domingo, 11 de setembro de 2011

25ª lista de indicações – Discussão de 19 a 23 de setembro de 2011 (P7)


Caras e caros,

Primeiramente, boa noite. Gostaria de pedir desculpas pelo atraso desta postagem, mas cometi um engano no momento de salvá-la, pois ao invés de publicá-la, eu apenas a salvei. Em todo caso, está publicada com a contribuição da aluna Jordana do 2ºD do COC de Uberlândia, que indicou o excelente vídeo do Steve Jobs.

Abraços,

Professor Estéfani Martins
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1 - 1ª anos, 2º anos, 3º anos e PV
Determinação e coragem a serviço da leitura
“O livreiro da favela”
Com um acervo de quase quatro mil livros, Otávio Jr., morador da Vila Cruzeiro, no Rio, abre a primeira biblioteca do Complexo do Alemão
Débora Rubin

Ele quase virou jogador de futebol. Foi por pouco que a trajetória de Otávio Jr. não repetiu a saga de muitos meninos de comunidades carentes do País. A habilidade com a bola foi rapidamente substituída pelo amor às letras. Sorte dele e dos quase 150 mil moradores dos Complexos do Alemão e da Penha, favelas do Rio de Janeiro que ficaram marcadas pela invasão de forças de segurança no final do ano passado, dando fim ao império dos traficantes. Em vez de amargar nas peneiras dos grandes times, sonhando ser um novo craque, Otávio Jr. se tornou um obstinado difusor da leitura. Há seis anos, ele criou o projeto Ler é 10 – Leia Favela, uma biblioteca itinerante que circula pelos dois complexos. Agora, com o apoio de duas grandes organizações, ele está transformando um antigo forró local em uma biblioteca fixa que contará com um acervo de quase quatro mil livros, fruto de doações de editoras e de colaboradores. O carioca de 27 anos também é um aspirante a escritor. Na semana passada, ele lançou seu primeiro livro, “O Livreiro do Alemão” (Panda Books), no qual conta sua trajetória.
Nascido e criado na Vila Cruzeiro, de onde saiu o jogador Adriano, Otávio se apaixonou por literatura quando, ainda menino, encontrou um saco de lixo cheio de brinquedos. Enquanto os amigos se digladiavam pelos achados, ele viu uma edição velha e surrada do livro infantojuvenil “Don Gatón”. Foi abduzido para o mundo das letras, de onde nunca mais voltou. Dali em diante, saiu pela vizinhança pedindo livros emprestados. Paralelamente, começou a escrever. Sobretudo quando o fogo cruzado entre traficantes e policiais ficava intenso no morro. Enquanto sua biblioteca particular crescia, Otávio começou a escrever peças teatrais que ele mesmo representava em escolas da região. Cobrava uma entrada modesta, de R$ 1, e exercitava sua verve artística. No final do mês, ganhava uns trocos e ajudava a mãe com as despesas.
O desejo de se tornar escritor o fez tomar atitudes ousadas, como ir até a casa de autores como Ziraldo e mandar suas histórias para as editoras. Ouviu muito não e levou porta na cara até o dia em que um gentil dono de gráfica topou rodar seu livreto gratuitamente. Por causa de sua ambição – fazer sua comunidade ler –, Otávio já participou de dezenas de eventos literários, viajou por países da América do Sul e dá palestras em todo o país. Seu maior orgulho, entretanto, é ter introduzido a leitura na vida de dez mil crianças e adolescentes. Em sua missão quixotesca, consegue índices de leitura acima da média nacional. “Enquanto o brasileiro lê quatro livros por ano, há crianças aqui lendo isso em uma semana”, orgulha-se.
No ano passado, durante a invasão no complexo, Otávio deixou os recortes de jornal com reportagens sobre seu trabalho em cima da mesa caso alguém invadisse sua casa. “Se eles vissem meus computadores e equipamentos, podiam facilmente achar que era tudo roubado”, diz. Hoje, celebra, a comunidade dorme em paz. E, no que depender dele, ao embalo de algum conto de fadas ou épico literário.

2 - 1ª anos, 2º anos, 3º anos e PV
Um pouco das ideias não convencionais de alguém incomum.

