segunda-feira, 14 de novembro de 2011

32ª lista de indicações - discussão de 21 a 25 de novembro


Caras e caros,

Mais uma lista com assuntos de grande interesse por parte da mídia. Espero que aproveitem a leitura dos textos nesse feriado.

Abraços,

Professor Estéfani Martins
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1 - 1º anos, 2º anos, 3º anos e PV
A fome de um mundo repleto

ENTREVISTA DA 2ª JOEL E. COHEN
Perfil populacional dos próximos anos é receita para desastre
Segundo matemático americano, só 46% dos cereais plantados alimentam pessoas; mundo poderia dar de comer a 9 bilhões
Luciana Coelho
De Washington

Quando a Terra atingiu o sexto bilhão de seres humanos habitando-a simultaneamente, em 1999, o matemático biológico Joel E. Cohen,67, guardava um certo otimismo.
Via exagero no fatalismo com que alguns estudiosos referiam-se ao futuro e achava que a pergunta que dá título a seu livro mais famoso -quantas pessoas a Terra aguenta?- não era para ser respondida com um número, mas com políticas públicas e iniciativas sociais.
Entre o sexto e o recém-alcançado sétimo bilhão, porém, a humanidade -e seus governos- pouco colaboraram para manter o otimismo do matemático, que chefia o Laboratório de Populações na Universidade Rockfeller e leciona em Columbia, ambas em Nova York.
Em entrevista à Folha, Cohen falou sobre controle populacional, educação, investimento em desenvolvimento e o uso da comida que o mundo produz hoje.
Mas o tom que era de expectativa deu lugar à premência em um planeta que, a seu ver, tem seguido uma "receita para o desastre".

Folha - Quando chegamos aos 6 bilhões, o senhor dizia que a pergunta que dá título ao seu livro era algo em aberto. Aos 7 bilhões, continuamos sem resposta?
Joel E. Cohen -
 Agora percebemos que a mudança climática é uma ameaça à produção de comida, à vida das espécies, incluindo a humana, com mais clareza do que há 12 anos. O progresso científico trouxe razões para nos preocuparmos mais. Hoje também temos o maior número de famintos em 40 anos, segundo o braço da ONU para agricultura e alimentação: quase 1 bilhão.
Até recentemente, o número de pessoas cronicamente mal nutridas estava caindo, mas, nos últimos anos o preço dos alimentos subiu muito, em boa medida devido à competição com biocombustíveis e outros usos industriais da comida. Com isso, a fome aumentou.

Os biocombustíveis têm um impacto significativo? Porque a mudança climática também pesa nas colheitas.
Onde há medição, as colheitas diminuíram por causa da mudança climática. Mas acho que pesam os dois fatores, uso industrial e clima.
Outra questão é a crescente riqueza em alguns países em desenvolvimento. A quantidade de carne consumida por pessoa na Terra subiu, se não me engano, quatro vezes desde 1961. Países antes pobres, como a China, aumentaram enormemente a demanda, e muito do gado é alimentado com grãos, cultivados em terra agricultável que podia ser usada para plantar comida.
Os ricos conseguiram melhorar sua dieta, o que é bom, mas às custas dos pobres, que não têm como bancar a competição com os animais.

O que os governos de um mundo superpopuloso deveriam priorizar?
Em 2009-2010, o mundo cultivou 2,3 bilhões de toneladas métricas de cereais. Do total, 46% foi para a boca de pessoas, 34% for para animais e 18% foi para máquinas -biocombustível, plásticos. Nosso sistema econômico não precifica gente que passa fome. A fome é economicamente invisível. Não é que não possamos alimentar as pessoas -com o que se planta agora, poderíamos alimentar de 9 bilhões a 11 bilhões. O problema é que os pobres não têm renda.

O que o sr. sugere?
A primeira coisa é que todas as 215 milhões de mulheres que querem usar métodos anticoncepcionais, mas não têm sua demanda atendida, deveriam ter apoio financeiro para conseguir anticoncepcionais moderno.
Isso custaria US$ 6,7 bi ao ano para o mundo todo. Os EUA, sozinhos, gastaram US$ 6,9 bi para festejar o Halloween há uma semana [segundo a Federação Nacional de Varejistas]. Devemos dividir a conta com países ricos e pobres. Mas o mundo pode bancar isso facilmente.

