domingo, 17 de julho de 2011

Eis um dos grandes perigos de nosso tempo

Partido da Liberdade, de direita, fica cada vez mais forte na Áustria

El País
Walter Mayr Em Viena (Áustria)



  •  Heinz-Christian Strach, líder do populista Partido da Liberdade (FPO), discursa na Áustria
    Heinz-Christian Strach, líder do populista Partido da Liberdade (FPO), discursa na ÁustriCom seu líder Heinz-Christian Strache, o populista Partida da Liberdade, de direita, tornou-se uma força a ser reconhecida na política da Áustria. Ele está atualmente cabeça a cabeça com os dois maiores partidos tradicionais do país nas pesquisas. Enquanto isso, os Social Democratas do governo estão com dificuldades para se reconectarem com os eleitores comuns.
Não há muita distância entre eles, o chanceler e seu adversário – pelo menos em termos geográficos. Enquanto o chanceler austríaco Werner Faymann governa o país da Chancelaria Federal na praça Ballhausplatz em Viena, Heinz-Christian Strache se encontra com visitantes a cinco minutos dali em seu escritório num palácio, com vista para os telhados da cidade.
Líder do populista Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), de direita, Strache tem olhos azul claros e parece confiante num terno escuro. Ele não é alguém que tem pudores de vender sonhos inatingíveis como profecias. “Como chanceler”, ele prometeu em junho, planeja “não fazer tudo diferente”, mas “melhorar muitas coisas”.
Em sua escolha de palavras, Strache parece fora da realidade. Uma vez que ele é o pesadelo dos principais partidos da Ásia, o Partido Social Democrata da Áustria (SPÖ), de esquerda, e o Partido do Povo Austríaco (ÖVP), de centro-direita, com quem ele pretende governar o país? “Isso se arranjará por si só”, diz ele. “Depois das próximas eleições, pessoas diferentes estarão no poder” no SPÖ e no ÖVP.
As pesquisas agora colocam o FPÖ de Strache consistentemente lado a lado com os dois “velhos partidos”, e em maio ele foi até mesmo o preferido dos eleitores. Strache já está dizendo às pessoas que se ele chegar ao poder, o país não pagará mais um centavo para “os países falidos da UE como a Grécia” porque, para alguém como ele, “a camisa vermelha, branca e vermelha” - em referência às cores da bandeira austríaca - “é mais apertada do que a camisa de força de Bruxelas”.
Um estadista à espera
A próxima eleição é em 2013. Será apenas excitação combinada com temor o fato de que, na cidade de Sigmund Freud, os editores de jornais já estão se preocupando com a possibilidade de Strache se tornar chanceler? Ou as pessoas querem acabar com a possibilidade pela raiz, como uma espécie de sistema de alerta democrático?
Strache foi ligado à comunidade neo-Nazi no passado e foi obrigado a admitir que fez parte de um treinamento de milícia. Hoje ele se mostra como um estadista à espera e apenas raramente envia sinais para indivíduos com ideias parecidas – como quando, durante uma visita ao memorial do Holocausto Yad Vashem, em Israel em dezembro, ele usou um chapéu que o identificava como um membro vitalício da fraternidade estudantil de direita “Vandalia” em vez do adorno judeu.
Em sua convenção em junho, o FPÖ renovou seu compromisso com a comunidade étnica alemã, divulgando as credenciais de direita de Strache ainda mais do que as de seu mentor, Jörg Haider. O ex-líder do FPÖ, que morreu num acidente de carro em 2008, comprometeu-se com o patriotismo austríaco antes de morrer. Strache diz que a conquista histórica de Haider foi destruir o sistema de nepotismo promovido pelo SPÖ e pelo ÖVP. Mas Haider, de acordo com Strache, também foi responsável pelo pecado original do FPÖ: sua entrada numa coalizão com o governo do ex-chanceler Wolfgang Schüssel, do ÖVP, em 2000.
Na época, a União Europeia respondeu a essa atitude lançando a Áustria num ostracismo diplomático. Agora, 11 anos depois, o FPÖ atingiu a mesma taxa de aprovação pelos eleitores que tinha durante o auge de Haider – 27%. Isso não é surpresa, diz Strache. “Uma guerra cultural está acontecendo em nosso país, e nós estamos liderando o debate.”