3 - 1ª anos, 2º anos, 3º anos e PV
Estudantes e a educação chilena: um exemplo para o Brasil

4 - 2º anos, 3º anos e PV
Os muçulmanos e os EUA
Estigmatizados após o 11 de Setembro, muçulmanos nos EUA ainda confiam no futuro
Sylvain Cypel
The Prospect

Muçulmano americano tem um risco duas vezes maior de ser discriminado pelo governo que um não muçulmano, segundo estudo do MIT (Massachusetts Institute of Technology) de 2006
Há um ano, pouco depois de explodir uma polêmica sobre a construção de um centro islâmico na periferia do Marco Zero, lugar dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York, outros manifestantes se mobilizaram em Staten Island, a menor das cinco circunscrições da cidade. O motivo era idêntico: impedir a construção de uma mesquita no bairro de Midland Beach. No entanto, recentemente foi inaugurada uma mesquita lá, que ninguém contestou. Presidente da seção nova-iorquina do Conselho de Relações Americano-Islâmico (Cair), principal associação muçulmana de direitos civis nos EUA, Zead Ramadan não se surpreende.
"A islamofobia é um fenômeno político", ele diz. "A hostilidade raramente vem das populações locais, ela é fomentada do exterior por grupos organizados, geralmente em função de interesses políticos." Há um ano, a mobilização contra a construção de mesquitas foi instigada, segundo ele, devido à aproximação das eleições legislativas. Depois que elas passaram, a agitação se acalmou. "Haverá uma forte recuperação ao se aproximar a eleição presidencial", prevê Ramadan.
Dez anos depois desses atentados "medonhos", "uma calamidade", segundo seus termos, onde estão os muçulmanos americanos? Sua comunidade, de 4 milhões a 6 milhões de indivíduos, representa menos de 2% da população americana. Ela se divide mais ou menos pela metade entre um grupo mais antigo de afro-americanos (1,5 milhão a 2,5 milhões dos 38 milhões de negros) e de imigrados recentes e seus descendentes. Esses são muitas vezes originários do subcontinente indiano, uma minoria é árabe e observa-se um crescimento regular dos originários da África negra.
À diferença de outros imigrantes, em particular hispânicos, seu nível médio de renda e de educação é superior à média americana. Quanto a sua "experiência", "os fatos são paradoxais", estima John Esposito, que ocupa a cadeira de estudos islâmicos na Universidade Georgetown em Washington: "Os que interrogamos dizem rapidamente sentir uma erosão de seu status e de sua aceitação; mas a maioria se diz também muito feliz de viver aqui. Melhor, em plena crise, sua confiança no sonho americano é bem superior à média.".
Esses paradoxos se encontram nas pesquisas recentes: segundo um estudo Gallup (3.800 muçulmanos interrogados em abril), 60% declaram "se realizar cada vez mais" nos EUA, somente 3% se confessam "infelizes". Por outro lado, 48% enfrentaram recentemente uma discriminação, o índice mais alto de todas as comunidades pesquisadas. Quanto ao olhar que se tem deles, depois dos atentados, 14% dos americanos percebiam o islã como uma "religião que incentiva a violência"; esse número cresceu para se estabilizar desde 2005 em um terço dos pesquisados.
Entretanto, pouco depois do 11 de Setembro, conta Ramadan, "vizinhas vieram procurar minha cunhada e lhe propuseram: 'Dê-nos sua lista de compras que as faremos para você, para que não precise ir ao centro comercial de hijab'. A partir de 2004 ela recomeçou a sair sem temor; no pior dos casos às vezes ela ouve um comentário negativo."
O relatório publicado pelo Cair em 2002 notava uma "situação gravemente deteriorada dos direitos civis dos muçulmanos". Desde então, a associação constatou um movimento duplo: primeiro uma melhora regular da aceitação dos muçulmanos a partir de 2003, depois uma nova degradação a partir de 2008, estes enfrentando novamente uma hostilidade difusa ou declarada. Sua explicação: a eleição de Barack Obama instigou os fantasmas antimuçulmanos e sobretudo: "a América está em crise econômica. Como sempre, as minorias são apontadas com o dedo".
Em 2006, um estudo do MIT de Boston concluiu que um muçulmano americano tem um risco duas vezes maior de ser discriminado pelo governo que um não muçulmano, e um muçulmano que tenta entrar no território, seis vezes maior que um não muçulmano. O vice-ministro da Justiça, Thomas Perez, constatou em 2010 que as discriminações sociais desse grupo (na contratação, no trabalho, na moradia...) haviam aumentado 50% desde 2001. Quanto às violências, cerca de mil foram recenseadas em dez anos contra pessoas vistas como "muçulmanas" ou "árabes".