E o que mais?
Assegurar que todos tenham uma educação de boa qualidade no ensino fundamental e médio, que permita às pessoas ter renda e ser trabalhadores capacitados.
Isso também melhoraria a velhice, pois gente bem educada na juventude envelhece com mais saúde. E, quando os jovens vão à escola, eles se casam mais tarde. Mulheres educadas costumam ter menos filhos, e seus filhos sobrevivem melhor. As taxas de mortalidade caem.
E a minha terceira recomendação é garantir nutrição adequada para todas as gestantes, lactantes e crianças de até cinco anos. Isso é crucial, pois se a criança passa fome antes de chegar à idade escolar, ela não aprende.

Há problemas de desenvolvimento.
Se você quiser que as crianças tenham cérebros que funcionam, é preciso assegurar que tenham acesso a boa comida. Não estamos fazendo isso. Estamos desperdiçando nossas crianças sem ver o custo econômico.
Há um conceito em economia chamado custo de oportunidade, que é o que você perde ao não explorá-la. Nosso péssimo tratamento das crianças é um custo de oportunidade enorme que não é incluído nos sistemas econômicos nacionais.

O sr. está familiarizado com os programas de transferência de renda no Brasil?
Li pouco sobre eles, mas sei que existem programas similares no México. São maravilhosos. O Brasil e o México estão entre os países mais ricos que levam a questão a sério. Na América Latina como um todo, o número médio de filhos por mulher passou de 6, nos anos 60, para 2 ou 2,1 hoje. Uma mudança enorme.

O sr. atribui isso a quê?
É uma via de mão dupla. Por um lado, as mulheres e meninas receberam mais educação, e houve quedas tremendas na taxa de fertilidade. Por outro, a queda na fertilidade faz com que haja menos crianças precisando de escola. As duas coisas andam juntas. A educação reduz a fertilidade, e a fertilidade mais baixa melhora as oportunidades para a educação, se a sociedade quiser.
Na África subsaariana e no Sul da Ásia, inclusive parte da Índia, você não vê uma queda tão drástica na fertilidade, tampouco melhoras na nutrição.

A fertilidade caiu na Europa, e a população envelheceu. O mesmo tem ocorrido na América como um todo. Mas a fertilidade ainda é alta em partes do mundo, sobretudo na Ásia, como o sr. diz. Qual o impacto, para o planeta, de uma população declinante e envelhecida de um lado e países cada vez mais superpopulosos de outro?
Você tem razão, temos pelo menos dois regimes demográficos hoje. Há mais de 50 países onde os níveis de fertilidade caíram abaixo da taxa de reposição. E há outros com crescimento rápido.
Em 1950, havia três vezes mais gente na Europa do que na África Subsaariana. Em 2010, havia 16% mais gente na África Subsaariana do que na Europa. Pelas projeções da ONU, em 2100 haverá 5 pessoas na África Subsaariana para 1 na Europa. De 3 para 1, fomos de 1 para 5 -a proporção aumentou 15 vezes.
Isso pode significar uma tremenda pressão pela imigração da África subsaariana para a Europa se a África continuar pobre. Por outro lado, se os europeus, se a China e se o resto do mundo ajudarem a África a enriquecer, isso pode significar um mercado enorme para o maquinário, os produtos e até o estilo que a Europa produz. E pode significar prosperidade.

O perfil da população mudou, mas a renda não acompanhou -menos gente tem mais, mais gente tem menos.
É lamentável. É uma situação instável ecológica, política, econômica e socialmente. É a receita para o desastre.


2 - 1º anos, 2º anos, 3º anos e PV
Partições, pequenezas e licitudes

3 - 1º anos, 2º anos, 3º anos e PV
Para começar a entender a conturbada vida econômica europeia

4 - 2º anos, 3º anos e PV
Outros olhares sobre a violência no Rio

5 - 2º anos, 3º anos e PV
Concisão é a alma do negócio?

6 - 3º anos e PV
A pequenez da globalização

7 - 3º anos e PV
Persona non grata
Saída da Grécia da zona do euro é apenas "questão de tempo"
Der Spiegel
03/11/2011

