segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Arte africana e afro-brasileira (algumas anotações importantes)


Arte africana e afro-brasileira
Por Estéfani Martins

- A Arte Africana é a base fundadora da chamada Arte Afro-brasileira. Por isso, é importante salientar algumas das diversas manifestações artísticas do rico e diverso continente africano, a saber: esculturas em marfim, metal ou madeira; tecelagem; cerâmica variada; vários tipos de utensílios e adornos feitos com fibras naturais, pedras, sementes e madeiras; máscaras; etc. De origem pré-histórica, a arte africana passou por um longo período de intensas trocas culturais internas ao continente africano, posteriormente passou a comunicar-se de forma intensa com a Europa escravocrata e católica, o que dialética e paradoxalmente deu a ela uma visibilidade cada vez mais internacional, ainda que não sem prejuízos.
- As manifestações artísticas africanas deram-se predominantemente em áreas rurais, submetidas a uma consciência tribal e a um senso estético derivado em grande medida de aspectos espirituais da vida comunal. A Arte Africana despreocupa-se com a reprodução mimética da realidade em favor de um ponto de vista estilizado acerca dela. O aspecto comunal dessa arte tem como intuito o reforço de um coletivismo ligado à imposição de saberes, de valores e de estéticas entre os membros da comunidade.
- Essa forma artística tem, portanto, um forte apelo religioso na maioria das comunidades e tribos africanas, pois tem um papel crucial no culto dos Orixás, nos ritos de passagem, etc.
- Uma das peculiaridades da Arte Africana é o fato das cabeças em esculturas e máscaras serem representadas hiperbolicamente, porque simbolizam a personalidade, o saber e a experiência, que muito são valorizados pelas culturas africanas. Outro exemplo relevante é o hábito de representar línguas de forma desproporcional em relação à boca que as contêm, o que alude à fala, que é fundamental em culturas muito alicerçadas na tradição oral. Os pés também são representados em desproporção em relação aos corpos aos quais estão relacionados, o que aponta para tanto uma valorização da terra numa dimensão geográfica quanto espiritual.
- Essa Arte Africana, rural e comunitária era antagônica em relação ao individualismo urbano europeu, em especial a partir da segunda metade do século XIX. A despeito disso, pintores como Picasso e Braque usaram essa estética africana como base para concepções cubistas.
- A Arte Afro-brasileira desenvolveu-se sob o signo da recriação feita por africanos desterrados que nada ou pouco trouxeram do seu patrimônio cultural físico, por causa da truculência do tráfico negreiro. Em função disso, como meio de existir estética e culturalmente, os africanos que no Brasil aportaram - depois da sufocante viagem - rapidamente de formas muitas vezes furtivas desenvolveram expressões artísticas que uniram referências africanas, portuguesas e indígenas, entremeadas pelo culto dos Orixás e pelo Catolicismo. Daí, Gilberto Freyre considerar o negro como “um co-colonizador, apesar da sua condição de escravo”.
- A participação do negro no panorama da arte brasileira é reduzida, especialmente quando são analisados o século XX e o XXI, o que reflete um aspecto latente da sociedade brasileira: o preconceito étnico. Muito embora haja uma relevante e significativa produção artística por parte de negros no Brasil, ela não foi considerada de forma justa e razoável nos últimos 100 anos, quanto mais nos períodos anteriores ao século XIX.
- Uma dimensão importante da Arte Afro-Brasileira é o período barroco, pela participação importante de artistas negros em cidades de Minas Gerais, Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. No século XVIII, o auge do Barroco brasileiro deu-se da fusão das referências barrocas italiana e francesa (Rococó), somada às aspirações e às limitações dos artistas brasileiros que produziram uma forma singular do estilo barroco. Dentre os mestres do Barroco Brasileiro, estão dois grandes artistas mulatos, filhos de pai português e mãe escrava: o arquiteto e escultor Aleijadinho e o arquiteto Mestre Valentim. O inusitado do trabalho desses dois gênios da arte brasileira define-se pela força expressionista, pela talha geométrica e angulosa de certa inspiração africana na obra de Aleijadinho; de outro lado os traços negróides atribuídos a santos pelo Mestre Valentim dão um toque único e africano ao Barroco Brasileiro.
- Outro artista de origem africana muito representativo para o Barroco Brasileiro foi Manuel da Costa Ataíde, considerado o maior pintor sacro do século XVIII. O estilo barroco de Mestre Ataíde, também influenciado pelo Barroco Europeu, era igualmente permeado pela sua ancestralidade africana, tanto nos rostos das figuras pintadas como na escolha das cores em suas obras.
- No século XIX, em pleno período Neoclássico, em função do estilo acadêmico e elitista que se impõe sobre a cultura brasileira, o artista negro tem pouco espaço. Embora artistas negros como Firmino Monteiro, Estevão Silva, Fernando Pinto Bandeira e Artur Timóteo da Costa tenham tido alguma projeção.
- No século XX, com um crescente espaço nos círculos artísticos, os artistas negros resumem a maior parte da sua produção na arte religiosa afro-brasileira ou na arte naif. São exemplos Heitor dos Prazeres e Mestre Didi.
- A Arte Afro-brasileira só passou a ser justamente valorizada como expressão autêntica da arte brasileira, quando as ideias revolucionárias e avançadas do Movimento Modernista passaram a sistematicamente auxiliar na revisão dos conceitos de arte no Brasil, antes movidos por ideais comprometidos pelo racismo e por uma visão eurocêntrica importada.
- São exemplos de artistas negros brasileiros da modernidade e da contemporaneidade: Heitor dos Prazeres (1898-1966); Mestre Didi (1917); Djanira da Motta e Silva (1914-1979); José de Dome (1921-1982); Rubem Valentim (1922-91); Antônio Bandeira (1922-1967); Otávio Araújo (1926); Maria Auxiliadora (1938-1974); Emanoel Araújo (1940); entre outros.