Mesmo que as autoridades só sejam informadas de um quarto dos casos, em relação à população global e em uma década o número não é impressionante. "Ninguém é linchado em público como foram por tanto tempo os negros", diz o responsável comunitário. "Mas a pressão cresce, e a preocupação dos nossos com isso." Uma preocupação não tanto física como devida a uma atmosfera que o professor Esposito resume assim: no dia seguinte ao 11 de Setembro, o pastor ultraconservador Jerry Falwell tratou Maomé como o "primeiro terrorista". Ele teve de pedir desculpas. Hoje os grupos islamófobos são conhecidos, e sobretudo "uma série de políticos navegam na ideia de uma ameaça islâmica interna, legitimando as piores declarações", ele diz.
A lista desses grupos se estendeu da Stop Islamisation of America, de Pam Geller, à Jihad Watch, de David Horowitz e Robert Spencer. Este último, autor dos livros "A Verdade sobre Maomé" e "O Guia Politicamente Incorreto do Islã", foi citado como fonte de inspiração por Anders Behring Breivik, o fanático autor do massacre de 22 de julho na Noruega. Spencer também é cronista do "New York Post" e "especialista" convidado para alguns debates na televisão.
Em 30 de agosto de 2008, a "Time" deu o título na capa: "A América é islamofóbica?", investigando esse fenômeno "inédito". O "New York Times" dedicou em 2010 um longo retrato a Geller, que se declara "racista" antimuçulmana. Ele insistiu em 31 de julho com David Yerushalmi, um religioso judeu ultraortodoxo apresentado como coordenador e financista do movimento islamófobo americano. Este privilegia dois temas recorrentes. Primeiro, a ideia de que a fidelidade dos muçulmanos à pátria americana é "enganadora" ou "ilusória" porque impossível; depois, a de que sua ambição é dominadora, com a vontade oculta de impor a todos a lei muçulmana, xariá. Publicada em 2009, uma obra de Paul David Gaubatz e Paul Sperry, "A Máfia Muçulmana - No mundo secreto e subterrâneo que conspira para islamizar a América", constitui uma espécie de "Protocolo dos Sábios de Sião" transposto para Meca.
Esses delírios recebem um apoio mais ou menos assumido de certas publicações e de intelectuais americanos não considerados marginais. Como, por exemplo, a revista conservadora "American Thinker", cuja linguagem se torna incendiária desde que aborda o islamismo. O mais preocupante, diz Esposito, é que políticos "os legitimam": "Não é por acaso que Newt Gingrich declarou que o islã constituirá um dos temas chaves da próxima eleição presidencial". O ex-presidente republicano da Câmara dos Deputados é candidato à nomeação de seu partido para enfrentar Barack Obama na presidencial de 2012.
As chances de Gingrich são muito fracas. Mas, dez anos depois do 11 de Setembro, a questão assombra muitos muçulmanos: mesmo que a campanha sobre a suposta "religião oculta" de Obama pareça encerrada, muitos temem que o islã seja novamente promovido à categoria de tema polêmico em 2012. Este se enxertaria em um ambiente já pesado, onde, de um lado, o recente massacre norueguês aumentou os temores de que um "louco" cometa, sobre o fundo de islamofobia delirante, uma dessas chacinas habituais nos EUA. E onde, ao contrário, atentados como esse que custou a vida de 13 soldados e feriu outros 28 em uma base texana em 5 de novembro de 2009 e aquele, fracassado, de 1º de maio de 2010 em Times Square (Nova York), que poderia ter sido terrível, demonstraram que jovens muçulmanos americanizados são sensíveis aos apelos do jihadismo terrorista.
Em 2 de agosto, Denis McDonough, conselheiro adjunto da Defesa nacional, apresentou seu programa de combate ao islamismo radical. Seu prefácio é assinado por Barack Obama. "As comunidades americano-muçulmanas cujos filhos, famílias e vizinhos são visados pelo recrutamento da Al Qaeda são muitas vezes também os mais bem situados para assumir a frente" da luta contra o terrorismo, escreve o presidente.
Ramadan pretende se inscrever nesse voluntarismo. "A Constituição e a democracia salvam este país de suas más inclinações; são nossas melhores proteções", proclama. O professor Esposito quer ser otimista: "O 11 de Setembro teve efeitos terrivelmente negativos para os muçulmanos, mas não modificou o sentido da evolução. Historicamente, católicos e judeus igualmente se chocaram com grandes hostilidades, hoje esquecidas. Os muçulmanos ainda conhecerão altos e baixos na América. Mas, se nenhum drama maior intervier, sua via será a mesma: a de uma integração finalmente bem-sucedida."
Enquanto isso, constata o primeiro, cada vez mais pais "temem por seus filhos". "Eles tentam facilitar sua integração 'anglicizando' seus nomes." Samir ou Oussama tornam-se Samy; Shakira ou Soraya, Sara... Como entre todos os imigrantes do mundo.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