Na semana passada, parecia que o euro tinha sido salvo. Agora, após o anúncio pelo primeiro-ministro Papandreou de um referendo nacional ao pacote de resgate ao seu país, a moeda comum está ainda mais próxima do abismo. Mesmo assim, dizem os comentaristas alemães, pode ter sido a decisão acertada.
Apesar de sua localização glamourosa da Cote d’Azur, a cúpula da noite de quarta-feira provavelmente não será agradável para Giorgios Papandreou. O primeiro-ministro grego deverá se encontrar com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e com o presidente da França, Nicolas Sarkozy. Nenhum deles, é presumível, estará com humor para desfrutar de seus arredores encantadores.
Os líderes das economias mais poderosas do mundo começaram a chegar à costa sul da França na noite de quarta-feira, para o início na quinta-feira da cúpula do G20 deste ano. O anfitrião Sarkozy esperava que o encontro se concentraria no levantamento de fundos para reforçar a eficácia do fundo de proteção do euro, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), mas o sucesso da cúpula agora está em dúvida. O anúncio por Papandreou, na noite de segunda-feira, de que planeja realizar um referendo sobre o pacote de resgate da União Europeia ao seu país chocou e enfureceu seus supostos benfeitores –e colocou os mercados globais em outro mergulho em parafuso.
A notícia veio menos de uma semana depois de uma sessão de negociação na calada da noite em Bruxelas, que resultou em um acordo para redução da dívida grega em 50%, na disponibilização de 130 bilhões de euros adicionais em empréstimos ao país e na alavancagem do FEEF para 1 trilhão de euros. Os mercados se acalmaram imediatamente e o euro voltou a se valorizar frente ao dólar.

Um risco ao euro
Mas o anúncio pelo primeiro-ministro grego transformou rapidamente o otimismo nascente em um profundo pessimismo a respeito do futuro da moeda comum. Se os eleitores gregos, frustrados com rodada após rodada de medidas profundas de austeridade, rejeitarem o acordo de resgate, isso poderia resultar em uma falência nacional descontrolada. Os mercados provavelmente permanecerão nervosos até a divulgação dos resultados do referendo –e enquanto isso o euro estará cada vez mais próximo do abismo.
Como se para acentuar os riscos, os bancos alemães anunciaram na quarta-feira que adiariam sua aceitação da redução da dívida grega até após o referendo. Sem uma aprovação voluntária dos bancos, a Grécia enfrenta uma falência desordenada que poderia acelerar o contágio por toda a zona do euro.
A decisão de Papandreou, disse o comissário europeu de Energia, Günther Oettinger, “coloca o euro em um risco ainda maior”.
Mesmo assim, nem todos rejeitaram completamente a decisão de Papandreou. Afinal, está sendo pedido aos gregos para que aceitam medidas de aperto de cinto severas, e o fornecimento de ainda mais legitimidade democrática poderia retirar a força daqueles que protestam contra elas. O Gabinete em Atenas aprovou por unanimidade na quarta-feira o plano do referendo. Não se sabe exatamente quando o referendo ocorrerá, mas algumas autoridades insinuaram na quinta-feira que poderia ocorrer antes do fim do ano.
Comentaristas alemães analisaram o referendo na quarta-feira.

O “Financial Times Deutschland” escreveu:
“Há muitos que, desde segunda-feira, têm feito a pergunta indelicada: o primeiro-ministro grego enlouqueceu? A resposta é ‘não’. Papandreou apenas reconheceu que está acuado contra a parede mais do que nunca –e que terá tanto problema para vender o pacote de resgate da semana passada à população grega quanto teve para as medidas radicais de austeridade seguidas pelo seu governo. A crise da dívida da Grécia há muito se transformou em uma crise da democracia. Diante dessa situação, Papandreou decidiu fazer a opção de último recurso.”
“Há muito que criticar: a falta de coordenação com seus parceiros europeus; a aparente falta de um plano real para apresentação para a população grega. E, acima de tudo, sua aparente indiferença aos danos colaterais que uma votação negativa teria para a Europa e sua moeda comum.”
“É uma aposta de risco. Se Papandreou (...) conseguir convencer seu povo do acerto das medidas, então os esforços de resgate do euro estariam em um terreno bem mais estável do que têm estado até o momento.”

O “Süddeutsche Zeitung” de centro-esquerda escreveu:
“Por mais duro que possa soar, a política grega não é mais assunto apenas dos gregos. (...) O destino da Grécia também determina o dos outros 16 países da zona do euro. E se é verdade que o futuro da União Europeia depende do euro, então todo o projeto está em risco. As cúpulas em Bruxelas na semana passada foram uma expressão da responsabilidade que a Europa está disposta a assumir pela Grécia. Mas onde está a responsabilidade da Grécia pela Europa?”
“Com sua decisão unilateral de realizar o referendo, Papandreou lançou a Europa de volta à incerteza dos dias que antecederam a cúpula da UE. Pior, enquanto era ao menos possível dar passos à frente nas últimas semanas, agora um impasse completo se apresenta. Que medidas adicionais seriam possíveis quando ninguém saberá por semanas, talvez meses, por quanto tempo a Grécia permanecerá parte do euro?”
“Giorgios Papandreou deixou alguns meses difíceis para trás. A coragem e determinação política que exibiu até o momento merecem o mais alto respeito. É possível até mesmo entender que o primeiro-ministro finalmente queira alguma clareza, assim como disciplinar a oposição destrutiva em seu país. Portanto, não seria apenas uma ironia amarga se ele perdesse no voto parlamentar de confiança ou posteriormente no referendo. Também seria algo muito caro para a Europa.”