Sempre sorria”
Em seu escritório perto da Ballhausplatz, o atual chanceler vê isso de forma relaxada. O fotogênico chanceler Faymann encarna a Áustria contemporânea como a terra dos sorrisos, evocando o espírito do compositor Franz Lehar, que escreveu uma opereta de mesmo nome. “Sempre sorria e sempre seja alegre” é um dos versos da música. Poderia ser o lema de Faymann.
Como ele faz isso? Um conselheiro de campanha de Faymann, o mímico Samy Molcho, uma vez escreveu na revista semanal Falter: “você precisa sorrir e exalar ao mesmo tempo, ou então o seu sorriso se transformará numa máscara”. Talvez isso explique a abordagem impassível de Faymann à malícia que atualmente é dirigida a um governo que agora parece estar focado em governar a si mesmo e não ao país.
“Nossos políticos são muito idiotas e covardes, e muito ignorantes”, disse Andreas Treichl, chefe do maior banco da Áustria, o Erste Group, em maio, referindo-se ao que ele percebia como uma falta de competência econômica. Gerd Bacher, ex-diretor da rede de televisão austríaca ORF, reclamou de um “despotismo de mentes pequenas” e de um “bloqueio massivo no que diz respeito a reformas importantes”.
Strache e seus amigos gostam de ouvir esse tipo de coisa. Eles estão surfando numa onda de popularidade, com suas taxas de aprovação aumentando quase sem que o partido tivesse que fazer qualquer coisa. Tudo o que eles precisam fazer é ficar parados e serem levados pela tendência atual. Os sucessos dos populistas de direita em países como a Finlândia e a França contribuem com o FPÖ, cético em relação à UE.
Populismo prospera em tempos difíceis”
“O populismo prospera em tempos difíceis. É um fenômeno visto em toda a Europa”, diz Laura Rudas. Política experiente do SPÖ, ela tem apenas 30 anos de idade e é chamada de “garota quente” dos círculos políticos vienenses. Ela é vista como apoiadora do chanceler social-democrata que é leal aos princípios do partido mas conhecida por sua falta de sutileza. Se a Áustria é a terra dos sorrisos, Rudas é responsável por falar francamente.
Será que ela pode explicar porque Strache, que já foi responsável por cartazes eleitorais anti-islâmicos e que agora critica o chanceler austríaco como um “acólito do secto da UE”, está a caminho de tornar o FPÖ o partido mais forte da Áustria?
Não é só por causa da fraca identidade dos social-democratas, diz Rudas. “Nós defendemos a justiça distributiva, a justiça educacional e os controles sobre o mercado financeiro. Só podemos implementar essas coisas pela mobilização direta dos cidadãos”, diz ele, como se estivesse lendo um texto de panfleto de campanha. “Pode-se dizer que, nesse aspecto, estamos de volta às raízes”, acrescentou ela, usando a expressão em inglês.
O historiador Gerhard Zeilinger escreveu no jornal liberal “Der Standard” que o SPÖ “jogou fora os seus princípios e plataforma durante anos a favor de um populismo barato, que supostamente angariaria votos”. Rudas nega que este seja o caso. Como muitos outros, Rudas acordou politicamente durante os protestos anti-Haider e depois trabalhou para subir na hierarquia do partido.
Muitas figuras importantes do SPÖ – incluindo o novo porta-voz do governo, o conselheiro de política externa do chanceler e o líder do SPÖ no conselho da poderosa fundação da televisão pública ORF – têm vinte e poucos ou trinta e poucos anos. Eles são alertas, conectados e determinados a resgatar o legado do tradicional movimento dos trabalhadores austríacos trazendo-o para a era da tecnologia da informação.
Depois do trabalho, os jovens esquerdistas austríacos vão para uma badalada seção nos fundos do famoso mercado Naschmarkt em Viena ou para o Restaurante Procacci perto da Catedral de St. Stephan, onde os clientes pagam US$ 37 por linguini com lagostim e ficam relativamente protegidos dos seguidores pé-no-chão de Strache.