5 - 2º anos, 3º anos e PV
Negrinha
Monteiro Lobato

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.

Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.

Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.

Ótima, a dona Inácia.

Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:

— Quem é a peste que está chorando aí?

Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.

— Cale a boca, diabo!

No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer...

Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.

— Sentadinha aí, e bico, hein?

Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.

— Braços cruzados, já, diabo!

Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.

Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.

Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste...

O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta...

A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”...

O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:

— Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!...

Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!

Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.

Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.

— “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa.

Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.

— Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.

— Traga um ovo.

Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:

— Venha cá!

Negrinha aproximou-se.

— Abra a boca!

Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:

— Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?

E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.

— Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá!

— A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre.

— Sim, mas cansa...

— Quem dá aos pobres empresta a Deus.

A boa senhora suspirou resignadamente.

— Inda é o que vale...

Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.

Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.

Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também... Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.

Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”?

Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.

— Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.

— Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus... Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.

— Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.

Chegaram as malas e logo:

— Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas.

Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.

Que maravilha! Um cavalo de pau!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que falava “mamã”... que dormia...

Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.

— É feita?... — perguntou, extasiada.

E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.

As meninas admiraram-se daquilo.

— Nunca viu boneca?

— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?

Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.

— Como é boba! — disseram. — E você como se chama?

— Negrinha.

As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:

— Pegue!

Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente... era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.

Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.

Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.

Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:

— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?

Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.

Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha...

Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.

Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!

Assim foi — e essa consciência a matou.

Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.

Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.

Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.

Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.

Brincara ao sol, no jardim. Brincara!... Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.

Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.

Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.

Mas, imóvel, sem rufar as asas.

Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou...

E tudo se esvaiu em trevas.

Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados...

E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.

— “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”

Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.

— “Como era boa para um cocre!...”

