.
c)         F, V, F, V.
d)         V, V, V, F.
e)         V, F, V, V.

TEXTO: 4 - Comum à questão: 5.

Remorso

1Às vezes, uma dor me desespera. . .
2Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
3Cismo e padeço, neste outono, quando
4Calculo o que perdi na primavera.

6Versos e amores sufoquei calando,
7Sem os gozar numa explosão sincera. . .
8Ah! mais cem vidas! com que ardor quisera
9Mais viver, mais penar e amar cantando!

11Sinto o que esperdicei na juventude;
12Choro, neste começo de velhice,
13Mártir da hipocrisia ou da virtude,

15Os beijos que não tive por tolice,
16Por timidez o que sofrer não pude,
17E por pudor os versos que não disse!

BILAC, Olavo. Melhores poemas de Olavo Bilac/Seleção de Marisa Lajolo. 4ª ed. São Paulo: Global, 2003, p. 106. (Melhores poemas: 16)

5 - Nos versos “Cismo e padeço, neste outono, quando/Calculo o que perdi na primavera”, os termos destacados

a)         referem-se, denotativamente, às estações do ano, que são marcadas por características bem específicas.
b)         expressam fases da vida do eu lírico, apresentadas por meio de antítese.
c)         constituem exemplos de metonímias, expressando, respectivamente, a velhice e a juventude.
d)         referem-se às etapas da vida do eu lírico, representadas pelo eufemismo.
e)         são usados de forma conotativa apenas para satisfazer as exigências da estética parnasiana.

TEXTO: 5 - Comum à questão: 6.

Mais de 25 séculos após Heráclito de Éfeso dizer que

Não se toma banho duas vezes no mesmo rio,

Raul Seixas declarou

Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
(Metamorfose ambulante – Raul Seixas)

E Lulu Santos comparou a vida a uma onda:

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará
A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo
(Como Uma Onda - Lulu Santos / Nelson Motta)

6 - A intertextualidade evidente entre o pensamento de Heráclito e as letras das músicas de Raul Seixas e Lulu Santos se realiza por:

a)         Alusão.
b)         Paráfrase.
c)         Pastiche.
d)         Paródia.
e)         Citação

TEXTO: 6 - Comum à questão: 7.

O que está acontecendo no Congresso Nacional é uma verdadeira vergonha para o Brasil. Todos esses parlamentares, que deveriam ser os verdadeiros guardiões da ética, demonstram total imoralidade pela maneira como usam o dinheiro público para financiar os seus próprios benefícios. O pior de toda essa situação é que, no momento de apurar o caso, ninguém é culpado. Afinal, todos eles são amparados por leis que favorecem esses desmandos. Esses senhores não sabem respeitar a população (grifos nossos).
Carta enviada à revista ISTOÉ, publicada no n° 2061, Ano 32.

7 - “Esses desmandos”, no próprio texto, retoma

a)         todos eles são amparados por.
b)         deveriam ser os verdadeiros guardiões da ética.
c)         o pior de toda essa situação é que ninguém é culpado.
d)         a maneira como os parlamentares usam o dinheiro público.
e)         o que está acontecendo no Congresso Nacional é uma verdadeira vergonha.

8 - Parabéns. Estou encantado com seu sucesso. Chegar aqui não foi fácil, eu sei. Na verdade, suspeito que foi um pouco mais difícil do que você imagina. Para início de conversa, para você estar aqui agora, trilhões de átomos agitados tiveram de se reunir de uma maneira intrincada e intrigantemente providencial a fim de criá-lo. Essa é uma organização tão especializada e particular que nunca antes foi tentada e só existirá desta vez. Nos próximos anos, essas partículas minúsculas se dedicarão totalmente aos bilhões de esforços jeitosos e cooperativos necessários para mantê-lo intacto e deixá-lo experimentar o estado agradabilíssimo, mas ao qual não damos o devido valor, conhecido como existência.
Adaptado de Bill Bryson

Essa é uma organização tão especializada e particular que nunca antes foi tentada e só existirá desta vez. Considerado o período acima, é correto afirmar que
a) o termo só foi empregado com o mesmo sentido que se nota em “Enfrentava o cotidiano só e resignado”.
b) o segmento e só existirá desta vez reforça, na argumentação, o que se afirma na oração inicial.
c) o pronome Essa se refere àquilo que vai ser caracterizado na seqüência da frase.
d) o termo tão é usado com valor comparativo, como em “Ele é tão simpático quanto o irmão”.
e) o deslocamento de antes, na construção “Nunca foi tentada antes”, altera o sentido em que o termo é usado no texto.

9 - Examine os textos:

(...) Há uma parada instantânea. Entre batem-se, enredam-se, trançam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, e inclinam-se, embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação no solo; e a boiada estoura ...
A boiada arranca.
(Os Sertões, de Euclides da Cunha)

As ancas balançam e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estalos de guampas, estrondos de baques, e o berro queixoso do gado Junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos, de lá do sertão ...
(O Burrinho Pedrês, de Guimarães Rosa)

Marque a afirmação incorreta sobre os textos apresentados:

a) Um elemento comum em ambos os fragmentos é a enumeração das ações do rebanho durante a condução da boiada.
b) Há recursos de musicalidade (aliterações) nas palavras (“milhares de chifres. Vibra uma trepidação”, “dos pastos, de lá do sertão”).
c) Guimarães Rosa preocupa-se com o ritmo e a reorganização da linguagem no fragmento.
d) O interesse principal na obra de Euclides da Cunha é a apresentação lírica dos hábitos sertanejos e a denúncia do sofrimento pelo trabalho exaustivo de vaqueiro.
e) A ambientação sertaneja e seus elementos caracterizadores estão presentes em ambos os fragmentos, sem preocupação com juízos sociais.

10 - Pudor (Fragmento)

Certas palavras nos dão a impressão de que voam, ao saírem da boca. “Sílfide”, por exemplo. É dizer “Sílfide” e ficar vendo suas evoluções no ar, como as de uma borboleta. Não tem nada a ver com o que a palavra significa. “Sílfide”, eu sei, é o femi­nino de “silfo”, o espírito do ar, e quer mesmo dizer uma coisa diáfana, leve, borboleteante. Mas experimente dizer “silfo”. Não voou, certo? Ao contrário da sua mulher, “silfo” não voa. Tem o alcance máximo de uma cuspida. “Silfo”, zupt, ploft. A própria palavra “borboleta” não voa, ou voa mal. Bate as asas, tenta se manter aérea mas choca-se contra a parede. Sempre achei que a pala­vra mais bonita da língua portuguesa é “sobrance­lha”. Esta não voa mas paira no ar, como a neblina das manhãs até ser desmanchada pelo sol. Já a terrí­vel palavra “seborréia” escorre pelos cantos da boca e pinga no tapete. [...]

(VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 69).

Considere as expressões abaixo:

I.        certas palavras”    (linha 1)
II.       “coisa diáfana”      (linha 7)
III.      “alcance máximo”  (linha 10)

          Invertendo-se, em cada uma delas, a ordem da palavra destacada, ocorrerá alteração de sentido, apenas em:

a) I    
b) II
c) III
d) I e II        
e) I e III



Gabarito



1 - D
2 - D
3 - A
4 - A
5 - B (anulada)
6 - B
7 - D
8 - C
9 - D
10 - A