Um bando de jovens”
Niko Pelinka nega a acusação de que um pequeno grupo de comunistas inteligentes e bem sucedidos estejam moldando a política enquanto ignoram os problemas dos cidadãos comuns. Ele diz: “nós somos apenas um bando de jovens que sacudiram as coisas em um dado momento e depois nos juntamos.”
Pelinka, 24, é o homem mais poderoso do comitê de supervisão da TV estatal ORF. Como porta-voz dos “amigos” do SPÖ, ele desempenhará um papel central quando o próximo diretor for escolhido em 9 de agosto. Gerhard Zeiler, diretor-executivo da companhia de mídia alemã RTL Group, e executivo de vulto internacional, já expressou interesse pelo cargo. Entretanto, o gabinete do chanceler Faymann já deixou claro que o atual diretor, Alexander Wrabetz, também membro do SPÖ, deverá ter preferência em relação a seu colega cosmopolita Zeiler. É como se o astro do futebol Lionel Messi estivesse disposto a jogar na Áustria por uma fração de seu salário atual e ainda assim fosse rejeitado, escreveu o jornal “Salzburger Nachrichten”.
Numa carta aberta escrita no final do ano passado, jornalsitas sênior da ORF reclamaram que a imagem de sua estação estava sendo prejudicada como resultado de “acordos motivados politicamente”. A reclamação foi dirigida a todos os partidos, ao antigo sistema de representação proporcional e ao nepotismo ao qual Haider havia declarado guerra e que Strache está bombardeando com uma munição ainda mais rude.
Faymann não é exatamente discreto na forma como lida com a mídia. Ele já deve sua chegada à chancelaria há três anos ao apoio de seu patrono já falecido Hans Dichand, o grande senhor do maior jornal da Áustria, o “Kronen Zeitung”, que é crítico em relação à UE. Também o ajudaram o fato de que o editor do jornal gratuito “Österreich” seja amigo de infância de Faymann e que o diretor do jornal “Heute” seja seu ex-secretário de imprensa.
Juntos, os três jornais atingem 4,3 milhões de leitores por dia, ou mais da metade de todos os austríacos. Não é uma surpresa que eles estejam repletos de anúncios de agências governamentais comandadas pelo SPÖ, embora a maioria dos artigos, em termos de tom e conteúdo, tendem a corresponder à visão de mundo dos eleitores de Strache.
Cada vez mais simpático
Entretanto, Faymann e o SPÖ se beneficiam com algumas reportagens, incluindo manchetes como uma do “Heute” que dizia: “Schwarzenegger visita Viena, e fala sobre comida, Kaiserschmarrn – e nossos políticos”, ao lado de uma foto de Faymann, todo sorrisos, ao lado do Exterminador. Não surpreendeu ninguém na Áustria o fato de que a Kaiserschmarrn, uma sobremesa típica austríaca, tivesse mais destaque do que o chanceler. O linha entre a reportagem e a malícia é tradicionalmente tênue.
Os políticos precisam mostrar autoridade, mas em vez disso eles “praticamente se jogam nos seus braços”, zomba o editor de política nacional do “Kronen Zeitung”. O mais assustador em relação a esse governo é que eles estão ficando cada vez mais simpáticos.”
Até há poucos dias, uma mostra nos arredores de Viena lembrava os visitantes de uma época em que o governo social-democrata quase não tinha oposição no país – a época do estadista Bruno Kreisky, que foi chanceler da Áustria de 1970 a 1983. Para comemorar seu 100º aniversário, uma exibição no massivo prédio Karl-Marx-Hof – um complexo de apartamentos histórico que é muito significativo para os social-democratas da Áustria – foi dedicada ao socialista que muitos austríacos ainda louvam como a um “rei sol”.
Kreisky, que em 1970 liderou um governo de minoria que dependia do apoio do FPÖ, que na época tinha reputação de ser um antro de ex-nazistas, nunca perdeu de visto os eleitores comuns. Até hoje, ele ainda é citado por dizer: “você precisa gostar das pessoas”.
As palavras de Kreisky soam como um alerta para seus herdeiros políticos. De fato, no prédio Karl-Marx-Hof, o coração da Viena vermelha, o FPÖ de Strache já capturou mais do que um quarto dos votos na última eleição.
Traduzido do alemão por Christopher Sultan.
Tradução: Eloise De Vylder