Monteiro Lobato, natural de Taubaté (SP), nasceu em 18/04/1882. É uma das figuras excepcionais das letras brasileiras. Jornalista, contista, criador de deliciosas histórias para crianças, suscitador de problemas, ensaísta e homem de ação, encheu com seu nome um largo período da vida nacional. Com a publicação do livro de contos "Urupês", em julho de 1918, quando já contava com 36 anos de idade, chama para o seu talento de escritor a atenção de todo o país. Cita-o Ruy Barbosa, em discurso, encontrando no seu Jeca Tatu um símbolo da realidade rural brasileira. Lança-se à indústria editorial, publica livros e mais livros — "Onda Verde", "Idéias de Jeca Tatu", "Cidades Mortas", "Negrinha", "Fábulas", "O Choque", etc. Fracassa como editor, ao lançar a firma Monteiro Lobato & Cia., mas volta com a Companhia Editora Nacional, ao lado de Octales Marcondes, e triunfa. Tenta a exploração de petróleo, e acaba na cadeia, perseguido pela ditadura de Getúlio Vargas. Não só escreve, como traduz sem pausa, dezenas e dezenas de livros, especialmente de Kipling. Uma vida cheia. E uma grande obra, que lhe preservará o nome glorioso. Foi um grande homem, um grande brasileiro e um dos maiores escritores — em todo o mundo — de histórias para crianças. Basta dizer que, no período de 1925 a 1950 foram vendidos aproximadamente um milhão e quinhentos mil exemplares de seus livros.
Era, de fato, um ser plural: escritor precursor do realismo fantástico, escritor de cartas, escritor de obras infantis, ensaísta, crítico de arte e literatura, pintor, jornalista, empresário, fazendeiro, advogado, sociólogo, tradutor, diplomata, etc. Faleceu na cidade de São Paulo (SP), no dia 04 de julho de 1948.
O texto acima foi publicado originalmente em livro do mesmo nome, tendo sido selecionado por Ítalo Moriconi e consta de "Os cem melhores contos brasileiros do século", editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 78.

6 - 3º anos e PV
Seguros, mas temerosos. Isso é possível?
Americanos se sentem mais seguros, porém ainda estão temerosos
Peter Applebome e Marjorie Connelly
The New York Times

