segunda-feira, 10 de outubro de 2011

28ª lista de indicações - discussão entre 10 e 14 de outubro (P2)

Caras e caros,

Esta é uma lista especial em homenagem ao Grande Steve Jobs que tanto possibilitou a nós ampliar nossos horizontes por meio da tecnologia. Nesta lista, contei com a valiosa contribuição dos alunos Luiz Gustavo e Vitor Castro do segundo ano pela indicação da questão sobre o humor e o politicamente correto em torno do caso do Rafinha Bastos. Boa leitura a todos.

Abraços a todos,

Professor Estéfani Martins
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1 -  1º anos, 2º anos, 3º anos e PV
Sobre as raízes do humor, do sarcasmo, da ironia e do escárnio 1

2 -  1º anos, 2º anos, 3º anos e PV
Gênios, inovações e paradoxos

3 -  1º anos, 2º anos, 3º anos e PV
Para uma visão mais realista e ponderada sobre o crime

4 -  2º anos, 3º anos e PV
Sobre as raízes do humor, do sarcasmo, da ironia e do escárnio 2

5 -  2º anos, 3º anos e PV
Um mestre trabalhando

6 - 3º anos e PV
A paz das mulheres

7 - 3º anos e PV
Sobre a inversão dos valores ou sobre como o poder e o dinheiro corrompem?
Jornada do hip-hop rumo à cultura popular é sua história de amor com capitalismo
Prospect
Steve Yates

