quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Texto norteador para prova interdisciplinar - INEICOC Uberlândia - todas as séries do Ensino Médio


Lixo, energia e ruptura

O que é lixo? Essa é a pergunta da qual derivam inúmeras outras sobre esse, que é um dos maiores problemas das cidades não só modernas, mas seguramente ao menos desde o fim da Idade Média. Contudo, na modernidade, essa questão ganhou novas preocupações como o lixo eletrônico, o hospitalar e o descarte de remédios, além da constante preocupação com o lixo nuclear. Tal processo de conscientização também se deve ao desenvolvimento de um pensamento ecológico desde a década de 1960 que muito ajudou no reconhecimento do lixo primeiro como um problema, e depois como uma alternativa energética, ecológica e renovável para muitos setores da vida econômica e social dos seres humanos.
Essa situação é, há muito, discutida em documentários, curtas e filmes como "Ilha das flores", de Jorge Furtado; além de "Surplus", ainda que este denuncie o consumismo, é evidente o papel do consumo para a geração e para a concepção vigente de lixo. Já o documentário "Waste", ainda que sem versões legendadas ou dubladas em português, trata de soluções muito eficientes e modernas sobre essa questão. O indicado ao Oscar, "Lixo extraordinário", trata a questão do lixo sob um olhar mais lírico, mas não menos importante ou contundente; já "Vidas no lixo" aborda de forma mais óbvia, mas não menos importante, esse tema, quando narra e discute o lixo como forma de sobrevivência para crianças.
Na música, muitas obras como “Vira lixo”, de Chico César; “Bichos escrotos”, dos Titãs; “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”, samba enredo de 1989 do G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis (RJ); “Nem luxo, nem lixo”, de Rita Lee; “Lixo no lixo”, do Fala Mansa tratam da questão do lixo e das suas consequências para a sociedade e para o indivíduo em escalas das mais variadas, que atingem aspectos sociais, culturais, econômicos, ideológicos e psicológicos da experiência humana.
Ainda no cinema, longas como "Wall-E", "De volta para o futuro", "Estamira" e "Distrito 9" tratam a simbologia e os efeitos do lixo de formas diferentes, em especial os aspectos antropológicos, sociológicos e filosóficos vinculados a ele.
Quanto aos aspectos associados às ciências naturais e à Geografia, temas como a coleta seletiva de lixo, a reciclagem, a compostagem de lixo orgânico, a energia produzida a partir da decomposição ou da queima do lixo, as doenças associadas ao descarte inadequado dele, o impacto ecológico dos aterros sanitários, o uso de embalagens retornáveis ou descartáveis para diversos produtos como refrigerantes, a séria e atual questão do lixo nuclear, a energia desperdiçada no que não reciclamos ou jogamos forma precocemente, etc. são pontos relevantes a respeito dessa faceta pouco discutida da vida numa sociedade moderna, consumista e altamente hierarquizada socialmente.
Em Uberlândia, muitas iniciativas, ainda que incipientes, diante da dimensão do problema do lixo, têm sido tomadas por várias instituições como a oportuna e incontestável proibição do uso de sacolas plásticas não biodegradáveis em mercados e vendas; a coleta seletiva implementada no bairro Santa Mônica; os postos de coleta seletiva de lixo em supermercados, escolas, e outros locais; os trabalhos de conscientização em escolas para a importância da destinação e mesmo sobre o conceito de lixo; etc.
Outro aspecto relevante nesse debate é o entendimento do lixo como fonte de renda para centenas de milhares de pessoas no Brasil, o que muito ajuda ser esse um dos países onde mais se recicla no mundo, entretanto esse processo pouco advém de políticas públicas fomentadoras ou de conscientização ecológica por parte da maioria dos envolvidos nessa cadeia. Isso porque essa prática deve-se à falta de democratização de oportunidades no Brasil, o que faz com que se tenha um exército de catadores de lixo, não por vontade ou consciência, mas por contingência, por necessidade.
Sob um olhar mais inusitado, mas não menos importante, pode-se perceber, ao analisar-se o lixo de uma cidade, de uma casa ou mesmo de uma pessoa, muito da personalidade, dos hábitos alimentares, das doenças que os indivíduos estão mais propensos a desenvolver. Essa análise pode ainda ser uma norteadora de políticas públicas de saúde, de padrões de criminalidade e de campanhas de prevenção de males como a obesidade. Enfim, pode-se também conhecer as pessoas e as sociedades pelo lixo que elas produzem.
De todo modo, o debate sobre o descarte, a reciclagem, o reuso e o beneficiamento de lixo é imprescindível para o desenvolvimento minimamente harmônico da sociedade humana, daí a necessidade de haver o engajamento do sistema educacional nessa questão tanto como meio de conscientizar os mais jovens, quanto por ser espaço propício para se repensar práticas a respeito desse tema que possam melhorar o lugar onde vivemos hoje e no qual viveremos no futuro.

Professor Estéfani Martins