Homem caminha entre cerca de 3000 mil bandeiras posicionadas por estudantes e membros da Universidade Pepperdine, em Malibu, nos Estados Unidos, em memória das vítimas do atentado ocorrido em 11 de setembro de 2001, em Nova York
Dez anos depois do 11 de setembro, os norte-americanos ainda estão andando numa corda-bamba emocional, sentindo um conforto maior por conta dos esforços antiterrorismo do governo, mas com um número significativo ainda temeroso de que uma catástrofe como aquela se repita.
Pesquisas do New York Times/CBS feitas em agosto em Nova York e por todo o país também revelaram uma crença generalizada de que a cidade ainda não se recuperou emocionalmente dos ataques, das profundas divisões quanto à proposta de um centro cultural islâmico perto do marco zero e das preocupações, especialmente em Nova York, de que os trabalhadores de resgate no marco zero não foram tratados com justiça.
Apesar de todo o sentimento de mais segurança, os entrevistados expressaram uma sensação de que o mundo havia mudado e de que é menos seguro do que antes dos ataques. 79% dos nova-iorquinos disseram que a cidade sempre terá que enfrentar a ameaça do terrorismo, e 83% dos norte-americanos disseram que o país também.
“Dada a natureza do mundo em que vivemos e a forma como alguns países nos veem, acho que outro ataque aos Estados Unidos é inevitável em algum momento no futuro”, disse Walt Sledzieski, 56, consultor de marketing de Boise, Idaho. “Mas ainda acredito que estamos fazendo todas as coisas certas, dentro dos limites de nossas liberdades e da foram que queremos agir como povo, para nos proteger.”
A pesquisa na cidade foi conduzida com 1.027 adultos de 9 a 15 de agosto, e a pesquisa nacional foi feita com 1.165 adultos entre 19 a 23 de agosto. Ambas as pesquisas por telefone têm uma margem de erro de mais ou menos 3 pontos percentuais.
De acordo com as pesquisas, 38% dos moradores da cidade de Nova York acham que outro ataque terrorista deve acontecer nos Estados Unidos nos próximos meses, menos do que os 57% de uma pesquisa Times/CBS de cinco anos atrás. Nacionalmente, os números daqueles que pensam que um ataque deve acontecer logo também caíram, de 59% para 42%. A maior porcentagem de pessoas que se sentem seguras tem uma relação com a impressão crescente de que o governo está trabalhando mais duro para proteger a população. Quase metade dos moradores da cidade acha que o governo federal fez o mesmo tanto que se esperava para manter o país a salvo do terrorismo. Há cinco anos, apenas um quarto dos entrevistados se sentia assim. Pouco mais da metade dos nova-iorquinos diz que o governo da cidade fez sua parte para proteger Nova York e que a cidade foi preparada de forma adequada para lidar com outro ataque.
Ainda assim, muitos moradores de Nova York expressaram preocupação com o fato de que a cidade não é suficientemente vigilante, particularmente nos metrôs: 57% disseram que as medidas de segurança lá não são suficientes.
“A polícia de Nova York está fazendo o melhor que pode, mas quando ouço falar sobre o que acontece no exterior, o que os terroristas estão fazendo, fico inquieta porque não sei quando eles podem atacar aqui novamente”, disse Geeta Ghaindranauth, 41, diretora de uma clínica de saúde da mulher, que trabalhou por quatro anos no 102º andar da torre norte do World Trade Center.
Ela acrescentou: “fico preocupada quando fico sabendo que quartéis dos bombeiros estão sendo fechados e policiais estão sendo mandados embora. Sinto que precisamos deles para nos proteger e nos manter seguros”.
As pesquisas refletem a forma como o 11 de setembro tanto se apagou de certa forma nas mentes das pessoas quanto como se mantém uma constante na vida norte-americana, particularmente em Nova York.
Há cinco anos, um pouco menos do que metade das pessoas em Nova York e no país disseram que pensavam sobre o 11 de setembro pelo menos uma vez por semana. Nas últimas pesquisas, 31% dos moradores da cidade e 27% do país disseram isso. Mas apenas 7% dos moradores da cidade acham que os nova-iorquinos se recuperaram totalmente do impacto emocional dos ataques de 11 de setembro.
Os ataques deixaram um resíduo de questões não resolvidas e preocupações.
Um quarto dos norte-americanos diz ter sentimentos negativos em relação aos muçulmanos por causa do ataque ao World Trade Center; 73% não. Da mesma forma, 20% dos moradores de Nova York também dizem que tem sentimentos negativos em relação aos muçulmanos por causa do 11 de setembro, enquanto 76% dizem que não.
Ainda há uma divisão substancial sobre o centro cultural islâmico proposto a dois quarteirões do marco zero. Apenas um terço dos moradores da cidade é a favor do projeto, o mesmo que há um ano. Nacionalmente, apenas 27% das pessoas aprovam.
E apesar da aprovação em dezembro de uma lei federal para oferecer indenizações e tratamento para trabalhadores de recuperação do marco zero, as preocupações continuam sobre como eles estão sendo tratados. Apenas um quarto dos moradores da cidade diz que os trabalhadores de limpeza e resgate no marco zero foram tratados com justiça, enquanto 58% diz que não foram.
“É uma falta de cuidado grosseira e em grande escala ignorar os trabalhadores do marco zero, tentar varrer tudo para debaixo do tapete”, disse Carol Lee, 48, do Queens. Ela acrescentou: “ajudá-los seria o melhor memorial para as pessoas que morreram”.