O último álbum da dupla de titãs do hip-hop foi um sucesso recorde. Após o seu lançamento, em agosto deste ano, “Watch the Throne”, de Jay-Z e Kanye West, teve o maior índice de vendas de primeira semana para um novo álbum já registrado pelo iTunes. Um total de 290 mil cópias foi baixado pela Internet naquela semana, e quando se contabiliza também os CDs, as vendas do álbum chegam a quase 450 mil unidades.
“Watch the Throne” é um símbolo do status especial do qual o hip-hop atualmente desfruta. Originário do bairro de South Bronx, na cidade de Nova York, no final da década de setenta, quando artistas começaram a fazer raps com batidas tiradas de discos de soul e funk, o hip-hop desde então penetrou no coração da cultura popular.
Jay-Z é casado com Beyonce Knowles, a rainha do rythm and blues, e juntos eles são o casal mais influente e poderoso da música global. Segundo a “Forbes”, Jay-Z tem uma fortuna de cerca de US$ 450 milhões, e ele teve 12 álbuns no primeiro lugar na parada de sucessos musicais dos Estados Unidos (somente os Beatles, com 19 álbuns, superam este número). A fortuna de West é de aproximadamente US$ 70 milhões. “Watch the Throne” é repleto de referências à riqueza: “Rap de luxo, o Hermes dos versos”, canta West, referindo-se à marca com uma pronúncia francesa, para que ninguém possa pensar que ele esteja confundindo a fábrica de produtos de alto luxo com um místico mensageiro grego.
Mas, para os que gostam do gênero, esse materialismo se constitui em um dos três pecados mortais do rap, juntamente com a violência e a misoginia. Fãs casuais do hip-hop muitas vezes veem o aspecto materialista desse gênero como algo que é minimizado ou adotado com ironia. Alguns comentaristas têm uma opinião mais crítica. Quando as arruaças irromperam pela Inglaterra neste verão, muita gente considerou que uma das causas principais do problema foi o fato de o hip-hop fazer apologia do materialismo. Paul Routledge, escrevendo no “Mirror”, resumiu esse ponto de vista quando disse: “Eu culpo a cultura perniciosa de ódio que existe em torno da música rap, que glorifica a violência, detesta a autoridade e exalta o materialismo vulgar”.
Routledge não está inteiramente errado. A história da jornada do hip-hop rumo à cultura popular é a história do caso de amor desse gênero musical com o capitalismo. Mas esta visão do hip-hop como um gênero preocupado apenas com as formas mais básicas de materialismo se constitui em uma séria simplificação excessiva da questão. Ela não compreende a maneira como a relação do rap com o capitalismo alimentou a criatividade do gênero e o conduziu ao sucesso.
Embora o hip-hop moderno seja desavergonhadamente materialista, os seus ancestrais eram diferentes. Já na década de sessenta, artistas como The Last Poets e Gil Scott-Heron combinavam música afro-americana e poesia falada. Mas Scott-Heron, assim como outros daquela geração, era um crítico do materialismo passivo que ele via penetrar na cultura negra. Essa consciência política foi assumida na década de oitenta pelo Public Enemy, um grupo de Nova York que misturou política incendiária com música apocalíptica.
No início da década de noventa, o frenesi do “gangsta rap” estava eclipsando este hip-hop “consciente”. A motivação do gangsta rap foi muito bem sumarizada pelo NWA, o grupo que codificou esse subgênero, na sua faixa “Gangsta Gangsta” - “life ain't nothing but b------ and money” (algo como, “a vida não passa de m---- e dinheiro”). Mas, apesar do aparente niilismo do grupo, o NWA abraçou com entusiasmo o sonho americano.
Lentamente, a mensagem política inicial do hip-hop foi substituída por esse foco na acumulação financeira. Um dos principais empresários do hip-hop foi Percy “Master P” Miller, que transformou o seu No Limit de uma loja de discos em Los Angeles em uma gravadora e, a seguir, em um conglomerado. Não se contentando apenas com música, Miller diversificou bastante o seu negócio: roupas, imóveis, bonecas Master P – até mesmo serviços do tipo disque sexo. Em 1998, as companhias de Miller valiam US$ 160 milhões.
Em Nova York, os interesses empresariais de Sean “Diddy” Combs evoluíram segundo linhas similares: música, uma revista, a inevitável linha de vestuários, tudo com a estampa do nome dele, de uma forma a conduzir o consumidor à imagem do próprio empresário. Dan Charnas, no seu livro “The Big Payback: The History of the Business of Hip-Hop” (“A Grande Retribuição: A História do Hip-Hop como Negócio”), descreve Miller e Combs como sendo “a encarnação do artista com poder excessivo, duas marcas centradas em pessoas, a concretização do sonho de autodeterminação e posse – não apenas para os artistas de hip-hop, não apenas para artistas negros, mas também para todos os artistas norte-americanos”.
Assim, embora o hip-hop tenha começado como underground, e frequentemente como movimento político, durante muitos anos ele tem buscado um relacionamento cada vez mais íntimo com os negócios financeiros. Foi esse abraçar do capitalismo que fez com que o hip-hop trocasse o seu status de gênero alternativo pelo de integrante do centro da cultura norte-americana.
Variantes britânicas do rap também têm crescido com sucesso. Mas o contraste com os Estados Unidos é marcante. Talvez as atitudes conflitantes sejam originárias do realismo econômico: o mercado é bem menor, e o hip-hop britânico conta com uma plateia internacional limitada. Talvez seja por isso que o namoro do rap britânico com o bizarro materialismo “bling” tenha tido uma vida comparativamente curta. No início da década passada, o grupo So Solid Crew, da zona sul de Londres, emergiu no universo “garage”. Os seus membros imitavam o ritmo, mas não os sotaques, dos astros do rap norte-americano, aliando-os a ritmos eletrônicos de dança. Eles se transformaram instantaneamente no som da juventude negra de Londres.
O So Solid Crew, juntamente com outros grupo do gênero garage, trouxeram a cultura bling de estilo norte-americano para os clubes britânicos. Roupas sofisticadas e champanhe transformaram-se em itens obrigatórios dos salões de dança. Mas isso logo provocou uma reação. Wretch 32 é um artista de 26 anos de idade do bairro londrino de Tottenham que descobriu a fama neste ano com duas músicas que ficaram em primeiro lugar nas paradas de sucesso e um álbum que ficou entre os cinco primeiros. Ele acredita que as normas do hip-hop norte-americano nem sempre se aplicam bem ao Reino Unido: “Eu creio que, devido à nossa cultura, os ouvintes não apreciam coisas desse tipo – as pessoas que fazem esse tipo de música acham que quem tem menos dinheiro é inferior”.
Como resposta, a zona leste de Londres criou o seu próprio som, chamado grime – um gênero baseado no rap, com uma batida eletrônica pesada, e letras que lembram uma luta em uma lanchonete especializada em frango frito.
E o grime tem tido os seus triunfos. Dizzee Rascal obteve um sucesso significativo com a sua estreia em 2003, “Boy in Da Corner”. Outros, como Tinchy Stryder, Tinie Tempah e agora Wretch 32 seguiram os passos de Dizzee, adaptando cada vez mais o som ao gosto popular.
O rap Road é o equivalente do sul de Londres ao grime, da zona leste da capital inglesa. Mais lento e agressivo do que o grime, e lembrando mais o rap gangsta dos Estados Unidos, ele não tem mostrado muito interesse em conquistar a aceitação popular. O maior expoente do gênero, Giggs, já cumpriu pena por posse de armas – ele começou a sua carreira musical quando saiu da cadeia. Mas a sua carreira tem sido marcada pela interferência policial. Os seus shows tem sido frequentemente cancelados e negociações para um contrato com uma grande gravadora foram suspensas, supostamente após a gravadora ter recebido um telefonema da Operation Trident, a unidade da Polícia Metropolitana de Londres que lida com a criminalidade nas comunidades negras.
A determinação discreta do rap Road parece estar muito distante das ambições enormes do hip-hop norte-americano, cuja projeção sempre foi mais expansiva. “Não existem protocolos para as coisas que estou vendendo, porque o que estou vendendo é a minha cultura”, disse-me em 2003 Damon Dash, parceiro de Jay-Z. Dash foi a força propulsora para o crescimento do Roc-A-Fella, a sociedade musical deles, cujo nome é uma referência explícita às alturas capitalistas aos quais eles pretendiam se alçar.
Nos últimos 30 aos, o hip-hop trilhou o terreno da política e do gangsterismo. Mas ao final ele se acomodou no capitalismo, que o energizou e lhe deu a dominância global. Rappers norte-americanos como Diddy e Master P, homens que abriram caminho rumo à fama, fizeram isso vendendo uma imagem de conquista de poder e de sucesso material. Essa imagem também pode ser encontrada, embora de uma forma menos vívida, na música rap britânica. E, embora o hip-hop possua detalhes desagradáveis, a mensagem central, de que as pessoas podem ter vidas melhores, é sem dúvida nenhuma positiva.
(Steve Yates é um colaborador regular da revista britânica “Word Magazine”).