O jornal conservador “Die Welt” escreveu:
“A saída da Grécia da zona do euro parece ser apenas uma questão de tempo. Isso não significa o fim da solidariedade europeia. A Grécia certamente precisará de apoio adicional de seus parceiros. Mas uma saída seria apenas um reconhecimento muito tardio das realidades econômicas. Apenas com uma moeda nacional os gregos têm alguma chance de fortalecer sua competitividade por meio da desvalorização da moeda.”
“Mas mesmo essa medida radical não tranquilizará a situação na Europa. O temor de que a Itália também tombará há muito preocupa os mercados financeiros. (...) Caso a endividada Itália precise da ajuda do fundo de resgate, nenhuma das resoluções da UE adotadas até o momento seria adequada. Assim, o conflito entre a Alemanha e a França sobre se estamos dispostos a dar tudo o que temos para garantir os países endividados começará de novo. E isso significará que as medidas rejeitadas até o momento com sucesso pela chanceler Angela Merkel –como títulos do euro ou licenças bancárias ao fundo de resgate europeu– voltariam à mesa.”
“O primeiro-ministro grego parece um jogador de roleta que aposta tudo em único número. E, infelizmente, parece que ele não é o único apostador entre os políticos europeus.”

O “Frankfurter Allgemeine Zeitung” de centro-direita escreveu:
“Papandreou, que pode cair a qualquer instante, está jogando um jogo de ‘tudo ou nada’. (...) Isso poderia levar alguns alemães –que podem não mais se sentir representados pela unanimidade dos partidos políticos alemães em assuntos europeus– a questionarem por que os gregos são autorizados a votar a respeito de um pacote de ajuda, quando os alemães não são autorizados a votar sobre se eles e seus filhos querem arcar com os bilhões para este propósito. Isso poderia esclarecer a razão do ultraje com a notícia de Atenas ser tão grande em Berlim.”

O jornal “Die Tageszeitung”, de inclinação de esquerda, escreveu:
“As previsões de que os eleitores gregos rejeitarão a redução da dívida são prematuras demais. A maioria sabe que se país teria falido em novembro sem medidas de resgate. Mas eles também sabem que o ‘corte’ de 26 de outubro não os protegeria de serem escalpados no final. Está claro para todos que prosseguirão as medidas rigorosas de austeridade que estão estrangulando suas perspectivas de futuro.”
“Para mobilizar os eleitores, Papandreou deve enfatizar o que o acordo da UE para redução da dívida lhes proporcionou –a promessa de que o país não será excluído da zona do euro. Um retorno do dracma é um cenário de pesadelo para dois terços da população. Mas mesmo uma confirmação em um referendo não colocará um fim aos protestos contra as medidas de austeridade. O ato de equilibrismo do primeiro-ministro prosseguirá mesmo se sair vitorioso.”

O jornal financeiro “Handelsblatt” escreveu:
“Provavelmente seria melhor para a zona do euro se o primeiro-ministro grego, Papandreou, perdesse no voto de confiança parlamentar no final desta semana. Assim ficaria claro que a Grécia condenaria seus parceiros e a zona do euro poderia se concentrar nos países, como Irlanda e Portugal, que estão determinados a contribuir com sua parte para o fundo de resgate.”
“Internamente a Grécia está tão dividida que ninguém mais sabe ao certo se a ainda há vontade de ajudar a si mesma. E uma pessoa que está se afogando, que devolve o salva-vidas, não pode ser salva.”
“A questão é, entretanto, se ainda há tempo para esperar pelo referendo e se, após os dois últimos anos de drama grego, outro trimestre de incerteza é imaginável. (...) Os políticos da zona do euro não têm outra escolha a não ser lidar com mais meses de suspense. Isso poderia valer a pena se a oposição conservadora irresponsável finalmente fosse colocada sob uma pressão séria. A Europa então poderia virar a mesa e iniciar um jogo de chantagem, ameaçando retirar o pacote de resgate se a Grécia não arrumasse as coisas rapidamente. Mas isso também seria arriscado –e também significaria mais espera.”

Tradução: George El Khouri Andolfato