O assassinato de Osama bin Laden não é visto como algo que tenha efeitos de longo prazo sobre a segurança e o terrorismo. Apenas 22% do público norte-americano pensa que a ameaça de terrorismo contra os Estados Unidos diminuiu desde que Bin Laden foi morto em maio.
Quase 60%, tanto nacionalmente quanto em Nova York, diz que os eventos para lembrar o aniversário do 11 de setembro devem continuar. Menos de 10% diz que os aniversários deveriam ser totalmente eliminados, menos de um quinto diz que deveria haver eventos a cada cinco anos e cerca de 10% diz que eles deveriam ser a cada dez anos.
“É importante que os jovens tenham alguma ideia do que a geração anterior a eles passou, para que eles nunca esqueçam o que aconteceu”, disse Ethel Kruger, 76, aposentada de Cameron, Wisconsin. “É muito importante que eles se lembrem das pessoas pulando, lembrem das pessoas queimando, lembrem do pânico e das pessoas corajosas que entraram para salvar as outras, lembrem da perda de vidas e dos problemas para curar. Acho que há uma possibilidade muito real de a geração mais jovem esquecer tudo isso.”
Outra pesquisa com 246 adultos que disseram que perderam um amigo ou parente próximo no 11 de setembro ofereceu um vislumbre sobre a angústia pessoal que ainda existe para aqueles que foram mais afetados pelos ataques. 70% dos entrevistados eram amigos de vítimas do 11 de setembro, 4% eram irmãos e o restante tinha outros graus de parentesco.
A maior parte dos 246 entrevistados disse que se recuperou apenas parcialmente do trauma mental daquele dia. Um em cada seis disse que foi diagnosticado com algum problema mental como resultado do 11 de setembro e, entre eles, quase todos disseram que ainda sofrem do problema. Um terço disse que os filhos dos amigos ou parentes que morreram ainda não se recuperaram emocionalmente.
A maior parte dos amigos e parentes pesquisados estão satisfeitos com os planos de um memorial no marco zero. Uma maioria disse que os eventos em memória do 11 de setembro são um conforto. Mas quase 30% acham que os eventos perto do aniversário dos ataques são experiências dolorosas, dificultando deixar o passado para trás. Três quartos daquelse que perderam alguém próximo dizem que o aniversário do 11 de setembro deveria continuar sendo observado anualmente, uma proporção maior do que o público em geral.
Mas os números não servem muito para transmitir a dor emocional que ainda paira enquanto as pessoas tentam equilibrar a necessidade de lembrar e a de esquecer.
“A menos que eu tenha Alzheimer, nunca esquecerei aquele dia”, disse Marian Carmellino de Bronxville, N.Y., que disse que perdeu duas pessoas próximas nos ataques. “Onde você vai depois disso? Se você não segue em frente, então eles venceram.”
Um número surpreendente na pesquisa quanto aos efeitos do 11 de setembro quase não tem a ver com o fato em si. Logo após o 11/9, os norte-americanos experimentaram uma sensação de união. Mais de 60% disseram que o país estava no caminho certo nas pesquisas nacionais Times/CBS feitas em 2001 logo após os ataques. A atitude positiva durou pouco, e logo começou a declinar. Numa pesquisa Times/CBS feita em junho de 2011, apenas 28% disseram que o país estava no caminho certo e 63% disseram que ele estava indo na direção errada.
“Todos nos Estados Unidos se uniram”, disse Scott Smith, 47, soldador de Anderson, Carolina do Sul, que perdeu um colega de escola no World Trade Center. “Não havia republicanos, democratas, liberais, conservadores. Todos estavam juntos.”
“Agora todos nos EUA estão muito irritados”, diz ele. “É um mundo diferente”.
Como as três pesquisas foram feitas
O mais recente projeto de pesquisas New York Times/CBS consiste em três pesquisas por telefone: dos Estados Unidos, da cidade de Nova York, e de amigos e parentes de vítimas do 11 de setembro. Entrevistados de 16 pesquisas nacionais feitas pelo The Times e CBS News de novembro de 2010 até junho de 2011 foram questionados se eram parentes ou amigos próximos de alguém que morreu nos ataques teroristas de 11 de setembro de 2001. Tentativas de entrar em contato com as 854 pessoas identificadas como amigas e parentes foram feitas entre 11 e 23 de agosto, e as entrevistas por telefone foram feitas com 246 adultos. A pesquisa da cidade de Nova York foi baseada em entrevistas por telefone feitas entre 9 a 15 de agosto com 1.027 adultos de todas as partes da Cidade de Nova York. A pesquisa nacional foi feita entre 19 e 23 de agosto com 1.165 adultos. As margens de erro são de mais ou menos 3 pontos percentuais tanto para a pesquisa nacional quanto a da cidade de Nova York, e de seis pontos para a pesquisa com parentes e amigos de vítimas do 11 de setembro. Os resultados da pesquisa com amigos e parentes das vítimas de 11 de setembro foram pesados para que as características dos 246 entrevistados casassem com as das 854 pessoas que originalmente se qualificaram para serem chamadas. Michael R. Kagay de Princeton, Nova Jersey, auxiliou o The Times na análise da pesquisa. Os questionários completos, resultados e metodologia estão disponíveis no site nytimes.com/polls.
Allison Kopicki, Marina Stefan e Megan Thee-Brenan contribuíram com a reportagem.
Tradução: Eloise De Vylder

7 - 3º anos e PV
Sobre a periferia da cultura e a cultura da periferia